quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Inflação da Vaidade


I. Tapar o sol com a peneira seria não reconhecer que todos os nascidos no século XX - e forçosamente os do século XXI - padecemos de um mesmo mal: a vaidade.
Esfumaram-se os tempos em que uma Antropologia míope via nos nossos índios a causa de nossa vaidade - da vaidade nacional.
Acusavam-se os índios de no-la terem inoculado, por uma razão, julgada a principal: nas tribos tupis-guaranis eram os machos que se enfeitavam com adornos corporais.
Quem acredita hoje em tais absurdos?
O vocábulo vaidade provém de vanitas, que é, genericamente, a qualidade do que é inútil, sem solidez, sem duração.
A vaidade, também, pode ser considerada o desejo imoderado e infundado de merecer a admiração dos outros, uma presunção mal fundada de si próprio, fatuidade, ostentação, coisa sem sentido.
Apanhe, pois, cada um, o próprio espelho, e mire-se nele.
Será que um só dentre nós escapa a tão inexorável inspeção?
Para os antigos, o espelho convexo tinha o dom de revelar a verdadeira natureza das coisas.
Talvez tal tendência “especular” tenha sido uma invenção dos sábios para neutralizar o mito de Narciso. Este, ao contemplar-se numa fonte, ficou tão encantado de si que se afogou nas águas – embora eu desconfie que uma fonte seja pouco para um indivíduo afogar-se.
Ultimamente, revisei meu ponto-de-vista: já se fala em artistas que, nos Estados Unidos, se afogam em banheiras de hotel de cinco estrelas.


II. A vaidade ataca-nos de todos os lados.
Ela não se confunde com a auto-estima.
A auto-estima é uma apreciação saudável de si mesmo, um “acredito, desconfiando” do que é nossa personalidade.
 A auto-estima é uma auto-defesa, para que não sejamos massacrados pela arrogância e prepotência dos outros.
Os experts, perdoem-nos a ousadia!
Diríamos que a auto-estima é uma endomorfina, que atenua nosso sofrimento, quando alguém vem sobre nós com a motorizada soberba de um trator.
Portanto, a vaidade nada tem a ver com a auto-estima.
A vaidade começa por acreditar que este mundo só deveria ter um único habitante.
Já que isso é impossível, porque Deus é Uno e Trino, e resolveu que sua Criação também seria plural, a vaidade identifica-se com àquele cicio da Serpente que diz:
- Sim, existem muitos homens e mulheres neste mundo.Mas tu, meu caro, és uma criatura única, recebeste um dom particular: o de seres tu mesmo, e nada mais do que isso. Basta seres o que és para valeres o que valem todos os outros.
Não raro, com imprudência, a vaidade é instilada nas crianças sob o pretexto de que elas a ignoram.
Pais e avós exageram – não nos seus afetos, que estes nunca são excessivos - mas na sua ânsia de exibir o que eles não foram, mas desejaram ser.
Talvez a vaidade não seja um grande defeito (como alguns autores espirituais insinuam), mas com o tempo, ela acaba dando a mão ao orgulho, do mesmo modo que um regato nasce de uma fontezinha, porém, a partir do momento em que desemboca num poderoso rio, tende a confundir-se com ele, e depois com Oceano.

