quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Estaria a Igreja Atrasada Duzentos Anos?

I.
Acaba de falecer o Cardeal Carlo Maria Martini, eminente biblista e promotor do Ecumenismo, ex-arcebispo de Milão, cuja arquidiocese dirigiu durante 25 anos.
Um mês antes de sua morte, ocorrida no dia 31 de agosto pp., o Cardeal deu uma entrevista na qual afirmou que a Igreja “está atrasada duzentos anos”.
(Cf. El Pais. Madrid, 09-09-2012).
À primeira leitura, a afirmação de Sua Eminência causou-nos impacto. Pareceu-nos, até, oportuna.
À medida, porém, que voltávamos a refletir sobre sua afirmação, começamos a achá-la enigmática.
Com mais tempo de reflexão, não conseguimos conciliá-la totalmente com o Evangelho.
           
II.
Antes de mais, a que Igreja se estaria referindo o Cardeal?
Parecem existir várias Igrejas.
Existe, primeiramente, uma Igreja Institucional, governada pelo Papa e pelo Colégio dos Cardeais. Este colégio prolonga-se em Conferências Episcopais Nacionais, e ramifica-se num Clero numeroso. Chamemos a essa Igreja de oficial. É ela que orienta diasriamente os fiéis, estabelece critérios de validade religiosa, eleva aos altares os Santos, com base nas palavras de Jesus:
- O que ligardes neste mundo será ligado nos céus; o que desligardes neste mundo será desligado nos céus”.
(Evangelho de Mateus 16,19).   
Existe, também, a Igreja dos que crêem no Evangelho de Jesus, mantendo-se nas águas territoriais do Batismo, porém afastados das crenças herdadas de pais e avós.
É possível falar, ainda, numa terceira Igreja: a dos que aceitam o Sacramento do Batismo e, não obstante, por se julgarem à margem da Teologia e da Ética cristã, adiam sua decisão de prática religiosa.
Finalmente, existe uma quarta Igreja, a dos católicos, que estimam que um casamento sem amor pode ser substituído por um novo casamento com amor. Contrariam a norma tradicional da Igreja, que proíbe um segundo casamento enquanto o parceiro do primeiro estiver vivo. Tais fiéis, apesar dos pesares, desejam sinceramente permanecer na comunidade eclesial.
A qual dessas Igrejas se estaria referindo o Cardeal Martini?
O problema, mencionado pelo Cardeal, não reside propriamente no conceito em si de Igreja, embora este seja importante. Ao que parece, o Cardeal queria referir-se a algo mais amplo, e menos definido. Talvez desejasse aludir à atitude da Igreja em relação à evolução das ciências, dos costumes, das artes, que por vezes não se ajustam aos critérios de uma avaliação clarical.
Noutras palavras:  se não interpretamal mal a afirmação cardinqalícia, pareceria que Igreja Oficial não estaria acompanhando a evolução da Civilização e da Cultura.
           
