terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma Virtude Esquecida: a Gratidão!

I.
As vezes, nossa fantasia – a amável louca de casa – nos leva a pensar naquilo que os homens têm dito ao longo dos séculos, e a refletir sobre algumas das numerosíssimas frases, que a memória da humanidade preservou para a posteridade.
Ao ver-me confrontado com tais frases, por vezes me acometem acessos de riso!
A maioria de tais célebres pensamentos, tidos por relevantes, uma vez transportados ao nosso século e lidos com um mínimo de sentido crítico, nos parecem insossos, pedantes, quando não falsos.
A Bíblia, em duas passagens irônicas, afirma que “da boca dos sábios sai sabedoria, e da boca dos insensatos saem tolices”, e “não respondas ao insensato com a mesma insensatez, para não te tornares semelhante a ele”.
(Livro dos Provérbios 15,2; ibid. 26,4).
Não nos atrevemos, também, a endossar as palavras severíssimas, diríamos contundentes, de Gustavo Corção, o qual, num de seus instantes de mau humor, escreveu:
- Há escritores (...) que estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura.
Avançando, de lança em punho contra tudo e contra todos, Corção não hesita em infligir-nos a estocada final:
- Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se; sofreu-se; acabou-se.
(Três Alqueires e uma Vaca. 6 ed., Rio de Janeiro, Livraria Editora AGIR, 1961. p.14-15).
Salvar-se-á algo nesse dilúvio verbal, sujeito a tão arrasadora condenação, em cujo bojo me vejo também metido, pois não passo de um pobre autor, num país, cuja natalidade literária jamais foi controlada, nem por pílulas de laboratórios estrangeiros, nem por uma dose calibrada de autocrítica nativa?
Machado de Assis, o melhor dentre nós na área da Literatura, dizia, no prefácio de suas Memórias Póstumas de Brás Cubas que se contentava com 10 ou 12 leitores...
Tenho minhas desconfianças  em relação a essas expectativas do Bruxo de Cosme Velho!
As palavras, que Machado faz seguir em“Ao Leitor”, não me convencem: -
- Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendahl, nem cinqüenta nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.
O público brasileiro, admirador de fogo-de-palha de seus escritores,  procurou mostrar-se à altura do mais genial autor tupiniquim, e por isso levou dez anos para esgotar a primeira edição de Memórias Póstumas (a edição foi de dois mil exemplares).
Bela introdução, a minha – como vedes – para um texto sobre a gratidão! Virtude que parece não ter sido incluída na cesta-bássica da psicologia brasileira!
Gratidão brasileira?
De quem? Para quem?
É por isso que considero uma frase de G. K. Chesterton, que cito de memória, das mais humanas e magníficas  escritas por uma pena humana:       
- O pior momento de um ateu é quando ele tem uma vontade de agradecer, e não sabe a quem!
Chestertton referia-se aos incrédulos, aos ateus confessos, possivelmente aos agnósticos de hoje que se assemelham aos atenienses de outrora, os do tempo do Apóstolo Paulo, que ergueram um altar ao Deus Desconhecido.
O problema dos ateus é excluir a possibilidade de Deus existir. O problema dos agnósticos é excluírem a possibilidade deeles conhecer a existência de Deus.
Interpretando generosamente nosso temperamento, ousamos afirmar que os brasileiros são “ingratos agnósticos”.

II.

Neste país ninguémse lembra de agradecer a ninguém, ao menos nos tempos bicudíssimos em que vivemos!
Nas lojas, nas ruas (menciono um indivíduo, que, não dispondo de um guia da Folha de São Paulo, pede-a a um pedestre ); nos restaurantes, aos garçons (que se tornaram arqui-serviçais nas últimas décadas); nos ônibus  aos motoristas e cobradores que estão a merecer uma pós-graduação “Honoris Causa” em gentileza...
Ninguém agradece!
Deixei para o fim a grande “revelação”, que não só me causa pasmo, como espasmo: os próprios mendigos já não agradecem!
Reparem como eles lançam olhares desdenhosos às moedas ou cédulas, que lhes pomos nas mãos, e fazem uma careta - que poderia ser melhor aproveitada nos palcos de comédias de alguma cidade interiorana – quando lhes oferecemos algo usado.
Tenho notícia ainda pior a dar-lhes: os cristãos estão se tornando desagradecidos!
Notem que tal fenômeno ocorre num país onde uma de suas expressões mais típicas,é justamente:
- Graças a Deus!
Vivemos, sem dúvida, numa época de cientistas à Dawkins, mais interessados em fazer cobranças a Deus, do que descobrir coisas que nem Darwin descobriu!
Amanhã ou depois, teremos uma nova classe de cientistas: os cientistas-teólogos, ou melhor, ateólogos!
É um fato estatístico que os néos-pagãos de nossa era exigem, antes do mais, que Deus exista espalhafatosamente, à maneira dos shows de Madonna ou Adele.
Se Ele se n ega a submeter-se a tal figurino, cobrem-no de insultos.
Os que não chegaram á perfeição do néo-paganismo, erigem certos ídolos em divindades (os Beatles, beneméritos sob outros aspectos, foram os primeiros a cair em tal insensatez!) quando se proclamaram mais famosos do que Jesus!).
Resumindo: estamos numa época de monstruosa auto-suficiência!


III. 

Desalentado diante de tal panorama, decidimos pedir ajuda a um simpático clássico da língua portuguesa, o amável P. Manuel Bernardes que, como todos sabem, foi um frade do Oratório.
Em vez de catar sentenças e aforismos no jardim do venerável clássico, onde elas vicejam copiosamente, preferimos furtar-lhe um único delicioso apólogo:
- Sonhou um homem que via um ovo atado na ponta do seu cobertor. Consultou a um agoureiro, o qual lhe disse por interpretação:
- Que naquele lugar onde dormia estava escondido dinheiro.
        Cavou o homem, e achou ouro e prata. Desta deu por prêmio ao adivinhador uma pouca parte, o qual, aceitando-a meio alegre meio triste, disse aludindo ao ouro:
-E da gema, não há nada?

Senhores leitores, perceberam?
No tempo do P. Bernardes, cogitava-se que os beneficiários de sonhos favoravelmente interpretados repartissem alguma parte do dinheiro encontrado, debaixo do travesseiro (a alguns metros dele, é claro!). Pelo menos, supunha-se que se desse algo pela clara do ovo.
 O bom oratoriano, porém, exigia mais:
- E da gema, não há nada?
Oh, se nós pudéssemos comunicar-nos diretamente com o P. Bernardes, que deve estar entre os Bem-aventurados!
Nós dire-lhe-íamos:
- Reverendíssimo Padre, na nossa época, da qual talvez nem tendes ouvido notícia - a dos Capitais Voláteis e dos cachorros-quentes - sumiu a antiga praxe da gratidão! Sabeis que agora tudo acontece “no osso do peito”...
À guisa de pós-escrito, adicionaríamos – à observação acima - as seguintes palavras que Miguel de Unamuno atribui a Ernest Renan:
- Dá-me ( o Deus!) a vida - que eu me encarrego do resto!
(De Esto y de Aquello. Tomo III. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1953. p.313).
Antes que alguém se chateie comigo, concluo meu texto com uma observação do próprio Unamuno:
- Es tan raro saber ser justo con los que nos hicieron!
(Ibid. p. 254).

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