III.  A Bíblia contém muitos exemplos de vaidade.
Não nos interessa, porém, deter-nos neles.
Interessa mais aos cristãos fixar-se nos exemplos que a Bíblia nos oferece de anti-vírus da vaidade.
Reflitamos, primeiramente, sobre o critério básico, que nos permite definir a vaidade.
Talvez possa servir-nos de referência o critério, apresentado por um clássico da língua, o amável P. Manuel Bernardes:
- Ela a vaidade – seria o “mau gado, que anda solto à bolota, sem distinguir a que é sua da que é alheia”, e por isso sua divisa é: “Quanto mais engorda, mais grunhe”.
Dito de outra maneira: quanto mais fútil o indivíduo, mais se incha, mais vaidoso se mostra.
Outro clássico, o P. Antônio Vieira, no seu Sermão aos Peixes, deu-nos esta lição coruscante de anti-vaidade:
- Com os (peixes) voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa. Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para as vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que não sois aves, senão peixes, e ainda entre os peixes não dos melhores. Dir-me-eis, voadores, que vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros do vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das barbatanas asas? (...) Quisestes ser melhores que os outros peixes, e por isso sois mais mofinos que todos.(...) Aos outros peixes, mata-os a fome e engana-os a isca, ao voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que voar por cima das antenas, e cair morto.
Quem mais, quem menos, somos peixes-voadores, que não se contentam em ser o que são, mas ambicionam o que não são.
Não me vexo de confessar, batendo até três vezes no peito, que fui vaidoso, e para minha desdita ainda o sou.
Se eu pudesse passar a limpo minha vida, tentaria eliminar dela, desde o início (porque quando se é pequenino é que se torce o pepino) a vaidade de voar, a que se referia o Padre Vieira.

IV. Durante meus estudos, na minha condição de Professor de História da Arte, choquei-me com a vaidade dos artistas, pintores, escultores, arquitetos, e também dos compositores, poetas, e escritores.
O defeito dos gênios é quase sempre a vaidade.
Por causa dela, brigam, passam rasteiras uns aos outros, praticam ações que, à distância, nos parecem ridículas.
Lendo biografias, como a de Miguel Ângelo, deparei-me com as desoladoras fogueiras-de-vaidade entre Bramante e Rafael, dirigidas contra o Gênio da Capela Sistina.
Bem haja quem conseguir, neste turbinoso século XXI encontrar para nós uma vacina eficaz contra esse mal.
Para não desanimarmos , evitemos fixar-nos em dois cenários: no cenário político e, com mais cuidado, no cenário midiático!
É possível, até, que o gosto das massas pelo despudor, ou mais claramente, pelo deboche sexual, tenha mais a ver com a vaidade das pessoas, do que com o sexo.
As modelos apresentam-se, sempre, com caras de insones, de profissionais chateadas.
Nunca se vê nelas a sexualidade risonha, a sexualidade auto-complacente, já que sexualidade feliz parece não existir.
A sexualidade poderia assumir nelas, pelo menos, certa elegância. Seu sex-appeal poderia deixar de mimetizar posições pseudo-eróticas. O que desagrada ao público amadurecido é a graça postiça de manequins que se esbaldam em esgares, nos quais se revela uma imensa vaidade.
Quase como se essas moças quisessem dizer-nos:
- Reparem em mim. Não sou apenas bonita e atraente: sou um ídolo.
Valeria a pena lembrar, a tais profissionais da exibição, os peixes voadores de Antônio Vieira, com sua vontade de voar tendo apenas barbatanas!
Em vez, porém, de fixar-nos, talvez escessivamente na vaidade alheia, arrisquemo-nos a experimentar, em nós uma vacina contra esse mal.
A vacina seria João Batista, que o povo considerava grande Profeta.
Ao aparecer Jesus, João procurou desaparecer:
- É preciso que Ele cresça e eu diminua.
Quem não se comove com as palavras desse Santo, que pagou com sua cabeça a coragem de se opor à mãe da dançarina Salomé:
- Eu não sou digno nem ao menos de desatar-lhe as  sandálias...
(Evangelho de Mateus, 11,3).
Mais, porém, do que a João Batista, peçamos uma lição de modéstia à Virgem Maria.
 Ela, que apareceu citada em último lugar na narrativa dos Atos dos Apóstolos sobre a vinda do Espírito Santo, ajude-nos a livrar-nos desta praga.
 A bendita entre as mulheres constitui, para a Humanidade, o exemplo mais prodigioso de um ser humano que não ambicionou ser o que não era, e que, por essa sua atitude, foi o que todos nós desejaríamos ser: uma pessoa feliz.
A mais abençoada entre todas as mulheres – proclamou-a Isabel, que modestamente acrescentou:
-  Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor me visite?
(Lucas 1,43).

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