quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O que é um Escritor Católico?

I. Há poucos dias, um leitor dirigiu-me uma pergunta que, à primeira vista, poderia parecer folclórica.
Eu a considerei difícil de responder:
- O que é um escritor católico?
Tentarei dar uma resposta sincera a essa pergunta que, no fundo, vem me preocupando há muitos anos.
Comecemos por distinguir no escritor a pessoa do escritor, e sua personalidade.
Em termos mais acessíveis: o indivíduo que escreve, da função que exerce.
O indivíduo é um ser humano com carteira de identidade (RG, CPF, e outras qualificações).
Pode ser comunicativo ou taciturno, bem- humorado ou irascível, budista ou católico.
A função, que o escritor exerce supõe uma pessoa; mas tal função lhe exige – e isso é decisivo – a aprendizagem de um ofício.
Digamos então: o escritor é um indivíduo que exerce uma função que, como todas as funções, pressupõe uma capacidade, talvez um “dom de nascença” (caso acreditemos no ditado: o poeta nasce”.) Esse dom não se realiza sem aperfeiçoamentos.

II. Em termos genéricos, é fácil definir o escritor.
Os experts em comunicação propuseram ultimamente uma distinção, no mínimo curiosa: escritores e escreventes.
 Escritores seriam os que se empenham em adquirir um estilo, os que desejam construir uma obra, os que visam à excelência em determinado gênero: poesia, ficção, ensaística.
Tais escritores, com freqüência, costumam fazer apelo a uma definição de estilo, que se atribui a Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon (1707-1788): “O Estilo é o homem”.
Pretendem significar que o verdadeiro escritor é obrigado a dar à sua obra características tão pessoais, que sua produção revele impressões digitais tão intransferíveis que a tornam exclusivamente sua.
Escreventes seriam os autores que se empenham em manejar a línguagem com fluência, buscando atingir um objetivo exterior à literatura: facilitar a compreensão e assimilação daquilo que publicam.
Creio que, se continuamos nesse gênero de elucubrações, as coisas podem complicar-se. Não esqueçamos que, em nosso tempo, proliferam oficinas de criatividade, oficinas literárias, ateliês de expressão.

III. Tive dificuldades em me aceitar como escritor.
Sempre achei que um escritor só sabe que é escritor no fim da vida. Ou quase no fim da vida, graças ao critério: verificar se sua obra teve, ou não, aceitação entre os leitores, e também entre seus pares.
Tenho dúvidas a respeito de tal critério.
Pensei em substituí-lo por outro: o número de livros publicados.
Acabei rejeitando esse critério.
Ficou fácil, com a invenção dos modernos meios de reprodução da palavra, publicar livros.
Que critério adotar?
Fato curioso, e paradoxal: a mim foi mais fácil aceitar-me como poeta. Para aceitar-se como poeta é necessário humor.
O poeta, em princípio, nunca é lido, quase sempre é minimizado, raramente compreendido e, quando admirado, o é por outras razões que não sua poesia.
Sejamos mais explícitos: na sua condição de poeta, este é um solitário, que luta para ser solidário. Perdoem-me essa bela citação, que é de Albert Camus.
Quase sempre o poeta é seu único leitor.
Em vista disso, feliz do poeta a quem a Providência lhe concede aquilo a que o vulgo denomina desconfiômetro!
Nesse caso, o poeta pode ter algum sucesso. Ter sucesso, para um poeta, é desconfiar de si.
Se o poeta não tiver desconfiômetro, será sempre aos próprios olhos um gênio.
A sorte do poeta é que Deus permite que existam olhos mais generosos do que os olhos do poeta: são os olhos de leitores benévolos, aqueles a quem os sofisticados chamam de gatos pingados.
Para tais gatos pingados o poeta pode tornar-se um gênio incompreendido, que, sempre na opinião de seus leitores generosos, se converteu, ou pode converter-se em gênio de verdade.
A partir desse momento, o poeta pode tornar-se admirado e amado, até por uma nação - a nação que fala sua língua.
Até ao presente, tenho-me aceito como poeta de outra maneira: considerando-me um pobre-diabo, que pensa ter algo para comunicar (a pessoas que, infelizmente,não parecem estar interessadas em tal comunicação).
 Como, porém, Deus é compreensivo, não tardam a aparecer leitores que se dispõem a apoiar o poeta.
 Eis aí o milagre: graças a tais leitores, o poeta consegue sobreviver à indiferença geral, e livrar-se, ao menos parcialmente, dos assaltos da vaidade.  
Em tais momentos, o poeta pode ser surpreendido conversando com os próprios botões:
- Deu-me a natureza uma vontade inexplicável de escrever coisas diferentes das normais. Parece que devo ser fiel a tal carisma, ou – ao menos - a tal mania.
Se alguém, pois, agressivamente, me indaga:
-O que é a Poesia?
respondo-lhe sem me constranger:
- É algo que se assemelha ao Tempo: se me perguntam o que é, não sei; se não me perguntam, sei. A definição, ou in-definição, é de Santo Agostinho.  

