quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ultimato: uma Revista Ecumênica de Alto Nível.

I.
       Há alguns anos, recebo gratuitamente uma revista, que considero uma das publicações nacionais de maior sinceridade – a de maior elegância ecumênica - do Brasil.
         O nome da revista, inicialmente, me surpreendeu – e até hoje me assusta um pouco: Ultimato.
         Peguem-na nas mãos, e verão que a revista nada tem do nome, senão o de ser um convite-choque.
         Que significa ultimato?
         Um dicionarista autorizadíssimo, Antônio de Morais Silva informa-nos:
         - Ultimatum (como antigamente se dizia): Últimas condições que um Estado apresenta a outro e de cuja aceitação depende a continuação das negociações diplomáticas em que estão interessados.
Intimativa formal, de cuja aceitação depende não se declarar a guerra/ Resolução final e irrevogável.
         Que os leitores, pois, interpretem – metaforicamente – como melhor lhes parecer tal nome.
         A mim, interessa-me ai conteúdo religioso dessa publicação, e sua orientação evangélica.
         Orientação?
Não há dúvida de que seu Diretor é uma personalidade singular.
Um teólogo?
Sem dúvida, mas um teólogo prático, ou como se diz: pastoral,  mais interessado em colaborar  - no plano salvífico de Cristo - do que em marcar gols no placar futebolístico teológico.
 Num século competitivo como o nosso, num país, como o nosso, que transborda de novos-ricos em todos os setores, parece que um brasileiro não tem vez caso não se sinta permanentemente favorecido pela Lei de Gerson.
         Li inúmeros artigos do Pastor Elben M. Lenz César.
De seus livros, li apenas um, que apresenta um título sugestivo: Conversas com Lutero. História e Pensamento.
(Viçosa, Editora Ultimato, 2006).
         Esse livro do Pastor César é, efetivamente, uma graça – emprego com plena consciência semelhante expressão, pois graça evoca a Graça Divina, sem a qual ninguém entra no reino dos Céus.
É verdade que existe, também, uma graça humana. Aqui faço alusão àquela graça que poderia ser definida: - como o é pelo dicionarista já citado, como favor que se dispensa sem obrigação ou que se recebe; e também: mercê régia, agrado, atrativo, airosidade, facilidade e elegância no modo de dizer; sal, fina malícia ou mordacidade na expressão.
         Não encontro muita “mordacidade” nos escritos do Pastor César, mas neles acho sal, alguma malícia, e sobretudo, facilidade e elegância no modo de dizer - ah, isso existe às pampas, isto é, ás alterosas, nos seus escritos.
         Leiam, por favor, a mencionada obra do Pastor César.
É uma compacta e bela introdução ao pensamento luterano. O autor oferece-nos um texto “rigorosamente baseado em fatos históricos. As respostas colocadas na boca de Lutero, quando em itálico, foram retiradas, na maior parte das vezes, de seus próprios escritos, reunidos nos nove volumes de Martinho Lutero – Obras Selecionadas, com a devida permissão da Comissão Inter-luterana de Literatura (CIL), e das Editoras Sinodal (São leopoldo, RS) e Concórdia (porto Alegre, RS)”.
O Pastor César cativa o leitor por sua transparente honestidade. Leva-o a refletir, suscita-lhe questões contemporâneas.
É como se Martinho Lutero estivesse sendo entrevistado nos dias de hoje, num programa de televisão, ou melhor, num auditório universitário.
Livros assim deveriam ser lidos por um vasto público.
São contribuições valiosas ao Ecumenismo, ao grande Ecumenismo - não o ecumenismo-mirim, o pequenino, que se recusa a afrontar os verdadeiros problemas que a consciência, tanto dos católicos como dos protestantes, requer.
Aprendi inúmeras coisas com o livro do Pastor César. Aproveitei, inclusive, suas sugestões bibliográficas.
Tornei-me mais cristão, embora ás vezes, paradoxalmente, me tenha tornado menos católico no sentido de que não se avança em direção ao irmão separado, a não ser saindo do próprio lugar, e caminhando para ele, visto que “o caminho se faz quando se caminha” – como dizia o poeta Antonio Machado.

II.

