segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Favor do Turismo: Viajar Instrui e Educa!

I.
Turismo procede do francês tour.
Significa volta, giro, circuito, passeio. Talvez o vocábulo, na sua acepção atual, derive da expressão francesa: “tour de promenade”.
Como fator influente no mercado, intensificou-se após a Segunda Grande Guerra.
Contribuíram para seu pasmoso desenvolvimento diversos fatores, entre os quais o aperfeiçoamento dos meios de transporte.
O progressivo estreitamento das relações entre as nações favoreceu, de forma significativa, o intercâmbio cultural.
Como conseqüência de lal  intercâmbio, remoçaram os velhos museus. Novas coleções saíram das mãos de colecionistas particulares, ganhando espaços condizentes com as exigências de um público mais e mais numeroso. O interesse das pessoas em relação aos tesouros do passado cresceu consideravelmente.  
Embora a gastronomia, inicialmente, não tenha sido um  elemento de muito chamariz, começou a chamar a atenção dos gourmets à medida que a propaganda se assenhoreou dos cardápios.
Em síntese: O turismo converteu-se num esporte das classes super-burguesas.  
A própria indústria hoteleira deu-se conta de que existia uma fatia imensa do mercado do entretenimento, que ansiava por novas experiências, não se satisfazendo mais com reuniões aristocráticas, com espetáculos de padrões eruditos.
Os novos viajantes queriam emoções mais violentas, demonstrações eróticas mais provocantes, espetáculos teatrais de apelo mais contagioso.
As Agências de Viagem decidiram-se a investir em setores reservados a indivíduos exóticos: alpinismo, corridas de automóveis, disputas de ciclismo.
A difusão da fotografia, sem dúvida, interferiu no processo dessa vulgarização.
Quem não recorda certa época em que virou moda trazer do exterior cartões postais, ou “instantâneos de viagens”, que os recém-chegados faziam questão de mostrar aos parentes e amigos?  Estes, a bem da verdade, não tardaram a  desertar tais sessões íntimas.
É ocioso acrescentar que o material exibido era, frequentemente, de péssima qualidade, com fotos desfocadas, ou batidas de ângulos inaproveitáveis, sendo a maioria de tais fotos e slides carentes até dos dados necessários à sua identificação.
Disso derivou uma desafeição crescente, não propriamente ao turismo, mas aos turistas bisonhos, que provocavam o desdém das classes mais evoluídas, as quais passaram a considerar o “turista típico”um  ingênuo, um pretensioso, um exibicionista.
Como tudo isso já nos parece remoto!
Nesse entretempo, os guias turísticos tornaram as viagens, não só melhor planejadas, porém dez vezes mais interessantes. Surgiram revistas com roteiros bem elaborados.
Como resultado indireto de tudo isso, apressou-se a evolução do próprio turista que, de ingênuo ou pretensioso que era, conquistou credenciais de um “chato de gabarito”, quase como se as viagens lhe conferissem uma não reconhecida pós-graduação em geografia e história, e conferissem uma auréola de nobreza a errâncias ou vagabundagens, cujo móvel primeiro eram anseios literários, religiosos, ou simplesmente fugas ao tédio.

II.
Sempre fui um apaixonado por viagens.
Comecei a viajar muito cedo.
Inicialmente viajava por meio de mapas dependurados nas paredes das escolas que eu freqüentava.
Adorava aqueles mapas!
Deixavam à vista, não só territórios e cidades, representadas com razoável abundância de cores, mas também registravam roteiros ferroviários, assinalados em geral por um traço escuro, que me evocava contornos de vitrais.
Com minha imaginação voava, fazia e refazia viagens rumo aos locais mais distantes e insólitos. Bastava que sobre eles meus professores de geografia e história me fornecessem alguma informação interessante: o local de uma batalha, o ponto preciso de uma erupção vulcânica, etc.
         Os leitores devem ter notado que muitas batalhas ocorreram em locais de uma sonoridade mágica:  Guararapes, Itororó, Utuzaingó, e no exterior Tolbiac, Waterloo, os Lagos Masurianos?  
Tais viagens proporcionaram-me incrível alívio à insipidez das aulas de matemática,  e de matérias afins. A matemática sempre foi, medida pelos meus padrões de avaliação infantil ou adolescente, mais semelhante a um fantasma de Casa Assombrada que uma invenção racional para as despesas do dia-a-dia.
Paguei caro por essas fugas!
Fui salvo, parcialmente, pela invenção das máquinas calculadoras, primeiramente por aquelas maquininhas arcaicas, acionadas por estiletes (uma delícia para os dedos que os tinham de encaixar nos respectivos orifícios da adição e subtração).
Depois dessas maquininhas pré-históricas, surgiram outras, dezenas de outras, que terminaram como especialidade de camelôs.
Não sei como elogiar Blaise Pascal (1623-1662), que para mim, além de um cientista e de um “Pensador” é um Santo, que não foi ainda beatificado pela Igreja devido a uma pseudo-heresia chamada Jansenismo  (ver no Google o que significa tal palavra)!
Pascal, para quem não sabe, foi o inventor da máquina-de calcular.
Deixemos o insigne cientista no Reino dos Céus, entregue aos seus diálogos com  o Doutor da Igreja, Santo Agostinho, que ele tanto admirava e...retornemos aos mapas.
Graças a eles, aprendi a viajar de trem pela Europa.
O trem é meu transporte por excelência. Com minha fantasia, educada pela leitura, e pela apreciação das artes, viaja-se infinitamente.
Minha mulher é tão apaixonada por viagens como eu!
Tem uma idiossincrasia: é fanática por uma engenhoca de última geração, o GPS.
Discutimos sobre essa engenhoca. Na minha opinião, os GPS  não são mapas, são prestidigitadores da cartografia. Comparo-os aos espertalhões das Ramblas de Barcelona, que embasbacam os ociosos com seus truques de esconde-esconde, e ganham bons euros à custa de coirmãos, que pensam, como Gerson, levar vantagem sobre eles.

