segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Agrônomo que Promoveu a Vida Agrícola de Caxias do Sul: José Zugno.

 I. Temos, sem dúvida, memória curta. Ao menos em relação à nossa história.
Para explicar tão genética inapetência, talvez sirva recordar que o país só foi descoberto em 1500.
Quinhentos e doze anos, que são comparados aos milhares de anos de Civilizações como a Egípcia, a Mesopotâmica, a Grega?
Alguns souvenirs que sobrevivem em nossa memória reduzem, uma vez espremidos, a uma dúzia de nomes e eventos, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, a morte do Bispo Sardinha (devorado pelos canibais após um desastroso naufrágio), o episódio do jesuíta Anchieta a escrever poemas nas areias de Iperoyg, Tomé de Souza e Mem de Sá entre os primeiros governadores, talvez Dom Pedro I, a Marquesa de Santos, Dom Pedro II, Ruy Barbosa...e, mais perto de nós, a recente Ditadura Militar com alguns nomes associados à Tortura, ou a cavalos do Pampa.
Houve, nas últimas décadas, significativo aumento de historiadores, e outro aumento, não menos significativo, de leitores de história.
Para nossa felicidade, ocorreu, também, um fato notável: os brasileiros passaram a interessar-se pela história não-oficial, pela história sem gravata, pelos heróis que não vestem indumentária régia, nem militar, nem eclesiástica.
Começamos a interessar-nos, finalmente, por heróis de carne e osso, por anônimos que são os que, em definitivo, operam as maiores transformações sociais.

Oxalá - e se Alá não nos serve, no presente momento – que nosso Deus cristão nos favoreça, intensificando nosso gosto por semelhantes heróis de pés no chão, por esses batalhadores que não se pejam de calçar havaianas, empregando, contudo, seus neurônios na obtenção de benefícios sociais.

II. Tive o privilégio de ler a monografia que o engenheiro Ricardo Zugno apresentou, no Curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, para a obtenção do título de bacharel em jornalismo.
Ricardo resgatou a incrível produção de jornalismo científico de seu pai, o agrônomo José Zugno, que detém no Brasil o apreciável record de o mais persistente dos cronistas nacionais, pois manteve uma coluna no semanário Correio Riograndense, de Caxias, de 1953 a 2008, ininterruptamente.
Numa terra onde tudo é vapt-vupt, tal record não só impressiona: chega a comover.
Nada, entre nós, é conquistado lentamente, à maneira geológica, a qual nos brindou jazidas petrolíferas, minas de ferro, e outras riquezas de opulência magnífica. Somos mais parecidos aos beija-flores, que mexem as asas espevitadamente. Apreciamos borboletas que voejam de um lado para o outro.
Digamos, lisonjeando nosso ego, que somos super- dinâmicos!  
Ora, vejam: o agrônomo José Zugno manteve uma coluna num jornal durante 54 anos e 10 meses.
Houve até curiosos que tentaram descobrir-lhe rivais, mas até agora não os encontraram.
A coluna de José Zugno intitulava-se Vida Agrícola.
Talvez seu maior mérito, segundo o historiador Mario Gardelin, tenha consistido em transformar, na área serrana, a monocultura em policultura, tornando-a modelo para todo o Estado.   
Sob certo sentido, a coluna de José Zugno realizou a observação do neurocientista Ivan Izquierdo:
- A ciência é um campo muito vasto, cada vez mais amplo. O método experimental se aplica basicamente a tudo, e a verdade é o que é possível demonstrar, embora essa verdade seja cada vez mais de menos duração.(...) O ser humano é, sem dúvida, o mais inteligente de todos os animais, porém mais inteligente não quer dizer perfeitamente inteligente. Somos muito falíveis. A prova disso está na evolução da ciência: o que sabíamos até 1920, hoje em dia está completamente superado. Amanhã surgirão outros experimentos que demonstrarão que tudo que fazemos está errado.
(In: Revista Cidade Nova. Entrevista a José Antônio Faro. Setembro de 2002).
Izquierdo provavelmente queria dizer, com palavras tão explícitas, que o jornalismo científico não só deve evitar erigir-se em documento infalível dos fatos e de suas interpretações, como não deve divulgar textos dogmáticos pseudo-científicos.  
A esta altura, podemos perguntar-nos:
- Que tipo de informações, ou de sugestões, o agrônomo José Zugno apresentava na sua coluna?
Antes de respondermos a essa pergunta, tracemos-lhe o perfil biográfico com o máximo de brevidade.
Zugno nasceu em 1924, em Caxias do Sul, filho de imigrantes da região do Vêneto. Decidiu ser agrônomo aos 15 anos, atraído pelo exemplo de outro agrônomo, Francisco da Cunha Rangel, que na década de 40, dirigia a “Estação Experimental de Vitivinicultura e Enologia” de Caxias.
Após ter completado os estudos secundários na sua cidade, o jovem Zugno ingressou no Curso de Agronomia da UFRGS e, simultaneamente, no Curso de História Natural da PUC-RS.
Diplomado em ambos os cursos, retornou a Caxias, onde ocupou diversas funções na sua área.
A partir de 1949 – dois anos após sua formatura – o neo-agrônomo interessou-se em modernizar os métodos de cultivo da terra, praticados até então pelos colonos.
Ficou folclórica uma questão prática que o Dr. Zugno formulou aos colonos, que discutiam problemas locais, nenhum deles relacionado com a assistência técnica:
- E se a Prefeitura colocasse em cada distrito um touro de raça para melhorar o gado leiteiro?
A partir desses pressupostos, o agrônomo resolveu iniciar sua “catequese” rural ni “único jornal voltado para a pequena propriedade” que havia então, segundo Tasso de Lima Neto.
 (“Os 75 Anos de um Jornal”. In: Correio Riograndense, Caxias do Sul, 25 de abril de 1984).
Em maio de 1953,  José Zugno estreou sua coluna, na qual abordaria variadíssimos temas, como adubação e uso do solo, meios para combater a erosão, vacinação de pintos e perus, etc.
 Os assinantes remetiam ao colunista sementes, folhas, frutos, ramos, ou qualquer outro material para identificação, e análise de moléstias.
Até ao ano de 2006, os leitores dirigiram a Zugno 5.510 perguntas.
 Somente os títulos referentes a uva, videiras e parreiras somaram 369 questões.
Rovílio Costa, sacerdote capuchinho e sociólogo, além de historiador da Imigração Italiana, condensou a trajetória de José Zugno:
- “Vida Agrícola” é o texto de agricultura, único talvez, que leva consigo o fazer empírico da praxe histórica e o fazer científico de avanço da ciência. Junta o histórico, o afetivo e o operacional, ao alcance de quem tem mais condições e conhecimentos, como de quem deseja aperfeiçoar, em pequena escala, sua já tradicional horta, jardim e agricultura. (...) A coluna une agricultura, botânica, ecologia, culinária, história e, até, religião – e é exatamente isso o que dá sabor e gosto pelas crônicas do autor, sempre bem-vindas e esperadas.
(In: 46 Anos da Coluna “Vida Agrícola”. Monografia de Marcelino Carlos Dezen para obtenção do título de bacharel em jornalismo. Caxias do Sul, Universidade de Caxias do Sul, 1999. p. 99).

