segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Catolicismo É Chamado a Dar sua Contribuição à Solução da Crise

I. A leitura do livro Atos dos Apóstolos, que integra o Novo Testamento (o qual se compõe de 27 livros), deveria ser objeto de uma atenção carinhosa dos católicos, e de todos os que simpatizam com a Revelação de Jesus.
 Os Quatro Evangelho constituem o núcleo central da Revelação.
A maioria dos católicos, também, costuma atribuir atenção particular às Cartas de São Paulo .
Depois delas, lêem-se com maior ou menor atenção, as demais Cartas Apostólicas: uma de São Tiago, duas de São Pedro, três de São João, uma de São Judas, e enfim o Livro do Apocalipse.
A leitura, porém, do livro dos Atos dos Apóstolos deveria impor-se por uma razão peculiar: o relato da propagação da Boa Nova, a descrição pormenorizada das dificuldades que a Boa Nova encontrou para penetrar no mundo de então, os embates que afrontou, enfim, as inúmeras peripécias desses anos gloriosos e frequentemente regados a sangue e lágrimas, deveria comover-nos e, até, fornecer-nos parâmetros para nossas atitudes em relação ao mundo atual.
É evidente que a roda do tempo não refaz caminhos andados. Nossas situações não são as situações dos tempos dos imperadores romanos dos anos 40-70 d.C. Mas, a despeito das diferenças entre eles e nós, causam-nos estupor certos episódios, que parecem do nosso tempo.
        
II. Uma diferença salta logo à vista: os discípulos de Jesus, nos anos que se seguiram à sua Morte e Ressurreição, anunciavam a Boa Nova a um público pagão, isto é, que era evangelizado pela primeira vez.
 Na atualidade, após 20 séculos de Evangelização, estamos diante de uma situação inédita: estamos diante de um público que pensa conhecer a Boa Nova, e na realidade não a conhece.
 Ou antes: o público de hoje conhece uma certa experiência, ou certas experiências de evangelização, que em alguns lugares deram certo, e em outros não. O sucesso da Evangelização nada tem a ver com a evangelização em si.
A Palavra de Deus, contudo, mantém-se pura, da mesma forma que uma fonte não se contamina com os lábios dos que bebem a água dessa fonte.
 Reflitamos num fato: não é a mesma coisa anunciar a Boa Nova a pessoas que nunca a ouviram, que a recebiam com curiosidade, e eventualmente com simpatia, e re-anunciá-la a pessoas, cuja boca foi entortada pelo cachimbo de mil anticlericalismos e “pacotes” de falsidades atribuídas ao Cristianismo.
Os inimigo mais rancorosos do Catolicismo de hoje parecem ser de duas espécies:
a)    Os que foram católicos, embora tenham sido católicos equivocados;
b)    Os católicos que são católicos, porém que confundiram a Boa Nova de Jesus com uma determinada moldura cronológicia, sócio-econômica, ou cultural.
Esses são os inimigos mais temíveis da verdadeora Evangelização da atualidade.
Por isso, para aplanar o terreno, é preciso primeiramente um esforço gigantesco para neutralizar o ressentimento de inúmeros ex-católicos, que continuam pensando que seus sentimentos a respeito da Religião católica são fundados.
Dentro dos círculos católicos, por outro lado, é preciso outro esforço, não menos gigantesco: persuadir católicos que têm excessivas certezas sobre si mesmos, e por isso se recusam a fazer o que os primeiros cristãos :confrontar-se, cada um deles e, em seguida, a comunidade na sua companhia, com os ensinamentos de Jesus de uma forma existencial, e não de uma forma inercial
In discutivelmente, dentre esses dois obstáculos, o ressentimento é a pior forma de oposição.

