sábado, 24 de novembro de 2012

Boa Saúde para o Luís Fernando Veríssimo

Luis Fernando Verissimo

Sejamos adeptos do óbvio ululante, e digamos: o Luís Fernando Veríssimo faz parte, no Brasil, de um clube composto por poucas pessoas, o clube dos que não são odiados por ninguém!
Ouso afirmar mais: ele faz parte do clube das pessoas públicas que gozam de maior simpatia entre o público, inclusive entre os militantes da mídia.
Quando reflito sobre tal fenômeno, chego à conclusão de que a razão principal de tal prodígio é um conjunto ímpar de qualidades do escritor - e da pessoa que subjaz ao escritor.
Vejamos.
Primeiramente, o Luís Fernando escreve como alguém que não deve nada a ninguém.
Como um independente, ainda que todo o mundo saiba que, em termos de imprensa, a independência ou morte não é possível.
Digamos então: dentro do possível, o Luis Fernando é um dos cronistas mais independentes do país!
Em segundo lugar, o Luís Fernando – até quando ataca, e ataca rijamente – mostra-se de uma educação que remete o leitor a velhos tempos, àqueles tempos de polidez requintada, de cortesia, que terá existido possivelmente na Corte da Rainha Alienor da Aquitânia.
O Luís Fernando é claro na sua dicção, firme nas suas convicções, intransigente (e generoso) na defesa de seus princípios ideológicos e sociais, de uma honestidade solar e estelar quando se trata de lutar por projetos que atendam ao interesse coletivo.
Em terceiro lugar, o Luís Fernando é excelente escritor. Escreve sempre bem, até quando não quer escrever tão bem. Nas vezes em que, por descuido, de caso pensado, se permite alguma “abobrinha”, ele é mais interessante do que qualquer escriba do país. Mesmo em tal caso, suas “abobrinhas” se inserem com lucidez no texto, o que evidentemente o auto-desculpa.
Devido à sua modéstia, o Luís Fernando sabe que não pode ser inteligente durante as 24 horas do dia. Se é verdade que o justo peca sete vezes numa única jornada, conforme diz a Bíblia, como pretender que nós, herdeiros dos neurônios recém-falquejados do Homem de Neanderthal, não sejamos falíveis?
Num de seus poemas, raramente citado, o Quintana queixou-se uma vez de que o homem tem “a cabeça fechada, muito fechada mesmo...”, mas que isso não iria durar sempre!
Finalmente, o Luís Fernando possui a bondade e a simpatia mais subterrâneas (e a mais clandestinas) do país, embora, para todos os efeitos, alguns o consideram um “urso educado”. Urso, aliás, foi o apelido que deram a um gênio: Paul Cézanne.
Na realidade, o cronista é um ser humano repleto de ternura, ternura que apenas se deixa ver quando ele está debaixo do guarda-chuva de Madame Discrétion.
Acho que o Luís Fernando ama até as cobras! Não as Cobras dele, que ele desenha (ou desenhava?), mas as cobras reais do Pantanal e do Instituto Butantã.
Nunca ele revelará isso a ninguém. Talvez só a Lúcia, mulher dele, o saiba! Afinal de contas, se há alguém na imprensa que levou a sério determinadas palavras de Jesus., ainda que o Luís Fernando as desconheça, foi ele. As tais palavras de Jesus são estas:
- Tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita!
Creio que o Luís Fernando é agnóstico. Mesmo assim, eu o surpreendi, um dia, parado diante do jazigo de seu pai, recolhido (não direi em oração, mas antes no âmago de um casulo de saudade) a dar carinho retrospectivo ao pai!
Um homem de tal valor, um intelectual de tal gabarito, uma inteligência tão votada ao serviço dos brasileiros, precisa viver mais! O Brasil tem necessidade dele!   
Quem for religioso, ore por ele.
Quem não for religioso, confie nos médicos, e na sua parafernália tecnológica.
Quem tem desconfiança nos médicos... lembre-se, ao menos, da “prece” que Erasmo de Rotterdam recitava todas as manhãs:
- São Sócrates, orai por nós!
Que São Sócrates, que não consta no catálogo dos santos católicos, ajude os amigos do escritor, tanto agnósticos como ateus, a tirá-lo do hospital!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Revisitando a Europa: Impressões e Perplexidades de um Turista Reincidente

