quarta-feira, 1 de agosto de 2012

“Eu Venci o Mundo”: Digressão para Mentes e Corações Inquietos.


 INos momentos de crise – de crise histórica, não de crise anunciada – devemos “refontalizar-nos” (expressão que se tornou corrente a partir do anos 70, por influência do Papa João XXIII).
Nem todas estão envenenadas.
Algumas continuam jorrando de rochas cristalinas, maravilhosamente abundantes.
É evidente que existem fontes falsas, produtoras de sonhos e miragens. Não oferecem água à sede, mas “imagens de água”.
As verdadeiras fontes são generosas: oferecem de beber a todos, inclusive aos cães.
Eis por que a Mulher Samaritana pediu água a Jesus.
Jesus disse-lhe:
- Se soubesses o que Deus pode dar, e quem é que te está pedindo água, tu lha pedirias, e Ele te daria água da vida. (...) Aquele que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. A água que eu lhe der será nele como uma fonte viva que dará vida eterna.
São palavras que não passarão, embora o céu e a terra algum dia passem.

II. Nas atuais circunstâncias a mensagem de Jesus é de uma urgência incomodativa.
Não que o mundo tenha deixado de ser mundo!
O mundo sempre precisou de salvação, seja no tempo do homem pré-histórico, seja no tempo do homem que amassava tijolos para os Faraós - seja no tempo em que Nero, julgamndo-se por assim dizer um ator da Globo, tocava cítara, enquanto Roma ardia.
Jesus não parece ter vindo a este mundo para salvá-lo de uma situação.
Interpretar a Boa Nova como se interpretam as mensagens de Confúcio, Lao-Tsé, Zoroastro, Buda, ou Maomé, é minimizar o Evangelho.
Ao passo que a doutrinação dos citados mestres destina-se a enunciar uma ética, a Boa Nova de Jesus vai muito além do esclarecimento das consciências.
É Iluminação.
É genuína Salvação.
Não admira que Confúcio, Lao-Tsé, Zoroastro, Buda, ou Maomé não tenham, jamais, identificado sua mensagem com as próprias pessoas.
Quem mais se aproximou de Jesus foi Maomé, quando uniu o anúncio do seu monoteísmo ao seu “profetismo”: Alá é o Senhor, e Maomé, seu profeta. Não vinculou, todavia, seu monoteísmo a si mesmo.
Jesus fez isso:
- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Nas circunstâncias atuais, em que a Europa está quase “implodindo”, do ponto de vista de seus valores culturais e religiosos (além dos econômicos), é preciso, reafirmar, com veemência que ela – a Europa – não se identifica com o Cristianismo.
A Europa é uma experiência de Cristianismo.
Será preciso, portanto, voltar à fonte de Água Viva, que jorra em todas as direções.


III. Não afirmamos que a contribuição cristã da Europa se tenha esgotado.
Afirmamos que ela precisa ser reconduzida à sua Fonte, onde reside o Catolicismo.
Católico significa universal.
Num momento tão desalentador como o que passamos, convém lembrar a afirmação de Jesus:
- Eu venci o mundo!
Onde ressoou tal afirmação?
Calem-se os Nobéis de todas as áreas, os filósofos de todas as correntes, os defensores de todos os ideais.
Não pretendemos dizer que devemos ouvir os vociferantes pregadores de tevê – como os que têm surgido nos últimos tempos.
 Não estamos precisados de anunciadores vociferantes.
Estamos precisados de silêncio para que, no coração de cada um,  ressoem, como num búzio, as palavras do Mestre.
Jesus precisa de crentes na sua Palavra, que a interpretem sine glossa, como o afirmava Francisco de Assis: sem comentários.
É claro que existem no Evangelho rationes seminales,  germes de soluções sociais, econômicas e culturais para o nosso tempo.
Imaginar que o Evangelho só funcione sob uma campânula, ou dentro de uma ampola, da qual se retirou o ar, é trair Jesus.
Ele nunca pretendeu ausentar-se deste mundo.
Sua afirmação é claríssima:
- Estarei convosco até à consumação dos séculos.
Estará, então, nos aeroportos, nas ruas e praças, nas Bolsas de Frankfurt, Paris, New York e Tóquio? 
Estará em Alepo, Homs e Damasco?
Estará em Pequim, capital de uma nação onde os cristãos não chegam a cinco por cento?
É evidente que sim.
Eis porque devemos retornar às fontes, mais precisamente à Única Fonte de Água Viva.
Voar dentro de um Boeing não é a mesma coisa que voar dentro da dor e da morte, em busca de uma resposta ao enigma da vida.
Enigma?
Enigma... até a liberdade de cada ser humano encontrar a sua sede pessoal, que é sede de uma única coisa: a felicidade.
É preciso repensar a afirmação de Jesus: Eu venci o mundo.
É preciso ir além da esperança terrestre - entrar na Esperança Evangélica, na única Esperança que é dada ao homem para que possa ultrapassar seus limites.
Somos convidados a resistir em paz (como propunha Francisco de Assis, no seu poema Cântico do Sol).
Nem inação, nem ação desvairada.
Nem contemplação solipsista, nem recusa a pensar.
Nem, mesmo, o desespero de uma abelha, que se extraviou quando procurava néctar, e acabou dentro de um apartamento, sem saber aonde dirigir-se.
 Que o dorso de uma mão amiga se ofereça à pobre abelha, ajudando-a a voar à sua altura, à medida de suas asas, em busca das flores de um limoeiro, que esteja florescendo nas suas imediações. 

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