terça-feira, 12 de junho de 2012

“Noites Tropicais”: o que a gente aprende com a história da Música Popular Brasileira?

I.
     A grande vantagem de se ler um livro, que esteve em moda, e agora está fora de moda, é perceber mais claramente o que constituía sua “verdade”, ou ao menos o que  nele existia “de verdade”.
        Gosto de ler livros que foram considerados importantes, e que deixaram de ser – aparentemente – importantes.
Na minha opinião, a moda nasce sempre fora de moda, e quando está na crista da onde, é quando fica mesma fora de moda.  
        Que é uma moda?
Um surto de sarampo.
Pode-se trocar tão desairosa expressão por outra, de feição gentil: a moda é uma epidemia de bom gosto; um gosto que nem sempre é bom gosto, e que é gosto de alguns interessados, que têm tal vocação de ditadores (ou de comercioantes) que fazem tudo para que todo o mundo tenha um único “bom gosto”: o deles.
Pode ser,também, uma convenção social que dá certo, (obviamente na opinião de seus promotores) e que, uma vez granjeados os favores públicos, desaba como um edifício que é implodido.

II.
     O livro de Nelson Motta: Noites Tropicais principia trombeteando uma afirmação: “Eu não gostava de música”. (p.9).
Ah, senhor Nelson Motta: nós também temos uma relação precária com a música popular brasileira!
Somos, na realidade, arcaicos.
Pertencemos à minoria que que se encantam com velharias, e principalmente com o óbvio cantante.
 Apreciamos, a rigor, coisas obsoletas, coisas tão assimiladas pelo inconsciente do povão, que chegamos a privilegiar a toada: “Ó jardineira porque estás tão triste!”
Distinto Sr. Nelson: chegamos, é verdade,  à Minha Mãe Menininha do Gantois, do Caimy,  e é a canção que mais nos delicia, com alguns sambas de Noel Rosa ( cujas letras nos agradam mais do que suas melodias!),a Banda do Chico,  Disparada de Vandré, Pedro Pedreiro (também do Chico), e outras canções, que não vale a pena citar, porque a maioria dos brasileiros as conhecem, ou são consideradas bregas.
Nos nossos momentos de maior auto-exigência, adoramos Construção e Águas de Março de Tom Jobim.
Por falar em Tom Jobim: por que deram seu nome a um Aeroporto?
 Tom Jobim merecia ficar longe dessas babéis do consumo, do frenesi, e da tristeza internacional.
Teréamos imaginado para ele outro tipo de homenagem: uma Universidade, um Instituto de Música de Vanguarda, um santuário ecológico repleto de jacarés e de outros bichos em extinção.
Por exemplo:Pantanal Tom Jobim...

III.
        Voltemos ao livro de Nelson Motta.
        Dizem que é um livro “para ser lido como um romance vertiginoso” – na opinião evidentemente imparcial de seus editores.
Tentemos falar com maior objetividade: o livro de Nelson Motta é uma coletânea bem  estruturada, inteligente, não raro engraçada,em geral ardilosa, sempre efervescente,  de fait-divers, de confidências, de lampejos de gênio, de sonhos eróticos, de belezas estranhas (de “boconas e olhos caídos”, de vozes felinas), de mil e uma noites com uísque,acompanhados  às vezes por baseados, mescalina, cocaína, incidentes semi-hilariantes como  roubos de perus assados em casa de Cônsules Argentinos, de “abotoe estes decotes” e vê se cobre estes joelhos”, de irreverências à Jucas Chaves, de comparecimentos das três divindades de nosso violão:  João Gilberto, Vinícius, Tom, e - acima das nuvens – de aparições de Nara Leão (meio japonesa,meio índia, meio existencialista francesa) com o eventual cortejo de Tim Maias e “mulatos bonitos”, como Jorge Bem.
Não é um livro de se gostar ou não gostar.
É um conjunto de calidoscópicas reportagems, nas quais o autor quase sempre éo personagem central, em cujo entorno gravitam ícones midiáticos, alguns enterrados, outros semi-enterrados, outros gloriosamente “ressuscitados” ao terceiro dia...
Livro bem escrito?
Talvez sim.Jornalisticamente palatável. Em linguagem líquida: de se bebericar com uísque.
Nelson Motta é uma sorte de anjo bíblico, que nos toma pela mãop, e nos faz percorrer os grandes sertões: veredas da música popular.
Quem quiser ter uma vista panorâmica do que foi a aventura da Bossa-Nova, precisa ler o livro de Nelson Motta.
Lá estão as “Viniçadas”(p. 53 ss) as histórias do Velho e o Mar, isto é, de Ronaldo Bóscoli, e suas praias, numa das quais nasceu a Garota de Ipanema, que Elis Regina detestava, e prometeu a si mesma jamais cantar.
Esta é uma das fofocas do autor!
Foi Elis Regina, também, que lhe ensinou a pronunciar o seu nome:
- Eu sou a Elis. Não a Élis... (p. 74).
Por falar nessa admirável e quase trágica cantora, vale a pena ler o livro para descobrir que ela foim efetivamente, um prodígio.
Guardemos a memória dessa feliz-infeliz filha de uma lavadeira de Porto Alegre!
Nos velhos tempos, acompanhamos alguns dos Festivais da Música Brasileira. Lembram-se, ó trogloditas, do Roberto Carlos e seu sucesso:“Quero que Vá Tudo pro Inferno”?
No meio dessa multidão de egos inflados,que Nelson Motta nos exibe como uma bandeja turística das década de cinquenta, aqueles tabuleiros  forrados de borboletas azuis que se vendiam no Rio de Janeiro, insere-se uma exótica fábula: a do policial Mariel Mariscott.
Ao lado seaase policial midiático, quem aparece? Flóvio Cavalcanti, o das insolências de um moralismo sensacionalista, que o celebrizaram.
Creio que não existe nenhum sexagenário nacional que não tenha ouvido a canção, que percorreu a nação:

- Eu era nenén, não tinha talco,
Mamãe passou açúcar em mim.