         Volto à revista Ultimato.
 Não é, propriamente uma revista “teológica”, no sentido estrito do vocábulo. É uma revista que inclui temas teológicos, abordados com método para-científico, com responsabilidade evangélica, sempre ao alcance do grande público.
 A atmosfera da revista traz, por vezes, ar fresco da Judéia e da Galiléia, e ás vezes, o aroma dos laranjais da Palestina.
         Temas candentes?
A revista não os esquiva.
Lembro-me de que, tempos, atrás, publicou-se nela uma série de artigos e depoimentos sobre a Homossexualidade e a Bíblia.
A revista não tomou ares doutorais, nem recorreu a fórmulas condenatórias. Também não sonegou nenhum dos problemas que a Bíblia pressupõe. Nem escondeu as perplexidades que assaltam os cristãos, nos dias de hoje, quando a permissividade se impõe como um critério de sociabilidade e “democracia”...
Ultimato deixou claro que a questão devia ser resolvida à luz da Revelação, mesmo quando esta Revelação impõe a exclusão de determinados “pontos-de-vista”, de aceitação inconsiderada entre os cristãos.
Em todos os momentos, Ultimato demonstrou respeito e simpatia pelos homoeróticos,  valorizando-os como pessoas, ou seja, na sua condição de homens e mulheres chamados à vida sobrenatural oferecida por Cristo.
Acabo de receber o número correspondente a julho-agosto de 2012, que tem como artigo de capa: A Europa precisa de Jesus agora, Como sempre, a “Carta ao Leitor” é de autoria do Pastor Elben César.
         Nessa Carta elecita uma frase recente do Papa Bento XVI:
         - A Europa sem o Cristianismo não é mais Europa européia.
         Outros dados são apresentados ao leitor, entre os quais o estudo do Tutor do Curso de Mestrado em Missões Européias no Reino Unido, Jim Memory. Por ele  somos informados de que “70% dos europeus afirmam acreditar em Deus”.
Três outros artigos completam a reflexão de Jim Memory: “O Paradoxo da Missão Cristã na Europa”.
Dois outros artigos, na revista, polemizam entre si.
O primeiro: “O Cristianismo promete tudo, mas não fez nada” tem sua resposta no artigo: “O Cristianismo leva muito tempo para fazer, mas faz”.
         Enfim, resumindo: eis uma revista que, sem elevar a voz, sem utilizar címbalos e estridentes trombetas, proclama a verdade do Evangelho, a fim de que cada cristão releia a Boa Nova sem prevenção, com um coração progressivamente mais aberto e sobretudo, progressivamente mais livre.
         A verdade vos fará livres. Tal mensagem de Jesus poderia caracterizar a preocupação básica de Ultimato.
        
Nota:
aos interessados, fornecemos o telefone da revista (31) 3611-8500 e seu e-mail: atendimento@ultimato.com.br
          

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Jesus num Aeroporto Brasileiro?

Armindo Trevisan.