I. Dois Roteiros para Pessoas Interessadas em Arte, Turismo e Gastronomia.

Conheci a Europa em 1958.
Naquela ocasião, fui à Suíça para fazer um doutorado em Filosofia, que concluí nos inícios de 1963 com a apresentação de uma tese sobre Henri Bergson (1859-1941), autor de uma obra que, por ocasião de sua publicação em 1907, foi objeto de acalorados debates em todo o Ocidente: “A Evolução Criadora”.
Para lá voltei outras vezes - duas como Bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa; uma, como Bolsista do CNPq, do Governo Brasileiro, na Universidade de Sevilha; e em outras ocasiões, como conferencista convidado, sob o patrocínio de entidades culturais.
Em 2010, pela primeira vez, aceitei planejar uma Viagem Cultural, promovida por uma Operadora de Turismo, dispondo-me a acompanhar um grupo de 28 pessoas, interessadas no tripé: Arte, Turismo e Gastronomia.
A operadora Biarritz Turismo, de Porto Alegre, dirigida pela Sra. Véronique Buisson Masi, assumiu a responsabilidade pelos dois últimos itens.
 A excursão teve início na cidade de Toulouse, no sudoeste da França. A cidade conta hoje aproximadamente 350.000 habitantes, e é capital da indústria aeroespacial francesa, a meio caminho entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Seu centro histórico oferece duas jóias arquitetônicas. A primeira  é a Basílica de Saint-Sernin (edificada no fim do século XI), monumento românico de 115 metros de extensão, cuja nave principal impressiona por suas altas proporções. Na Porta Miègeville, a que dá acesso ao quinto vão da nave lateral, sul da Basílica, existe um tímpano (a superfície semicircular ou ogival sobre um portal de igreja românica ou gótica), que se tornou famoso por seu alto-relevo  “A Ascensão de Cristo”. A segunda jóia é a Igreja dos Jacobinos, consagrada em 1385, protótipo da arquitetura gótica meridional, em cujo interior se venera a urna mortuária do maior pensador do Cristianismo, São Tomás de Aquino.
Entre outros monumentos românicos e góticos da região, destacam-se igrejas, pontes, abadias, castelos. Entre os castelos chamou-nos a atenção o Castelo de Beynac, antiga fortaleza feudal, verdadeiro ninho-de-águia construído, a partir de 1115, sobre um penhasco que se ergue a pico sobre o Rio Dordogne. Em seus pátios e salas realizaram-se vários filmes de episódios históricos ou legendários da Idade Média.  
Situado no caminho de Santiago de Compostela,  sobre uma impressionante falésia ergue-se o Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour. A aldeia tem aproximadamente 1.000 habitantes e, por assim dizer, uma única rua. No Santuário venera-se uma estátua milagrosa, a Virgem Negra do século XII.  O compositor francês, Francis Poulenc (1899-1963) dedicou à Virgem de Rocamadour suas famosas Litanies pour une Vierge Noire.
Dentre os museus temáticos, o dos vinhedos de Clos de Vougeot, na Borgonha, cujas cepas foram plantadas no século XII por Monges Cistercienses de Cluny, interessa o turista, em particular. No interior dessa adega monástica foi-nos oferecida uma degustação de vinhos provenientes da vinífera pinot noir. Ali se conservam lagares e prensas originais. Uma vez ao ano, reúnem-se em Clos de Vougeot os membros de uma Confraria, a dos Chevaliers du Tastevin, que selecionam os melhores Premiers-Crus da região, de modo especial os Grands-Crus (estes, apenas, 1,5% da produção total) da Borgonha, que são assinalados por uma etiqueta especial.   
Devido à proximidade geográfica, incluímos no roteiro a única Gruta Pré-histórica da França aberta à visitação pública, a de Font-de-Gaume, cujos ingressos tiveram de ser reservados com antecedência de um ano, visto que só podiam entrar nessa caverna, de cada vez, 14 pessoas. Soubemos que nos anos posteriores à nossa visita, foi proibido todo acesso ao sítio, por razões de preservação arqueológica.
No nosso primeiro itinerário, assistimos a um show de multimídia no conhecido Futuroscope de Poitiers, em cujas cercanias, no ano de 732, Carlos Martel derrotou as tropas islâmicas que avançavam rumo à cidade de Tours, que cobiçavam por causa dos tesouros da Igreja de São Martinho. No Futuroscope foi montada uma espécie de sofisticadíssima “Disneylância Tecnológica”, para que o público possa ter uma idéia do que é possível fazer-se com os novos recursos em 3D.
Além de possuir um dos Batistérios mais antigos da França, o de Saint-Jean, do século IV d.C., ampliado no século VII, a cidade de Poitiers possui uma belíssima Catedral Gótica, a de Saint-Pierre, dotada de vitrais do século XIII, e uma igreja românica, Notre-Dame-la-Grande, obra-prima do estilo românico,  com uma extraordinária fachada esculpida.
Merece, também, uma visita o Palácio da Justiça, que guarda a memória da Rainha Alienor de Aquitânia, casada com um rei-monge de dezessete anos, Luís VII, do qual se separou após ter-lhe dado duas filhas – para grande escândalo do clero e do povo da época. Mesmo com as contradições de sua biografia, Alienor foi provavelmente a primeira mulher moderna, a grande Dama do Amor Cortês, que deu acolhida nos seus palácios aos jograis e menestréis da época. Era filha de Guilherme X, Duque da Aquitânia, e neta de um dos mais famosos sedutores de mulheres de todos os tempos, o famosíssimo Guilherme IX, o Trovador, do qual os Irmãos Campos traduziram para o português poemas de acentuado teor erótico, para não dizer “obscenos”.
 A Rainha Alienor, herdeira de um território que, na época, era maior do que o do Rei da França, a Aquitânia, acabou caindo nos braços de Henrique II Plantageneta, mais nova que ela 12 anos, o qual não lhe foi fiel. A inquieta mulher deu-lhe oito filhos. Não obstante, o soberano do outro lado do mar, garanhão incorrigível, abandonou-a, tempos depois, submetendo-a a um cativeiro de 15 anos. A mãe de Ricardo Coração de Leão e de João sem Terra, não se deixou dobrar. Ao sair da prisão, quando da morte de Henrique II, escreveu aquelas ferozes palavras que ressoam da altivez que a caracterizava: “Alienor, pela cólera de Deus,Rainha da Inglaterra”.
O que mais nos interessava na viagem era, sem dúvida, comparar os prodígios arquitetônicos do “Ciclo Românico de Cluny” ao conjunto do “Ciclo Gótico do Tempo das Catedrais”, segundo a bela denominação do medievalista, Georges Duby. Em razão disso, detivemo-nos, primeiramente, em algumas das obras-primas desses dois estilos, no centro da França.
Na antiga Abadia de Souillac, além das numerosas esculturas que a enriquecem, apreciamos a estátua do Profeta Isaías (1110-1130). Pudemos, também, contemplar aí a representação em relevo de uma das legendas mais famosas da Idade Média, a do Monge Teófilo, o eclesiástico que vendeu a alma ao diabo para conquistar um posto importante na hierarquia sacra. Mais tarde, arrependido, Teófilo recorreu à Virgem Maria, para que esta arrebatasse ao diabo o documento de renúncia à alma que lhe havia entregue. A legenda inspirou, longinquamente, uma das obras-primas da dramaturgia nacional, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.