III. O livro dos Atos dos Apóstolos dá-nos muitas lições a respeito. Ensina-nos que a liberdade humana pode ser aliciada, conquistada, mas não derrubada ou estilhaçada.
         São Paulo é exemplo disso. Foi sempre firme nas suas posições, na sua atitude em relação aos pagãos. Foi, antes de ser cristão, um ex-bom-judeu.
Seus companheiros, todavia, alguns deles, que provinham de famílias pagãs, mostraram-se, antes de serem bons cristãos, também bons pagãos.
Valho-me aqui de uma observação do conhecido historiador católico francês, Étienne Gilson: referindo-se a Tertuliano, apologeta cristão dos primeiros séculos, que se tornou herege posteriormente, o historiador declarou, paroximadamente o seguinte:
- Tertuliano foi um mau pagão antes de ser cristão. Ele não compreendeu os pagãos que se convertiam ao Cristianismo após longa viagem ao fim da noite...Em vez de valorizar a boa vontade deles, seu esforço, para encontrar a verdade, Tertuliano mostrou-se intransigente e mal-humorado. Numa palavra: Tertuliano foi um “grosso” em relação aos ex-companheiros de Paganismo!
Obviamente, adaptei o pensamento de Gilson à atualidade!
O grande problema dos cristãos de hoje é reaprenderem a dialogar. Vinte séculos de Cristianismo tornaram-nos arrogantes. Existe algo mais contr[ário aos ensinamentos de Jesus do que a arrogância?
Foi Jesus quem disse:
- Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.
IV.  Não basta. Se o Catolicismo quiser contribuir, deveras, à solução dos gravíssimos problemas da crise atual, deverá fazer sua autocrítica.
Não é preciso que esta seja retumbante. Melhor, até, que seja silenciosa. Mas autocrítica.
O Catolicismo tem soluções para todos os problema da alma, da salvação eterna, diríamos do que respeita à sua condição de “filhos adotivos do Pai, que usou conosco de misericórdia”.
O Catolicismo, porém, não tem soluções no que concerne aos problemas da sobrevivência material dos seus membros. Terá de aprende-las, não só dos neo-pagãos, ou ex=-cristãos, mas com eles.Jesus deixou bem claro que o seu Reino não era deste mundo. Mas estava neste mundo. São paulo, por sua vez, advertiu os cristãos iniciais que, se eles quisessem evitar todos as crises da sobrevivência humana no mundo material em que estão inseridos, teriam que se expatriar do planeta.
Devido a isso, na atual crise, o Catolicismo deverá mostrar-se “manso e humilde de coração”, e dialogar com os sábios deste mundo, para se chegar a uma solução menos traumática da crise.
Não se trata de transigir nos princípios da Fé. Trata-se de buscar uma nova Ordem Social, que ninguém sabe como poderá ser. Os modelos testados até ao presente fracassaram. Tanto o Capitalismo como o Socialismo, nas formas em que foram experimentados, não produziram os resultados esperados. É necessário, pois, tentar novas soluções, subverter determinados modelos de gestão social, recusar perfídias financeiras como a dos capitais voláteis.
Quem ajudará o Papa Bento XVI a ir muito além das encíclicas do passado? Onde os economistas católicos que podem esclarece-lo?
Porque – convenhamos – um Papa pode – e deve – orientar-nos na economia da Graça, mas na economia da terra, terá necessidade da assessoria de católicos lúcidos, competentes, capazes de desfazer os nós-górdios de uma globalização prematura.
É preciso que o Catolicismo de hoje volta a inspirar-se nos Atos dos Apóstolos quando o Apóstolo Paulo, por exemplo, por ter criado problemas de lucro aos ourives de Éfeso, viu-se envolvido numa situação complicadíssima – como se pode ler nos Atos, no capítulo 19, versículos 21 e seguintes. Vendo na televisão as massas espanholas protestando nas ruas, por que não lembrar as desordens de Éfeso? Lá eram os pagãos que berravam, aqui são os católicos e ex-católicos que berram, insatisfeitos com as soluções econômico-políticas da Eurozona, e dos empréstimos solicitados pelo Governo Espanhol. De quem a culpa de tal situação?
Podemos possivelmente aplicar às multidões atuais a observação do autor dos Atos às multidões de outora:
- Naquela altura dos acontecimntos, a multidão que se achava no teatro estava em completa desorde: uns gritavam uma coisa, e outros gritavam poutra, pois a maioria nem sabia por que estava ali.(Atos 19,32).
Talvez a consciência das multidões, atualmente, saiba bem mais do que os protestatários de Éfeso: os meios de comunicação são outros.
Nós, os cristãos também somos outros. A maioria das pessoas, que inundam as ruas de Madrid e Barcelona, não são de pagãos, mas de neo-pagãos e ex-católicos, pormenor que nos deve preocupar.
Portanto, a leitura dos Atos dos Apóstolos tem alguma coisa a dizer-nos, do ponto de vista evangélico, sobre os tu- multos sociais de nossa época. Inclusive em termos de diálogo político.
As palavras do secretário da Prefeitura de Éfeso – de então – poderiam ser evocadas no contexto atual:
- Se Demétrio e seus ajudantes têm alguma acusação contra alguém, eles podem apresentar suas acusações no tribunal, pois para isso há dias certos de reunião, e também existem os governadores. Porém, se vocês querem mais alguma coisa, isso será tratado na reunião do povo convocada de acordo com a lei. (19, 38-39).
Não é isso mais cristão do que ver ex-cristãos, no caso, doze ou catorze bombeiros madrilenhos se despirem, e diante de um cartaz de parede, nos exibirem seus traseiros, que percorreram o mundo nas telas de tevê?
Sinceramente, um pouco de sal  faz bem a todo o mundo.
Dizia Jesus:
- Tende sal em vós mesmos, e paz uns com os outros.
     (Evangelho de Marcos 9,50).

Nenhum comentário:

Postar um comentário