segunda-feira, 16 de julho de 2012

Jesus num Aeroporto Brasileiro?

Armindo Trevisan.


I.
Mais de um católico imaginou o que eu imaginei: topar com Jesus no  borborinho, ou com mais precisão, na frenética agitação de um Aeroporto, que pode ser o de Belo Horizonte, ou o de Congonhas.
Por falar nisso: não estaria próxima a hora de se repensar determinados slogans, que celebrizaram o Maio de 1968, quando se deu a Rebelião dos Jovens Franceses, uma espécie de “revolta à Camus”.
Quando esta findou, restaram dois afluentes de valor: o afluente da Ecologia, e o afluente da Luta Anti-racial, que seus líderes acabaram assumindo.
Para dizer a verdade, tais ex-líderes, que se exibem atualmente nas telinhas de TV desbarbados - porque os hippies sucederam aos mosqueteiros de Paris -  se civilizaram depressa demais, e com isso nos desiludiram.
Em última análise, apnde foi alojar-se seu primitivo radicalismo?
É verdade que, entre a abstenção de banhos higiênicos e a abstenção de ideais éticos, insere-se um mundo. O que mais nos choca - a nós, que os olhávamos como Sexta-Feira olhava para Robinson Crusoé - é que isso nos parece ter sucedido já há alguns séculos...
Quem não se lembra do atualíssimo slogan de Maio de 1968: Todo Poder à Imaginação?
Confio à vossa imaginação, ó amáveis leitores, a resposta a uma indagação que me alfioneta:  o que restou do Maio de 1968, em termos de imaginação, nos governantes atuais do lado de lá do Atltântico, e obviamente, do lado de cá?
Se alguém, detentor de uma imaginação dantesca, for capaz de encontrar vestígios dela, por exemplo, no semblante manhoso de um ex-Primeiro Ministro Italiano, Silvio Berlusconi, apresente-se! O nome Sílvio podia sugerir um raminho da legítima flora silvestre!
 Que diremos dos políticos que, recentemente, foram tragados pelo tsunami das últimas eleições da Eurozona?
A única imaginação política, que hoje é visível no panorama político contemporâneo, é a de dois estranhíssimos personagens: o Comandante Chávez, e o duende iraniano de nome quase impronunciável: Ahmadinejad.
No caso de tais “sumidades”, não se trata, propriamente, de imaginação; estamos é diante de dois Pseudo-Condottieri rernascentistas,  que revelam mais ânsia de poder do que inventividade social.
         Tornemos aos Aeroportos.
         Muitas vezes me tenho perguntado:
         - O que Jesus sentiria num Aeroporto como o de Belo Horizonte ou de Congonhas?
(Refiro-me a esses aeroportos porque estive neles em data recente).
- Como se apresentaria Jesus neles? Tentaria expulsar os negociantes e cambistas de seus espaços climatizados? Teria vontade de conversar com as pessoas, os passageiros e os turistas?
         Tenho por certo que Jesus pagaria as taxas de embarque, submeter-se-ia ao incômodo  dos controles eletrônico de segurança, não se importaria em ser empurrado e acotovelado por circunstantes ansiosos.
         Minha curiosidade vai um pouco além:
- Como o distinguiríamos no meio de milhares de passageiros?
         Suponho que estaria vestido como se veste todo o mundo, atualmente.
 Levaria nas mãos, talvez, uma sacola de plástico, e carregaria uma discreta valise.
         Falaria?
         Acho que não.
         Seu silêncio seria notado por alguém?
         Também acho que não.  
         É impossível notar um silêncio nos aeroportos.
O som é alto, onipresente, e não dá tréguas nem aos indivíduos mais dotados para o sono permanente.
         Resumamos: Jesus não teria o que dizer, nem o que fazer num Aeroporto.
         Sua função salvífica, nesse espaço da vida contemporânea, consistiria simplesmente em provocar em alguns distraídos desconfiança sobre sua Presença.