Em Moissac, outra Abadia românica da Idade Media, visitamos, longamente, seu claustro, que é sensacional. Num prédio ao lado está instalado um Museu de Manuscritos e Iluminuras..
Mais ao norte, contemplamos as melancólicas ruínas da Abadia de Cluny. Da Abadia, em si, de sua igreja que chegou a ser a mais espaçosa da Cristandade, onde a liturgia era solenizada de modo particular, pouco resta: uma torre majestosa, poupada pela Revolução Francesa, e o espaço de uma antiga nave, onde um funcionário nos fez descobrir como a projeção acústica da salmodia sacra.
Na Catedral de Autun, em plena Borgonha, no departamento de Saône-et-Loire, cidadezinha atualmente com 19.000 habitantes, fundação romana dos tempos do Imperador Augusto, da qual preserva restos de um teatro, observamos o Tímpano da Catedral de Saint -Lazare (1120-1146), realizado por Gislebert. Na Idade Média, um artista raramente assinava suas obras. Aqui temos um caso especial de assinatura.  Gislebert foi autor da maioria dos capitéis esculpidos nessa igreja, alguns com a típica iconografia misógina dos monges.
Que dizer dos tesouros de Beaune, onde se situa o Museu do Vinho, na Cote d’Or, residência habitual dos Duques da Borgonha?  
No Hôtel-Dieu dessa cidade, hospital pioneiro na Europa, fundado em 1443 pelo Chanceler Nicolas Rolin,  que possui telhados de várias cores em cerâmica vitrificada, exibe-se um dos maiores polípticos da pintura mundial: “O Juízo Final” de Rogier van der Weyden. Junto ao Hôtel-Dieu, que em 1971 ainda funcionava, alinham-se os Hospices de Beaune, as primeiras enfermarias “modernas” da França, Nesses Hospices estão expostos frascos de remédios e instrumentos cirúrgicos em uso no século XV.
Realizam-se ali leilões de vinhos especiais, cuja renda é destinada à manutenção dos edifícios, e à assistência social.
No interior do pátio do Hôtel-Dieu, na sua “Cour d’Honneur, ocorre, no mês de julho, em pleno verão, o “Festival Internacional de Música Barroca”.
 Não longe de Beaune fica Dijon, capital da Borgonha (atualmente com 160.000 habitantes), que possui diversos pontos de atração histórica e artística. É um centro gastronômico de fama internacional.  O que essa cidade tem de melhor, em termos arquitetônicos, pertence ao século XVII. Seu Museu das belas Artes é dos mais valiosos do país.
Inesquecíveis, para os apreciadores de artes visuais, são a Catedral de Saint-Bénigne  e a antiga Cartuxa de Champmol, fundada em 1383 na periferia  de Dijon, onde os turistas podem ver um conjunto escultórico dos mais notáveis da Europa, o Poço de Moisés, constituído por seis estátuas de madeira policromada. representando Profetas do Antigo Testamento. O conjunto é completado por um impressionante Calvário (conjunto  escultórico que compreende o Cristo Crucificado, a Virgem e São João), também obra de Claus Sluter (1395-1404). Seu realismo precedeu o de Miguel Ângelo com 100 anos de antecedência. Vale a pena comparar o Moisés de Sluter com o de Miguel Ângelo.    
Vézelay é um local fora dos grandes circuitos. Nessa aldeia, no alto de uma colina, ergue-se a Basílica de Santa Maria Madalena, transição do Românico para o Gótico, um dos espaços arquitetônicos mais sugestivos da Europa. O seu interior foi escolhido pelo violoncelista Mstislav Rostropovich, para nele gravar os Concertos Branderburgueses de J.S. Bach. No adro dessa célebre igreja, São Bernardo de Claraval (1090-1153) pregou a Terceira Cruzada.
A fachada esculpida da Basílica ostenta um Cristo de impressionante grandeza, circundado pelos quatro animais que representavam os Evangelistas, o assim dito Tetramorfos, e os Doze Apóstolos, por ocasião da vinda do Espírito Santo. É obra relevante da escultura mundial.
Aproveitamos a proximidade do Mosteiro de Fontenay, fundado por São Bernardo em 1118, primeiro mosteiro da Ordem de Cister, para conhecer uma das primeiríssimas usinas siderúrgicas da França, cujos foles eram acionados por um moinho hidráulico que ainda funciona. A Abadia não pertence mais à Igreja Católica, mas à Família Aynard. Desde 1981, figura no Patrimônio Mundial da UNESCO.
Creio não ser necessário insistir nas maravilhas de Chartres, que nos deslumbrou com seus 171 vitrais originais dos séculos XII-XIII. Durante a Guerra de 1939-1945, tais vitrais foram salvos dos bombardeios, porque o Governo Francês os desmontou, e escondeu em abrigos subterrâneos. Erico Veríssimo, quando ia à Europa, jamais deixava de revisitar Chartres.
Inútil descrever o mistério e o fascínio da Catedral de Notre-Dame, em Paris, cenário de um dos famosos romances de Victor Hugo, o Corcunda de Notre-Dame, popularizado pelo cinema, em variadas versões.
Nas cercanias de Paris, eleva-se a Abadia de Saint-Denis, que serviu de palco à coroação - pelo Papa da época - de Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno. Essa Abadia foi dirigida, durante muitos anos, por um Monge excepcional, o Abade Suger (1122-1151), Conselheiro Real e Regente da França durante a Segunda Cruzada. A Suger atribui-se a criação do primeiro templo de estilo gótico francês. Foi Suger quem teve a idéia de ornar as igrejas com Rosáceas. A primeira rosácea gótica foi, justamente, a da Basílica de Saint-Denis (entre 1140 e 1144). Nesse templo, graças ao emprego pioneiro do cruzeiro de ogivas, as janelas puderam rasgar-se nas alturas, inundando o espaço litúrgico, não só de luz como também de reflexos coloridos. O projeto original de Suger foi acrescido pelas novas conquistas do Gótico, a partir de 1231. Nessa Basílica trabalhou o famoso arquiteto medieval, Pierre de Montreuil.
 A Abadia sofreu as devastações da Revolução Francesa. Começou a ser restaurada por ordem expressa de Napoleão. Deve-se o melhor de sua restauração a Viollet-le-Duc, no século XIX, que assumiu os trabalhos em 1846, dando-lhe os derradeiros retoques.
 Devido às relíquias existentes nela, a Abadia serviu de necrópole aos Monarcas Franceses. Existem nela 14 estátuas jacentes do século XIII. Aí descansam os restos mortais de soberanos da França, como Dagoberto (morto em 639 d.C.).
Não esquecer que, na Basílica da Abadia de Saint-Denis, podem ser admirados vitrais originais do século XII, portanto dos mais antigos. Entre eles, o da Árvore de Jessé que foi o primeiro a ilustrar esse tema, tendo servido de modelo à Árvore de Jessé de Chartres, - que alguns experts consideram o mais belo vitral do mundo.     
 Como não podia deixar de ser, também em Paris, deixamo-nos ficar algum tempo no bojo do imenso relicário policrômico de vidro, que é a Sainte Chapelle, cujas janelas atingem 27 metros de altura. Essa Capela foi construída para expor à veneração dos fiéis uma relíquia: a Coroa de Espinhos de Jesus, trazida de Constantinopla.  
A qualquer amante da Arte Gótica impõe-se demorada visita ao Museu de Cluny. Lá se expõe uma das tapeçarias medievais de maiores dimensões, e de uma beleza incomparável: a da Virgem e o Unicórnio (século XV).