III. Conhecer homens como o agrônomo José Zugno deve ser uma obrigação para os gaúchos.
O endeusamento de cantores de rock, ou de esportistas, constantemente “no olho do furacão”, acabou unidimensionalizando a atenção do público.
Em nossa opinião, a mídia teria de fazer maiores esforços para divulgar a obra desses benfeitores da qualidade de vida, que não são convidados a subir aos pódios, nem são ovacionados nos estádios.
Zugno sempre permaneceu fiel ao seu projeto de socialização da agronomia, até l ao último suspiro. Estava morrendo, e no entanto, pensava ainda em como continuar trabalhando em favor do social.
Escreve seu filho Ricardo:
- O ultimo artigo de Vida Agrícola foi redigido e revisado no hospital, pouco antes de o seu autor ser submetido a uma intervenção cirúrgica.
 Eis aí uma personalidade, a respeito da qual o ex-Ministro da Agricultura, Francisco Turra escreveu:
- Não fosse pelo jornal dificilmente eu seria hoje Ministro da Agricultura. Foi o Correio Riograndense que despertou em mim o interesse pela agricultura. Lembro que, na infância, muitas vezes procurei levar ensinamentos da coluna Vida Agrícola do Dr. Zugno à realidade.
(Monografia. Ibid. p. 66-67).  
Um homem, como o Dr. Zugno que atuou em inúmeras frentes de trabalho, iniciando, na região serrana, a inseminação artificial, participando da criação do Horto Municipal, incentivando o Serviço Regional de Apicultura e de Ovinocultura, promovendo - até – um histórico Concurso de AbóConcirso de Abboras...merece nossa carinhosa recordação.
Uma citação do romancista e ensaísta gaúcho, José Clemente Pozenato, pode servir-nos de remate:
         - José Zugno é um cronista que é história.
(Cit. na Monografia. p. 48).
Se História significa pertencer à memória coletiva - a única memória que subsiste através dos séculos - o modesto agrônomo de Caxias já faz parte dela!

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