quinta-feira, 25 de abril de 2013

Jorge Mario Bergoglio: o Novo Papa Francisco


         Como latino-americano – aliás, o primeiro deles a ser elevado à dignidade de Papa - o Cardeal Arcebispo de Buenos Aires iniciou seu pontificado com originalidade: escolhendo um nome nunca usado na longa lista de seus antecessores.
Bergoglio, porém, escolheu seu nome de adoção, com pertinência, delicadeza, para não dizer, também, com apreciável tato pastoral. Escolheu o nome de dois Santos. Um deles de ressonância universal, considerado, em geral, pelos não-cristãos, como “o |Santo mais simpático que já existiu”: São Francisco de Assis, patrono da Itália. O segundo, da Ordem dos Jesuítas, nome veneradíssimo inclusive na América do Sul: São Francisco Xavier.
 Dois Santos, registremos, que têm forte apelo popular na Cristandade.
Não precisamos estender-nos sobre Francisco de Assis, o fundador dos Frades Franciscanos, autor do Cântico do Sol, o mais famoso poema cristão do Ocidente, o Santo que recusou o dinheiro, proibindo aos seus discípulos que o tivessem, obrigando-os a mendigarem, à exemplo dos monges budistas,´daí o nome de “Ordem Mendicante”, dado inicialmente aos Religiosos Franciscanos.
Francisco nasceu na cidade de Assis, na Úmbria, centro da Itália, em 1182. Foi batizado com o nome de João. Após uma juventude – como dizem os italianos “spienserata”, isto é, estouvada, dominada pelos ideais da cavalaria e da poesia de amor cortês, teve uma aparição de Cristo Crucificado,que o converteu a uma vida, primeiramente, de eremita, e depois de pregador popular itinerante. Recusou os ideais da nascente burguesia italiana, à qual pertencia seu pai, o riquíssimo comerciante de tecidos, Pietro Bernardone, que, evidentemente, não concordou com o novo tipo de vida do filho, acabando por denunciá-lo ao Bispo local. Este apoiou o jovem Francisco, que, na frente de uma grande multidão (que seguia o diálogo entre o pai e o Bispo), se despiu completamente, jogando suas roupas ao pé do progenitor, e declarando que, daí em diante, seria filho de outro Pai, o que está nos céus. Posteriormente, Francisco fundou uma nova Ordem Religiosa, anos inícios confundida até com um dos tantos movimentos heréticos de então, que pregavam um estado de pobreza radical.
Francisco de Assis morreu em 1226, tendo sido canonizado quase imediatamente. É, sem dúvida, o Santo mais amado do Ocidente cristão.
O novo Papa deve ter pensado na mensagem do Poverello, ao decidir-se pelo seu novo nome, embora ele tenha sido sempre jesuíta, Ordem fundada muitos séculos mais tarde.
Os jornais do mundo inteiro chamaram a atenção de seus leitores para o teor de vida discreto do novo Papa, na sua condição de Arcebispo de Buenos Aires. Um dos maiores jornais europeus intitulou sua manchete: O Papa que sempre andou de metrô.
Apesar de o Cardeal Bertoglio ser um eclesiástico tão coerente com a simplicidade evangélica, considerado por todos “aberto”, alguns jornais fizeram questão de noticiar que o novo Papa nunca apoiou a conhecida Teologia da Libertação.
O que foi, afinal, a Teologia da libertação que, durante décadas, sacudiu a América Latina?
Sintetizemos, em linguagem “curta e grossa”, o que ela foi, de modo a torná-la acessível aos leitores:
I. A Teologia da Libertação foi uma patética reclamação teológica, endereçada à Igreja Oficial, contra o aspecto exageradamente especulativo das Teologias do Ocidente Cristão. A Teologia da Libertação afirmava que as exigências da Razão deviam sujeitar-se às exigências do Coração;
II A Teologia da Libertação insurgiu-se contra a Teologia Eurocêntrica. Empenhou-se em valorizar o corpo sofredor do Corpo Místico de Cristo, isto é, as necessidades práticas das coletividades em geral, em especial a do povão da  América Latina, excluídos do “Circuito Elizabeth Arden” da Teologia Tradicional.