III.
A essa altura, não fiz ainda o elogio do  verdadeiro turista .
Para fazê-lo, eu deveria ser um tanto burro – não tanto quanto desejaria sê-lo – já que o Erico Veríssimo me escreveu, numa carta que, em parte, divulguei no meu livro Ler por Dentro. que, sem uma dose de burrice não se pode ser feliz.
Como não atingi, de todo, a mencionada burrice feliz, recorro a um dos gênios da cultura hispânica, Don Miguel de Unamuno.
Eis o que escreve o autor de-A Agonia do Cristianismo:
- Diz-se que viajar instrui; deveria dizer-se antes que viajar educa. Viajar educa, sobretudo mediante as viagens a países cujos costumes diferem dos nossos,uma vez que tais viagens nos obrigam a deixar de lado as velhas associações de idéias e práticas, ensinando-nos como tais povos podem viver felizes e prósperos sem observar os hábitos que consideramos inevitáveis.
(...) “Não se pode viver num país em que se põem “ciruelas”( isto é, ameixas) na sopa - dizia-me um espanhol, referindo-se à Alemanha; e eu ouvi um alemão dizer que jamais se habituaria a uma terra na qual se fritam ovos no azeite, e não na manteiga, e onde se emprega alho para condimentar os alimentos”.
         (De Esto y de Aquello. Tomo IV. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1954. p.516).
Reflexionemos um pouco: não é evidente que o turista contemporâneo se tornou-se ecumênico  ou, se quiserem, um viajor aberto?
O turista de hoje abre seus olhos, e talvez – mais anda – seu apetite a todas as curiosidades, a todas as transgressões, a todas as invenções.
Ele é o turista aparentemente obtuso – isto é, alguém que exige que uma viagem lhe preste, no mínimo, um grande serviço: torná-lo menos ignorante.
O turista atual compreendeu que, em compensação pelos incômodos da viagem, as Agências de Viagem lhe devem uma contrapartida: o sonho de uma felicidade possível, uma incurável saudade de algum lugar onde beijamos alguém, onde nos sentamos à orla de um lago, onde evocamos nossa infância, onde sonhamos duas vezes a mesma coisa, ou três vezes o mesmo sonho, onde podíamos ser felizes, e quase o fomos, onde nos ocorreu (por que não?) que podíamos até perdoar a nossos inimigos.
 Sim , o turista atual tornou-se um homem imprevisível, um homem que é capaz de despir sua casca de serpente, e encontrar, debaixo dela,  um outro eu, mais interessante do que o eu que oferecemos em espetáculo  aos outros homens.
Enfim, se o turista, não volta a encontrar a felicidade - dom secreto da Divindade – tem, ao menos, a intuição de que pode encontrara sua sombra, a sombra de uma incontrolável felicidade.
         Onde estaria tal sombra?
Ao pé de um cálice de vinho, na encantadora Borgonha,  junto a uma torta de nozes em Siena, ou na Toscana, onde as delícias visuais, auditivas, táteis e olfativas evocam os dias de Giotto, Dante, Petrarca e Boccaccio, e – naturalmente – suas mulheres, embora as Pietras de Dante e as Fiammetas de Boccaccio, não valham nossas companheiras, aparentemente prosaicas.  
Após nossos périplos, chegamos à conclusão de que é melhor buscar essas amadas (e mantes!) no próprio lar, ao pé de uma mulher de bom coração, cujo sex-appeal não se tenha extinguido, e cuja ternura esteja à altura de outro coração - o do turista que lhe faz companhia.

IV.
Meu elogio, porém, ao turista não se esgota aqui.
Deixo o restante por conta das infra-estruturas turísticas, e dos serviços das Agências.


Apêndice

Em 2010, uma experiência inolvidável com um grupo que desejava conhecer os principais monumentos românicos e góticos da França.
Orientei um grupo de 28 pessoas que percorreu comigo essas veneráveis ruínas – ou obras-primas do passado, tanto as religiosas como as profanos.
Foram 16 dias de convivência amistosa, de paixão estética pelas mesmas  excelências.
A experiência, que teve a assistência profissional da eficientíssima, cortês e culta Véronique Buisson Masi, foi tão boa, que aceitei complementar essa primeira viagem com a deste ano, quando visitaremos os monumentos do Renascimento, do Barroco ,e de outros estilos que chegam até aos tempos de Van Gogh, Cézanne., Matisse, e outros.
A viagem compreenderá 20 dias de excursão através da Itália e do Sul da França.
Quem deseja detalhes sobre esse roteiro, utilize os seguintes endereços:
Fone: (51) 3026-2233;
E-mail: veronique@biarritz.com.

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