sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Renúncia ao Papado de Bento XVI


         Que coragem, a de Bento XVI!
A partir do século XIII, o Papado foi “mitificado”. Muitos católicos ignoram, ainda hoje, que o Papa é um Bispo, como o os demais Bispos da Igreja Católica.
O Papa é o Bispo de Roma - a diocese que São Pedro assumiu após ser proclamado, pelo próprio Fundador da Igreja, como chefe do Colégio Apostólico. O Papa é um Bispo, que tem a prerrogativa de ser o primeiro, e gozar da infalibilidade em casos cuidadfosamente definidos pela tradição eclesiástica.
A exclusividade papal consiste em o Papa suceder a São Pedro na diocese de Roma. Jesus declarou São Pedro a PEDRA sobre a qual seria edificada sua Igreja.
Por que, então, o Sumo Pontífice, um dos quais se chamou “servo dos servos de Cristo”, acabou isolado numa espécie de trono bizantino?
Por que o Papa, ao longo dos séculos, transformou-se num monarca.
Estão distantes de nós os tempos das Catacumbas, quando a comunidade cristã elegia um admnistrador de cemitério para Papa! É verdade que, naquela época, ser administrador de um cemitério cristão era função de gravíssima responsabilidade.
Todos sabemos que Bento XVI é um teólogo insigne, dos maiores dos séculos XX-XXI. Eis por que ele não se deixa iludir sobre a realidade “teológica” da função que exerce.
Ser Papa, digâmo-lo com seriedade, é ser cristão praticante.
Como Assim?
Houve Papas que não foram cristãos praticantes. Menciono dois, que deixaram exemplos de vida contrários a isso: Júlio II e Alexandre VI, o Bórgia, Papas do Rernascimento.
Bento XVI sempre foi católico praticante. Talvez ele até seja um “Santo” não oficial.
Pessoalmente, admiro Bento XVI como pessoa e como “personalidade”. Está na hora, ao menos por ocasião de sua renúncia, de descobrir que ele nunca foi um Panzer alemão, um homem insensível, um cérebro.
 Bento XVI não teria anunciado sua renúncia ao Papado se não fosse um católico humilde.
Renunciar ao papado é reconhecer que o Mestre dos Cristãos é um só, e que aquele, que se julga o maior, é o menor.
A auto-demissão de Bento XVI deve despertar os católicos para uma gritante realidade: a Igreja não é (embora tenha sido às vezes) uma monarquia. A Igreja não é um supermercado, ou uma Microsoft, dirigida por um empresário da Graça de Deus. A Igreja não pertence a um Fazendeiro do Ar, ou do Espírito Santo.
O Papa, também, precisa recorrer ao confessionário, precisa (se for o caso) receber a absolvição que só lhe pode ser dada por um anônimo franciscano, ou por um sacerdote jesuíta.
O Papa, também, ouviu Jesus dizer: “Vistes o que vos fiz? Lavai os pés uns dos outros”.
Mesmo que o Papa resida no Vaticano, e seja (aparentemente) dono dos tesouros do Vaticano, inclusive da Capela Sistina pintada por Miguel Ângelo, isso nada significa. O Papa pode dispor de bens imobiliários, legado de muitas famílias aristocráticas do passado, ou fruto de negócios espúrios do passado e do presente, mas é pobre. Vive num apartamento que não é mais “luxuoso” que o de um burguês qualquer.
Retenhamos este dado: o Papa não é um tiriteiro, isto é, um manipulador de mamulengos. O Papa depende de assessores e funcionários. Sob determinados pontos-de-vista, está na mesma situação da Presidente Dilma no Brasil.
Nos jornais do dia 11 de fevereiro, os jornalistas começaram a penitenciar-se das muitas inverdades e tolices que divulgaram a respeito de Bento XVI.
O jornal Le Monde, por exemplo, afirma, na sua edição de 11 de fevereiro de 2013, que o Papa Bento XVI não foi um “Papa Conservador”.
Só se chora um grande homem quando ele morre. Em vida, ele é normal, isto é, insignificante.
Provavelmente teremos saudades da elegante discrição do Papa Ratzinger, de seu ar reservado - quase budista ou zen-budista - de seus silêncios comparados à comunicabilidade efusiva de João Paulo II.
Sob certos aspectos, ambos foram grandes.
Mas Bento XVI possui um carisma: o de não subir com facilidade em nenhum palanque, o de falar como se estivesse constantemente pedindo desculpas de ser ouvido, o de necessitar de seu quarto para orar fechado nele, como o aconselhava  Jesus.
Bento XVI não foi um Papa de tempo integral e dedicação exclusiva!
Sempre desconfiou de si. Sabia que um Papa precisa orar, precisa auto-avaliar-se, precisa “parar para pensar”.
O mais célebre poeta do Ocidente, Dante Alighieri, cometeu injustiças na sua Divina Comédia. Uma delas: declarar infame a memória de Celestino V, um pobre monge, Pietro da Morrone, eleito contra a sua vontade. Celestino V não suportou o papado. Auto-demitiu-se, após cinco meses, e retornou ao seu eremitério.
A Igreja Católica respondeu ao insulto de Dante, no Canto III do “Inferno” (versos 58-60), elevando aos altares, em 1313, o Papa Celestino V. Celestino foi canonizado por Clemente V.