III. 
Comecemos por reflwetir sobre um dado: no âmbito da Revelação de Jesus, a História não avança segundo os critérios temporais da Cultura.
A doutrina cristã, sob esse ponto de vista, é irredutível: após a Criação, houve uma segunda intervenção especial de Deus no mundo.
O Cristiasnismo sustenta que o Reino deste Mundo não é simétrico ao reino da Graça.
Eis por que o fiel medita, constantemente, sobre as palavras de Jesus:
- O meu Reino não é deste mundo.
 (Evangelho de João 18,36).
Ele chega à conclusão de que os dois mundos, o mundo da Materialidade e da Carnalidade, e o mundo da Graça, não andam necessariamente de mãos dadas, e muito menos progridem por idêntico critério cronológico.
Como andariam então?
Eis o problema.
Para haver atraso, seria preciso que a Graça de Deus, atuante e eficiente no mundo, produzisse seus efeitos segundo as leis que regem o mundo.
Para um Deus – que é Eterno – a sucessão dos dias, dos meses, dos anos – até mesmo dos séculos – é um risco na água.
Diz a Bíblia:
- Mil anos para ti são como o dia de ontem.
(Salmo 90,4).
Objetar-se-á:
- Mas Cristo viveu num tempo histórico, o de Herodes e Pôncio Pilatos! E foi crucificado pelos Romanos num determinado espaço geográfico...
O cristão responde:
- A vida de Jesus teve uma moldura histórica. Mas nenhum tempo pode ser proporcionado à sua Ressurreição.
Nós professamos que a Ressurreição de Jesus ocorreu fora – e sobretudo acima – do tempo histórico.
Em razão disso, ela não teve testemunhas do evento considerado histórico, à luz das categorias humanas, não porèm à luz de sua verdadeira dimensão religiosa.
Segue-se disso que os cristãos estão neste mundo, mas apenas até certo ponto. Considerando o caso sob outra óptica, os cristãos não estão neste mundo.
Eis como São Paulo adverte, numa de suas Cartas, os Coríntios:
- O tempo se abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se o não fossem, mas também os que choram como se não chorassem, e os que se alegram como se não se alegrassem; e os que compram como se nada possuíssem; e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem, porque a aparência deste mundo passa.
(1 Cor 7,31).
É certo que a morte atinge todos os homens.
Objetivamente falando, a morte é um fenômeno a-histórico, que ocorre no fim de um tempo histórico.
Mediante a morte o cristão passa, de uma sucessão de dias a uma insucessão de dias.
Na hora da extinção, o ser humano começa a existir fora do tempo – naturalmente (ou antes, sobrenaturalmente) também fora do espaço.
Ao contrário dos ateus e agnósticos, a Fé Cristã não sustenta que a morte é o fim de tudo. A morte é o começo da Eternidade, o que significa a sobrevivência do homem após a morte.
Jesus preveniu seus seguidores de que deviam viver em contínua vigília.
(Lucas 12, 36-40).
O mesmo Jesusm todavia, paradoxalmente, recomendou aos seus seguidores:
- A cada dia basta o seu cuidado
(Mateus 6,34).
Cada jornada. Neste mundo, apresenta-se dentro de um horizonte específico. Suas tarefas devem ser atendidas nesse tempo mensurável, pois só esse tempo pertence a este mundo.
Deduz-se disso que os acontecimentos deste mundo exigem dupla leitura. Uma leitura sub specie temporis, e outra sub specie aeternitatis.
À luz da segunda leitura não há muita diferença entre ser Presidente dos Estados Unidos, e ser zelador de um edifício suburbano. Nem tem importância pintar a Capela Sistina, ou trabalhar num supermercado como vendedor ou vendedora. O próprio Jesus, como adverte Balise pascal, de trinta e três anos, ele viveu trinta sem aparecer”.
(Cf. Pensamentos.Trad. de Sérgio Milliet. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1957. p. 261).
Uma frase de Jesus, de resto, não admite réplica:
- Fazei tudo o que vos for ordenado, porém, realizada vossa obrigação, dizei: “Somos servos inúteis...”
(Lucas 17,10).
O Evangelho não esclarece o que deve ser entendido por “o que vos foi ordenado”. Supomos que tal expressão se relacione com a condição profissional de cada um. A escolha da profissão, não é, quase nunca opção pessoal, mas resultado de um sem número de fatores, alguns dos quais absolutyamente fora do controle humano.

