segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Dimensão Estética do Futebol.

I.
         Alguns leitores pediram-nos que escrevêssemos uma crônica sobre o futebol.
         Explicaram-nos que desejavam uma crônica na qual ficassem visíveis as razões pelas quais o futebol pode ser considerado uma Arte.
         Apesar de nos sentir incompetentes para tal tarefa, resolvemos tentar uma exposição de tais razões.
         Comecemos por uma afirmação inofensiva: o futebol é uma arte sem assunto.
         Que temática existirá no futebol senão a de mexer as pernas e, com elas, os demais membros corporais?
O objetivo de tal mexeção (o vocábulo acha-se no Aurelião), é a de competir com o adversário.
O critério de superioridade de uma das duas equipes reside na quantidade de gols - na quantidade de vazamentos de arco - em cuja área defensiva um dos jogadores se esforça para impedir que a bola - tanto por parte de uns como de outros (já que existem gols contra) se aloje no bojo da rede.
A rede retém a bola, e assim permite que se verifique se ocorreu, ou não, o gol.
Fixemo-nos, primeiramente, no local onde ocorre a competição.
O campo apresenta certa disposição simétrica. Portanto, pode ser apreciado esteticamente por um olho sensível.
SãoTomás de Aquino definia o belo como “aquilo que agrada aos olhos”.
Séculos antes dele, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), interrogado por alguns curiosos sobre a razão por que as pessoas costumam apreciar coisas bonitas, replicou, um tanto enfadado:
         - É uma pergunta que só um cego pode fazer!
Quem não é cego, vê que num campo de futebol existe um aspecto estético, o de sua quadratura, ou melhor, o de sua retangulosidade.
Detenhamo-nos, então, nos gramados.
Quem não aprecia uma extensão de relva cuidadosamente aparada?
Em nossa época, o verde tornou-se uma cor particularmente valorizada. Goza de simpatia quase universal, em parte devido ao aumento da consciência ecológica.
Incluamos no rol das qualidades estéticas do futebol a cor da esperança.
Atentos, ainda, às exigências  de qualquer macht, dirijamos nossa atenção às redes do arco.
Todo brasileiro, que leu Casimiro de Abreu ou Castro Alves, alegra-se com a expressão romântica, que um comentarista esportivo tornou popular: véu-de-noiva.
 Aceitemos tal comparação.
Os gols, que se realizam por falha do jogador, considerado o mais culpável pelos erros da equipe, isto é, o goleiro, que alguns intelectuais preferem chamar  de arqueiro (há outros sinônimos como guarda-meta, guarda-rede, golquíper, até guarda-vala) são considerados quase um atentado ao pudor (leia-se:) à inviolabilidade do arco.
Mencionamos esses três aspectos, porque eles condicionam a viabilidade operacional do jogo. Podemos, agora, dirigir nossa atenção, ao Céu – que se estende sobre os estádios, e que em certas tardes se apresenta limpidíssimo, e em certas noites estreladíssimo.
São momentos em que:
-tiritam, azuis,os astros, à distância”.
O próprio Céu, como vedes, pode ser considerado um elemento estético do futebol.

II
         Examinemos o jogo em si.
Fixemo-nos, primeiramente, nos jogadores.
         É óbvio que existem jogadores cuja aparência física nada apresenta de estético. Outros, se levamos em conta a opinião das mulheres, podem ser considerados “retratos de Cupido”.
Adicione-se – a isso - a deslumbrante atração de alguns excepcionais torsos masculinos.
         Em qualquer competição, portanto, os espectadores podem apreciar jogadores que se requebram no campo, dão saltos, colidem entre si, fraturam ossos, caem em variadíssimas posições, algumas deselegantes, outras semi-acrobáticas, outras que podem ser comparadas às quedas de cavalos árabes em corrida de obstáculos.
O conjunto oferece oportunidades de fruição visual, inclusive para temperamentos sádicos, ou, em casos mais raros, para temperamentos sado-masoquistas.
Sob o ponto de vista estético, é uma delícia ver jogadores que cabeceiam a esfera, que a chutam, ora com manha, ora (por ocasião da cobrança de pênaltis) com obstinado e calculado rigor.
 Pode-se, evidentemente, vibrar com os gritos e uivos de satisfação, que explodem na torcida quando ocorrem gols.
Tais prazeres, de intensa voltagem emotiva, são, indiretamente, estéticos. Preferiríamos denomina-los para-estéticos.
Alguns críticos, como o semiólogo Umberto Eco, consideram tais uivos mais compatíveis com a natureza dos símios do que com a natureza dos animais racionais. Todo o mundo, porém, sabe que semiólogos não são analistas credenciados do futebol.  
À luz das recentes Estéticas de Vanguarda, ou mais adequadamente, à luz dos critérios que qualificam os shows  de cantoras como Madonna e Lady Gaga, convém apreciar certos aspectos futebolísticos.
Já no tempo dos romanos, as dançarinas eram chamadas “saltatrices” . O termo evoluiu, abrangendo na atualidade dançarinas e cantoras, visto que as duas profissões acabaram por coincidir.
Assinalemos outro elemento estético presente nas partidas de futebol: os árbitros.
 Alguns deles evocam flamingos, outros efebos helênicos, outros professores de academias de Fitness.  A maioria assemelha-se a atletas cujos sonhos de atuação esportiva não puderam ser satisfeitos e, por isso eles, modestamente, contentam-se com um apito na boca.
Utilizam-no, a bem da verdade, com certo aprumo.
Seus gestos podem ser considerados estéticos.
A maioria dos árbitros, com efeito, empenham-se por exibir posturas heráldicas.
Os menos famosos chegam a mimetizar posturas à Napoleão Bonaparte.
Em síntese: os árbitros, e seus auxiliares, podem ser arrolados entre os elementos estéticos do futebol.
Pairam dúvidas sobre a conveniência de inclusão dos gandulas. Pequenos duendes dos estádios, tais figurinhas não fazem questão de manter nenhum estilo, peculiar às suas funções. Costumam precipitar-se ao encontro das bolas desgarradas, e quase não se importam com a gestualidade.
         Sobre a presença dos fotógrafos e câmeras de cinejornal nas cercanias dos arqueiros, talvez se possa dizer o seguinte: tais acólitos do ritual futebolístico podem figurar entre os elementos para-estéticos do futebol - desde que não se supervalorize sua parafernália técnica.

