terça-feira, 12 de junho de 2012

Onde está o Espírito Santo Agora?

I.
Agora?
É lógico que o corajoso cristão que formulou tal pergunta, com tanta honestidade, e com tanta radicalidade, não estava pretendendo negar a presença do Espírito Santo na Igreja de Cristo, mas chamar a atenção dos cristãos para uma imensa realidade que se tende a esquecer.
A promessa do envio do Espírito Santo à humanidade foi feita pelo próprio Jesus quando ainda estava neste mundo, isto é, na Palestina.
Deixemos isso claro. A promessa ocorreu em vida de Jesus, quando ele disse às pessoas que o ouviam:
- Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7, 38).
Para evitar qualquer interpretação equívoca de suas palavras, o evangelista acrescenta:
- Isso ele disse do Espírito que haviam de receber os que nele cressem, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por Jesus não ter sido ainda glorificado. (Ibid. 7,39).
Jesus, nessa ocasião, estava falando à Samaritana a respeito da Água Viva, que a esperta mulher desejava assegurar para si, sem ter de voltar novamente ao Poço de Jacó, e ser obrigada a lançar nele o seu balde.
Jesus não estava interessado na água que se bebe para matar a sede, e que se torna a beber quando a sede volta. Jesus referia-se a outra realidade.
Jesus estava antecipando a realidade de seu regresso ao Pai, após sua morte e ressurreição. Quem viria assumir o seu lugar, quando Ele estivesse ausente desse mundo?
Quem viria, por assim dizer, “reencarnar-se” na comunidade de fé dos discípulos, durante sua ausência?
Notemos que Jesus prometeu enviar “um outro Paráclito”, palavra que significa Defensor e Consolador.
Insistamos nesse ponto: Jesus declarou-se o Caminho, a Verdade, e a Vida. Portanto, não se tratava de encontrar um substituto para Jesus. Jesus seria sempre A Verdade.
Ocorre que Jesus ficou no mundo cerca de 33 anos. Quem ficaria no mundo nos séculos que se lhe sucederiam
Quem recordaria (isto é, traria ao coração!)o que Ele fez e disse durante sua vida terrestre, ao longo0 dos séculos, não deixando que seus discípulos se sentissem órfãos?
Se Jesus era a Verdade, viria, então, uma Outra Pessoa Divina a completar sua obra.
O Espírito da Verdade viria completar a obra de Jesus. A permanência do Espírito Santo não seria mais histórica: seria trans-histórica.
Por isso, Jesus disse:
- Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. (Jô 14,18).
A presença de Jesus não seria novamente interrompida, porque seu Espírito, que é também o do Pai, uma vez que a Pessoa do Espírito Santo é o Mistério da união substancial entre o Pai e o Filho, sem absorção de um no outro, asseguraria a continuidade.
Quando Jesus afirma que seus discípulos, após a vinda do Espírito Santo, fariam obras maiores que as que Ele tinha feito em vida, os que O ouviam devem ter ficado perplexos:
- Como assim? Existirá obra maior do que ressuscitar mortos, e ressuscitar Ele próprio de entre os mortos?
Jesus falava de outro mistério: em algo maior do que ressuscitar Lázaro ou o Filho de Naim. Ou seja: Jesus falava em tornar seus fiéis co-participantes da sua própria Ressurreição mediante a Fé na sua Pessoa e nas suas Palavras.
Não nos iludamos: é difícil, para nós, dizer alguma coisa válida sobre o Espírito Santo!
O que havia a dizer foi dito por Jesus. Os cristãos devem, humildemente, beber da mesma Água que jorra da boca de Jesus. O que Ele disse sobre o Espírito Santo, ou deixou entender em suas palavras, é isso que devemos crer.
Não sejamos levianos ao nos referirmos ao Espírito Santo, como se ele fosse uma Pomba, ou mesmo, uma Língua de Fogo, embora ele se tenha dignado a visibilizar-se mediante tais sinais.
Ao passo que a Encarnação do Verbo resultou num rosto humano, de traços étnicos inconfundíveis, a Presença do Espírito Santo neste mundo não poderá jamais ser “materializada”, porque o Espírito sopra onde quer, e sua realidade viva não é captável à maneira do rosto de Jesus, que podia ser contemplado durante sua permanência neste mundo.
A originalidade da presença do Divino Espírito Santo consiste em ser um “sinal”, até ao dia em que, por um dom inimaginável de Deus, O veremos face a face.
 Só então veremos o Espírito Santo, como é dado a uma criatura vê-lo, uma vez que sua Imensidade, Onipotência e outros dons especificamente divinos nos serão concedidos, embora numa medida adequada a uma criatura, mesmo sobrenaturalizada.

