segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Virgem Maria Poderia Não Ter Sofrido?


I.
O evangelista São Lucas relatou a aparição de Jesus a dois discípulos que iam a caminho de Emaús.
 De repente, Jesus juntou-se a dois caminhantes, andou com eles algum tempo e, novamente - de repente – os abordou:
- O que é que vocês estavam conversando pelo caminho?
Cléofas respondeu:
- Serás o único estrangeiro que não sabe o que se passou em Jerusalém nestes últimos dias?
 Perguntou Jesus:
- O quê?
Os peregrinos explicaram:
- Falávamos sobre Jesus de Nazaré, um Profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo o povo. Os chefes dos sacerdotes, e as nossas autoridades, o entregaram para ser condenado à morte, e ele foi pregado numa cruz. Supúnhamos que tivesse vindo para libertar Israel!  Em vez disso, já lá vão três dias desde que tais fatos aconteceram. (...) Alguns dos nossos companheiros foram ao sepulcro, e constataram o que as mulheres disseram, mas a ele, não o viram.
Agora é Jesus quem se admira da falta de critério dos discípulos:
- Vocês não são muito inteligentes! Como estão demorando para acreditar no que os profetas disseram! Não era necessário, por acaso, que o Messias sofresse antes de ser glorificado?
A seguir, esclareceu aos desanimados discipulos o que havia sobre Ele nas Escrituras, começando pelos livros de Moisés, e seguindo  pelos outros livros proféticos.
         Quando chegaram a uma aldeia, para a qual os discípulos se estavam dirigindo, Jesus fingiu ir mais longe.
Os companheiros, porém, insistiram:
         - Fica conosco, pois já é tarde, e a noite vem chegando!
         Jesus resolveu aceitar o convite.
         Quando estavam à mesa, Ele pegou no pão, deu graças a Deus, partiu-o, e o dividiu com eles.
Neste momento, o entendimento dos discípulos abriu-se, e eles O reconheceram.
Ao verem que Jesus desaparecera, comentaram entre si:
         - Nosso coração ardia enquanto ele caminhava conosco, e nos explicava as Escrituras!
Levantaram-se, e regressaram imediatamente a Jerusalém, onde encontraram os Apóstolos reunidos, os quais logo lhes disseram:
- O Senhor ressuscitou! Simão já o viu
Os dois, então, contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho, e como tinham reconhecido Jesus, quando este partiu o pão.
(Evangelho de Lucas, capítulo 24, versículos 13-35).

II.
Essa página do Evangelho é tão impressionante, tão contemporânea - que um escritor francês, François Mauriac  afirmou que, se fosse obrigado a salvar uma única página dos Quatro Evangelhos, salvaria essa.
Pode-se encontrar outras páginas dos Evangelhos onde Jesus se revela íntimo, e onde seu amor pela Humanidade transborda.
Concordamos, porém, com Mauriac : o capítulo 24 do Evangelho de Lucas possui um charme especial.
Primeiramente, porque nós, também, estamos desanimados!
Ao fim de 20 séculos de Cristianismo... o que é que vemos diante de nossos olhos?
Católicos e protestantes, ortodoxos e não-ortodoxos, todos, sob um certo ponto de vista, nos sentimos decepcionado?
 Decepcionados?
Por quê?
Talvez pelo que resultou do sangue de tantos Mártires, da pregação de tantos Doutores, da sabedoria de tantos Teólogos, da dedicação de tantos Franciscos de Assis, Vicentes de Paulo, Damiões de Malakoff, Abbés Pierres, Madres Teresas de Calcutás?
Ainda olhamos, estupefatos, para a Cúpula de Miguel Ângelo, na Basílica de São Pedro. Ainda as Catedrais Góticas suscitam em nós um estranho sentimento de orgulho.
Vemos o Papa a toda hora nas telas de televisão!
O que nos produz estranhíssima sensação de mal-estar é constatar que seu vulto está cada vez mais opaco e desgastado, e que tanta exposição visual acaba trivializando-lhe o semblante, como achamos que já estão super-trivializados – e até nos entediando – a maioria dos ícones midiáticos.
         Quantos cristãos ousam se perguntar-se se, porventura, não lhes ocorreu, alguma vez, topar com Jesus à saída de um metrô, numa rodoviária metropolitana...num Shopping...ou num camelódromo de nossas capitais!
         Como o ressoar de um búzio em nossos ouvidos, retinem as palavras:
- Sobre o que vocês estavam conversando?
Em certas ocasiões, ao retornarmos aos nossos lares, nos martelam os ouvidos as palavras, ainda mais incisivas, de Jesus:
- Por que estais tristes?