I.
Mais de um católico imaginou o que eu imaginei: topar com Jesus no  borborinho, ou com mais precisão, na frenética agitação de um Aeroporto, que pode ser o de Belo Horizonte, ou o de Congonhas.
Por falar nisso: não estaria próxima a hora de se repensar determinados slogans, que celebrizaram o Maio de 1968, quando se deu a Rebelião dos Jovens Franceses, uma espécie de “revolta à Camus”.
Quando esta findou, restaram dois afluentes de valor: o afluente da Ecologia, e o afluente da Luta Anti-racial, que seus líderes acabaram assumindo.
Para dizer a verdade, tais ex-líderes, que se exibem atualmente nas telinhas de TV desbarbados - porque os hippies sucederam aos mosqueteiros de Paris -  se civilizaram depressa demais, e com isso nos desiludiram.
Em última análise, apnde foi alojar-se seu primitivo radicalismo?
É verdade que, entre a abstenção de banhos higiênicos e a abstenção de ideais éticos, insere-se um mundo. O que mais nos choca - a nós, que os olhávamos como Sexta-Feira olhava para Robinson Crusoé - é que isso nos parece ter sucedido já há alguns séculos...
Quem não se lembra do atualíssimo slogan de Maio de 1968: Todo Poder à Imaginação?
Confio à vossa imaginação, ó amáveis leitores, a resposta a uma indagação que me alfioneta:  o que restou do Maio de 1968, em termos de imaginação, nos governantes atuais do lado de lá do Atltântico, e obviamente, do lado de cá?
Se alguém, detentor de uma imaginação dantesca, for capaz de encontrar vestígios dela, por exemplo, no semblante manhoso de um ex-Primeiro Ministro Italiano, Silvio Berlusconi, apresente-se! O nome Sílvio podia sugerir um raminho da legítima flora silvestre!
 Que diremos dos políticos que, recentemente, foram tragados pelo tsunami das últimas eleições da Eurozona?
A única imaginação política, que hoje é visível no panorama político contemporâneo, é a de dois estranhíssimos personagens: o Comandante Chávez, e o duende iraniano de nome quase impronunciável: Ahmadinejad.
No caso de tais “sumidades”, não se trata, propriamente, de imaginação; estamos é diante de dois Pseudo-Condottieri rernascentistas,  que revelam mais ânsia de poder do que inventividade social.
         Tornemos aos Aeroportos.
         Muitas vezes me tenho perguntado:
         - O que Jesus sentiria num Aeroporto como o de Belo Horizonte ou de Congonhas?
(Refiro-me a esses aeroportos porque estive neles em data recente).
- Como se apresentaria Jesus neles? Tentaria expulsar os negociantes e cambistas de seus espaços climatizados? Teria vontade de conversar com as pessoas, os passageiros e os turistas?
         Tenho por certo que Jesus pagaria as taxas de embarque, submeter-se-ia ao incômodo  dos controles eletrônico de segurança, não se importaria em ser empurrado e acotovelado por circunstantes ansiosos.
         Minha curiosidade vai um pouco além:
- Como o distinguiríamos no meio de milhares de passageiros?
         Suponho que estaria vestido como se veste todo o mundo, atualmente.
 Levaria nas mãos, talvez, uma sacola de plástico, e carregaria uma discreta valise.
         Falaria?
         Acho que não.
         Seu silêncio seria notado por alguém?
         Também acho que não.  
         É impossível notar um silêncio nos aeroportos.
O som é alto, onipresente, e não dá tréguas nem aos indivíduos mais dotados para o sono permanente.
         Resumamos: Jesus não teria o que dizer, nem o que fazer num Aeroporto.
         Sua função salvífica, nesse espaço da vida contemporânea, consistiria simplesmente em provocar em alguns distraídos desconfiança sobre sua Presença.

