segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Maria, Mãe de Jesus, o Maior Paradoxo do Cristianismo.


Simone Martini. Tempera sobre madeira. 1333. Galeria Uffizi, Florença.

I. - O que é um paradoxo?
O velho Morais define: toda proposição, verdadeira ou não, contrária à opinião pública.
Outro dicionarista é mais explícito:
- Diz-se do que parece ser contrário à razão, à lógica, ao modo habitual de ver as coisas.
Para que o leitor possa entender a reflexão, que vamos propor-lhe, convém tenha nas mãos algumas chaves interpretativas.
A primeira delas: Martinho Lutero.
Por que Lutero?
Porque ele foi o deflagrador da Reforma Protestante, que trouxe um hábito novo aos católicos, pelo qual estes deveriam sempre ser-lhe agradecidos: o hábito da leitura pessoal da Bíblia.
A Bíblia, na época de Lutero, não exigia de seus leitores uma interpretação pessoal assimilativa. Dava-se valor apenas à leitura institucional, reservada aos eclesiásticos, proprietários das raras cópias que existiam do texto sagrado.
 Será preciso lembrar que, ainda no tempo de Lutero, um exemplar da Bíblia custava o preço de uma propriedade rural, e que sua leitura era inacessível ao grande público, visto que a invenção da imprensa por Gutenberg ocorreu somente por volta de 1438, e a impressão da primeira Bíblia, a de 32 Linhas, realizou-se em1456, ou seja, 61 anos antes das 95 Teses do Reformador?
Lutero não fez outra coisa senão pôr em pé o ovo de Colombo!
Que é a Bíblia senão um diálogo de Deus com todos os membros da raça humana, principalmente os que aceitam sua Revelação?
Não importa que a Revelação tenha sido feita através dos Profetas, testemunhas desse diálogo. A Revelação, em si, foi dirigida primeiramente a todo o povo de Israel, e por meio dele - a partir da vinda de Cristo - à Humanidade, sem exclusão de nenhum de seus membros.
Infelizmente, o fato de não existirem, durante séculos, exemplares à disposição do “grande público”, levou a Igreja a considerar a Bíblia um objeto seu, instrumento principal de sua liturgia.
Com um pouco de exagero, é lícito afirmar: a Igreja, considerava a Bíblia sua propriedade privada.
Registremos, também, um fato peculiar: os fiéis não liam a Bíblia; os fiéis a ouviam.
Isso ocorria por dois motivos: porque não dispunham de exemplares à mão; em seguida, porque não sabiam ler.
O resultado de semelhante situação foi o surgimento de uma  anti-evangélica arrogância nos circulos eclesiásticos.
Uma arrogância, temperada pela humildade em alguns de seus membros, principalmente monges, como Agostinho, Anselmo e Tomás de Aquino. Estes apercebiam-se da necessidade de haver duas leituras da Bíblia: uma pessoal, outra coletiva (ou eclesial).
Isso explica a polêmica de Santo Agostinho com seus adversários, tal como aparece nas páginas de sua autobiografia, Confissões, no Livro XII, onde o grande Doutor aborda o tema da Criação do Mundo.
Santo Agostinho não pretende condenar outras interpretações do Gênesis. O Santo sustenta, apenas, que a leitura bíblica não é leitura ditatorial.  Segundo ele, a leitura bíblica ,é uma leitura de fé, que só pode ser feita com a ajuda do Espírito Santo, o inspirador dos autores sagrados.
Em resumo: a leitura bíblica não é uma leitura comum, como a de um Tratado de Astronomia, ou de um romance, mas uma leitura devota.
 Mais que uma leitura, a Bíblia é uma audição: fides ex auditu: a fé transmite-se pelo ouvido.
Por um lado, pois, a leitura bíblica é leitura pessoal, de alguém que adere à Revelação; por outro, é leitura comunitária .
Sob esse segundo ponto de vista, é legítimo declará-la leitura institucional, visto que a Fé não se reduz a uma adesão solitária, mas é adesão que supõe outras adesões.
Se é verdade que a leitura bíblica começa por ser uma leitura pessoal, também é verdade que ela termina - como terminam os rios - no mar de uma leitura comunitária.
Lutero teve o mérito de relembrar aos católicos que não existe Bíblia para cabeças frias, e que a Bíblia só tem sentido para pessoas às quais Deus é sensível ao coração (expressão mais tarde usada pelo católico Blaise Pascal (1623- 1662).

