quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ternura: Estará Faltando Neste Mundo?


I. Antecipemo-nos ao leitor, com o objetivo de afastar dele qualquer equívoco.
Digamos o que dizia Confúcio, um dos “Pais da Sabedoria Chinesa”, aos discípulos:
 - Julgais que eu saiba muita coisa?
Não sei.
(Lin Yutang: A Sabedoria de Confúcio. Trad. de Geir Campos. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1958. p.151).
Do mesmo Confúcio, podemos aproveitarr en passant, outro pensamento, até pelo fato de se achar no mesmo livro:
- Saber o que se sabe, e saber o que não se sabe, eis a caracteristica de quem sabe.
(Ibid. p. 168).
Finalmente, valendo-nos sempre do modesto Confúcio, outro pensamento, um tanto enigmático, porém possivelmente mais verdadeiro que os precedentes:
-O homem que ama a verdade é melhor do que o homem que a conhece, e o homem que nela encontra a felicidade é ainda melhor do que o homem que a ama.
(Ibid. p. 168-169).
Ao pretendermos discorrer sobre a ternura, tais advertências ajudam-nos a tornar mais alertas os ouvidos do coração.-

II. Um número bastante expressivo de pessoas queixam-se de que existe pouca ternura no mundo.
Alguns, mais pessimistas, afirmam que a ternura já desapareceu da sociedade.
Acrescentam - como concessão aos sensíveis -  que o amor, por ora, persiste,  mas que é ríspido e efêmero.
Em vez de nos ocuparmos com hipóteses, ou com dados de estatísticas, preferimos deter-nos na própria noção de ternura, no que ela é – ou poderia ser.
Consultemos um dicionário que, pelas suas barbas brancas, merece respeito: referimo-nos ao Dicionário de Antônio de Morais Silva, que Manuel Bandeira, considerava o melhor dicionário da língua.
Diz Morais:
- Ternura: qualidade do que é terno. Meiguice, carinho. Tristeza suave.
No verbete“terno”  lemos:
- Carinhoso, amável, brando, suave, macio; que tem sentimentos afetuosos; que sente ou desperta afetos; que inspira compaixão; que causa dó; lastimoso.
Ao ler tais verbetes do grande dicionarista, recordamos uma afirmação célebre de Santo Agostinho:
- Se me perguntam o que é o tempo, não sei; se não me perguntam, sei.
III. Em nossa opinião, Fernando Pessoa, sibilino e claríssimo ao mesmo tempo, deu-nos a pista mais segura:
- O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
Não se trata no caso, ainda, de ternura.  Se bem não tenhamos entrado ainda no Grande Sertão, achamos já uma das veredas que a ele conduz.
II.
Ternura?
Todo o mundo sabe o que é.
Se alguém tem dúvidas a respeito, atrevemo-nos a formular uma moldura dentro da qual ela pode enquadrar-se.
Ternura é o que existe na mulher quando ela, sem fingir que deixou de ter sex-appeal, sabe que seu sex-appeal  não vale metade do que ela é, ou com mais generosidade um terço do que ela é.
Ternura é o fundo prodigioso da mulher, o que nela resta quando deixou de ser mulher (aparentemente), ou quando decidiu não ser mais mulher.
Ternura é o que existe de incontrolável no mais íntimo núcleo feminino, o que escapa da mão feminina mais avara, o que se infiltra numa lágrima de mulher quando essa mulher vira fêmea, ou – se quiserem - vira bicho.
Ternura é quando essa mulher-bicho quer matar seu ex-amado, ou amante, ou companheiro, ou explorador, e antes de matá-lo, e matar-se, olha para um cachorrinho, para uma flor, para um grilo, e resolve não se matar, nem matar, porque começou a amar de novo, mesmo que não saiba mais o que significa amar, nem se interesse por sabê-lo.
Ternura  (até aqui abordamos a ternura feminina) existe, também, nos piores machões, nos piores  delinqüentes!