III. A Teologia da Libertação interessou-se mais pela dimensão passional da mensagem evangélica, descurando, em parte (e esta foi uma de suas fraquezas) a dimensão individual do destino de cada alma. Nunca negou, porém, o dogma da imortalidade da Alma. Insistiu, porém, às vezes com discutível paixão, na urgência do amor evangélico, aqui e agora, aplicado às exigências dos corpos individuais das massas famintas, sem assistência sanitária, exploradas pelo Capitalismo, que atualmente mudou de nome, civilizando-se e higienizando-se como “Economia de Mercado”.
IV. Ainda que a Teologia da Libertação tenha pago um modesto pedágio às ideologias em voga, especialmente à ideologia marxista, ela não é – como se afirmou caluniosamente – marxista. A Teologia da Libertação curiosamente ressuscitou aspectos, dos movimentos populares do Século XIII, como o movimento franciscanista, e os movimentos de algumas heresias da época, entre as quais as dos Valdenses e Patarinos, que impunham um retorno imediato da Igreja à pobreza dos primórdios, e à renúncia às pompas da aristocracia romana.
V. A Teologia da Libertação foi, predominantemente, pastoral. Interessou-se, de maneira especial, pelos padecimentos das massas, exatamente no oposto das teologias européias, que se fixaram nos aspectos subjetivos da salvação cristã, no que eles ofereciam de enigmático e dramático.  
Pode-se, portanto, adotar duas atitudes em relação ao Papa Francisco: a primeira consiste em felicitá-lo por sua ortodoxia e fidelidade ao assim  dito “oficialismo da Santa Sé”; a segunda atitude consiste também em felicitá-lo por sua atitude pessoal de plausível independência em relação ao Vaticano.
Tem-se a impressão de que o Cardeal Bergoglio não se sentiu nunca bem enquadrado pela moldura da orientação social minimalista da Igreja. Ele quer mais generosidade, mais amplidão, mais contestação aos esquemas de Wall Street. Ele tem consciência de que o sangue derramado por alguns mártires da América Latina, como o Arcebispo Romero, assassinado pelos esbirros do governo militar de El Salvador, precisa ser semente de novos cristãos.
A despeito disso, o novo Papa eleito sabe que, neste momento, as cartas estão perigosamente embaralhadas, e que as Comunidades de Base já não são manchetes nos meios de comunicação, (embora  muitas delas estejam ativas na sua semi-clandestinidade). Ele sabe que não faz sentido patrocinar oficialmente oficialmente, a Teologia da Libertação.
O novo Papa é decididamente a favor dos “humilhados e ofendidos”, do tipo dostoievskyano, e é capaz enfrentar a arrogância dos poderosos, inclusive da Presidente da Argentina, Cristina Kirchner.
As atitudes do Cardeal Bergoglio, à frente de sua Arquidiocese, sugerem um Pontificado mais “à esquerda” do que o do Papa Ratzinger, hoje Papa Emérito.
Fica de pé uma interrogação: será o Papa Francisco capaz de implementar as necessárias modificações na práxis do Vaticano, exigindo de seus assessores econômicos e políticos, maior transparência, e um mínimo de coerência evangélica?
Voltemos a abordar a questão do simbolismo do seu nome.  
Além de Francisco de Assis, a que Santo estará se referindo o Papa Francisco?
Trata-se, sem dúvida, de Francisco de Jassu y Xavier, um dos primeiros companheiros do Fundador da Companhia de Jesus. Depois de Santo Inácio de Loyola, Francisco Xavier foi aclamado como o maior Santo da Companhia Jesus, juntamente com Francisco de Borja. 
Francisco de Borja, um dos primeiros Gerais da Ordem Jesuítica, promoveu as Missões Jesuíticas do Peru e do Paraguay. Devido a isso, emprestou seu nome a uma cidade gaúcha: São Borja.
Quanto a Francisco Xavier, foi missionário por excelência do então desconhecido mundo do Extremo Oriente. Cognominaram-no “O Apóstolo da Índia e do Japão”.
Nasceu no dia 7 de abril de 1506 no Castelo de Xavier junto a Sanguiesa, na região de Navarra. Em 1525 foi enviado a Paris, para realizar seus primeiros estudos. Em Paris tornou-se amigo de Santo Inácio.
Em 1537, foi ordenado sacerdote na cidade de Veneza.
A partir de 1542, evangelizou o Extremo Oriente, onde morreu em 1552, na ilha de Sancian, a alguns quilômetros por mar da cidade de Cantão.