II.  De acordo com o ponto-de-vista do Antigo Testamento, o primeiro papel na humanidade é atribuído ao macho: a Adão.
À Eva é atribuído um papel complementar.
Observem como, no Gênesis, a mulher sempre vem atrás do homem.
Adão é quem nomeia os animais. Ele é apresentado como uma criação singular de Deus.
Eva foi tirada de uma das costelas de Adão, quando Deus viu que “não era bom que o homem ficasse só”:
- Vou arranjar-lhe uma companhia apropriada para ele.
(Gênesis 2,18. tradução interconfessional do hebraico, do aramaico e do grego em português corrente. Lisboa, Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), 1993. p.3).
A tentação da Serpente dirige-se, primeiramente, à mulher. Eva é quem oferece a Adão o fruto proibido.
Estamos – é verdade - no domínio do mito, da verdade histórica figurada por imagens poéticas, mas a realidade expressa no mito é nítida: a Queda originou-se da mulher, e não propriamente de Adão, que foi seu cúmplice.
 Ambos foram castigados, porém a Promessa de Deus começou por amaldiçoar a Serpente:
- Farei com que tu e a mulher sejam inimigas, bem como a tua descendência e a dela. A descendência da mulher há de atingir-te a cabeça e tu procurarás atingir-lhe o calcanhar.

III. Vejamos o que acontece no Novo Testamento, de acordo com o novo ponto-de-vista pelo qual é encarada a mulher.
O anúncio da Encarnação do Verbo é dirigido a uma jovenzinha de Nazaré, Maria.
O Anjo Gabriel fala a esta jovem, que os pintores ocidentais pintaram, inicialmente, de pé – afinal, um Anjo, na escala das criaturas, é superior ao “animal racional”. Mais tarde, os pintores, já conscientes de que a jovenzinha era Cheia de Graça, pintaram o Anjo ajoelhado, e Maria de pé.
Se o Antigo Testamento começa com o homem, o Novo Testamente começa com a mulher.
Está e a novidade que não podemos esquecer. A representante da humanidade não é mais Adão, é a Nova Eva, Maria.
Por uma razão misteriosa: o Verbo Encarnado haveria de nascer de uma mulher sem intervenção sexual de um homem. Nasceria de uma Virgem, que permaneceria Virgem.
Ab eterno (isto é, desde toda a eternidade) o Verbo é filho do Pai. Ele já tinha uma Paternidade, antes de nascer.
A responsabilidade da primeira sedução foi atribuída pelo Antigo Testamento a Eva. O Novo Testamento atribui à humilde Maria a restauração da amizade perdida, isto é, a retomada do diálogo entre os homens e Deus.
São Bernardo de Claraval compreendeu, como ninguém, a grandeza do ato livre de Maria:
- Servirei ao Senhor como Ele quiser. Seja como dizes.
(Tradução da Bíblia Interconfessional, já citada: Novo Testamento. Ibid. p. 66).
A tradução mais comum é:
- Eu sou a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.

IV. Durante muitos séculos, a humilde Maria foi mitificada.
Nos seus primórdios, a comunidade cristã não compreendeu, em toda a sua extensão, a singularidade da Mãe de Jesus, sua situação única dentro do Cristianismo.
 Algumas palavras enigmáticas de Jesus contribuíram para isso.
 Mencionemos uma delas.
 A que aparece no relato das Bodas em Caná da Galiléia. O Novo Testamento na Linguagem de Hoje traduz rudemente a resposta de Jesus:
- Não é preciso que a senhora diga o que eu devo fazer. Ainda não chegou a minha hora.
(Sociedade Bíblica do Brasil. Barueri, SP, 2010. p.128).
A Bíblia de Jerusalém emprega expressões menos drásticas:
- Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou.
(Segunda edição revista. São Paulo, Edições Paulinas, 1985. p. 1988).
Desconfio que as palavras de Jesus não foram traduzidas adequadamente, nem pelo Novo Testamento na Linguagem de Hoje, nem pela Bíblia de Jerusalém.
 Possivelmente Jesus empregou uma forma de linguagem aramaica, isto é, um “idiotismo”, locução própria da língua aramaica, difícil de se traduzir, na qual não havia esse travo de altivez – ou até semi-impolidez - que aparece nas citadas traduções.
Não acredito que Jesus pudesse fazer o mínimo agravo à sua Mãe.
Outra citação bíblica, que nos provoca profundas dúvidas, é a do episódio, em que os parentes de Jesus, preocupados com um possível transtorno psiquico do Rabi, convenceram sua Mãe a acompanhá-los, para o tirarem de possíveis encrencas.
 Para melhor chamarem a atenção do Rabi, os parentes mandaram dizer-lhe que sua Mãe estava lá fora, e desejava falar-lhe:
Jesus objetou-lhes:
- Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?
  Apontando com a mão para os discípulos, acrescentou:
- Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos, porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe.
(Mateus 12,46-49.Trad. da Bíblia de Jerusalém. Ob. cit. p. 1862).
        
O Novo Testamento na Linguagem de Hoje traduz:
- Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?
 (...) Vejam! Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos. Pois quem faz a vontade do meu Pai, que está no céu, é meu irmão, minha irmã, minha mãe.
(Ob. cit. p. 23).
Tenho dúvidas, também, quanto a essa passagem.
Em que tom de voz terá Jesus dito tais palavras?
 Isso não foi registrado pelo evangelista.
 Não acredito que, nessa passagem, tenha havido, da parte de Jesus, o mais leve toque de impolidez.
Disponho-me a aceitar o que dizem muitos exegetas:
- Jesus quis sublinhar, nessa passagem, que Maria era sua Mãe mais por aceitar a Revelação de Deus, do que por ter-se disposto a assumir a misteriosa tarefa que o Anjo lhe anunciava, a de sua geradora física.
Atrevo-me a acrescentar o seguinte: é possível que Jesus tenha querido censurar a precipitação de seus parentes, que tinham arrastado consigo sua mãe.

V. Sempre que me detenho na forma como a devoção à Maria se estabeleceu no Catolicismo, fico perplexo.
Parece-me que a humilde Serva do Senhor de Nazaré:
A)  ou foi minimizada;
B)  ou foi des-humanizada (para melhor ser compreendida).

Eis um dos maiores paradoxos de nossa Fé.
Maria foi muitíssimo mais do que semelhante devoção pretende.
Não foi ingênua. Não aceitou levianamente a tarefa que o Anjo lhe propunha. Não caiu numa euforia descabida.
As palavras, que discretamente ela dirigiu ao Anjo antes de dizer-lhe Sim, são de uma objetividade espantosa:
- Como é que isso pode ser, se eu sou virgem?
Responde-lhe o Anjo:
- O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Deus Altíssimo te cobrirá como uma nuvem.
(Tradução da Bíblia Interconfessional. Ob. cit. p. 66).

Reparemos nas palavras de Maria:
- Como é que isso pode ser?
Outro grande paradoxo.
O machismo pretensamente  sofisticado, de nossa sociedade tenta sonegar esse carácter singularíssimo da Virgem Maria.
Tenta algo pior: desconhecer-lhe a grandeza, recusar-lhe a nobilíssima virgindade, virtude que em Maria nada tem dessas virgindades que tresandam a repressão psicológica, ou a naftalina.
A realidade é bem outra: Maria foi uma mulher plenamente realizada, aliás, a única realizada.
Ela foi, ao mesmo tempo, Virgem, Noiva, Esposa, Mãe, sem sofrer a menor perda nesses atributos.
Alguém poderá objetar:
- Como encarar, então, a sexualidade da Virgem Maria?
Tal pergunta pode ser indiscreta, até agressiva, sempre descortês, mas precisa ser respondida:
- Maria, não só teve uma sexualidade normal, mas foi a única mulher verdadeiramente feliz, que já existiu.
Significa: ela foi mais do que aquilo que virou moda denominar, após o surgimento do Feminismo: realização feminina. A maioria das mulheres entende por mulher realizada, a mulher sexualmente realizada. 
Em Maria o sexo, embora normal, não precisou ser ativado. Uma imagem da tradição católica basta para sugerir o mistério que se realizou nela: quando brilha a luz do sol, não se necessita da luz de uma lâmpada.
 Foi o que aconteceu com ela.
O poder de Deus supriu a mini-realização do sexo normal nas pessoas ordinárias, cumulando-a de tais dádivas que a dádiva do sexo, que tanto fascina os homens de hoje,foi – no caso singular de Maria - um dom subsidiário, desprovido da importância que tem para as mulheres e os homens, cônscios de sua condição de resgatados do Pecado Original.
Maria foi a única criatura humana imune ás conseqüências do Pecado Original, a única em que a concupiscência e o orgulho não tiveram vez, a única que não padeceu a mais leve inclinação para o mal.
Todas as mulheres - mesmo as felizes nas suas relações amorosas – parecem sentir (e provavelmente o sentem) um pouco de “ciúme” em relação à Maria.
Que dizer dos homens?
Estes, diante dela, ficam humilhados, porque de alguma forma a jovenzinha de Nazaré denuncia a libido, (que, no estado atual em que se encontra a Humanidade) tende à luxúria, e aos desejos descontrolados e perversos, que desvinculam o sexo do amor, como se o sexo pudesse “funcionar”, ao menos psiquicamente, avulso.
 A esfera, em que as relações amorosas normalmente se cumprem na relação sexual, quase nunca se livram do egoísmo. O comentado egoismo a dois não é    criação dos psicólogos e psicanalistas. É dura fatalidade humana.
Em vista disso, o “ciúme” das mulheres em relação à Maria não é desprestígio para as mulheres. É uma de suas glórias.
A mulher, realizada sexualmente, percebe ,no íntimo de si, ao menos algumas vezes, a existência de um espaço que não foi preenchido, de um desejo que os parceiros foram incapazes de preencher.
É lógico que os amantes masculinos dificilmente reconhecem tal “fracasso”, que a bem dizer os confronta com sua realidade concreta, de pessoas limitadas, alijando-os de suas abstrações românticas, inclusive ada abstração de alguns passionais que se julgam “céus portáteis da sexualidade”.
A realidade, a tangível realidade, é outra: os homens são, apenas, parceiros no amor. Não são  suas causas eficientes, menos ainda, suas causas finais.
A existência, portanto, de Maria no Cristianismo, sobretudo no Catolicismo, obriga homens e mulheres, a uma lúcida e admirável desnudez psíquica, em  termos de aceitação da Revelação de Jesus.
Sintetizando, pode-se afirmar: este é o paradoxo maior do Cristianismo!
Por um lado, deve-se adorar a corporalidade de Cristo, unida à sua Natureza Divina de Verbo Eterno.
Por outro, deve-se imitar Maria, a primeira entre os Ressuscitados, a humilde mulher que, já neste mundo, viveu o tipo de vida feliz que Jesus prometeu aos seus seguidores, realizável apenas na Outra Vida.
Possivelmente, nenhuma criatura humana poderá salvar-se, sem um mínimo de ajuda espiritual dessa Mulher, que para um mundo super-erotizado como o nosso, não só lhe traz remédio à obsessão do prazer sexual, e às calamidades decorrentes de tal obsessão, mas também consolo às relações eróticas que não deram certo.
Ela dá aos amantes a certeza de que a misericórdia de Deus é maior do que o coração dos homens, e que pode salvá-los, mesmo quando se sintam aparentemente condenados.
Eis por que alguns artistas, como Parri Spinelli (1387-1453), pintaram Madonnas da Misericórdia, temática que começou a popularizar-se na Idade Média, como o mostram miniaturas daquela época,
É hora, pois, não só de sentirmos, como também de compreendermos a profundidade dos versos com que Dante coroa sua Divina Comédia:
        
Mãe virginal, ó filha de teu Filho,
mais alta e humilde que qualquer criatura,
por Deus prevista em seu eterno brilho.

