quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Dançar: Para Quê?


I. É possível que a primeira forma de arte, que existiu no mundo, tenha sido a dança.
Antes mesmo de o homem modelar o barro, tornando-se modelador e“escultor”, poderá ter modelado seu corpo.
Em tal hipótese, a primeira artista, verdadeiramente surgida no mundo, teria sido uma mulher.
Levada pelo instinto de sobrevivência, responsável pelas molas secretas e intimativas do sexo, a fêmea do animal racional poderia ter-se dado conta de que, por meio da exibição inteligente de suas curvas , podia tornar mais atraente o que, já  era atraente.
Não há razões para excluir semelhante possibilidade.
Que mal haveria em uma fêmea o provocar seu macho predileto? A natureza, preocupada na multiplicação dos seres humanos, pode – em qualquer época da histórica – intensificar  a voltagem erótica dos corpos.
Subsiste, ainda hoje, em qualquer tipo de dança, seja no balé clássico, seja na dança contemporânea – resíduos dessa volúpia inicial.
A indumentária das bailarinas, e suas outras elegâncias de neutralização do sex-appeal em favor dos efeitos estéticos de suas perfomances, não consegue suprimir a dimensão subliminal do sexo de sucção-de-sucção, que é substituído por uma espécie de sexo de fruição à distância. Os teóricos, para caracterizarem a fruição estética, sempre recorreram à noção de “distanciamento psíquico”.

II.  Isso foi (ao que parece) nos inícios.
À medida que o homem se civilizava, teriam nascido na sociedade humana os ritos de convivência, e mais tarde (ou teria sido simultaneamente?) os ritos religiosos.
André Leroy-Gourhan, o grande especialista francês da Arte Pré-Histórica parece ter razão quando sustenta que as pinturas de Altamira e de Lascaux (aproximadamente 40.000 ou 50.000 a.C., portanto anteriores à era histórica - à era dos documentos escritos) e sustenta que elas eram a expressão de um contexto oral. Noutras palavras: os homens dançavam, no interior de suas grutas, porque já a sua própria imaginação dançava com palavras.
Numa expressão incomparável.o historiador francês diz:
- As pinturas pré-históricas infelizmente não puderam ser preservadas com os rudimentares poemas que lhes davam suporte. Não existem fosseis verbais.
Como não aderir a uma teoria tão aliciante?
Inferimos disso que a Arte Pré-Histórica incluía um componente coreográfico, de natureza religiosa, que servia de inspiração às reuniões do grupo humano, preocupado com sua sobrevivência como grupo (daí seus aspectos sexuais), e também como horda caçadora-coletora (dão seus eventuais aspectos sócio-econômicos).

III. Com o transcorrer da Evolução, a dança transformou-se num espetáculo, posto tenha camuflado suas características primitivas, ligadas às necessidades mais urgentes da sobrevivência.
Os homens, isto é, os primeiros dançarinos “oficiais”, foram os machos. Eram dançarinos vaidosos, interessados na ostentação de suas habilidades de pintores corporais. As fêmeas os acompanhavam discretamente.
Quando, porém, o teatro propriamente dito apareceu na Grécia, elas tomaram o papel, que já tinham tido outrora como reprodutoras. Especializaram-se, então, na sua feminilidade.
Inventaram, no contexto das próprias danças tribais, inicialmente de carácter religioso, formas cada vez mais estéticas de expressão corporal. Através dessas formas a mitologia inseriu-se adequadamente no imaginário social.
Foi, contudo, mais tarde que a dança recobrou sua função erótica inicial, e acabou sendo aceita, e até promovida, pela sociedade permissiva dos Romanos, que parecem tê-la conduzido a graus de obscenidade surpreendentes. Ficaram famosas as saltatrices de Cádiz, no tempo em que a Espanha era província do Império Romano.
Não é preciso insistir que, com o advento do Cristianismo, a dança lasciva teve seus dias contados. Só reapareceu nos séculos XII e XIII, com os Trovadores Provençais, que brilhavam nas Cortes da Aquitânia, onde governava o avô de Alienor de Aquitânia, Guilherme IX, um dos grandes promotores desse tipo de voluptuosidade visual.
A partir dessa data, a dança retomou sua função tríplice de dança pré-nupcial, de dança ritual, e de dança estética.
É razoável afirmar que, já na Idade Média, no final desse período, a dança ganhara importância nas cortes faustosas de alguns príncipes.
No Renascimento e no Período Barroco a dança prosperou, adquirindo, progressivamente, seu status de divertimento cortesão, não só como espetáculo acompanhado de música, mas também como evento de prestígio social, no interior dos luxuosos palácios em que viviam os soberanos de Florença, Milão, Mântua, Ferrara e Urbino.