 III.
       Não foi, porém, isso o que nos intrigou na última leitura que fizemos desse texto de São Lucas.
O que nos intrigou nele foi uma pequena frase de Jesus:
         - Ó gente sem inteligência, dona de um coração obtuso! Será que vocês não estavam convencidos de que era necessário que o Cristo sofresse para entrar na sua glória?
         O Cristianismo - em particular o Catolicismo - parece ter-se esforçado,nos últimos séculos, para  tornar light  o sofrimento de Jesus.
Durante o Período Barroco, sob o assédio do Protestantismo de Lutero, que não deixou jamais de insistir na Paixão de Cristo, considerando-a o núcleo básico da superação do orgulho humano, da vitória da Graça sobre a sabedoria e justiça da carne, o Catolicismo viu-se constrangido a não abandonar a Theologia Crucis do Reformador.
Folheemos, porém, agora, a esmo, um álbum da Contra-Reforma!
Ficamos impressionado com o número de Paixões, Crucifixões, Deposições, etc. que os artistas pós-Reforma e nas épocas sucessivas nos legaram!
Alguns deles abusaram de uma sorte de sanguinolência!
O Cristo da fé barroca parece-nos um Cristo frenético, visto pelo viés de um sofrimento de exagerada voltagem!
Hoje, quem olha para tais Cristos, dificilmente se lembrará de que Jesus associava sempre, à predição de sua morte, a boa nova da Ressurreição de seu corpo.
Comparemos a produção artística da Idade Média, em especial, a produção do Gótico, e também a produção do próprio Renascimento, sobre o mesmo tema, com a produção do Barroco.
Apanhemos um catálogo qualquer: por exemplo, The Image of Christ, publicado pela National Gallery de Londres, no ano 2000. Detenhamo-nos no capítulo IV desse Catálogo: “Passion and Compassion”(pp. 104 e seguintes).
Manuseemos outros catálogos: o de Jaroslav Pelikan: A Imagem de Jesus ao Longo dos Séculos (São Paulo, Cosac e Naify, 2000; cap. 8: “Cristo Crucificado”. p. 103-115); ou A Face de Cristo  de Denis Thomas (São Paulo, Círculo do Livro, sd. : “Retratos da Dor”, p. 68-72).
Não precisamos ser tão exigentes: apanhemos um catálogo destinado ao grande público: o de Régis Debray: The New Testament. Through 100 Masterpieces of Arte ( London, Merrell, 2003).
Que constatamos?
Que até à época de Fra Angélico, de  Giovanni Bellini, Ticiano, Enguerrand Quarton, e outros, os Cristos da Paixões e os Crucificados guardavam a serenidade e o auto-domínio  da Vítima, dado que o próprio Jesus afirmara aos discípulos, diversas vezes, prevenindo-os contra o futuro:
- Ninguém me tira a minha vida,
eu a dou livremente.
Tenho poder de entregá-la
e poder de retomá-la:
esse é o mandamento que recebi de meu Pai.
(Evangelho de João, cap. 10, 18).