III.
         A estas alturas, não estou mais imaginando: estou delirando!
         Sejamos razoáveis: imaginemos Jesus, menos abstratamente.
Situêmo-lo no mundo atual.
         Os católicos, que se ufanam de profundas convicções religiosas, objetar-me-iam:
- Jesus existiu uma única vez! Existiu como um judeu, aproximadamente entre o ano 3 antes da sua era, e o ano 31 depois de sua era.
Se for essa a objeção de meus irmãos na fé, divirjo deles.
Tenho a persuasão de que Jesus continua presente, e muito presente, no mundo doido em que estamos.
Jesus – seja dito logo – não poderia, obviamente, estar entre nos como esteve no tempo em que Ele não tinha ressuscitado. Está presente, aqui e agora, como um Ressuscitado - ou segundo uma expressão que me agrada, na minha condição de descendente de italianos, como o Risorto!
Primeiramente, porque acredito (como o acreditam, também, os fiéis seguidores de Lutero) na presença de Jesus sob as aparências do pão e do vinho.
 O pão continua fazendo parte da alimentação da Humanidade (daquela que ainda pode alimentar-se).
O vinho...
Bem, o vinho não faz parte da bebida do vulgo, nem é oferecida aos amigos do esposa e do esposo nas festas de casamento, como ocorria no passado. Lembrem-se das Bodas de Caná, na Galiléia, durante a qual o Redentor da Humanidade mimoseou os noivos - que se tinham enganado na quantidade necessária de bebida para os convidados - com mais de seiscentos litros do melhor vinho do mundo, de um vinho comparável ao Romanée-Conti, a quem os correligionários ideológicos de um ex-Presidente ofereceram uma garrafa, que custou a bagatela de 4 mil euros.
Jesus – está é a realidade - está de uma forma misteriosa, mas real, um pequeno fragmento de pão, “com seu corpo, sangue, alma e Divindade”, como dizia a fórmula tradicioonal que as crianças aprendiam nas aulas de Catecismo.
Talvez ainda a aprendam.
Ocorre que Jesus, também, está presente hoje, embora oculto, em qualquer dos seres humanos. Ele mesmo o declarou: “O que fizerdes a um destes, que estão comigo, o fazeis a mim”.
Dos que estão comigo?
 Existe sempre uma igreja, ou templozinho, quer nos aeroportos, quer nos bairros onde se localizam.
Onde mais estaria presente?
Em todos os que crêem na sua Pessoa e na sua Revelação.  
Estaria presente, também, nos agnósticos e ateus?
Sem dúvida, só que à espera de um convite - como ocorreu com Zaqueu, que o aguardava no alto de uma árvore, por ser muito baixo de estatura. Não foi Zaqueu quem convidou Jesus; foi Jesus que se convidou a ir almoçar na sua casa, isto é, na casa de Zaqueu.
Fiquemos por aqui.
IV.
Apesar de todas as considerações acima, continuo em luta com minha imaginação.
Estaria Jesus presente em outros lugares de nosso insignificante planeta, para nós significantíssimo, tanto que, subliminalmente, pensamos que ficaremos “sempre” aqui?
Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja, disse um dia:
- O único remédio para se ver a Deus é morrer. Mas este remédio Deus no-lo proibiu.
Sejamos, então, cristãos.
Com ou sem imaginação.
Ninguém precisa preocupar-se, como me preocupo, com interrogações íntimas, do gênero das que expus ao longo deste texto.
Ninguém precisa ter imaginação.
Caso tenha imaginação, ninguém precisa despertá-la ou excita-la.
Se algum cristão, ou católico, está satisfeito com o mundo, “como ele é” - valendo-nos de uma expressão à Nelson Rodrigues - tranqüilize-se.
Abrace-se à sua opinião, durma, até, com ela.
A minha imaginação é diferente, é a de um insatisfeito.
Concluamos: essa estória de Jesus num Aeroporto é coisa arcaica, de católico pascaliano. Blaise Pascal morreu há muito tempo.
Eu também morrerei.
Creiamos, pois, unicamente em Jesus.
Encontrêmo-lo onde o pudermos encontrar.
Se não o pudermos encontrar num aeroporto, encontrêmo-lo numa igrejinha, onde se re-atualize seu Sacrifício Redentor, onde o Ressuscitado nos aguarde humildemente, cada manhã, com ou sem a companhia dos obtusos Discípulos de Emaús.
É em nossas igrejas, na fração do Pão, que Ele poderá revelar-se outra vez.
         Quanto à sua presença nos Aeroportos, sobre a qual tomei a liberdade de insistir, levem em conta que também sustento ser necessário, para crer nisso, muita fé.
O problema, em última análise, não é crer que Ele está lá: é identificá-lo acolá.
Sob qualquer hipótese, num Aeroporto Jesus estará sempre silencioso.

Nota.
Escrevi este texto após visitar, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, a magnífica Mostra Caravaggio e seus Seguidores.
O genial pintor italiano teve a audácia de atualizar as representações de Jesus e dos Santos, proletarizando-as na maioria das vezes.
Levou a extremos uma inovação, que já fora estreada por Konrad Witz (1400-1446), pintor nascido na Alemanha, mas radicado posteriormente na Suíça. Witz situou a Pesca Milagrosa no Lago de Genesaré no lago Leman. Dizem os experts que se pode, ainda hoje, localizar o sítio onde ele montou seu cavalete.    
        

Uma Conversão à Fé Cristã de Dois Mil Anos Atrás!