Nosso primeiro roteiro finalizou em Senlis, catedral construída de 1153 a 1191, que tem a originalidade de apresentar a fachada ocidental totalmente dedicada à Coroação da Virgem Maria. 
Já o segundo roteiro ocorreu, recentemente, de 24 de setembro a 11 de outubro de 2012.
Seu objetivo foi conhecer, especialmente, a Arte Renascentista, e as diversas correntes que se lhe seguiram, como o Maneirismo, o Barroco, e outros estilos até à Modernidade.
Iniciamos nosso tour em Roma.
Embora tenha surgido em Florença, o Renascimento expandiu-se para a Cidade dos Papas.
Em Roma que Miguel Ângelo, Bramante e Rafael, realizaram obras sensacionais, como as pinturas da Capela Sistina e a Cúpula das Basílica de São Pedro.
A Rafael deve-se a decoração magnífica dos aposentos particulares do Papa com afrescos de grandes dimensões. Esses tesouro, aliás, são frequentemente lembrados pela mídia.
Alguns dos monumentos romanos, como o Panteão, constituem prodigiosa realização da engenharia romana.
Não deixamos de visitar a Praça Navona, famosa também por suas sorveterias, na qual se situa a Embaixada Brasileira, ao lado de Igrejas Barrocas notabilíssimas, uma delas de Francesco Borromini (1599-1667), ex-primeiro assistente de Gianlorenzo Bernini (1598-1680). A este último, arquiteto e escultor, devem-se inúmeras realizações artísticas em Roma, especialmente a Colunata da Praça São Pedro, o Baldaquim (com suas colunas torsas ou salomônicas) no centro do templo, debaixo da Cúpula, sob o qual se venera a estátua de Bronze de São Pedro, e o flamejante círculo, chamado “Glória de Bernini”, onde são expostas as imagens dos Santos no dia de sua Canonização.
A Igreja de S. Carlo alle Quattro Fontane de Borromini na Praça Navona tem a particularidade de apresentar a primeira fachada ondulante do Barroco.
Sempre na Praça Navona, situam-se as conhecidas Fontane de Bernini, que atraem turistas de todo o mundo.
Outra fonte célebre de Roma, que visitamos, celebrizada por Federico Fellini, foi a Fontana di Trevi.
 Dentre as personalidade barrocas, a que mais atraiu nossa atenção foi Michelangelo Merisi, dito Caravaggio, o recriador do realismo de Giotto, e inventor de uma nova técnica artística, a do Luminismo (que alguns denominam Tenebrismo), na qual viria a se destacar, anos depois, um dos pintores mais geniais e mais amados da História: Rembrandt.
 Caravaggio é considerado pelos historiadores o mais original e influente pintor do século XVII.
Visitamos dois locais onde existem obras-primas desse gênio : a Igreja de Santa Maria del Popolo (com sua belíssima “Conversão de São Paulo”) e a Igreja de São Luís dos Franceses, com seus três óleos da “Vocação de São Mateus”). Por situar-se nas vizinhanças, fizemos uma visita à Basílica de Santo Agostinho, na qual há uma tela comovedora do Mestre: “Nossa Senhora de Loreto” (1603-1606). Essa tela goza de celebridade também porque o pintor deu ao semblante da Virgem os traços de Madalena Antognetti, festejada cortesã da época.      
Por estarmos no país dos Primitivos Italianos, não deixamos de apreciar as realizações de seus principais representantes, os mentores da Escola de Florença, Cimabue e Giotto, e os mentores da Escola de Siena., Duccio, os Irmãos Lorenzetti, e o sedutor Simone Martini.
Nossa atenção, depois deles, concentrou-se na tríade do Renascimento Quinhentista: Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, e Rafael. Outros artistas, porém, de igual talento, e de uma época anterior, como Lorenzo Maitani,  também provocaram nossa atenção. Maitani impressionou-nos com os seus relevos da Fachada da Catedral de Orvieto, uma das três grandes igrejas góticas italianas. As outras duas são a Basílica Superior de Assis e a Catedral de Siena.
 Na Catedral de Orvieto, pudemos associar as pinturas de Luca Signorelli (1441-1523) às de Miguel Ângelo, que aliás deixou cópias de algumas delas. Signorelli é um artista relativamente desconhecido do grande público. Seus afrescos estão na Capela de São Brixio,  na mesma Catedral.
Não há adjetivos que qualifiquem, corretamente, a Capela degli  Scrovegni, ou Capela Arena, em Pádua, talvez a Capela mais visitada pelos amantes da pintura, depois da Capela Sistina. Lá existe um conjunto de 38 afrescos do “Pai da Pintura Figurativa Européia” até Kandinsly: Giotto.
Em Pádua visitamos, ainda, a Basílica de Santo Antônio, em cujo interior se podem apreciar bronzes de Donatello, e afrescos de um pintor de grande prestígio, Altichiero (ativo na segunda metade do século XIV).
Não nos foi possível, infelizmente, apreciar as soberbas realizações de Andrea Mantegna no Palácio Ducal de Mântua. O tempo foi curto para tantos tesouros.
Em compensação, tivemos verdadeiro banquete ótico na Galeria da Academia, em Veneza, onde estão expostas as pinturas do clã Bellini, Jacopo, Gentile e Giovanni Bellini, e também as telas de um colorido mágico, de Giorgione, Ticiano, Loto. Demos particular atenção a Tintoretto - autor de telas imensas, e a Carpaccio – cujas telas tanto encantaram o poeta Vinícius de Morais, quando ele esteve naquela cidade.
Merecem demorada contemplação, nesse museu, as opulentas telas de Veronese (1528-1588), uma espécie de reencarnação do mesmo Carpaccio, do qual Eric Newton escreveu: “Nunca alguém pintou cenas festivas mais grandiosa, ou cenas mitológicas mais coloridas.(...) O ouro, a prata, a ametista e o coral, bem como o azul-da prússia e o verde-azeitona resplendem em seus quadros”.
Tintoretto é autor da representação figurativa de maior tamanho no mundo, o Paraíso,que se exibe no interior do Palácio Ducal, um dos monumentos civis góticos, de maior elegância existentes na Europa.
Na Galeria da Academia apreciamos outras criações poderosas, como as dos artistas dos séculos XVII e XVIII, Tiepolo, Piazzetta, Canaletto e Guardi, famosos por suas paisagens da Lagoa.
Além da visita à Basílica de São Marcos, espécie de rival arquitetônica da Basílica de Santa Sofia de Constantinopla (hoje Istambul), tivemos ocasião de deliciar-nos com a trama de seus 160 canais povoados de gôndolas e mistérios. Numa das noites, que passamos em Veneza, assistimos a um concerto de orquestra e canto, no qual uma cantora lírica e um tenor profissionais nos brindaram com árias do repertório operístico, com destaque especial para GiuseppeVerdi.
De Veneza fomos a Verona, a prestar nossa homenagem ao gênio de Shakespeare, e apreciar o balcão imaginário onde Romeu e Julieta, teceram seus sonhos de amor... No local os namorados de todo o mundo penduram souvenirs, dos mais exóticos aos mais singelos, trocando beijos de amor e de fidelidade eterna.
Prosseguimos nossa viagem até Milão.
Nessa cidade, por razões técnicas (embora a visita tivesse sido programada com antecedência) não pudemos ver a Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, recentemente restaurada, que está exposta no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie.