Poderia existir afirmação mais categórica - do poder de Jesus sobre sua morte?
Somente após o Barroco é que os artistas começaram a fixar-se, por assim dizer neuroticamente, nos padecimentos de Cristo.
Et pourtant... se desejamos compreender a temática da Paixão e da Morte de Jesus, devemos reportar-nos a Francisco de Assis e à sua  influência na Arte Italiana.
Depois de Francisco de Assis, quase um século mais tarde – a sensibilidade alemã inventou o tema da Pietà (a “Andachtsbild”- imagem de devoção - mais antiga dessa temática remonta aos inícios do século XIV; ver ilustração em  H. W. Janson: História da Arte. 4 ed.
Lisboa, Fundação Gulbenkian. 1989. p. 333),  com seus desdobramentos expressionistas, embora a inspiração de tal temática deva ser associada às imagens bizantinas dos séculos XIII-XIV, em especial às da Região dos Bálcãs.
Os artistas alemães, de modo particular o protestante Matthias Grünewald, este, aliás, excepcionalmente, levaram ao paroxismo a expressão da dor de Cristo, quase como se tais “iluminados” tivessem o pressentimento de que, um dia, o mesmo Jesus seria recrucificado  - não num hospital de Isenheim, na Alsácia – mas um pouco mais a leste, em Auschwitz, numa sofisticada câmara de gás.
Longe de nós menosprezar a Arte Barroca!
Longe de nós minimizar suas expressões hiper-patéticas da Paixão e Morte de Jesus!
Sustentamos, porém, que o Cristianismo ganhou algo precioso quando o tema da Ressurreição de Jesus, do qual Piero della Francesca e Rafael nos deixaram obras-primas, substituiu os exageros da sensibilidade barroca.
 É um paradoxo verificar que – a despeito da “obsessão” de Lutero pela Teologia Crucis -  as expressões visuais protestantes da dor de Cristo nunca foram exageradas. São, em geral, mais serenas que as católicas.
Ao gênio de Rembrandt devemos a maravilhosa síntese das duas tradições. Ninguém, melhor do que esse artista logrou expressar a Paixão e a Morte de Cristo com profundidade evangélica, com delicadeza evangélica.
Rembrandt pode ser chamado o Poeta da Dor Cristã.
De passagem, lembremos o filme “A Paixão”, de Mel Gibson, que tanto alvoroço provocou: ele não passa de um uivo pseudo-católico sobre a Paixão de Jesus!
Talvez esse filme, que não obstante apresenta momentos dignos de reflexão, chegue a impressionar olhos subjugados por complexos de culpa, mas não a olhos que aderem à Paixão de Cristo com coração  humilde e compassivo, dispostos a completar em si o que, segundo a quase escandalosa afirmação do Apóstolo Paulo, “falta à Paixão de Jesus”.
Como assim?
É justamente aqui que o escândalo da Cruz aparece com toda a sua dostoievskana sublimidade.