Os restos mortais de Francisco Xavier repousam em Goa, na Índia, onde exerceu inicialmente seu ministério.  Diz-se que as multidões dessa cidade, acorriam às suas pregações com tanto interesse, que o Santo se via obrigado a subir a uma árvore para transmitir-lhes a mensagem evangélica.
Os atributos, que caracterizam sua representação iconográfica, são: o Crucifixo, visto que ele era considerado o pregoeiro da Paixão Redentora de Jesus; a concha batismal, sempre acompanhada de um grupo de indianos catecúmenos aos seus pés; um coração flamejante, que evoca  o ardente amor do Santo por Deus; às vezes, um chapéu de peregrino, que alude às suas andanças à cata de almas para salvar
Após sua estadia evangelizadora no Japão, Francisco resolveu iniciar a evangelização da China, aonde chegou após incríveis peripécias marítimas. Não pôde, porém, realizar seu sonho. Morreu numa ilha, diante da cidade de Cantão, deitado no chão duro de uma choupana, assistido apenas por um marinheiro.
À luz da biografia de São Francisco Xavier, será viável, talvez, deduzir algumas das intenções do novo Papa.
O que, exatamente?
O passado do Cardeal Bergoglio autoriza-nos a admitir que ele será um pontífice menos “teológico” que Bento XVI, porém muito mais pastoral.
O fato de o novo Papa ter sido professor de literatura, em dois colégios jesuítas, no seu período jesuítico, induz-nos a pensar que ele pode desejar maior aproximação com o mundo da Cultura.
Pergunta-se: será que sua sensibilidade social o ajudará a tomar atitudes concretas, como apoiar a Taxa Tobin, ou proposições do mesmo estilo, destinadas a conter a exploração financeira que lesa as maiorias, em favor dos lucros  assombrosos de trezentos megafinancistas de nosso século?
O novo Papa é torcedor da equipe do San Lorenzo de Almagro, de Buenos Aires. Talvez assista à Copa de 2014. Nem por isso deixará (supomos) de lançar um olhar às distorções que enchem de trapaças os resultados das partidas, enganando os cidadãos que apostam seu dinheirinho em cartelas da lotérica esportiva.
Conseguirá o Papa Francisco flexibilizar o celibato do clero da Igreja do Ocidente, introduzindo a possibilidasde de um clero casado, como o propõe a maioria dos Bispos Latino-Americanos?
Quanto ao casamento homossexual: ela já se pronunciou contra a adopção de filhos por parceiros homossexuais.
É possível – e até provável – que o Papa Francisco promova maior intercâmbio ecumênico.
Talvez facilite a integração de casais católicos separados. Atualmente, os casais católicos separados são vistos como “ovelhas negras” da comunidade. Não têm acesso à mesa eucarística. Permitirá o Papa Francisco que os casais, que se decidirem por novo relacionamento, possam receber semelhante conforto espiritual?
         Senhores leitores, persuadam-se de uma realidade: não é fácil ser Papa, isto é, o Vigário de Cristo, Servo dos Servos de Deus, nestes tempos bicudos!
Li nos jornais que o Papa Emérito, Bento XVI, teria afirmado que nem sempre o Espírito Santo esteve presente às eleições pontifícias do passado, uma vez que nelas se elegeram papas indignos.
Cremos poder afirmar que, na eleição de Francisco Primeiro, o Espírito Santo deve ter estado presente.
Sobram à Igreja Católica razões para esperar que o novo Pontífice seja, não só um Pontífice virtuoso, inteligente e ecumênico, socialmente audacioso, mas que ele também seja um Papa fértil em promessas para a humanidade.
A humanidade está sedenta de verdade, de solidariedade e (vamos lá - embora a expressão soe obsoleta e irritante), também de ternura pessoal e social.
Dizia Che Guevara: “Hay que tener ternura!”
Che Guevara era argentino.
Quanto ao mais, façamos votos para que o novo Papa varra a casa, acomode as abóboras na carreta, sempre atento ao conselho de Cristo: “Sede simples como as pombas, e astuciosos como as serpentes”
A julgar pelo amplo sorriso de girassol do novo Papa, na sacada do Palácio Papal, estamos em condições de esperar que ele seja longevo, e possa confirmar nossa fé durante muito tempo, a exemplo de São Pedro, na companhia dos Bispos do Mundo inteiro, adotando para isso um Pontificado de natureza mais evangelicamente colegial do que o pontificado de seus antecessores.

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