segunda-feira, 16 de julho de 2012

Parabéns, Sr. Arcebispo!


I.
       Os católicos, que frequentam as missas dominicais na Arquidiocese de Porto Alegre, recebem, todos os domingos, um folheto, O Dia do Senhor, que contém os textos bíblicos - referentes à liturgia do domingo, e a Oração Eucarística selecionada para a data.
         Tal folheto écostuma trazer, na sua última página, no canto direito inferior, uma reflexão elaborada pelo Sr. Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings.
Até recentemente, segundo me informaram, quem escrevia essa reflexão era o saudoso Dom Antônio Cheuiche.
         Desejo, neste blog, deixar consignado um agradecimento particular ao Sr. Arcebispo.
         Tenho-me dado ao “trabalho” – oh, não - ao mimo espiritual! - de ler os textos que, nos últimos anos, Sua Excia tem publicado em O Dia do Sehor.
         Não direi que todos os seus textos me chamaram a atenção, ou trouxeram subsídios religiosos à minha precária vida espiritual. Direi, com sinceridade, que alguns desses textos me prestaram grande serviço.  Alguns desses textos causaram-me impacto, não só por sua fidelidade ao Evangelho, mas por sua agudeza bíblico-teológica.
         Os textos do Sr. Arcebispo revelam cuidadosa preparação.
         Deixando todo tipo de insolência de lado, por que exigiríamos, nós católicos, de um prelado tão assediado de compromissos eclesiásticos, obras-primas exegéticas ou teológicas?  Homens como São Tomás de Aquino ou Anselmo de Cantorbery, ou mesmo um Papa Bento XVI, não se assemelham a abóboras  que crescem no quintal das dioceses, estejam onde estiverem. Contentemo-nos com o que Deus nos dá, que Ele já o dá com abundância.
Dom Dadeus pode figurar entre os melhores autores das reflexões dominicais  que tenho lido nos últimos anos. Por uma razão entre outras: o Sr. Arcebispo não é pretensioso, nem doutoral.
Dom Dadeus escreve com agradável fluência, seu estilo não cai – (algumas vezes até pode cair...)nos clichês em que os reverendos evangelizadores fazem questão de cair, como crianças que brincam sobre acolchoados, ou exultam, em dias de chuiva, por mergulharem em sofás macios...
         Nada disso!
Dom Dadeus evita incidir em lugares-comuns.
Dono de uma cultura bíblica e teológica de alto gabarito. expõe seus comentários dominicais como quem conversa com os irmãos na fé.
Mas aí é que reside o plus  de Dom Dadeus!  Ele se situa nas antípodas, em especial dos tele-evangelistas, que saturam as telinhas domésticas com suas tiradas de efeito, a maioria de escasso tutano bíblico.
 Dom Dadeus não esnoba seus diocesanos. Fala com discrição, e  -por dádiva de Deus e esforço pessoal – descobre frequentemente pepitas de ouro no meio dos grãos de milho – (que nos seja perdoada a trivialidade da expressão popular).

II.
         Vejamos o último comentário de Dom Dadeus em O Dia do Senhor, o de 08-07-2012.
         Dom Dadeus dispôs-se a comentar um trecho do Evangelho de São Marcos, extraído do capítulo 6, versículos 1-8.
Lê-se nesse evangelho que Jesus foi a Nazaré, “sua terra” (como fez questão de frisar o Evangelista), e aí começou a ensinar na sinagoga:
- Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco? E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus lhes dizia: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé deles.
Quantas vezes, em minha existência, a estas alturas, quase “octogenária”, não ouvi pregadores aproveitarem o texto evangélico desse “Quadragésimo Domingo de Tempo Comum”, para se expandirem em ataques aos concidadãos que não reconhecem os talentos de seus homens ilustres? Não nego que isso ocorra, e com mais freqüência do que se pensa.
Ainda recentemente, li uma biografia do grande compositor austríaco Franz Schubert, e mais uma vez verifiquei que os concidadãos do mestre, no caso, os vienenses, foram ingratos com seu gênio, e não o valorizaram suficientemente, quase deixando-o morrer na miséria, como morreu o autor dos Lusíadas.
Dom Dadeus não se interessou por semelhante chavão.
Leiam um excerto de seu comentário:
- Jesus volta à cidade onde se criara. Seus concidadãos julgavam conhecê-lo bem, com cerca de trinta anos de convivência. A surpresa foi que não voltou como cidadão de Nazaré, mas como Redentor do mundo. Isto seus patrícios não conseguiam entender. É o que continua acontecendo no seio da humanidade. É fácil acolher Jesus como homem, até diria hoje, num mundo globalizado, como cidadão do mundo. O difícil é acolhê-lo como Filho de Deus e Salvador do mundo. Exige que se mude não só de idéia a seu respeito mas também de atitude, tornando-se decididamente seu discípulo missionário.
Por favor, Excelência, poderia dizer-nos onde adquiriu tão maravilhoso fuzil teológico, dotado de mira telemétrica?
Parabéns, Sr. Arcebispo!

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