IV.
Jesus veio a este mundo para anunciar a Boa Nova  da Salvação.
Veio para advertir os homens de que o Pai desejava reconduzi-los à adoção de filhos de Deus, violada pelo Pecado Original.
Jesus veio a este mundo para cumprir o que, desde o início, estava consignado em seu nome: Jesus quer dizer Iahweh salva.
Jesus veio para sofrer.
Veio para reparar a culpa de Adão e Eva. Nossos primeiros pais, movidos pelo orgulho e pela concupiscência da carne, tinham preferido a própria auto-suficiência - e as miragens do prazer corporal que a acompanham - à vontade de Deus, e à promessa da Felicidade.
Qualquer tentativa da pretensão humana de anular essa realidade é um atentado terrorista à mensagem cristã.
 O Apóstolo Paulo deixa isso bem claro na Carta aos Gálatas, cap. 5, versículo11
         - Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou perseguido? Logo o escândalo da Cruz está aniquilado.
(Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição revista  e corrigida).
Eis a tradução do Novo testamento da CNBB:
- Quanto a mim, irmãos, se ainda pregasse a circuncisão, por que, então, seria perseguido? Pois, neste caso, estaria eliminado o escândalo da Cruz.
Aí está o verdadeiro escândalo que, através dos séculos, se tem procurado eliminar.
A Vulgata – tradução latina do Novo Testamento - emprega o verbo evacuare”,  que pode ser vertido, numa tradução anti- convencional e libérrima, por driblar!
Ou seja, não se pode driblar o escândalo da Cruz!
Ao falar com os Discípulos de Emaús, Jesus foi claríssimo:
- Ele veio a este mundo para sofrer, a fim de que os homens deixassem de sofrer, e lhes fosse prometida a Ressurreição da carne, sem as misérias da carne do homem pecador.
O fim último dos sofrimentos de Jesus é justamente a libertação do sofrimento humano, a possibilidade concreta da felicidade humana.
Esta, porém, não pode concretizar-se sem uma participação, ainda que mínima, nos sofrimentos redentores de Jesus.
Uma vez mais, é preciso reafirmar o dogma que está vinculado à Paixão e Morte de Jesus, tal qual ele aparece no Catecismo Católico, na sua última versão, a  do Papa João Paulo II.
Leia-se o que está registrado nos artigos 599-617  desse Catecismo. Os leitores poderão reportar-se à edição do Catecismo da Igreja Católica, publicação conjunta das Editoras Vozes e Loyola, 1993, nas páginas 170-177.
O Catecismo, de resto, expõe o resumo das páginas consagradas a esse tema:
I.                  Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras.
II.              A nossa salvação deriva da iniciativa de amor de Deus para conosco, pois “foi Ele quem nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados (1 Jo 4,10). Deus em Cristo reconciliou o mundo consigo (2Cor 5,19).
III.          Jesus ofereceu-se livremente pela nossa salvação. Este dom foi significado e realizado por antecipação durante a Última Ceia:
- Isto é o meu corpo, que será dado por vós”.
 (Lc 22,19).
IV.           Pela sua obediência de amor ao Pai, até a morte de cruz (Fl 2m8), Jesus realizou sua missão de Servo Sofredor que “justificará a muitos e levará sobre si as suas transgressões”. (Is 53,11).