I.
Os leitores, que por acaso acompanham este blog, devem lembrar-se constantemente que quem escreve nele é apenas um católico-escritor, não um escritor-católico.
Dito noutras palavras: não nutrimos a absurda pretensão de expressar pontos-de-vista da comunidade católica.
Expressamos, unicamente, pontos-de-vista de um indivíduo que, tendo sido batizado, assumiu pessoalmente sua Fé, e deseja ser fiel à Pessoa de Jesus, o Filho de Deus que se fez Homem.
Ocorre que – na condição de autor dos textos no blog- me obrigo a comentar a insensatez humana, a lidar , não só com a insensatez alheia, mas com a minha própria insensatez.
Não é necessário sublinhar que me envergonho de minhas derrapagens mentais, principalmente quando me proponho a confrontar a fé cristã com a realidade que absorve a atenção dos jornais e telas de televisão.
Deixemos, porém, desde já estabelecido um ponto: sob nenhum pretexto de viver sua Fé, pode o cristão exilar-se do Mundo concreto em que vive.
São Paulo dizia que se quiséssemos viver uma Fé a salvo da loucura e da culpabilidade humanas, teríamos que migrar deste mundo... (Cf. 1Cor 5,10).
Migrar, mas para onde?
Para o Outro Mundo?
A Doutora da Igreja, Santa Teresa de Ávila (1515-1582), adverte-nos:
-A única forma de ver a Deus é a morte. Mas esse remédio Deus no-lo proibiu de tomar.
De tais palavras inferimos que não se pode refletir, cristãmente sobre o mundo sem, ao mesmo tempo, refletir sobre as manchetes dos jornais.
Penso que foi Charles Péguy quem escreveu que sua inspiração era a Bíblia e os jornais.

II.
       Jornais?
         Há certos episódios do Novo Testamento que são mais atuais do que tudo que aparece no New York Times.
         Analisemos, por exemplo, o capítulo 8, 26-40, dos Atos dos Apóstolos.
         Refere-se aí que um alto funcionário da Rainha Candace, da Etiópia, seu Tesoureiro e Administrador Geral, retornava de uma peregrinação a Jerusalém, aonde fora “para adorar a Deus”.
O etíope era, provavelmente, um adepto do Judaísmo.
Sentado no seu carro, o estrangeiro lia o livro do Profeta Isaías.
O Espírito de Deus disse, então, a Filipe:
-Aproxima-te desse carro, e acompanha-o.
Filipe acelerou o passo, chegou-se ao carro, e ouviu o que o etíope estava lendo.
Perguntou-lhe:
         - Entendes o que estás lendo?
         O etíope respondeu:
         -Como posso eu entender o que estou lendo, se ninguém mo explica?
         Filipe subiu ao carro, e explicou o texto que o funcionário estava lendo.
         Aproveitou, igualmente, a oportunidade para anunciar ao etíope a Boa Nova de Jesus.
        O Livro dos Atos continua:
         -Ao passarem por um lugar onde havia água, o etíope disse:
         - temos aqui muita água! Há alguma coisa que impeça de eu ser batizado?
         Filipe respondeu:
         - Se tu crês de todo o coração, não há nada que impeça.
         Ele respondeu:
         -Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
         Mandou, então, parar o carro. Os dois entraram na água, e Filipe batizou-o.
         Quando saíram da água, o Espírito do Senhor levou dali Filipe, de modo que o eunuco não tornou a vê-lo, mas continuou sua viagem cheio de alegria.
         Esse episódio dos Atos dos Apóstolos enche-me de estupefação.
Eis algumas razões para minha estupefação:
I.                 Encontra-se nesse texto o primeiro esboço do CREDO que os católicos recitam, cada domingo, nas missas a que assistem;
II.             Encanta-me verificar nele a brevidade do anúncio da Fé. Quantas horas terá durado essa evangelização “rodoviária”?
III.         Impressiona-me a rapidez com que o coração do etíope, preparado pela leitura da Bíblia, se dispôs a aceitar a mensagem de Jesus;
IV.          Como terá sido, depois desse batismo onesperado, a vida do etíope, ao retomar suas funções? Que tipo de ética terá observado na sua vida cotidiana: os Dez Mandamentos? Ou também novas lições que lhe teria transmitido Filipe sobre a conduta de um cristão?
V.              Surpreendo-me, ainda, com afinidades entre esse episódio dos inícios do Cristianismo e nossa vida de hoje. Não seria possível uma tal Evangelização nas autopistas da Europa, ou nas ruas de uma capital sul-americana?
VI.          Existirão ainda Filipes à disposição do Espírito do Senhor? Ou, os que existem, se acham super-ocupados em garantir um lugar ao sol à “Igreja Católica diante dos grandes deste mundo?
VII.      Comovo-me ou antes, enterneço-me com episódios como esse do Cristianismo nascente! Desejaria vê-los em novas edições em nosso mundo, re-paganizado.