Em ti se ergueu a tão audaz altura
o ser humano, que seu Criador
de Si Mesmo tornou-se criatura.

Qual meio-dia a pino, ali resplende
tua ternura. E embaixo, entre os mortais,
és de esperança vívida nascente.

Senhora, tanto pode teu carinho
que pedir Graça sem a tua ajuda
é não ter asas, e voar sozinho.

Teu bem-fazer não socorre somente
a quem suplica mas, com gentileza,
às preces te antecipas, livremente.

Em ti misericórdia, em ti piedade,
em ti magnificência, em ti se junta
quanto no mundo existe de bondade.

(Trad. de A.T.).

A Propósito dos Jogos Olímpicos:

 I. Os jogos olímpicos são, até certo ponto, uma oportunidade para a humanidade se regozijar com o corpo, e erguer ao Criador um hino de agradecimento por essa dádiva.
A televisão transmite as competições com detalhes, às vezes, indiscretos.
Os atletas não deixam de ser pessoas (pelo fato de serem, também, personalidades) e podem permitir-se gestos que, normalmente são feitos na intimidade, mas que, devido às exigências profissionais, têm de ser feitos em público, por exemplo, coçar-se o traseiro com uma raquete de tênis, ou...
Não compreendo a razão pela qual os cinegrafistas se sentem “na obrigação” de televisionar tais gestos.
Se tais gestos aparecem nas telinhas é porque nossa sociedade cultiva um voyeurismo exagerado.
 A estas alturas, creio que ninguém mais pode evitar o voyeurismo. Ele está em toda a parte. Manter os olhos fechados é impossível.
Não podendo evitar o voyeurismo, façamos dele, ao menos, algo decente.