Tudo que se disser além disso é literatura, ou seja, adição verbal à Palavra de Deus, cujo Mistério não está ao alcance dos homens, mas é dom libérrimo de Deus.
V.
       Reflitamos sobre um dado da Revelação: a Virgem Maria nasceu, como qualquer ser humano, de um ato amoroso normal. Não houve, no nascimento da Virgem, nenhuma intervenção especial de Deus.
A intervenção divina, propriamente dita, sobrepôs-se ao ato normal.
 Maria recebeu uma dádiva única de Deus: foi preservada do Pecado Original, em vista dos méritos de Jesus, o Único Mediador entre Deus e os homens.
Recebeu, também, outro dom: foi preservada de todo e qualquer pecado pessoal, até mesmo, de toda inclinação ao mal.
À luz de tão esplêndida Revelação, podemos deduzir que  a Virgem Maria, a rigor, poderia ser isenta da dor humana.
Se ela não o foi, tornando-se, como dizem os Teólogos, Co-Redentora, ou Medianeira Universal das Graças, tal sofrimento foi aceito por ela com plena liberdade, para solidarizar-se até ao último grau com seu Filho – que este, sim, devia sofrer, como o havia anunciado aos Apóstolos.  
Jesus sofreu livremente.
Deu sua vida, como a poderia não ter dado, se o quisesse.
A sua Paixão foi ato de amor voluntário, independente de qualquer aceitação humana em si. Em sua Pessoa Divina – lembremos - só havia uma Pessoa, a do Verbo, embora Nele houvesse duas naturezas, a divina e a humana. Portanto, os atos das duas naturezas, embora diversos, eram da responsabilidade de uma única Pessoa.
O cálice podia ser temido, porém não podia deixar de ser aceito. A vontade do Pai o exigia, como reparação das culpas da Humanidade.
Preferimos, daqui por diante, reportar-nos a um episódio da vida de Miguel Ângelo, que pode trazer-nos alguma luz sobre a possibilidade do não-sofrimento da Virgem.
Ascânio Condivi, discípulo e biógrafo de Miguel Ângelo, perguntou ao artista porque, na sua Pietà, exposta na Basílica de São Pedro, o semblante e o corpo de Cristo são o de um adulto, enquanto que o rosto e o corpo da Virgem Maria evocam o de uma jovenzinha de 15 ou 16 anos.  
Eis a resposta de Miguel Ângelo:
- As mulheres castas permanecem mais jovens do que as demais mulheres.
A Virgem foi castíssima, e por isso permaneceu sempre jovem, visto que nenhum desejo lascivo lhe alterou o rosto. É de crer que as vontade de Deus favoreceu tal flor e tal frescor juvenil para que se manifestasse nele claramente a sua virgindade e pureza.Tal aspecto juvenil não era necessário ao seu Filho, antes, poderia ser-lhe contrário, uma vez que, assumindo um corpo humano e devendo padecer todas as misérias humanas, exceto o pecado, não era necessário que sua humanidade fosse eclipsada pela sua Divindade (...) Não te surpreendas, pois, que eu tenha representado a Virgem Santíssima, Mãe de Deus, mais jovem do que ordinariamente conviria à sua idade, ao passo que deixei que  em Jesus aparecessem todas as marcas de sua idade.
(“Vida de Miguel Angel”. In: Miguel Angel. Revelaciones Artísticas y Autobiogrficas.´Traducción de Marcos Fingerit. Buenos Aires, Editorial Elevación, 1945. p.50-51).
-
VI.
Por ter sido preservada de todo pecado, Maria teve sua ressurreição antecipada.
Ela está no gozo da Alegria Perfeita, na integralidade de sua humanidade. Isso é o que significas ser elevada aos Céus em corpo e alma.
Não há dúvida de que a Virgem Maria sofreu na sua passagem neste mundo.
Historicamente ela sofreu.
As imagens da História da Arte que a mostram sofredora – principalmente as barrocas, não cometem erro dogmático.
 Dizer que, a rigor, ela poderia não ter sofrido – como todas as criaturas humanas precisam sofrer – é lembrar que, pelo fato mesmo de ela poder não ter sofrido, pode nos ajudar mais no transe final de nossa agonia e morte.
Escrevo isso para me consolar, e também para consolar meus coirmãos cristãos. E, além disso, para consolar os descrentes, agnósticos e ateus, todos os que são acometidos por enfermidades, especialmente dolorosas, como o Mal de Alszheimer e a Doença de Parkinson, ou são atingidos por modalidades cruéis de Câncer.
Ninguém nos peça, em nossa condição de católico, que desfaçamos o nó-górdio chamado sofrimento.
 Não estamos diante de um nó górdio! Estamos diante de um Mistério.
A solução final será surpreendente, nas antípodas das expectativas dos ateus e agnósticos, que ironizam os cristãos por sua “resignação”.