III.
                Volto a insistir: não pretendo dar lições a ninguém, muito menos aos membros da Hierarquia Católica, nossos Pastores.
         O que desejamos realçar, na condição de um joão-ninguém batizado, é que a Fé nos diz que deveríamos repensar a ordem que Jesus nos deu de anunciar seu Evangelho.
Não será chegada a hor de regressarmos a uma maior simplicidade?
         Talvez tenhamos complicado demais o anúncio da Boa Nova.
Se, na época do etíope, bastou tão singela evangelização, para leva-lo à Fé e ao Batismo, é necessário extrair do episódio uma lição: talvez  não nos esteja faltando “Bibliografia Evangélica”!
Talvez nos falte a presença do Espírito.
Por que razão o Espírito do  Senhor agiria na época de Filipe, e não agiria em nossa época?
Por que teria Ele estado presente, numa estrada do Império Romano, e não estaria nas autopistas de nosso mundo, onde se atravancam Toyotas, Mercedes,  BMWs?
O Espírito do Senhor não se dedignou  de estar presente numa paisagem deserta. É provável que não se dedigne de estar nos nossos Aeroportos, onde resfolegam Boeings, e as pessoas  se agitam, de um lado para o outro.
É possível que necessitemos de um maior índice pluviométrico de água batismal, e de uma maior quantidade de Energia Eólica, isto é, a verdadeira Energia Eólica, a Espiritual, a que fez tremer o Cenáculo de Jerusalém, onde os Apóstolos aguardavam que sobre eles descessem as línguas de fogo, que de fasto desceram, e os inflamaram de amor  verdadeiro pelos homens e por Deus.

IV.
       A imaginação cristã não pode acovardar-se diante dos desafios do mundo contemporâneo.
         São maiores, eventualmente, que os desafios que os primeiros cristãos afrontaram. Maiores, porém não piores.
         O fermento cristão é convidado a levedar a massa – ou, com um pouco de humor, as Massas - que se jogam às frivolidades de nossa sociedade, às suas fantasias, às suas Madonnas e Lady Gagas, às suas top-models e astros dos shows, às passeatas de protesto e às agitações de todo tipo que encrespam a superfície de nosso oceano midiático.
         O episódio do Livro dos Atos dos Apóstolos nos ensina a desconfiar do que aparece excessivamente.
Num recanto qualquer de bar de Aeroporto, ou numa rua barulhenta de nossas cidades, pode estar acontecendo o que aconteceu outrora na estrada deserta da Judéia.
Estejamos dispostos como Filipe a ouvir o que o Espírito Santo nos diz:
- Aproxima-te desse carro, e acompanha-o!
         Não olhemos a marca do carro.
Aos olhos do Espírito Santo um BMW ou um carrinho usado são a mesma coisa. Olhemos, atentamente, para o etíope, para o judeu, para o sudanês que nele está viajando.
O importante é que, dentro do carro, esteja um homem.

A Dimensão Estética do Futebol.