III.
         A estas alturas, não estou mais imaginando: estou delirando!
         Sejamos razoáveis: imaginemos Jesus, menos abstratamente.
Situêmo-lo no mundo atual.
         Os católicos, que se ufanam de profundas convicções religiosas, objetar-me-iam:
- Jesus existiu uma única vez! Existiu como um judeu, aproximadamente entre o ano 3 antes da sua era, e o ano 31 depois de sua era.
Se for essa a objeção de meus irmãos na fé, divirjo deles.
Tenho a persuasão de que Jesus continua presente, e muito presente, no mundo doido em que estamos.
Jesus – seja dito logo – não poderia, obviamente, estar entre nos como esteve no tempo em que Ele não tinha ressuscitado. Está presente, aqui e agora, como um Ressuscitado - ou segundo uma expressão que me agrada, na minha condição de descendente de italianos, como o Risorto!
Primeiramente, porque acredito (como o acreditam, também, os fiéis seguidores de Lutero) na presença de Jesus sob as aparências do pão e do vinho.
 O pão continua fazendo parte da alimentação da Humanidade (daquela que ainda pode alimentar-se).
O vinho...
Bem, o vinho não faz parte da bebida do vulgo, nem é oferecida aos amigos do esposa e do esposo nas festas de casamento, como ocorria no passado. Lembrem-se das Bodas de Caná, na Galiléia, durante a qual o Redentor da Humanidade mimoseou os noivos - que se tinham enganado na quantidade necessária de bebida para os convidados - com mais de seiscentos litros do melhor vinho do mundo, de um vinho comparável ao Romanée-Conti, a quem os correligionários ideológicos de um ex-Presidente ofereceram uma garrafa, que custou a bagatela de 4 mil euros.
Jesus – está é a realidade - está de uma forma misteriosa, mas real, um pequeno fragmento de pão, “com seu corpo, sangue, alma e Divindade”, como dizia a fórmula tradicioonal que as crianças aprendiam nas aulas de Catecismo.
Talvez ainda a aprendam.
Ocorre que Jesus, também, está presente hoje, embora oculto, em qualquer dos seres humanos. Ele mesmo o declarou: “O que fizerdes a um destes, que estão comigo, o fazeis a mim”.
Dos que estão comigo?
 Existe sempre uma igreja, ou templozinho, quer nos aeroportos, quer nos bairros onde se localizam.
Onde mais estaria presente?
Em todos os que crêem na sua Pessoa e na sua Revelação.  
Estaria presente, também, nos agnósticos e ateus?
Sem dúvida, só que à espera de um convite - como ocorreu com Zaqueu, que o aguardava no alto de uma árvore, por ser muito baixo de estatura. Não foi Zaqueu quem convidou Jesus; foi Jesus que se convidou a ir almoçar na sua casa, isto é, na casa de Zaqueu.
Fiquemos por aqui.
IV.
Apesar de todas as considerações acima, continuo em luta com minha imaginação.
Estaria Jesus presente em outros lugares de nosso insignificante planeta, para nós significantíssimo, tanto que, subliminalmente, pensamos que ficaremos “sempre” aqui?
Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja, disse um dia:
- O único remédio para se ver a Deus é morrer. Mas este remédio Deus no-lo proibiu.
Sejamos, então, cristãos.
Com ou sem imaginação.
Ninguém precisa preocupar-se, como me preocupo, com interrogações íntimas, do gênero das que expus ao longo deste texto.
Ninguém precisa ter imaginação.
Caso tenha imaginação, ninguém precisa despertá-la ou excita-la.
Se algum cristão, ou católico, está satisfeito com o mundo, “como ele é” - valendo-nos de uma expressão à Nelson Rodrigues - tranqüilize-se.
Abrace-se à sua opinião, durma, até, com ela.
A minha imaginação é diferente, é a de um insatisfeito.
Concluamos: essa estória de Jesus num Aeroporto é coisa arcaica, de católico pascaliano. Blaise Pascal morreu há muito tempo.
Eu também morrerei.
Creiamos, pois, unicamente em Jesus.
Encontrêmo-lo onde o pudermos encontrar.
Se não o pudermos encontrar num aeroporto, encontrêmo-lo numa igrejinha, onde se re-atualize seu Sacrifício Redentor, onde o Ressuscitado nos aguarde humildemente, cada manhã, com ou sem a companhia dos obtusos Discípulos de Emaús.
É em nossas igrejas, na fração do Pão, que Ele poderá revelar-se outra vez.
         Quanto à sua presença nos Aeroportos, sobre a qual tomei a liberdade de insistir, levem em conta que também sustento ser necessário, para crer nisso, muita fé.
O problema, em última análise, não é crer que Ele está lá: é identificá-lo acolá.
Sob qualquer hipótese, num Aeroporto Jesus estará sempre silencioso.

Nota.
Escrevi este texto após visitar, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, a magnífica Mostra Caravaggio e seus Seguidores.
O genial pintor italiano teve a audácia de atualizar as representações de Jesus e dos Santos, proletarizando-as na maioria das vezes.
Levou a extremos uma inovação, que já fora estreada por Konrad Witz (1400-1446), pintor nascido na Alemanha, mas radicado posteriormente na Suíça. Witz situou a Pesca Milagrosa no Lago de Genesaré no lago Leman. Dizem os experts que se pode, ainda hoje, localizar o sítio onde ele montou seu cavalete.    
        

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