Existiu em Herodes?
Sim, existiu em Herodes, ao menos em estado residual,
depois que ele matou sua mulher, a queridíssima  Mariam, “aquela devido a quem ele podia pretender estar ligado aos Macabeus, visto ser ela Asmonéia”, aquela que morreu serena e desdenhosa, e por isso enlouqueceu o désposta, o monstro do deserto, obrigando-o a vagar, noites em fora, pelos corredores de seu(s) palácio(s), clamando: Mariam! Mariam! Mariam!
Ternura  masculina?
Sempre existiu – e talvez muita, a começar pelos Bárbaros, quando guerreavam contra os pseudo-civilizados Romanos, e talvez tenha existido mais neles do que em Cícero e Brutus. Ternura existiu naquele pré-histórico que pintou uma rena atravessando um arroio...com o focinho ofegante!
Terá existido nos grandes deste mundo?
Em alguns existiu.
Tenho certeza de que não existiu, ou quase, em Júlio César, o qual não amou ninguém, nem possivelmente a si mesmo.
Ternura , ao que parece, não existiu no pseudo-maior-dos franceses”, Napoleão Bonaparte, o maior gênio militar da modernidade, o mais pretensioso dos generais. Agradeceríamos à bela e delicada polonesa que o amou, a Condessa Maria Waleswska, que não foi amada por ele, que nos desse suas “Memórias de Santa Helena” femininas...
Ternura  macha existiu, em estado puro, num homem frágil, de uma generosidade oceânica, chamado Francisco de Assis. Não por ele ter conseguido falar às cotovias e aos cordeiros, mas por ter conseguido falar com Deus, e em seguida com os homens, sem rebaixar a majestade incompreensível do Criador, e sem adular a ridícula vaidade dos animais racionais.
Ternura existiu em outros machões, e não-machões, relinchadores ou não, como existiu (talvez me engane, mas pode ser que o engano seja um fato líquido) em Bolívar e Tchê Guevara. Terá existido em alguns Papas, como João XXIII e João Paulo I.
Ternura existiu - até certo ponto - em Lutero, mas não em Calvino. Ou se existiu em Calvino, existiu nele subliminalmente. Existiu, porém, em Ítalo Calvino.
Ternura caracterizou uma mulher inteligentíssima, de pés no chão e asas no céu, Teresa de Ávila, e transbordou numa camponesa chamada Teresa de Calcutá, a qual continuou camponesa, apesar de a terem convertido num ícone, semelhante a uma imagem de papel machê.
É possível que ainda existam jazidas de ternura  neste planeta, embora tais jazidas não tenham sido exploradas.
Talvez (é uma hipótese) a ternura seja uma Serra Pelada, que poderá vir a ser descoberta, depois explorada e,  no fim das contas, reconduzida à sua condição primitiva de Serra Pelada.
Amigos, eu vos revelo um mistério: a ternura existe mais esplendidamente nos bichos!
Bendito o Criador que no-los deu como uma dádiva preciosíssima!
Não me alongarei a respeito.
Prefiro brindar-lhes com um pequenino poema , que até ao presente não publiquei, mas que pretendo publicar em livro, quando completar 80 anos.
Nesse breve poema, fazendo referência à humilde Virgem Maria, escrevi o que logo abaixo lereis.
Como foi possível, porém, ter chegado até aqui nessa análise ficcional da ternura, sem citar esse nome dulcíssimo?
Ternura é o que fez de Maria a Mãe que ela foi,  a Virgem que nunca deixou de ser.
A ela dedicamos, um dia (há muito tempo) alguns versos, os versos mais humanos, que escrevemos.

Ei-los:

- Nós te saudamos, ó Filha dos homens!

Reinventas o fogo
quando o rebanho é perseguido
pelos inimigos de teu Povo.

Cruzas teus olhos
com os olhos dos pobres.

Doçura igual
só se encontra
nos olhos dos bichos.

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