Pessoalmente, tínhamos um sonho: contemplar a Pietà Rondanini, de Miguel Ângelo, no Museu Sforzesco, admirada por Henry Moore, que alguns denominam “O Miguel Ângelo do Século XX”.
 Não sobrou tempo para isso.
Visitamos, porém, o Duomo, com suas 135 agulhas de mármore, que se erguem a 108 metros do solo, e nos deliciamos relanceando os olhos pelas 2.245 estátuas, que ornamentam o grandioso templo, considerado o mais vasto monumento gótico da Itália. Foi iniciado em 1386, e concluído no século XIX.
Ainda que brevemente, percorremos a Galeria Vittorio Emmanuele.
Ao retorno, lançamos um olhar nostálgico ao Teatro della Scala, que guarda ecos de alguns dos rouxinóis femininos mais admirados internacionalmente, como Maria Callas e Renata Tebaldi. Foi ao lado do Teatro que o ônibus nos esperou para reembarcarmos em direção ao nosso hotel, nos arredores da cidade.
De Milão nos dirigimos a Nice.
A estrada, que leva até essa cidade, margeia, a partir de Gênova, o Mar Mediterrâneo. Toda ela é perfurada de túneis, que se sucedem como notas numa gigantesca pauta geológica. Parecem não ter fim. As paisagens, que se descortinam do alto da estrada, são das mais impressionantes, com píncaros rochosos que se alçam sobre vales verdes, tomados por pequenas cidades.
Será que o leitor imagina os encantos do Principado de Mônaco, conhecido por suas festas, escândalos, e iates de milionários que ali residem - e talvez, ainda mais, por seus Cassinos? Alguns devem lembrar esse Principado pelo circuito automobilístico de Fórmula Um. Os aspectos paisagísticos e urbanísticos do Principado possuem um charme singular.  
Em Nice visitamos o Museu Chagall, situado num local aprazível, no alto da colina de Cimiez. O Museu é uma jóia arquitetônica. O legado bíblico de Chagall, em suas paredes, não só é obra de indiscutível mérito, mas pode suscitar, em almas atentas, consoladoras visões dos mistérios bíblicos.
Caminhamos ao longo da “Promenade des Anglais” até aos jardins do parque do Castelo, com  vistas sobre a Baía dos Anjos.
De Nice fomos a um vilarejo, repleto de galerias e butiques de arte: Saint-Paul de Cagnes. Daí nos encaminhamos para uma deliciosa surpresa: a Capela do Rosário, em Vence, concebida e decorada por Henri Matisse. Segundo o Dicionário Oxford de Arte, um dos mais comoventes monumentos de arquitetura sacra do Século XX.
Após percorrermos incríveis estradas serpenteantes, que embriagam os olhos com panoramas  vistos de pontes, esplêndidos na sua explosão de cores outonais, visitamos o Museu Internacional do Perfume, em Grasse, criado em 1989 e renovado em 2008.  É um museu único no mundo. O projeto arquitetônico desse museu é da autoria de Fréderic Jung. Nesse museu, como o nome o indica, mostra-se a história das fragrâncias, e a evolução das técnicas de extração de essências.
Experiência assás curiosa, a de percorrer salas e salas repletas de frascos de perfume, de todo tipo, com aromas sutis, alguns dos quais é permitido olfatar!
 O Museu expõe vasos de cosméticos que remontam a 4.000 anos de idade. Chamou-nos a atenção a exposição de um objeto que popularizou o perfume, convertendo-o em “objeto de consumo”: o vaporizador, inventado em1868.
De Grasse encaminhamo-nos a Aix-em-Provence, cidade dominada pela Montanha Sainte-Victoire, que Paul Cézanne, o “Fundador da Pintura Contemporânea”, perenizou em inúmeras telas.  Destacaríamos, nessa cidade, a visita ao Atelier do velho Mestre, em cujo interior contemplamos os humildes objetos que o inspiravam: vasos de metal, xícaras, talheres. Um Cupido em gesso, que aparece numa de suas telas, lá estava, entre utensílios. Cézanne transfigurava o cotidiano com seu pincel. O que era objeto destituído de atração na vida diária convertia-se em ícone da sensibilidade.
Durante nossa visita ao Atelier de Cézanne, lembrei-me de uma das declarações do grande pintor, que no fundo constitui uma profunda objeção ao nosso frenesi e à nossa distração:
- As pessoas pensam que um açucareiro não tem fisionomia, nem alma. É engano. Esses objetos mudam cada dia. É preciso saber observá-los, acariciá-los. Os vasos e os pratos são seres que conversam entre si. Trocam intermináveis confidências...Quanto às flores, é preciso notar que elas murcham rapidamente. As frutas são mais fiéis. Gostam de ser retratadas.
(Michael Doran. Dossier: Sobre Cézanne. Conversaciones y Testimonios. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1980. p.208).  
Nos dias seguintes, passeamos ao longo do Porto de L’Estaque. Nesse porto, consideravelmente modificado, inúmeros pintores buscaram inspiração para suas telas. Apesar das modificações sofridas, o porto ainda revela seu rosto antigo, como um palimpsesto cuja primeira escritura tivesse sido lixada para dar lugar a uma nova escritura.
 No coração das Alpilles, a 70 km de Aix-em Provence,  25 km. de Avignon e 15 km de Arles,  situam-se as as Carrières de Lumières, prodigiosa formação geológica. Trata-se de uma pedreira, que acabou sendo transformada num fantástico ventre, No seu interior os turistas assistem hoje a espetáculos de luz-e som. Neste ano, havia ali uma montagem sobre as afinidades temáticas e cromáticas entre Van Gogh e Gauguin. Nessa instalação tecnológica, setenta vídeos projetavam imagens sobre uma superfície de 6.000 metros quadrados.
Nas proximidades das Carrières, ergue-se um Chateau pitoresco, que vale a pena visitar : o de Baux en Provence.
Após visitá-lo, fizemos uma parada estratégica para degustação do vinho Chateauneuf du Pape, na sede da empresa. Um jovem e simpático enólogo explicou-nos a elaboração desse conceituadíssimo vinho, utilizando, (como todos os seus colegas o fazem; constatamos isso também na Itália, na degustação do vinho Chianti), um vocabulário de teor poético. Esse tipo de linguagem é adequado às qualidades de uma bebida tão antiga, e tão nova!
É evidente que compreendemos – e como! - o enólogo!
Como falar a respeito de um vinho de altíssima qualidade, senão sonhando no interior de uma adega?
A realidade é que não bebemos apenas vinhos; bebemos, também, adjetivos!
 Os vinhos deliciam o paladar, os adjetivos, nossa imaginação.
Embora não sendo connoisseurs, coincidimos na opinião de que os vinhos Chateauneuf du Pape enobrecem nossos pobres lábios burgueses...
Não é preciso tocar o céu (com as mãos) para saber que ele existe...
Avignon, termo de nosso tour, encerrou o tour.
É uma cidade fascinante.
O Palácio dos Papas deixou-nos a impressão exótica de um Palácio, em cujos aposentos restaram somente sombras. As sombras dos Papas franceses que lá reinaram durante 70 anos, antes que Santa Catarina de Siena conseguisse convencer o último dos pontífices dessa “dinastia” pontifical, regressar a Roma, acabando com o exílio na França.
No Palácio, subsistem alguns afrescos de pintores célebres, entre os quais os de Matteo Giovannetti, e os do sienense, Simone Martini, que um Papa teve a idéia de convidar para adoçar com um pouco de poesia as frias paredes do Palácio-Fortaleza!