IV. Voltemos à questão – sta complicadíssima:
-  O que é um escritor católico?
Não sei.
Sei que sou católico, e que sou escritor.
Penso que um escritor católico poderia ser um indivíduo que, na sua condição de escritor, tivesse a pretensão de expor sua Fé pessoal, suas experiências religiosas, com total liberdade de expressão.
Seria possível tal auto-confissão dentro do Catolicismo?
Expliquemo-nos.
Todo católico aceita – como o crente islâmico em relação ao Alcorão– uma piedosa submissão ao Evangelho. (Islã significa “submissão”).
Ocorre que Jesus instituiu uma Igreja, e o escritor católico, por ser católico, pertence a essa instituição.
Vive dentro dela.
Logo, o escritor católico é alguém que precisa submeter-se a uma Instituição.
Nesse caso: como ser livre (para expor sua Fé pessoal)?
O poeta Adonis, considerado o mais ilustre poeta islâmico contemporâneo, que vive em Paris, sustentou recentemente que a única maneira de o Islamismo resolver seus impasses, consistiria em distinguir (e separar) a crença em Alá e Maomé, das opções políticas concretas.   
Como católico, eu diria que a única maneira de ser um escritor católico seria distinguir (e separar) a fé em Jesus das opções terrestres da Instituição, isto é, da Igreja Católica Apostólica e Romana.
O escritor, para ser católico, teria de problematizar o adjetivo romano.
 Não no sentido de que o escritor católico recusa sua adesão à romanidade de sua Fé, mas no sentido de que não a põe na mesma altura dos outros adjetivos definidores de Igreja
Como fazer isso sem provocar desconfianças na comunidade católica?
Tanto a Igreja Católica, como o escritor católico, não deveriam sobrevalorizar - a primeira, sua condição hierárquica; o segundo, sua liberdade de opinião.
Somente haverá a possibilidade de haver escritores católicos se a Igreja aceitar poder ser criticada nas suas atuações concretas. Se a Igreja, noutros termos, tiver a lucidez e a humildade de não se julgar acima de qualquer censura, e admitir que alguns de seus fiéis lhe possam apresentar objeções.
Também, é claro, só haverá escritores católicos se estes tiverem a humildade de expor suas objeções com clareza e firmeza, e dentro de padrões de cortesia.
A autoridade pastoral da Igreja deverá ser respeitada e acatada; por outro lado, a liberdade de opinião do escritor, sua criatividade poética ou ficcional deverá ser valorizada na sua área específica) pois um escritor pode ver e expressar realidades da sensibilidade e da espiritualidade existencial religiosa, que os membros da Hierarquia não têm condições de perceber, ou – quando as percebem – não têm condições de expressar.
O acesso ao status pastoral não significa acesso à percepção das coisas, nem domínio cultural.
Dante Alighieri, e outros gênios, trouxeram contribuições valiosíssimas à Igreja Católica, que não fariam parte de seu tesouro espiritual, se gênios como eles não lhas oferecessem.
No entanto, o próprio Dante cometeu excessos.
Sob certo ponto de vista, ele não foi muito cristão quando colocou no Inferno dois Papas: um Santo, canonizado pela Igreja, Celestino V, e outro mundano assumido, Bonifácio VIII.
Embora o Inferno de Dante não passe de uma ficção, mesmo assim o Poeta antecipou-se ao julgamento de Deus. Não foi dócil à ordem de Jesus que disse, intimativamente:
- A ninguém julgueis. Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos
(Evangelho de Mateus, 7, 1-2).
Se fosse julgado pela mesma medida que ele empregou para julgar Bonifácio VIII, Dante não escaparia ao Inferno.
Bonifácio foi colocado no Inferno por infração a determinados mandamentos; Dante, 0lá estaria, mas devido ao descumprimento de outros mandamentos: Bonifácio por simonia, Dante por luxúria.
Além disso, ao longo da Divina Comédia, Dante mostra-se menos cristão do que se poderia desejar.
Em algumas de suas “condenações”, revelou-se um rancoroso de marca maior, um colérico unidimensional.
 Mão obstante, a Divina Comédia é obra de um poeta essencialmente cristão.
Tomemos outro autor: Blaise Pascal, cujos Pensamentos são um monumento da literatura francesa.
 Pessoalmente, fui profundamente influenciado por esse pensador e cientista. Hoje, mais amadurecido, devo confessar que a visão radicalista de Pascal, seu pessimismo jansenista, deixaram em mim vestígios de um pessimismo metafísico, que só pôde ser neutralizado por uma meditação profunda e demorada das obras de Francisco de Assis, de Anselmo de Cantorbery, de Tomás de Aquino, e de Bernardo de Claraval.