II.   
Falando sobre o Espírito Santo, Jesus parecia minimizar sua própria Encarnação.
Por favor, leiam-nos corretamente. Escrevemos: “parecia”.
Por que?
Certa vez Jesus disse:
- O Espírito é que vivifica; a carne para nada serve. (João 6,63).
Como?
Não disse o evangelista que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós?”
Noutra  passagem Jesus afirmou que nos daria sua carne como verdadeira comida (sob as aparências do Pão vivo que desceu do céu).
Ouçamos um teólogo, que escreveu com verdadeiro espírito cristão:
- A carne não é má; simplesmente é incapaz, por si mesma, de atingir o mundo de Deus e de compreender as realidades divinas. Isto pode ser realizado somente pela descida do Espírito Santo à esfera da carne, da história humana.
(George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
Em nossa sociedade contemporânea, a corporalidade tem sido  exageradamente valorizada.
Vivemos uma época em que a materialidade da carne está sobrevalorizada.
O erotismo aparece onipresente em nossa vida social, contribuindo assim, por paradoxal que isto pareça, para a desvalorização do corpo. Daí os olhares de pasmo, e os sorrisos de ironia quando um cristão resolve expressar sua fé com as próprias palavras de Jesus:
- Na ressurreição, nem os homens se casam,nem as mulheres se dão em casamento, mas são como os anjos no céu.
(Mateus 22, 30).
Lembro-me de que, na década de 60, havia uma canção francesa que satirizava a afirmação de Jesus, referindo-se aos Anjos com suas asas, e seus outros atributos, visualizados de acordo com as imagens dos pintores renascentistas e barrocos...
Atiremos às urtigas, ou às lixeiras de nossas cidades,  tais criancices!
A ressurreição, prometida por Jesus, nada tem a ver com tais bobices..
 É algo que o olho humano não viu ainda, que o ouvido não ouviu, e que o coração do homem nunca foi capaz de imaginar.
Como “endeusamos”, porém, o sexo, a maioria dos homens não parece conceber um mundo sem sexo. O que, no mínimo é reduzir a imaginação de Deus aos estreitos limites da fantasia humana, às possibilidades dos “efeitos especiais” do cinema...
Sejamos razoáveis.
Ou então, deixemos de crer nesse “Deus” que é inferior ao que Ele próprio criou, destinado a propagar a raça humana, e dar aos homens e às mulheres, um amparo à sua solidão.
Eis por que a vinda do Divino Espírito Santo, celebrada na Festa de Pentecostes, é fundamental para o mundo de hoje, de um apego à matéria e ao corpo, que fica difícil a um cristão ser, neste momento, tanto a favor, como contra o sexo.
A favor?
Sim, porque o sexo é bom, é maravilhoso.
Contra o sexo?
Sim, porque o sexo não “amorizado” (a expressão foi usada por Teilhard de Chardin) é uma sorte de explosivo, capaz de fazer saltar pelos ares a possibilidade de amor verdadeiro, isto é, a entrega corpóreo-anímica entre dois seres , que sabem que seu êxtase é um êxtase, mas parcial. Que esse êxtase é uma promessa de algo maior.
Só o Espírito santo, que veio a este mundo para lembrar o que Jesus ensinou, pode desfazer a arrogância dos saduceus atuais, que voltam a propor a Jesus a pseudo-complicação dos sete homens que tinham dormido com uma única mulher.
- Estais enganados, repete o Espírito Santo as palavras ditas outrora por Jesus.Desconheceis as Escrituras e o poder de Deus.
Fixemo-nos, em especial, numa expressão de Jesus: “o poder de Deus””!

III.
A Festa de Pentecostes ocorre 50 dias após a Páscoa.
Comovi-me, dias atrás, ao ver uma negra passar, pelas ruas de Porto Alegre enrolada na Bandeira do Divino.
Pensei comigo: “Essa mulher está mais perto de Deus do que os teólogos. Está mais perto de Deus do que todos nós, que nos julgamos “sábios”, e tendemos a rir de tão singelas manifestações”.
Voltemos à interrogação corajosa dos autores do Catecismo Holandês:
- Onde está o Espírito Santo agora?
Respondem esses mesmos autores:
- Os dons extraordinários: falar línguas, profetizar, operar curas, são agora mais raros do que nos primeiros tempos. Por causa de outros costumes religiosos, como já vimos. Mas, talvez, também porque na fundação precisava-se de outros elementos mais do que no prossseguimento da construção. Os frutos atuais do Espírito Santo são hoje mais “comuns”, lúcidos, instrutivos, úteis, ministrantes. São eles tão comuns, que estão em casa, em toda a parte: na cozinha, no quarto, na escola, no escritório, na oficina. São Paulo ensinou-nos em sua Primeira Carta aos Coríntios 12 e 14, e sobretudo, no famoso capítulo 13, que justamente esses dons “comuns” são os mais elevados. Mais importante do que o êxtase é a interpretação, já que edifica mais a Igreja. Maior do que o falar línguas é a caridade: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.
Que isso sirva de consolo aos católicos, num momento em que irrompem escândalos na Igreja de Deus.
 O Espírito Santo não deixará que a malícia, a cobiça, a vileza humana sufoquem a palavra de Jesus.
Ele fará com que a voz de Jesus seja cada vez mais ouvida na intimidade do coração de cada crente, e que ela seja cada vez mais produtiva de bons frutos.

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