II. As Perplexidades do Novo Turismo: Breves Comentários.

            O Turismo, como fenômeno contemporâneo da sociedade de consumo, assumiu – principamente nas ultimas décadas, proporções, ou antes, desproporções inimagináveis.
Os locais de atração na Europa parecem formigueiros.
Já não existe espaço físico que possibilite a existência de um espaço psíquico (a tão decantada “distância psíquica” - a que se referiam os teóricos de Arte no século XIX), para o gozo estético e o gozo artístico.
                Toda a gente sabe que o homem é um composto indissolúvel de corpo e alma, ou – sob um ponto de vista neutro – um composto de corpo e psique.
À parte ideologias, sabe-se que a psique necessita de certas condições para poder funcionar. O corpo, por sua vez, necessita de um mínimo de “espiritualidade” para ter saúde total.
                Nem só de pão vive o homem!  
A criatura humana vive, também, de outro pão,  o pão dos sentimentos e emoções, entre as quais se incluem a emoção estética e a emoção artística.
Reservamos a designação de emoção estética às emoções provenientes da contemplação da Natureza. Quem aprecia uma paisagem experimenta uma emoção estética.
Reservamos a designação de emoção artística aos objetos que despertam fruição físico-psíquica (uma vez que, tanto na emoção estética, como na emoção artística, a parte dos sentidos é essencial), produzidos pela mão humana, frutos da criatividade de personalidades dotadas nas mais diversas áreas da expressão: cerâmicas, pinturas, esculturas, partituras musicais, filmes, etc..Tais objetos despertam sentimentos e emoções semelhantes, ou afins, aos dos próprios criadores.
É imprescindível que o grande público, isto é, as massas, não só gozem os prazeres ordinários da vida, mas que também desfrutem dos prazeres extraordinários da Civilização e da Cultura.
É imprescindível que essas massas possam “subir” – como dizia Camões:

- da particular beleza
para a beleza geral.