Nelson Motta faz subitamente uma pausa. Uma pausa preparatória à aventura de Bóscoli “com a potranca puro sangue, que precisava ser domada”: é assim que o autor se refere a Elis Regina. (p.131).
Como sintetizar as perfomances do Chacrinha e suas mulatas, cujos predicados o autor nos relembra com debochada maestria:
-  (Chacrinha) era malicioso e desbocado, humilhava os calouros, apresentava-os misturados com bailarinas gostosas de biquíni, as “Chacretes” que rebolavam lubricamente suas bundas imensas para as câmeras, sempre focalizadas de baixo para cima”? (p. 140).
Não sabemos o que admirar nesses porres visuais machistas!
Por mais incrível que sejam os corpos das mulheres, eles estão sempre dentro do espaço e do tempo, no espaço e no espaço mentais, à Kant. Não mereciam elas em geral nascidas em barracos, mais com preensão e respeito?
Nelson Motta não esquece nada: Ponteio, Domingo no Parque, Sem lenço nem Documento, o violão arremessado contra a platéia por  Sérgio Ricardo, os milagres dos peixes de um modesto Milton Nascimento.
Nelson traça um quadro das Novelas, da Alvorada Tropicalista, do AI-5, da prisão de Gil e Caetano.
Não deixa de falar nem nas “ramplonerías” de Vinícius, o grande poeta que, no dia do casamento de Nelson Motta e Mônica Silveira, “uma moça da sociedade carioca, educada na Suíça”, casamento abençoado por Dom Helder Câmara, teve a idéia de estropiar um de seus mais belos sonetos (os poetas também sabem ser cafonas, quando se consideram idolatrados pelas fêmeas), e respondeu às insistências dos convidados:
- Fala! Fala! Fala!
com uma das maiores grosserias à presença dos “amigos e amigas do esposo”, ao declamar seu soneto, coroando-o com um mau gosto exemplar:
- Que não seja imortal, posto que chama...
mas que seja infinito...enquanto duro!  
(p. 196).
Nelson não precisava ter incluído no seu livro esse dito de mau gosto!
Os poetas, enquanto poetas de verdade, porque eles o são às vezes, devem ser respeitados, mesmo quando se metem em bobices e chulice
O livro inteiro, com seus capítulos de Ouro e Chumbo, com suas referências a o Pasquim, com sua narrativa do tétano de Mônica (primeiramente amada, depois abandonada), com as loucuras de verão e os horrores da Ditadura Militar, a ascensão e queda dos Hippies, o desbunde  que se lhe seguiu, o surgimento de Raul Seixas, as letras do alquimista Paulo Coelho, a proibição do Cálice-Cale-se de Chico, as Noites Frenéticas no Dancing Days, a morte do Poetinha (em 1980), o assassinato de John Lennon, o advento do cavalariano General João Figueiredo (considerado o Pôncio Pilatos do Credo Bossa-novista), etc.
        O autor finaliza com Djavan e Daniela Mercury, e alude ao impecheament de Fernando Collor, a respeito da qual diz:
- Até os cachorros estavam de preto naquele dia luminoso!

IV.
        Seria interessante, a partir do itinerário de Nelson Motta, estabelecer um inventário e uma análise das canções brasileiras citadas por ele.
A julgar por esse itinerário, nunca  existiu metafísica no Brasil, ninguém, ainda hoje, pensa na morte (Pascal, no eixo Rio-São Paulo, não teria leitores), ninguém nas favelas sofre fome,a nossa discriminação racial dista mais de nós do que Aldebarã.
Nosso ideal de vida (ou de qualidade de vida!) parece ser o sexo, explícito ou implícito.
 Somos euforicamente superficiais. Somos especialistas em firulas e frivolidades, damos provas  irrefutáveis de um sentimentalismo bravio-voluptuoso, de um sex-apealismo xucro.
Saio, portanto, de Noites Tropicais com vontade de me embrenhar em outro Brasil, em outros Brasis, os de Manuel Bandeira, de Graciliano, de Erico, de Cabral de melo Neto, do Marechal Rondon, de Paulo Freire, de Celso Furtado, de Irmã Dulce da Bahia, de brasileiros que esperam que sua música popular não seja unicamente...  
-O quê?
Talvez um apelo à auto-descoberta de nossa condição brasileira, de nossa medula espiritual, do núcleo sigiloso, e múltiplo, de virtualidades que se ocultam no fundo da alma brasileira.
Algum resto do sopro do Gênesis terá ficado nas narinas dos que cantam com seus violões, berimbaus, pandeiros, bandolins,e guitarras elétricas , e que ainda sabem – graças a Deus - ser geniais nos seus achados e perdidos da fantasia.

Um comentário:

  1. Me admirei de comentares esta leitura em fala tocante às artes e contrastando com dias que correm, e agora fico admirado com um cômputo tão curioso e sucinto de um livro que eu já sentira sim coceira de ler, e confesso que ainda me suscita curiosidades (tendo lido "memórias musicais", também de crônicas tocantes a ícones em seus momentos e lugares tão industrialmente espetaculares, chegando a prestar-se a uma "amiga" defesa advocatícia do gênio louco (coitado) João Gilberto que enternece). Obrigado pelo olhar leitor, amigo, muito batuta!

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