Sempre que formos “ironizados”, façamos uma humilde prece à Virgem Maria, “Consoladora dos Aflitos e Auxílio dos Cristãos”.
 Recordemos as palavras de Juliana de Norwich, que o poeta T.S. Eliot citou nos seus Quatro Quartetos (um de seus livros de poemas mais famosos, cuja primeira edição inglesa é de 1944):
-(...) tudo vai ficar bem e, de todas as maneiras, tudo vai acabar bem.
        Os versos de T. S. Eliot, na elogiada tradução brasileira de Ivan Junqueira, dizem:
         - O pecado é inelutável,
         masas tudo irá bem e toda
sorte de coisa irá bem.
(Poesia. 3 ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira1981. p.232.
Ivan Junqueira acrescentou a tais versos o comentário:
-  Cf. Juliana de Norwich, mística anacoreta inglesa do século XIV, em The Shewings XIII (...).
(Ibid. p. 303).
Sheila Upjohn, autora de In Search of Julian of Norwich e Why Julian Now, fornece-nos informações precisas sobre essa semi-desconhecida mística.
Trata-se da primeira autora inglesa.
Juliana de Norwich reuniu, num pequeno livro, as revelações que Jesus lhe fez, numa visão que durou muitas horas, exatamente 15 horas num único dia, 8 de maio de 1373, completadas por outra revelação, na noite seguinte.
A mística inglesa deixou alguns pensamentos que continuam a impressionar os cristãos.
 Por exemplo:
I.                          Em Deus não há ódio, como eu vi...Ele olha para seus servos com pena, e não com culpa...
II.                      Mais do que nosso pai, Deus é nossa Mãe.
(Estrelas Espirituais do Milênio. Os 52 líderes que mais influenciaram o segundo milênio do Cristianismo.
Seleção e organização de Selina O’Grady e John Wilkins. Tradução de Cláudia Marcondes.  Rio de Janeiro, Record-Nova Era, 2004. p. 78-81).
Para que ninguém nos acuse de ligeireza ou frivolidade, resolvemos recorrer a um autor católico de renome, o conhecido frade dominicano, Padre Antonio Royo Marin, traduzido em muitos idiomas, que publicou, sob a chancela da “Biblioteca de Autores Cristianos” de Madrid, o precioso livro: Los Grandes Maestros de la Vida Espiritual, Historia de la Espiritualidad Cristiana. (segunda edición. Madrid, BAC, 1990).
         Nas páginas 273-276 do livro citado, o P. Marín compendia os dados mais importantes sobre a mística inglesa,cuja obra Revelações di Divino Amor, é comparada por ele às obras do Beato Henrique Suso.
         O P. Marin informa que, na época de Juliana de Norwich, as pessoas cultas se interessavam, com certa freqüência, pelo destino  além-túmulo de personagens da História como Salomão, Sansão, e o Imperador Trajano.
Juliana experimentou tal curiosidade, ou antes, tal preocupação.
Perguntou, pois, a Jesus sobre o destino de algumas dessas personagens históricas.
         A resposta de Jesus pareceu tranqüilizá-la. Pelo menos, ela o interpretou ASSIM.
Jesus disse à Juliana que uma obra que a Santíssima Trindade realizará, no fim de todas as outras, é a reparação de todas as coisas. Da mesma forma que Deus tirou do Nada todas as coisas, e viu que elas eram boas, assim ocorrerá no fim dos tempos: Deus fará com que todas as coisas sejam boas.
         (Ob. cit. o. 274-275).
         O teólogo espanhol recomenda aos leitores que não se precipitem, que não interpretem superficialmente as revelações de Jesus.
Diz, por exemplo, que não razoável tirar, das palavras acima a certeza de que todos os condenados ao inferno serão salvos.
         (Ibid. p. 275).
         Sem embargo, Royo Marin afirma que as revelações de Juliana de Norwich contêm:
- (...) muchas cosas hermosisimas y plenamente conformes a la fé cristiana más ortodoxa.
         (Ibid. p. 276).

VII.
Para concluir nosso texto, sugerimos aos leitores, que têm interesse em conhecer tão grande mística, que leiam o livro de Brendam Doyle: Meditações com Juliana de Norwich. (Tradução de Theoto Lambert. São Paulo, Editora Gente, 1993).
         Para regalo dos leitores, reproduzo um poema de Juliana de Norwich:
        
- No último dia,
em Deus veremos claramente
os juízos secretos
que agora estão ocultos para nós.
Nenhum de nós será levado
a dizer:

- “Senhor, se soubéssemos dessas coisas,
tudo teria estado bem”.

Ao contrário,
Todos diremos, a uma só voz:

- Senhor, louvado sejas!
Pois a verdade é esta:
tudo está bem. 
         (Ibid. p. 139).

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