Habituadas aos prazeres imediatos, é oportuno que elas comecem a progredir da particular beleza à beleza geral, não esquecendo que os prazeres tangíveis, como os do paladar e do sexo, contêm uma dimensão estética e artística, se englobados num contexto erótico maior. É o que pretendia Herbert Marcuse no seu conhecido livro Eros e Civilização, ao advertir que o amor, por exemplo, praticado num estacionamento público, desvinculado de toda moldura psíquica, não pode produzir a mesma satisfação que o prazer associado à Natureza e aos estímulos da música e de outros elementos propriamente eróticos.
Em linguagem explícita: a genitalidade não é tudo: o erótico transcende a genitalidade. Não a suprime, mas a transfigura.
Copnsidera-se civilizador que as massas compreendam que existem prazeres mais sutis, que nadam ficam a dever aos outros em intensidade e gozo.
Simplesmente são de outra natureza.
O Turismo precisa colocá-los à disposição dos cidadãos comuns, até porque - como já dizia o lúcido autor dos Lusíadas:

(...)  mudando-se a vida
se mudam os gostos dela.

E, com não menor precisão:

Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já não o vejo:
assim nos traz a mudança
de esperança em esperança
e de desejo em desejo.
(Redondilhas de “Sôbolos rios que vão”.
Obra Completa. Rj, Companhia Aguilar Editora, 1963. p. 497 ss.).

Por essa razão, ao invés de nos estendermos em considerações teóricas, preferimos relatar aqui algumas situações concretas, que ocorreram durante nossos dois tours:

1) Estávamos em Roma, no interior dos Museus do Vaticano.
 O fluxo de visitantes, que se despejava pelos corredores – aproximadamente 7.600 metros de extensão, obrigava-nos a ter muita atenção para não atropelar os circunstantes. Será possível, em tal situação, buscar lugar melhor para a apreciação de determinadas obras?
Como buscar tais lugares, se simplesmente não os havia?
Em toda a parte já havia alguém.
O rumor, embora abafado dos guias, que felizmente empregam tecnologias relativamente modernas, como os fones de ouvido, embora não nos irritasse, causava-nos, por vezes, mal-estar. Por uma razão: os profissionais multiplicavam-se à medida que novos grupos apareciam.
É possível, em tais condições, apreciar corretamente obras de arte?

2) Passemos ao Museu Uffizi, em Florença.
 Aqui também multidão de visitantes sufocava.
Além do barulho, éramos tangidos, por funcionários, educados e gentis, que iam organizando a turba como lhes era dado organizar. Após subirmos as escadarias, que nos exigiam “o último suspiro”, chegávamos às “suspiradas” salas onde jazem os tesouros.
E como os havia!
Pergunta-se: nessas salas, inadequadas para conter tantos interessados, que fazer? Ali, diante de nós, ofereciam-se as grandes criações dos pintores renascentistas, Uccello, Piero della Francesca e Botticelli!
Tentamos aplicar a elas uma das regras clássicas da contemplação pictórica, que inserimos em nosso livro Como Apreciar a Arte, para orientação dos leitores.
Na página 55 de nossa introdução à arte para leigos, lê-se;
- Uma artista e teórica (Fayga Ostrower) chama a atenção para o seguinte: ao executar uma pintura, o artista encontra-se próximo da tela, seu imediato campo de visão. Em razão disso, abrange-lhe apenas um metro ou nem isso, de cada vez. Para poder conferir o efeito global da imagem, sobretudo os detalhes, ele necessita recuar um mínimo de três vezes a extensão maior do plano. Exemplifiquemos com a tela de Tintoretto A Última Ceia, na Basílica de San Giorgio, em Veneza. Para vê-la toda, o espectador deve postar-se a uns 16 metros de distância.
Regras semelhantes aplicam-se à arquitetura:
- O olho humano só percebe bem um edifício a uma distância igual a três vezes a sua altura, ou seja, a um ângulo de 19 graus. Quando nos afastamos excessivamente do edifício, este perde sua individualidade, sua silhueta confunde-se com as vizinhas. Se nos acercamos demais, digamos a uma distância equivalente a duas vezes sua altura, a um ângulo de 27 graus, percebemos ainda o conjunto, mas quase nada do ambiente, o edifício não aparece dentro de sua moldura. Enfim, a uma distância de apenas uma vez a sua altura, a um ângulo de 45 graus, só percebemos detalhes.
(Ibid. p. 56).
Em termos genéricos: o espectador de um quadro deve postar-se a uma distância três vezes maior do que a das dimensões da tela. Se a tela medir de cima abaixo 2 m., a distância ideal para se observar o conjunto será de 6 metros. Se a largura for maior que a altura, tome-se esta como base.
Não se trata de sofisticações de apreciadores artísticos esnobes!
Existem objetivamente condições mais favoráveis do que outras à apreciação. Que os leitores pensem na degustação de vinhos: beber uma taça de uma vinho de qualidade é ser capaz de “beber-lhe” também a cor, a transparência, etc.
Em determinados momentos, apreciar uma pintura de grande nível pode, até, exigir do contemplador uma atitude semelhante à do pintor alemão Josef Albers, que dizia
- Prefiro ver com os olhos fechados! 

                3) Uma visita à Capela Scrovegni, em Pádua (onde estão algumas das maiores obras-primas de Giotto):
Foi uma frustração para o grupo!
Para mim, seu orientador, chegou a ser uma indelicadeza.
Depois de aguardarmos nossa vez de entrar no “santuário” desse Gênio, um espaço relativamente reduzido, quanto tempo nos deixaram para apreciar seus fabulosos afrescos de inícios do século XIV?
Quinze minutos!
Fomos empurrados polidamente para fora!
Vir do Brasil a Pádua, com o objetivo de ver Giotto, e lá ficar apenas 15 minutos?
De quem a culpa? Dos funcionários italianos?
Não! Eles foram gentis.  
Gentis...e intransigentes.
De quem a culpa, então?
Do turismo de consumo!
Do torrencial turismo que nos arrasta, a todos.
Que fazer para conciliar tal tipo de turismo com as exigências da contemplação artística?
Uma das resoluções que tomamos foi a de evitar as estações altas, isto é, os períodos de maior afluxo.
Tenho saudades dos tempos – década de 60 – quando, nas férias de meus estudos de pós-graduação na Europa, visitava museus sem ser importunado. Naquela época, existiam poltronas diante de obras de arte.
Pude reviver esses tempos em Bruges, na Bélgica, após o término de nossa excursão, quando na companhia apenas de minha mulher, visitei um Museu da cidade, o Museu do Sint-Jans-Spital  dedicado a Hans Memling (1430-1494) um pintor flamengo delicadíssimo, discípulo de outro gênio, Rogier van der Weyden.
Alguém definiu os quadros de Memling  como “impecavelmente trabalhados, silenciosos, humildes e piedosos”.
Talvez a única coisa a fazer, quando nos encontramos nas situações referidas, seja a de recorrer a uma técnica futebolística, na qual os craques brasileiros ganharam fama mundial: o drible.
Tentemos driblar o que se opõe à nossa fruição artística.