I.
         Alguns leitores pediram-nos que escrevêssemos uma crônica sobre o futebol.
         Explicaram-nos que desejavam uma crônica na qual ficassem visíveis as razões pelas quais o futebol pode ser considerado uma Arte.
         Apesar de nos sentir incompetentes para tal tarefa, resolvemos tentar uma exposição de tais razões.
         Comecemos por uma afirmação inofensiva: o futebol é uma arte sem assunto.
         Que temática existirá no futebol senão a de mexer as pernas e, com elas, os demais membros corporais?
O objetivo de tal mexeção (o vocábulo acha-se no Aurelião), é a de competir com o adversário.
O critério de superioridade de uma das duas equipes reside na quantidade de gols - na quantidade de vazamentos de arco - em cuja área defensiva um dos jogadores se esforça para impedir que a bola - tanto por parte de uns como de outros (já que existem gols contra) se aloje no bojo da rede.
A rede retém a bola, e assim permite que se verifique se ocorreu, ou não, o gol.
Fixemo-nos, primeiramente, no local onde ocorre a competição.
O campo apresenta certa disposição simétrica. Portanto, pode ser apreciado esteticamente por um olho sensível.
SãoTomás de Aquino definia o belo como “aquilo que agrada aos olhos”.
Séculos antes dele, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), interrogado por alguns curiosos sobre a razão por que as pessoas costumam apreciar coisas bonitas, replicou, um tanto enfadado:
         - É uma pergunta que só um cego pode fazer!
Quem não é cego, vê que num campo de futebol existe um aspecto estético, o de sua quadratura, ou melhor, o de sua retangulosidade.
Detenhamo-nos, então, nos gramados.
Quem não aprecia uma extensão de relva cuidadosamente aparada?
Em nossa época, o verde tornou-se uma cor particularmente valorizada. Goza de simpatia quase universal, em parte devido ao aumento da consciência ecológica.
Incluamos no rol das qualidades estéticas do futebol a cor da esperança.
Atentos, ainda, às exigências  de qualquer macht, dirijamos nossa atenção às redes do arco.
Todo brasileiro, que leu Casimiro de Abreu ou Castro Alves, alegra-se com a expressão romântica, que um comentarista esportivo tornou popular: véu-de-noiva.
 Aceitemos tal comparação.
Os gols, que se realizam por falha do jogador, considerado o mais culpável pelos erros da equipe, isto é, o goleiro, que alguns intelectuais preferem chamar  de arqueiro (há outros sinônimos como guarda-meta, guarda-rede, golquíper, até guarda-vala) são considerados quase um atentado ao pudor (leia-se:) à inviolabilidade do arco.
Mencionamos esses três aspectos, porque eles condicionam a viabilidade operacional do jogo. Podemos, agora, dirigir nossa atenção, ao Céu – que se estende sobre os estádios, e que em certas tardes se apresenta limpidíssimo, e em certas noites estreladíssimo.
São momentos em que:
-tiritam, azuis,os astros, à distância”.
O próprio Céu, como vedes, pode ser considerado um elemento estético do futebol.

II
         Examinemos o jogo em si.
Fixemo-nos, primeiramente, nos jogadores.
         É óbvio que existem jogadores cuja aparência física nada apresenta de estético. Outros, se levamos em conta a opinião das mulheres, podem ser considerados “retratos de Cupido”.
Adicione-se – a isso - a deslumbrante atração de alguns excepcionais torsos masculinos.
         Em qualquer competição, portanto, os espectadores podem apreciar jogadores que se requebram no campo, dão saltos, colidem entre si, fraturam ossos, caem em variadíssimas posições, algumas deselegantes, outras semi-acrobáticas, outras que podem ser comparadas às quedas de cavalos árabes em corrida de obstáculos.
O conjunto oferece oportunidades de fruição visual, inclusive para temperamentos sádicos, ou, em casos mais raros, para temperamentos sado-masoquistas.
Sob o ponto de vista estético, é uma delícia ver jogadores que cabeceiam a esfera, que a chutam, ora com manha, ora (por ocasião da cobrança de pênaltis) com obstinado e calculado rigor.
 Pode-se, evidentemente, vibrar com os gritos e uivos de satisfação, que explodem na torcida quando ocorrem gols.
Tais prazeres, de intensa voltagem emotiva, são, indiretamente, estéticos. Preferiríamos denomina-los para-estéticos.
Alguns críticos, como o semiólogo Umberto Eco, consideram tais uivos mais compatíveis com a natureza dos símios do que com a natureza dos animais racionais. Todo o mundo, porém, sabe que semiólogos não são analistas credenciados do futebol.  
À luz das recentes Estéticas de Vanguarda, ou mais adequadamente, à luz dos critérios que qualificam os shows  de cantoras como Madonna e Lady Gaga, convém apreciar certos aspectos futebolísticos.
Já no tempo dos romanos, as dançarinas eram chamadas “saltatrices” . O termo evoluiu, abrangendo na atualidade dançarinas e cantoras, visto que as duas profissões acabaram por coincidir.
Assinalemos outro elemento estético presente nas partidas de futebol: os árbitros.
 Alguns deles evocam flamingos, outros efebos helênicos, outros professores de academias de Fitness.  A maioria assemelha-se a atletas cujos sonhos de atuação esportiva não puderam ser satisfeitos e, por isso eles, modestamente, contentam-se com um apito na boca.
Utilizam-no, a bem da verdade, com certo aprumo.
Seus gestos podem ser considerados estéticos.
A maioria dos árbitros, com efeito, empenham-se por exibir posturas heráldicas.
Os menos famosos chegam a mimetizar posturas à Napoleão Bonaparte.
Em síntese: os árbitros, e seus auxiliares, podem ser arrolados entre os elementos estéticos do futebol.
Pairam dúvidas sobre a conveniência de inclusão dos gandulas. Pequenos duendes dos estádios, tais figurinhas não fazem questão de manter nenhum estilo, peculiar às suas funções. Costumam precipitar-se ao encontro das bolas desgarradas, e quase não se importam com a gestualidade.
         Sobre a presença dos fotógrafos e câmeras de cinejornal nas cercanias dos arqueiros, talvez se possa dizer o seguinte: tais acólitos do ritual futebolístico podem figurar entre os elementos para-estéticos do futebol - desde que não se supervalorize sua parafernália técnica.

