segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Literatura não se Discute: Saboreia-se. Paulo Coelho e Joyce

I. Paulo Coelho provocou, recentemente, algumas marolas internacionais com sua declaração- senão acintosa - ao menos petulante: que o romance Ulisses,  se fosse espremido, daria para abastecer um twiter!
Não foi, sem dúvida dos melhores achados do Mago!
Em vez de retirar de seu chapéu um coelho - ou então uma lebre – Coelho acabou retirando um sapo!
Para que apelar para recurso tão desgastado?
Se Paulo Coelho desejava chamar a atenção da Grande Crítica para sua própria produção literária, teria que ter pensado num recurso mais eficiente: o de aprimorar sua literatura.
Concordo num item com o “Alquimista”: sua geração Pré-Internet, foi bombardeada pelos “donos do elogio oficial” (os ex- colunistas dos grandes jornais), e pela auto-suficência de alguns docentes universitários.
Coelho desnudou um fenômeno: na sua época a obra-prima de Joyce - ilegível para 90% dos leitores - tinha obrigatoriamente que ser lida e apreciada.
Os mestres pensavam que recomendar lingüiça de cisne, de águia, ou de hipopótamo, era o mesmo que excitar a glutoneria de pessoas menos interessadas nessa lingüiça do que num risoto à italiana, ou num vatapá bahiano.
Resultado: de tal sobranceria jornalística resultou uma rejeição “nacional” ao Ulisses.
A maioria dos leitores brasileiros preferiu fingir que gostava. Não entenderam quase nada, nem chegaram ao fim da leitura.
A minoria foi mais honesta: questionou a excepcionalidade do romance Ulisses.
 Os verdadeiros leitores de Joyce acabarasm perguntando-se a si mesmos se a obra-prima de Joyce era um livro de leitura, ou um exercício de alpinismo literário.
Eu não consegui chegar à última página da tradução de Houaiss!
Que existisse um Joyce em inglês, era admissível.
Que existisse um Joyce tupiniquim, era demais!
Antônio Hoauiss homem culto, afirmam alguns, cultíssimo, sentia-se familiar entre os maiores cozinheiros da História, ao mesmo tempo que  privava, com todos os gênios da Cultura.
Paulo Coelho, portanto, fez-nos um favor: denunciar a hipocrisia literária, que consiste em colocar na Glória de Bernini  escritores que ficariam mais honrados instalados num nicho de uma das cinco Basílicas Romanas.
II. Podemos, a esta altura, formular uma questão implícita: terão os intelectuais tendência à prepotência?
O caso de Joyce – e o de Guimarães Rosa, este em menor grau – ensinam-nos algo.
Poucos escritores e intelectuais brasileiros leram, do primeiro ao último capítulo, as obras desses dois ficcionistas.
Conheço escritores que me confessaram não ter podido ir até ao fim.
Nenhum deles ousou dizer em voz alta a verdade.
Criou-se, portanto, um hiato entre a leitura efetiva, e a leitura afetiva, isto é, entre a leitura que o escritor ou intelectual fez, e a leitura que desejaria ter feito.
No caso de Guimarães Rosa, cheguei a descobrir-lhe a grandeza.
Digo mais: cheguei a descobrir-lhe a genialidade lingüística e ficcional.
 Por uma razão: fui convidado, um tanto por acaso, a falar sobre A Presença de Deus em Grande Sertão: Veredas, num Simpósio Latino-Americano, em Bogotá, em 1986.
É claro que levei a sério o convite que a Universidade Javeriana me fez. Mergulhei, de corpo inteiro em Guimarães Rosa.
Voilà!
Só mergulhando na sua obra é que se pode descobrir o gênio de Rosa!
Acontece que eu falo a mesma língua que ele, isto é, a mesma língua que ele falava - não a língua que depois, ao escrever, ele falou.
Rosa não inventou uma língua nova: contentou-se em explorar-lhe o subconsciente e o inconsciente.
 Não criou um novo português: remexeu-o profundamente, como se remexe um tacho de goiabada.
Escreveu, falando consigo, a sós, uma lingua só dele.
Teve, contudo, a cortesia, de deixar-nos uma chave.
Pode-se abrir a Gruta de Ali Babá de Rosa com a chave - mais gazua que chave – que ele deixou.
Se não no-la tivesse deixado, teríamos que recorrer a um pé-de-cabra.
Joyce fez o mesmo no seu idioma. Deixou também uma gazua para seus idiotas - no significado derivado de Idiotismo: “construções ou locuções próprias de determinada língua e que se não pode traduzir literalmente noutras”. 
Ninguém acredita que um não-falante da língua inglesa pode ler satisfatoriamente Joyce.
Não existe tradutor que possa ser traidor, dentro de uma língua em cujo seio não nasceu. 
Sob esse aspecto, como não dar razão a Paulo Coelho?
Devemos dar-lhe razão, também, noutro aspecto: é preciso não canonizar Santos Literários cujos milagres não se rtornaram evidentes.
 Ressuscitar um morto é uma coisa: ressuscitar um morto de parada cardíaca, que retorna à vida após um curto-circuito, é outra.

III. As marolas, causadas pela declaração de Paulo Coelho, tiveram outro mérito:  provocaram uma reflexão fecunda sobre a própria leitura.
Não basta entender o assunto de um poema ou de um romance, para compreende-los.
 Além do assunto, o poema e o romance são objetos, e objetos de fruição.
Um poema e um romance são pratos – não para serem vistos sobre uma mesa com toalha de linho e talheres de prata – mas para serem saboreados.
No caso de Joyce, seu romance, também, é iguaria. Mas nem todos gostam de lagostas, ou de escargots, mesmo termperados com ervas especiais, e regados a vinho da Madeira.      
Joyce é para gourmands.
Sim, é para  gourmands .
Acrescentemos: para gourmands que privilegiam a culinária inglesa.
Prefiro a Joyce Albert Camus, Giovanni Verga, Jorge Luís Borges, Garcia Márquez, Juan Rulfo - e o não-trivial variado de nossas melhores mesas:  Erico Veríssimo, Graciliano Ramos, José Lins do Rego - cujo Fogo Morto  está a merecer novas releituras. le
Ah!  E Perto do Coração Selvagem ou Maçã no Escuro, da Clarice Lispector?  
A provocação de Paulo Coelho talvez nos ajude a ter uma memória com mais autonomia de vôo, e a tornar nosso paladar menos estrangeirado.

2 comentários:

  1. Caro Professor, com efeito, também eu há algum tempo venho reparando que a cisão entre leitura e fruição, feita às vezes de forma inconsciente por alguns literatos e intelectuais, é um desserviço à leitura e à literatura de forma geral. É preciso poder-se não gostar de qualquer coisa - incluindo Joyce - para que se possa efetivamente e sinceramente apreciar o que quer que seja - incluindo Joyce. Borges costumava dizer isso a respeito de Milton. "É um de meus autores favoritos, mas não prentendo obrigar ninguém a amar o Paraíso Perdido tanto quanto eu". O amor por um livro, enfim, é algo tão pessoal quanto outros tipos de amor.

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  2. Professor - isso é que tirar 'leite de pedra'. Um dito publicitário, um comentário de mau gosto, uma piada jocosa, um palavrear de pauta para a mídia e auto-promoção, apenas. As traduções nunca se equivalem à obra original, mas não se furtam, não escapam, de criar, da poiesis. E, tradução ou não, leia-se o não-dito, por cada um. Algo tão pessoal, como disse o Botelho. Tão pessoal que Você conseguiu tirar um coelho da cartola diante de uma simplificação, creio eu, inédita, da obra de Joyce.

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