II. Os Jogos Olímpicos permitem que tenhamos exibições gigantescas de corpos humanos, tanto de homens como de mulheres.
De corpos quase nus.
Acontece, porém, que nos jogos, o sex-appeal é atenuado, às vezes quase esquecido.
A razão disso é que a atenção dos espectadores se volta às perfomances dos jogadores, aos resultados de suas exibições, visto que se trata de competições.
Não obstante, é impossível escamotear os resíduos da atração sexual que neles se aloja.
Uma questão:
- Será negativo verificar que o erotismo está presente nas competições, ainda que indiretamente?
A exibição de corpos nus, ou seminus, pode harmonizar-se com as exigências da polidez social, e da ética sexual.
O mal não está em visualizar o sex-appeal de corpos humanos. O mal – quando existe – consiste em fixar-se unilateralmente nos corpos.
Uma competição não é uma exibição corporal, como as que ocorrem nas casas de diversão, nem um espetáculo de striptease, o qual, segundo o qualificado autor do Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras”:
- é aquele pequeno show em que alguém vai tirando a roupa, sensualmente, para excitar a tigrada.
(Porto Alegre, LPM, 2004. p. 305).
A maneira de reacionar de um cidadão do século XXI e a maneira de reacionar dos idadãos dos séculos passados, não é a mesma.
A censura social e a censura eclesiástica criavam, nas épocas passadas, uma sobreexcitação sexual, compatóvel com pessoas habituadas a só verem mulheres semi-ocultas.
A partir do século XX, com o advento da fotografia, do cinema e da televisão, nossos hábitos  se modificaram.
 Mesmo não querendo, é impossível não ver corpos seminus, ou em trajes provocantemente sensuais, nas ruas de nossas cidades.
Com isso, a curiosidade sexual debilitou-se – até certo ponto.
O fato é que a exposição permanente de corpos seminus, ou nus totalmente, nos preparou para outros tipos de visões que, se não neutralizam todos os apelos eróticos, os submetem a critérios de tensão erótica saudável.
Por isso, as advertências bíblicas sobre os aspectos atraentes da corporalidade feminina, que outrora inflamavam os pregadores, devem ser encarados com maior amplitude e sensatez.
Seria tolice, contudo, minimizar tal poder de atração – como já o advertia Herbert Marcuse em Eros e Civilização – de determinados comportamentos erráticos.
Sobrexcitar o eros pessoal, levá-lo a voltagens, perigosas e inúteis, cuja insatisfação acaba originando, em determinados temperamentos, atos transgressivos graves, é algo que se deve prever e suavizar.
O sexo, que não for “amorizado”, ou como dizem alguns experts, sublimado pela oblatividade (termo um tanto pedante, mas que tem um significado peculiar ), ficando apenas sob o jugo do narcisismo (outro termo, menos pedante é verdade), embora mais pode ocasionar comportamentos negativos.
Não é o caso dos Jogos Olímpicos, cujas perfomances e cuja dimensão estética contribuem para uma valorização  ética dos corpos masculinos e femininos.
Sob esse ponto de vista, lembremos que Desmond Morris publicou uma obra intitulada: A Mulher Nua, que merece ser lida por um número maior de leitores.
Eis uma das afirmações inesquecíveis de Desmond Morris:
- Toda mulher tem um corpo belo – belo porque é o brilhante coroamento de milhões de anos de evolução, fruto de surpreendentes ajustes e sutis refinamentos que o tornam o mais extraordinário organismo existente no planeta.
(A Mulher Nua. Um Estudo do Corpo Feminino. Tradução de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005. p. 7).
O zoólogo mostra como o conceito de beleza evoluiu, ao longo dos séculos, e como a divisão de trabalho entre machos e fêmeas, que viviam inicialmente em pequenas tribos, foi decisiva para o progresso da humanidade.
- Havia um equilíbrio primevo, afirma ele, entre homens e mulheres. Eles eram diferentes, mas iguais.
(Ib. p. 8).
A conclusão da “Introdução” de A Mulher Nua é exemplar:
- Apresento em cada capítulo o aspecto biológico de uma determinada parte do corpo feminino, e então passo a examinar as várias maneiras como diferentes sociedades modificaram esses atributos biológicos. Foi uma absorvente viagem de descobrimento, e quem me dera que, aos 18 anos, eu soubesse tudo o que sei agora – depois de escrever este livro – sobre a complexidade do corpo feminino.
(Ib. p. 9).
Homens, como Desmond Morris, são necessários a nós, que vivemos numa época de unidimensionalização genital em desfavor do erótico. Ao contrário do que se diz, atualmente, nosso século é menos erótico do que parece ser.
O erotismo supõe maior humanidade na criatura humana, e até uma dimensão de ternura, na fusão fisica dos sexos.
Desmond Morris, deve ser posto ao lado de autores como  o Prof. A. Hesnard, um dos fundadores da Sexologia.
(Cf. La Sexologie Normale et Pathologique. (Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1959))
Esta é uma das obras mais lúcidas, mais refinadas, e de mais persuasiva ética sexual que já lemos. Nada perdeu até hoje de sua atualidade.
Dessa obra disse  o Dr. Toulouse, ex-Presidente da Associação de Estudos Sexológicos e ex-Diretor do Hospital Psiquátrico Henry Rousselle de Paris:
- O estudo minucioso, erudito e perspicaz do Dr. A. Hesnard, prepara o advento de disciplinas, que uma sociedade de tipo novo se verá obrigada a impor ao ato, donde provém a vida de todos os homens, e que carrega em si todas as possibilidades de nossos progressos e de nossas quedas, de acordo com a qualidade dos seres criados. É a melhor preparação a uma higiene sexual, que deveria estar na base de toda educação.
  (Cf. ob. cit. p 2).