III.  
       Elemento estético de primeira grandeza é, sem contestação, a bola.
         Os gomos coloridos que a compõem suscitam imediatamente um movimento de simpatia em nossa a atenção. Sua forma encarna a forma da perfeição, tal como foi considerada pelos primeiros teóricos da Estética, os Gregos.
Os especialistas afirmam que o próprio Dante concedeu importância à esfera, na Divina Comédia.
Por ser redonda, a bola não privilegia nenhuma de suas partes. Apresenta-se como uma metáfora das perfeições cósmicas.
Um jornalista americano, em data recente, citou numa de suas crônicas para o New York Times, o seguinte comentário de uma das apresentadoras de programas de esportes do Brasil:
         - Vemos jogadores no campo beijando e acariciando a bola o tempo todo. Há realmente um componente erótico nisso, e está tudo ligado à idéia do homem subjugando a bola como faria a uma mulher.
         O mesmo jornalista americano anotou:
         - (...) todos os substantivos portugueses variam em gênero, e a palavra bola tem conotações tão femininas quanto a forma redonda e voluptuosa do próprio objeto, a qual para muitos brasileiros evoca os seios e as nádegas do corpo da mulher.
Se existe “erotismo” no futebol, como não ver nele, ao menos subliminalmente, um elemento estético?

IV.
         Seria ridículo omitir outro elemento estético do futebol: a presença do público.
Nos espectadores, que atopetam as arquibancadas dos estádios, tal elemento estético é de uma presencialidade ofuscante.
Consideremos a presença de mulheres bonitas.
Elas costumam assistir às partidas, acompanhadas ou desacompanhadas. Comportam-se – algumas delas - como aficionadas de alto estilo. A beleza de seus rostos e de seus corpos não costuma sofrer agravo quando, por ocasião de um gol contra, uma careta tende a deformar-lhes o semblante.
Graças à erudição dos Irmãos Campos, sabemos que uma careta não abole o acaso, nem tampouco consegue obscurecer a formosura de feições, celebradas, em prosa e verso por poetas à altura de Stéphane Mallarmé, como Manuel Bandeira e Vinícius de Morais.
Menos evidente nos estádios é a beleza masculina, em especial a de políticos. Existem políticos atléticos, outros razoavelmente apessoados, uns terceiros capazes de concorrer com Tom Cruise.
 Junto a eles, alinham-se numerosos ícones da mídia.
Consideramos, de ordem estética, não somente a presença de tais belezas viris, como lhes adicionamos a presença de milhares de torcedores. Estes podem, em determinadas ocasiões, ser considerados as cerejas do bolo.
Enfim: o que pensar de escritores que, empolgados com os dribles de Messi, Neimar  e Cristiano Ronaldo, escrevem ditirambos  aos crasques, ou que dizer dos textos à Stendhal de poetisas que desmaiam à vista de pernas bem torneadas?
Os cronistas do futebol nacional  jamais deixaram de inventariar, entre nossas legendas estéticas, as pernas do ex-arqueiro Leão.
Para poder analisar tal fenômeno, importa refletir sobre um pormenor: a Estética Contemporânea tem evoluído muito. É por isso que existem até apreciadores de Arte Povera  e de Arte Minimalista .
À luz de tais princípios, é necessário incluir os técnicos de futebol entre os elementos estéticos do futebol nacional.
Não depõe contra essa inclusão a ululante obviedade de alguns deles se apresentarem, nos estádios, com um grau de obesidade, totalmente ofensivo aos padrões da Unesco.


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