segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma Conversão à Fé Cristã de Dois Mil Anos Atrás!

I.
Os leitores, que por acaso acompanham este blog, devem lembrar-se constantemente que quem escreve nele é apenas um católico-escritor, não um escritor-católico.
Dito noutras palavras: não nutrimos a absurda pretensão de expressar pontos-de-vista da comunidade católica.
Expressamos, unicamente, pontos-de-vista de um indivíduo que, tendo sido batizado, assumiu pessoalmente sua Fé, e deseja ser fiel à Pessoa de Jesus, o Filho de Deus que se fez Homem.
Ocorre que – na condição de autor dos textos no blog- me obrigo a comentar a insensatez humana, a lidar , não só com a insensatez alheia, mas com a minha própria insensatez.
Não é necessário sublinhar que me envergonho de minhas derrapagens mentais, principalmente quando me proponho a confrontar a fé cristã com a realidade que absorve a atenção dos jornais e telas de televisão.
Deixemos, porém, desde já estabelecido um ponto: sob nenhum pretexto de viver sua Fé, pode o cristão exilar-se do Mundo concreto em que vive.
São Paulo dizia que se quiséssemos viver uma Fé a salvo da loucura e da culpabilidade humanas, teríamos que migrar deste mundo... (Cf. 1Cor 5,10).
Migrar, mas para onde?
Para o Outro Mundo?
A Doutora da Igreja, Santa Teresa de Ávila (1515-1582), adverte-nos:
-A única forma de ver a Deus é a morte. Mas esse remédio Deus no-lo proibiu de tomar.
De tais palavras inferimos que não se pode refletir, cristãmente sobre o mundo sem, ao mesmo tempo, refletir sobre as manchetes dos jornais.
Penso que foi Charles Péguy quem escreveu que sua inspiração era a Bíblia e os jornais.

II.
       Jornais?
         Há certos episódios do Novo Testamento que são mais atuais do que tudo que aparece no New York Times.
         Analisemos, por exemplo, o capítulo 8, 26-40, dos Atos dos Apóstolos.
         Refere-se aí que um alto funcionário da Rainha Candace, da Etiópia, seu Tesoureiro e Administrador Geral, retornava de uma peregrinação a Jerusalém, aonde fora “para adorar a Deus”.
O etíope era, provavelmente, um adepto do Judaísmo.
Sentado no seu carro, o estrangeiro lia o livro do Profeta Isaías.
O Espírito de Deus disse, então, a Filipe:
-Aproxima-te desse carro, e acompanha-o.
Filipe acelerou o passo, chegou-se ao carro, e ouviu o que o etíope estava lendo.
Perguntou-lhe:
         - Entendes o que estás lendo?
         O etíope respondeu:
         -Como posso eu entender o que estou lendo, se ninguém mo explica?
         Filipe subiu ao carro, e explicou o texto que o funcionário estava lendo.
         Aproveitou, igualmente, a oportunidade para anunciar ao etíope a Boa Nova de Jesus.
        O Livro dos Atos continua:
         -Ao passarem por um lugar onde havia água, o etíope disse:
         - temos aqui muita água! Há alguma coisa que impeça de eu ser batizado?
         Filipe respondeu:
         - Se tu crês de todo o coração, não há nada que impeça.
         Ele respondeu:
         -Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
         Mandou, então, parar o carro. Os dois entraram na água, e Filipe batizou-o.
         Quando saíram da água, o Espírito do Senhor levou dali Filipe, de modo que o eunuco não tornou a vê-lo, mas continuou sua viagem cheio de alegria.
         Esse episódio dos Atos dos Apóstolos enche-me de estupefação.
Eis algumas razões para minha estupefação:
I.                 Encontra-se nesse texto o primeiro esboço do CREDO que os católicos recitam, cada domingo, nas missas a que assistem;
II.             Encanta-me verificar nele a brevidade do anúncio da Fé. Quantas horas terá durado essa evangelização “rodoviária”?
III.         Impressiona-me a rapidez com que o coração do etíope, preparado pela leitura da Bíblia, se dispôs a aceitar a mensagem de Jesus;
IV.          Como terá sido, depois desse batismo onesperado, a vida do etíope, ao retomar suas funções? Que tipo de ética terá observado na sua vida cotidiana: os Dez Mandamentos? Ou também novas lições que lhe teria transmitido Filipe sobre a conduta de um cristão?
V.              Surpreendo-me, ainda, com afinidades entre esse episódio dos inícios do Cristianismo e nossa vida de hoje. Não seria possível uma tal Evangelização nas autopistas da Europa, ou nas ruas de uma capital sul-americana?
VI.          Existirão ainda Filipes à disposição do Espírito do Senhor? Ou, os que existem, se acham super-ocupados em garantir um lugar ao sol à “Igreja Católica diante dos grandes deste mundo?
VII.      Comovo-me ou antes, enterneço-me com episódios como esse do Cristianismo nascente! Desejaria vê-los em novas edições em nosso mundo, re-paganizado.