Um leitor não precavido de Pascal pode assimilar-lhe aspectos de seu mundo mental incompatíveis com uma cosmovisão evangélica.
Disso se infere que todo escritor cristão, ou mais especificamente, que todo escritor católico, expressa apenas pontos-de-vista.
Ilustra setores de uma determinada sensibilidade religiosa, jamais a integralidade da experiência católica, pela razão de que os escritores expressam sua subjetividade, distanciando-se das frias balizas  da Teologia Dogmática.
A sensibilidade, por sua própria natureza, tende a ser parcial, a privilegiar os aspectos que mais se adaptam ao temperamento do autor, à cultura em que este foi plasmado. Principalmente, em se tratando de poetas e ficcionistas.
À luz de tais critérios, é permitido afirmar que não existe um escritor católico perfeitamente ortodoxo.
Todos os escritores, católicos, sob certo ponto de vista, são heréticos, no melhor sentido da expressão, ou seja, no sentido de que escolhem para si, sublinhando-os ou caricaturizando-os, aspectos da Weltanschauung Cristã. Só assim eles são significativos.
 Sem tal pseudo-deformação, suas obras poéticas e ficcionais seriam desprovidas de interesse.
Pode-se dizer o mesmo sobre a produção católica de autores como L. Bloy, G. Bernanos, F. Mauriac, Marie Noël, T.S. Eliot, Graham Greene, Murilo Mendes, Gustavo Corção, G.K. Chesterton, Bruce Marshall, dezenas de outros.
Mesmo nas obras de escritores aparentemente super-fiéis à práxis e à moral cristã, como Alessandro Manzoni, Paul Claudel, Francis Jammes, Jorge de Lima, e outros, descobrimos, com frequência, desvios da normalidade católica, ou – ao menos – dribles de sua ética, ou de sua dogmática.
Arrisco-me a formular uma questão: será possível ler Juliana de Norvich, ou Ângelus Silesius, sem conceder-lhes algumas estranhas suposições católicas?
Se os lemos ao pé da letra, vemos que seus melhores “achados” têm um sabor agridoce de respeito à tradição, e de violação dessa mesma tradição.
Os guardiães da Dogmática e da Moral Cristã, os obcecados xerifes das Congregações Romanas, fazem bem em ficar com um pé atrás em relação aos escritores católicos, considerados no seu conjunto.
Nenhum deles está disposto a permitir que, sob a autoridade exterior da Igreja, lhes vistam camisas-de-força. Nenhum deles aceita que, às suas visões pessoais religiosas, às suas sensibilidades íntimas, ao seu sigiloso paladar de intuições, sejam adicionadas doses de estreito moralismo, ou de censura boçal.  
Um exemplo: se um escritor católico sentir, no fundo de si, que não pode conciliar seus sentimentos solidários para com a Humanidade com o dogma do Inferno, concebido como guilhotina de cabeças agnósticas e atéias, tal escritor não eliminará, de suas obras a suspeita de sua antipatia pelo citado dogma. Esse escritor poderá, a frio, professar tal dogma, mas no intimo de si, continuará a sentir algo que contradiz a afirmação do dogma, embora o escritor continue a crer no Mistério que tal dogma encerra.
Que atitude adotará a Igreja perante tal escritor? 
Antigamente, havia um recurso: incluí-lo na lista dos Autores Proibidos!
Hoje, possivelmente, a Igreja prefere outra solução: deixá-lo entregue à sua consciência, que – de acordo com São Tomás de Aquino - deve ser seguida, mesmo quando errônea.
 A Igreja sabe que, do ponto de vista subjetivo, houve diversos escritores católicos que foram – do-ponto-de vista objetivo, hereges...
Ou seja: seriam hereges hoje, se persistissem nas suas posições teológicas de então. Por exemplo, São Bernardo de Claraval e São Tomás de Aquino, que se opunham ao Dogma da Imaculada Conceição!
É melhor, para o bem do Catolicismo, não hostilizar seus poetas e ficcionistas.
Uma coisa é proclamar dogmas e princípios éticos. Outra, explorar, à luz da Fé, os domínios da sensibilidade e da imaginação.
Quando São Paulo diz: “o olho não viu, o ouvido não ouviu, nem passou pelo coração dos homens o que Deus prepara aos seus eleitos” (1 Cor 2,9), é evidente que o Apóstolo emprega imagens poéticas, ou ao menos  artifícios retóricos para descrever os prazeres da vida Eterna.
Na esteira de São Paulo, o escritor católico pode dar livre curso à sua imaginação, explorando o imenso território que o Espírito Santo deixou à criatividade poética ou imaginação dos crentes.
Nesse domínio não existem heresias.
Existem, quando muito, incursões atrevidas de talentos e gênios que o próprio Espírito Santo criou, ao criar homens e mulheres dotados de um dom singular: a liberdade, que lhes permite escolher, amar e imaginar. 

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