III.  
       Elemento estético de primeira grandeza é, sem contestação, a bola.
         Os gomos coloridos que a compõem suscitam imediatamente um movimento de simpatia em nossa a atenção. Sua forma encarna a forma da perfeição, tal como foi considerada pelos primeiros teóricos da Estética, os Gregos.
Os especialistas afirmam que o próprio Dante concedeu importância à esfera, na Divina Comédia.
Por ser redonda, a bola não privilegia nenhuma de suas partes. Apresenta-se como uma metáfora das perfeições cósmicas.
Um jornalista americano, em data recente, citou numa de suas crônicas para o New York Times, o seguinte comentário de uma das apresentadoras de programas de esportes do Brasil:
         - Vemos jogadores no campo beijando e acariciando a bola o tempo todo. Há realmente um componente erótico nisso, e está tudo ligado à idéia do homem subjugando a bola como faria a uma mulher.
         O mesmo jornalista americano anotou:
         - (...) todos os substantivos portugueses variam em gênero, e a palavra bola tem conotações tão femininas quanto a forma redonda e voluptuosa do próprio objeto, a qual para muitos brasileiros evoca os seios e as nádegas do corpo da mulher.
Se existe “erotismo” no futebol, como não ver nele, ao menos subliminalmente, um elemento estético?

IV.
         Seria ridículo omitir outro elemento estético do futebol: a presença do público.
Nos espectadores, que atopetam as arquibancadas dos estádios, tal elemento estético é de uma presencialidade ofuscante.
Consideremos a presença de mulheres bonitas.
Elas costumam assistir às partidas, acompanhadas ou desacompanhadas. Comportam-se – algumas delas - como aficionadas de alto estilo. A beleza de seus rostos e de seus corpos não costuma sofrer agravo quando, por ocasião de um gol contra, uma careta tende a deformar-lhes o semblante.
Graças à erudição dos Irmãos Campos, sabemos que uma careta não abole o acaso, nem tampouco consegue obscurecer a formosura de feições, celebradas, em prosa e verso por poetas à altura de Stéphane Mallarmé, como Manuel Bandeira e Vinícius de Morais.
Menos evidente nos estádios é a beleza masculina, em especial a de políticos. Existem políticos atléticos, outros razoavelmente apessoados, uns terceiros capazes de concorrer com Tom Cruise.
 Junto a eles, alinham-se numerosos ícones da mídia.
Consideramos, de ordem estética, não somente a presença de tais belezas viris, como lhes adicionamos a presença de milhares de torcedores. Estes podem, em determinadas ocasiões, ser considerados as cerejas do bolo.
Enfim: o que pensar de escritores que, empolgados com os dribles de Messi, Neimar  e Cristiano Ronaldo, escrevem ditirambos  aos crasques, ou que dizer dos textos à Stendhal de poetisas que desmaiam à vista de pernas bem torneadas?
Os cronistas do futebol nacional  jamais deixaram de inventariar, entre nossas legendas estéticas, as pernas do ex-arqueiro Leão.
Para poder analisar tal fenômeno, importa refletir sobre um pormenor: a Estética Contemporânea tem evoluído muito. É por isso que existem até apreciadores de Arte Povera  e de Arte Minimalista .
À luz de tais princípios, é necessário incluir os técnicos de futebol entre os elementos estéticos do futebol nacional.
Não depõe contra essa inclusão a ululante obviedade de alguns deles se apresentarem, nos estádios, com um grau de obesidade, totalmente ofensivo aos padrões da Unesco.