III.
Nesse caso: em que sentido entender a expressão do Cardeal sobre o atraso da Igreja?
A verdadeira Igreja de Jesus, isto é, da comunidade dos que crêem na Palavra de Jesus e na eficácia dos seus Sacramentos, não pode ser objeto de sondagens de opinião pública, nem de avaliações a partir de indicadores de prestígio social ou econômico.
Por ser sobrenatural, a Graça não é apreensível sensorialmente.
Ela só se revela através das frestas do visível.  
O vento- que, na linguagem da Bíblia, deve ser entendido como Espírito - sopra onde quer.
(João 3,8).
Ninguém pode dizer: ei-lo aqui! ei-lo acolá!
As palavras de Jesus a Tomé, após sua Ressurreição, foram provavelmente ditas para corrigir nossa impaciência:
- Porque me viste (Tomé), creste. Bem-aventurados os que não viram, e creram.
(João 20,29).
A Fé Cristã sustenta que Jesus está – e não está – neste mundo.
Sustenta que Ele está realmente na Eucaristia, mas que o Pão Consagrado, devido à fragilidade das espécies, exige que se celebrem missas diariamente, para que a presença do Pão Vivo se torne continuamente realidade, a cada manhã ou crepúsculo.
Impossível medir a presença de Cristo Ressuscitado neste mundo!
Creio que devemos entender as palavras do Cardeal Martini no sentido de uma exortação à atividade católica.
À luz da Revelação de Jesus, que outro sentido teriam?
Não existe atraso da Igreja em relação a este mundo.
O que existe é um atraso dos cristãos em relação à própria Fé, em relação às suas obrigações concretas perante os desafios da Fé.
Para homens, que afirmam que agiardam a vinda do seu Senhor, com os rins cingidos, falar em atraso é evocar o único e verdadeiro atraso: o das Virgens Loucas - da parábola evangélica, que problematiza a atitude das moças que não se abasteceram com azeite suficiente para suas lâmpadas, e que desse modo perderam a oportunidade de participar do Banquete Nupcial.
Ao irem atrás dos vendedores de azeite, elas – sim - chegaram com atraso à única coisa que lhes interessava.
(Mateus 25, 1-13).
Digamos, pois, sem receio de errar:
A Igreja não se atrasa nunca!
Podem atrasar-se os católicos, os luteranos, os anglicanos, os ortodoxos, os fiéis pertencentes a quaisquer das muitas denominações cristãs no mundo.  
Em relação à hora de seu encontro com o Senhor -  que vem quando menos o esperam - fora, ou melhor, acima do tempo – não existe atraso.
A Ressurreição Prometida por Cristo independe de mumificação, de cremação, de artifícios e pompas mortuárias.
 A Ressurreição não se relaciona com o tempo em que um homem permanece neste mundo.
 Contanto que o fiel respeite a vontade de Deus, e não se antecipe à hora (o próprio Jesus falava na sua Hora!) que Deus aprazou a cada ser humano (porque a vida é um copyright de Deus), morrer centenário, ou viver alguns segundos é a mesma coisa.
Talvez na Eternidade, os fetos apareçam ao lado dos grandes Doutores da Igreja!
A Misericórdia Divina há de suprir neles o tempo que, por assim dizer, nadou ao seu lado como um golfinho que acompanha um barco, sem o tocar.
Que os pais, que perderam filhos antes que nascessem, e as pessoas, que perderam prematuramente entes queridos, saibam que o relógio de Deus não é relógio deste mundo, que se rege pelo Observatório de Greenwich.
Os atrasos ocorrem unicamente com coisas deste mundo, segundo critérios de avaliação local.
Obrigar Deus a submeter-se aos padrões de nossa eficiência é ridicularizar sua Onipotência. E seu Amor.
O Amor Divino preexistiu ao mundo, e subsistirá à sua desintegração.
À luz da Revelação de Jesus, é preciso repensar, sem evasivas, na afirmação de Jesus:
- Pela paciência salvareis as vossas vidas.
(Lucas 21,19).
Deixemos aos jornalistas as manchetes estrondosas, que duram tanto quanto os suspiros dos agonizantes.
Uns e outros pertencem a algo que, futuramente, se chamará a sucata deste mundo, - a não ser que  Deus dê uma segunda chance a este Planeta, “ressuscitando-o”, de modo a que também participe, na sua condição menor, da Redenção Gloriosa Final.
- Certas coisas são impossíveis aos homens, mas não a Deus.
(Evangelho de Marcos, 10,27)

           

      



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