sábado, 24 de novembro de 2012

Boa Saúde para o Luís Fernando Veríssimo

Luis Fernando Verissimo

Sejamos adeptos do óbvio ululante, e digamos: o Luís Fernando Veríssimo faz parte, no Brasil, de um clube composto por poucas pessoas, o clube dos que não são odiados por ninguém!
Ouso afirmar mais: ele faz parte do clube das pessoas públicas que gozam de maior simpatia entre o público, inclusive entre os militantes da mídia.
Quando reflito sobre tal fenômeno, chego à conclusão de que a razão principal de tal prodígio é um conjunto ímpar de qualidades do escritor - e da pessoa que subjaz ao escritor.
Vejamos.
Primeiramente, o Luís Fernando escreve como alguém que não deve nada a ninguém.
Como um independente, ainda que todo o mundo saiba que, em termos de imprensa, a independência ou morte não é possível.
Digamos então: dentro do possível, o Luis Fernando é um dos cronistas mais independentes do país!
Em segundo lugar, o Luís Fernando – até quando ataca, e ataca rijamente – mostra-se de uma educação que remete o leitor a velhos tempos, àqueles tempos de polidez requintada, de cortesia, que terá existido possivelmente na Corte da Rainha Alienor da Aquitânia.
O Luís Fernando é claro na sua dicção, firme nas suas convicções, intransigente (e generoso) na defesa de seus princípios ideológicos e sociais, de uma honestidade solar e estelar quando se trata de lutar por projetos que atendam ao interesse coletivo.
Em terceiro lugar, o Luís Fernando é excelente escritor. Escreve sempre bem, até quando não quer escrever tão bem. Nas vezes em que, por descuido, de caso pensado, se permite alguma “abobrinha”, ele é mais interessante do que qualquer escriba do país. Mesmo em tal caso, suas “abobrinhas” se inserem com lucidez no texto, o que evidentemente o auto-desculpa.
Devido à sua modéstia, o Luís Fernando sabe que não pode ser inteligente durante as 24 horas do dia. Se é verdade que o justo peca sete vezes numa única jornada, conforme diz a Bíblia, como pretender que nós, herdeiros dos neurônios recém-falquejados do Homem de Neanderthal, não sejamos falíveis?
Num de seus poemas, raramente citado, o Quintana queixou-se uma vez de que o homem tem “a cabeça fechada, muito fechada mesmo...”, mas que isso não iria durar sempre!
Finalmente, o Luís Fernando possui a bondade e a simpatia mais subterrâneas (e a mais clandestinas) do país, embora, para todos os efeitos, alguns o consideram um “urso educado”. Urso, aliás, foi o apelido que deram a um gênio: Paul Cézanne.
Na realidade, o cronista é um ser humano repleto de ternura, ternura que apenas se deixa ver quando ele está debaixo do guarda-chuva de Madame Discrétion.
Acho que o Luís Fernando ama até as cobras! Não as Cobras dele, que ele desenha (ou desenhava?), mas as cobras reais do Pantanal e do Instituto Butantã.
Nunca ele revelará isso a ninguém. Talvez só a Lúcia, mulher dele, o saiba! Afinal de contas, se há alguém na imprensa que levou a sério determinadas palavras de Jesus., ainda que o Luís Fernando as desconheça, foi ele. As tais palavras de Jesus são estas:
- Tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita!
Creio que o Luís Fernando é agnóstico. Mesmo assim, eu o surpreendi, um dia, parado diante do jazigo de seu pai, recolhido (não direi em oração, mas antes no âmago de um casulo de saudade) a dar carinho retrospectivo ao pai!
Um homem de tal valor, um intelectual de tal gabarito, uma inteligência tão votada ao serviço dos brasileiros, precisa viver mais! O Brasil tem necessidade dele!   
Quem for religioso, ore por ele.
Quem não for religioso, confie nos médicos, e na sua parafernália tecnológica.
Quem tem desconfiança nos médicos... lembre-se, ao menos, da “prece” que Erasmo de Rotterdam recitava todas as manhãs:
- São Sócrates, orai por nós!
Que São Sócrates, que não consta no catálogo dos santos católicos, ajude os amigos do escritor, tanto agnósticos como ateus, a tirá-lo do hospital!

Um comentário:

  1. Ah, lembrei do J. L. Borges ter referido a essa alegria e inspiração de quando se fala de um amigo. Me pareceu assim, comentário feliz de admirador cuidadoso, empatia, coleguismo, contagiante. Aristóteles destaca na "Retórica" três tipos importantes de discurso público - o que se debruça sobre o transcorrido, o passado, que é jurídico; o que versa futuro, que é político, e finalmente o que homenageia, trata do presente... esse me parece raro! Jailton curtia/curte na voz do Nelson Cavaquinho um parecer tocante (e todo apreciador de rock deve saber de como algum ícone, que incomodava "o monstro Sist."(ema) quando vivo é transformado em produto pelos mesmos gerentes de mídia com os quais ele, mais ou menos eventualmente, se debatia) sobre as homenagens, e também tu comentas a ironia da mídia só declarar a admiração ao papa por ocasião do anúncio de sua renúncia, uma morte simbólica. Bonitos textos, mas este me pega de jeito... em todo caso, te agradeço, é muito bom mesmo!

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