III.
                Volto a insistir: não pretendo dar lições a ninguém, muito menos aos membros da Hierarquia Católica, nossos Pastores.
         O que desejamos realçar, na condição de um joão-ninguém batizado, é que a Fé nos diz que deveríamos repensar a ordem que Jesus nos deu de anunciar seu Evangelho.
Não será chegada a hor de regressarmos a uma maior simplicidade?
         Talvez tenhamos complicado demais o anúncio da Boa Nova.
Se, na época do etíope, bastou tão singela evangelização, para leva-lo à Fé e ao Batismo, é necessário extrair do episódio uma lição: talvez  não nos esteja faltando “Bibliografia Evangélica”!
Talvez nos falte a presença do Espírito.
Por que razão o Espírito do  Senhor agiria na época de Filipe, e não agiria em nossa época?
Por que teria Ele estado presente, numa estrada do Império Romano, e não estaria nas autopistas de nosso mundo, onde se atravancam Toyotas, Mercedes,  BMWs?
O Espírito do Senhor não se dedignou  de estar presente numa paisagem deserta. É provável que não se dedigne de estar nos nossos Aeroportos, onde resfolegam Boeings, e as pessoas  se agitam, de um lado para o outro.
É possível que necessitemos de um maior índice pluviométrico de água batismal, e de uma maior quantidade de Energia Eólica, isto é, a verdadeira Energia Eólica, a Espiritual, a que fez tremer o Cenáculo de Jerusalém, onde os Apóstolos aguardavam que sobre eles descessem as línguas de fogo, que de fasto desceram, e os inflamaram de amor  verdadeiro pelos homens e por Deus.

IV.
       A imaginação cristã não pode acovardar-se diante dos desafios do mundo contemporâneo.
         São maiores, eventualmente, que os desafios que os primeiros cristãos afrontaram. Maiores, porém não piores.
         O fermento cristão é convidado a levedar a massa – ou, com um pouco de humor, as Massas - que se jogam às frivolidades de nossa sociedade, às suas fantasias, às suas Madonnas e Lady Gagas, às suas top-models e astros dos shows, às passeatas de protesto e às agitações de todo tipo que encrespam a superfície de nosso oceano midiático.
         O episódio do Livro dos Atos dos Apóstolos nos ensina a desconfiar do que aparece excessivamente.
Num recanto qualquer de bar de Aeroporto, ou numa rua barulhenta de nossas cidades, pode estar acontecendo o que aconteceu outrora na estrada deserta da Judéia.
Estejamos dispostos como Filipe a ouvir o que o Espírito Santo nos diz:
- Aproxima-te desse carro, e acompanha-o!
         Não olhemos a marca do carro.
Aos olhos do Espírito Santo um BMW ou um carrinho usado são a mesma coisa. Olhemos, atentamente, para o etíope, para o judeu, para o sudanês que nele está viajando.
O importante é que, dentro do carro, esteja um homem.

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