IV.  Restou-nos, como legado à Humanidade, uma arte autônoma, o Balé Clássico, a que se juntou, nos séculos XIX-XX e XXI, o Balé Contemporâneo, que lhe explorou o dicionário de todas as expressões físicas e – diríamos -  e psíquicas possíveis.
O Balé Contemporâneo é uma arte requintada, que nos dá a impressão de ter reunido, numa corbelha gestual, algo da ginástica, algo da acrobacia, algo da teatralidade (da Ópera), algo da malícia do teatro de Molière, Goldoni e outros, e finalmente, uma dimensão plástica que enfeixa as demais conquistas das aparências, tanto as de Caravaggio com seu Luminismo (que punha em ação jogos de luz inicialmente de focos laterais), como as conquistas das correntes artísticas que se lhe seguiram, e que vieram culminar no Cubismo, no Anstracionismo, e no Informalismo.
         Quem vai a um espetáculo de Balé Contemporâneo vai a uma caixa de surpresas. Pode encantar-se praticamente com tudo.
O espectador pode descobrir que o que ele sabia a respeito do corpo era esquemático, ou quando muito aproximativo.
À medida que o Balé se desenvolve no palco, esse espectador ingênuo pode fascinar-se até pelo seu próprio corpo, do qual não imaginava as extensões possíveis, tanto as físicas como as psíquicas.

V. Dedico essas observações e reflexões sobre a Dança a uma amiga recente, a Sílvia Wolff - a cujo espetáculo, com financiamento do FUMPROARTE, assisti, no Teatro da Sociedade Israelita de Porto Alegre, na noite de 28 de julho pp.
Sílvia teve a colaboração de pessoas notáveis nas suas respectivas áreas: Alexandre José Vargas da Silva (Dramaturgia), Félix Bressan (Cenografia), Marcelo Cabrera e Samuel Gazola (Figurinos).
Quanto à colaboração de seu irmão, Daniel Wolff, responsável pela trilha sonora do espetáculo, não há elogios que façam justiça ao seu talento. O espetáculo ficou incrivelmente valorizado por essa trilha. Não só valorizado – diríamos – ficou maximizado, visto que Daniel, atualmente um dos maiores violonistas clássicos do país, lhe adicionou um plus de refinamento, que não era de se esperar, mesmo de talento tão extraordinário.
Alguém qualificou a trilha de Daniel Wolff de “estupenda”. No que nos concerne, assinamos em baixo.
O espetáculo, por ora, não estará mais acessível aos porto-alegrenses.
Irá para outras capitais do Brasil.
De nossa parte, alegramo-nos, numa noite de silêncio e tranqüilidade, em poder verificar que uma das artes mais antigas da Humanidade – talvez a mais antiga - continua viva, também entre nós, e que, no turbilhão de atitudes irracionais que nos envolvem, é-nos ainda dado o privilégio de reencontrar em nós o animal racional que, ao emergir da animalidade, devia guardar o que de melhor existia nos animais irracionais: certa graça, certa – vá lá o nome – ternura, que tende a ofuscar-se no comportamento humano, predador e absurdamente competitivo, de nossa sociedade.
Ver diante de nós corpos jovens, ágeis e belos, é uma consolação que neutraliza o excesso de fotos e vídeos, que nos mostram corpos destroçados, aviltados, enxovalhados, não só na Síria, como em outras partes do Globo.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário