segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Propósito dos Jogos Olímpicos:

 I. Os jogos olímpicos são, até certo ponto, uma oportunidade para a humanidade se regozijar com o corpo, e erguer ao Criador um hino de agradecimento por essa dádiva.
A televisão transmite as competições com detalhes, às vezes, indiscretos.
Os atletas não deixam de ser pessoas (pelo fato de serem, também, personalidades) e podem permitir-se gestos que, normalmente são feitos na intimidade, mas que, devido às exigências profissionais, têm de ser feitos em público, por exemplo, coçar-se o traseiro com uma raquete de tênis, ou...
Não compreendo a razão pela qual os cinegrafistas se sentem “na obrigação” de televisionar tais gestos.
Se tais gestos aparecem nas telinhas é porque nossa sociedade cultiva um voyeurismo exagerado.
 A estas alturas, creio que ninguém mais pode evitar o voyeurismo. Ele está em toda a parte. Manter os olhos fechados é impossível.
Não podendo evitar o voyeurismo, façamos dele, ao menos, algo decente.

II. Os Jogos Olímpicos permitem que tenhamos exibições gigantescas de corpos humanos, tanto de homens como de mulheres.
De corpos quase nus.
Acontece, porém, que nos jogos, o sex-appeal é atenuado, às vezes quase esquecido.
A razão disso é que a atenção dos espectadores se volta às perfomances dos jogadores, aos resultados de suas exibições, visto que se trata de competições.
Não obstante, é impossível escamotear os resíduos da atração sexual que neles se aloja.
Uma questão:
- Será negativo verificar que o erotismo está presente nas competições, ainda que indiretamente?
A exibição de corpos nus, ou seminus, pode harmonizar-se com as exigências da polidez social, e da ética sexual.
O mal não está em visualizar o sex-appeal de corpos humanos. O mal – quando existe – consiste em fixar-se unilateralmente nos corpos.
Uma competição não é uma exibição corporal, como as que ocorrem nas casas de diversão, nem um espetáculo de striptease, o qual, segundo o qualificado autor do Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras”:
- é aquele pequeno show em que alguém vai tirando a roupa, sensualmente, para excitar a tigrada.
(Porto Alegre, LPM, 2004. p. 305).
A maneira de reacionar de um cidadão do século XXI e a maneira de reacionar dos idadãos dos séculos passados, não é a mesma.
A censura social e a censura eclesiástica criavam, nas épocas passadas, uma sobreexcitação sexual, compatóvel com pessoas habituadas a só verem mulheres semi-ocultas.
A partir do século XX, com o advento da fotografia, do cinema e da televisão, nossos hábitos  se modificaram.
 Mesmo não querendo, é impossível não ver corpos seminus, ou em trajes provocantemente sensuais, nas ruas de nossas cidades.
Com isso, a curiosidade sexual debilitou-se – até certo ponto.
O fato é que a exposição permanente de corpos seminus, ou nus totalmente, nos preparou para outros tipos de visões que, se não neutralizam todos os apelos eróticos, os submetem a critérios de tensão erótica saudável.
Por isso, as advertências bíblicas sobre os aspectos atraentes da corporalidade feminina, que outrora inflamavam os pregadores, devem ser encarados com maior amplitude e sensatez.
Seria tolice, contudo, minimizar tal poder de atração – como já o advertia Herbert Marcuse em Eros e Civilização – de determinados comportamentos erráticos.
Sobrexcitar o eros pessoal, levá-lo a voltagens, perigosas e inúteis, cuja insatisfação acaba originando, em determinados temperamentos, atos transgressivos graves, é algo que se deve prever e suavizar.
O sexo, que não for “amorizado”, ou como dizem alguns experts, sublimado pela oblatividade (termo um tanto pedante, mas que tem um significado peculiar ), ficando apenas sob o jugo do narcisismo (outro termo, menos pedante é verdade), embora mais pode ocasionar comportamentos negativos.
Não é o caso dos Jogos Olímpicos, cujas perfomances e cuja dimensão estética contribuem para uma valorização  ética dos corpos masculinos e femininos.
Sob esse ponto de vista, lembremos que Desmond Morris publicou uma obra intitulada: A Mulher Nua, que merece ser lida por um número maior de leitores.
Eis uma das afirmações inesquecíveis de Desmond Morris:
- Toda mulher tem um corpo belo – belo porque é o brilhante coroamento de milhões de anos de evolução, fruto de surpreendentes ajustes e sutis refinamentos que o tornam o mais extraordinário organismo existente no planeta.
(A Mulher Nua. Um Estudo do Corpo Feminino. Tradução de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005. p. 7).
O zoólogo mostra como o conceito de beleza evoluiu, ao longo dos séculos, e como a divisão de trabalho entre machos e fêmeas, que viviam inicialmente em pequenas tribos, foi decisiva para o progresso da humanidade.
- Havia um equilíbrio primevo, afirma ele, entre homens e mulheres. Eles eram diferentes, mas iguais.
(Ib. p. 8).
A conclusão da “Introdução” de A Mulher Nua é exemplar:
- Apresento em cada capítulo o aspecto biológico de uma determinada parte do corpo feminino, e então passo a examinar as várias maneiras como diferentes sociedades modificaram esses atributos biológicos. Foi uma absorvente viagem de descobrimento, e quem me dera que, aos 18 anos, eu soubesse tudo o que sei agora – depois de escrever este livro – sobre a complexidade do corpo feminino.
(Ib. p. 9).
Homens, como Desmond Morris, são necessários a nós, que vivemos numa época de unidimensionalização genital em desfavor do erótico. Ao contrário do que se diz, atualmente, nosso século é menos erótico do que parece ser.
O erotismo supõe maior humanidade na criatura humana, e até uma dimensão de ternura, na fusão fisica dos sexos.
Desmond Morris, deve ser posto ao lado de autores como  o Prof. A. Hesnard, um dos fundadores da Sexologia.
(Cf. La Sexologie Normale et Pathologique. (Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1959))
Esta é uma das obras mais lúcidas, mais refinadas, e de mais persuasiva ética sexual que já lemos. Nada perdeu até hoje de sua atualidade.
Dessa obra disse  o Dr. Toulouse, ex-Presidente da Associação de Estudos Sexológicos e ex-Diretor do Hospital Psiquátrico Henry Rousselle de Paris:
- O estudo minucioso, erudito e perspicaz do Dr. A. Hesnard, prepara o advento de disciplinas, que uma sociedade de tipo novo se verá obrigada a impor ao ato, donde provém a vida de todos os homens, e que carrega em si todas as possibilidades de nossos progressos e de nossas quedas, de acordo com a qualidade dos seres criados. É a melhor preparação a uma higiene sexual, que deveria estar na base de toda educação.
  (Cf. ob. cit. p 2).

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