D) Em Arles, aprendendo com Van Gogh “os efeitos especiais”...
                Experiência interessante, a de Arles.
Fomos visitar essa cidade da Provença por duas razões: porque ela conserva muitas recordações da civilização romana na Gália, especialmente uma coleção de sarcófagos, e um Anfiteatro de 12.000 m2 do século III d.C., que podia conter  aproximadamente 26.000 espectadores; em segundo lugar, porque nela existe um monumento românico precioso, a Igreja de Saint-Trophime, do século XI, cujo portal é uma obra-prima.
 Em Arles respira-se algo da atmosfera de Van Gogh, que lá esteve no ano de 1888, em busca de paz, e de um clima mais cálido do que o de Paris, onde se sentia debilitado mental e fisicamente.
Van Gogh pintou nessa cidade algumas de suas telas mais notáveis, entre as quais O Semeador, A Ponte de Langlois, o Terraço do Café da Place du Fórum, e a Casa Amarela.
Nessa cidadezinha, o grande artista pintou também a série dos Girassóis (sete telas, quatro originais, três cópias).
                Permito-me alguns comentários sobre uma das telas que o gênio pintou: O Terraço doCafé da Place du Fórum.
                O Café ainda existe.
Em si, nada tem de especial.
Impressiona, até, pelo aparente desleixo na sua manutenção. Não se trata de desleixo. Quis-se conservar o Café aproximadamente como era no tempo de Van Gogh: um Café sem maiores atrativos, com suas cadeiras de ferro  e assentos de palha,  com suas mesas,  seu ar de província.
O visitante, porém, que chega com a tela de Van Gogh nos olhos e na imaginação, fica decepcionado:
- É esse o famoso Café de Van Gogh?
 Sim, é esse o Café.
Que oportunidade curiosa nos é oferecida para compreendermos os “prodígios” da Arte!
Comecemos por lembrar a definição de Arte, ou melhor, a definição de objeto artístico, proposta pelo romancista Zola:
- A Arte é um canto da Natureza visto através de um temperamento.
Olhemos a tela de Van Gogh: um terraço de Café.
Pintado?
Como ninguém o viu!
Como só Van Gogh o teria visto – pelo menos na sua imaginação.
Que seria desse Café sem a sinfonia de amarelos (no plural) que se vê à esquerda? Que seria dele sem os azuis da tela, que servem de fundo a um enxame de estrelas?
 Estrelas?
 São, antes, flores desabrochadas no firmamento. Flores de amendoeiras...
Que seria desse Café sem as casas da direita, de um azul mais profundo, estriadas por janelas cor de laranja ou de abóbora?
As figuras dos freqüentadores do Café não são seres: são aparições, silhuetas em negro que se sobrepõem, e que sobressaem porque as mesas são de uma brancura contrastante.
O Café de Van Gogh seria o Café que todo o mundo recorda, se o seu pavimento não fosse uma verdadeira tapeçaria em cerâmica, com um azul discreto virgulado de preto.
 Quanto aos passantes diante do café: não estão pintados de preto como quase todos os freqüentadores, mas revelam matizes de várias cores, inclusive as costas vermelhas de uma mulher, que acompanha um homem vestido de um preto acentuado!
Um especialista observou que o verde da árvore, que fecha a pintura na extremidade direita, tem importância particular na tela, visto que a equilibra. Sem esse verde, a tela ficaria incompleta. De certo modo, a mancha do verde expandido, à direita, opõe-se à rigidez do azul arquitetônico da outra extremidade, junto às cadeiras sem ocupantes.
Insisto: quem chega, e vê o Café Histórico que serviu de “inspiração” a Van Gogh, sem estar prevenido, tem uma sorte de desilusão.
Porque Van Gogh não pintou simplesmente um café.
Este poderia ser fotografado tal como existia.
Van Gogh pintou um Café, isto é, compôs uma ficção visual, apresentando-nos, como resultado dessa  ficção, outro Café, radiante de cores e impregnado de emoções.
É preciso, pois, refletir sobre a definição de Zola.
Num mundo tecnicista e tecnológico como o nosso, as emoções pessoais mais refinadas sobrevivem graças à cesta básica de beleza e ternura, que os artistas de todos os tempos continuam a fornecer ás pessoas.
Eles as fornecem mesmo às pessoas que não recebem sua cesta básica material!
Uma sociedade mais justa teria obrigação de fornecer tal cesta, a qualquer ser humano, mesmo o mais desprezível, honrando num pobre-diabo unicamente sua dignidade de animal racional.
               
NB. Alguns subsídios para leitores interessados:
1.Véronique Buisson Masi, da Biarritz Turismo Operadora
Celular (55) 51 81 44 20 81
(331) 06 72 91 58 26
Aven. Marquês de Pombal 783 – Porto Alegre – RS.
www.biarritz.com.br
Skype: cerobiarritz
2.       Meus livros:
a)       I.Como Apreciar a Arte (4 ed);
b)       II.O Rosto de Cristo:a Formação do Imaginário e da Arte Cristã (2 ed.)
       podem ser encontrado nas livrarias em geral.
Caso não sejam encontrados, dirigir-se à:
Editora AGE Ltda.
Rua São Manoel 787 (Rio Branco).
90.620-110. porto Alegre – RS.
Fone: (51) 32239385.
       E-mail do autor: armindotrevisan@terra.com. br