terça-feira, 19 de junho de 2012

Em que Mundo Estamos, Dona Dilma?

I.
Leio nos jornais que a Presidente do Brasil, diante da compulsividade retórica de seus ministros, tornou a recomendar-lhes a divisa do governo, a qual, sob certo sentido, se opõe às divisas dos governos anteriores.
- Trabalhar muito, e falar somente o necessário.
Umavez que estamos falando em ministros, que significa, etimologicamente, essa designação?
O brasileiro das ruas, “o popular”, como se tem  convencionado em chamá-lo, – ignora tal subtileza.    
Ministério, segundo o linguajar cristão, tornou-se algo litúrgico. Entrou no próprio vocabulário do Apóstolo São Paulo, ou dito com mais exatidão, dele procede.
 A palavra grega que o Apóstolo empregou foi diakonia:
- Em sentido genérico, diákonos é alguém que se põe a serviço de um mestre, ou de qualquer pessoa. A autoridade da sociedade pagã (dos tempos do Cristianismo Primitivo) era chamada os diákonos de Deus.
(Dicionário Enciclopédido da Bíblia. 4 edição. Redator principal: A. Van den Born. Com a colaboração de 46 especialistas. Editora Vozes, 1987. p.393- 394).
‘O mesmo Dicionário acrescenta:
- A Vulgata (tradução latina do Novo Testamento) traduz “Diákonos” por “Minister”, isto é, Servidor.
(Ibid. p. 394).
Portanto, a palavra ministro” significa simplesmente servidor.
Sabemos que o Brasil, antes de ser descoberto por Portugal, era terra de índios.
Índios -a bem da verdade, eram criaturas,sob certo ponto de vista, mais felizes do que nós (se é que tal interpretação mão passa de uma miragem retrospectiva nossa).
Eles tinham um hábito que nos transmitiram: obedecer aos caciques.
É de tal estirpe, defendida no Brasil por um gênio da solidariedade, o Marechal Rondon, e por seu discípulo, quase outro gênio, Darcy Ribeiro, que ficou um dos elementos que nossa cultura política assimilou.

II.
Não podemos negar que guardamos, como um legado para nossa vida pública, a idéia do Caciquismo.
 Não temos ministros, nem servidores; temos caciques, mais ou menos controlados por uma Presidente.
Com efeito, Sra. Presidente, assistimos todos, com progressiva irritação, a sua luta para driblar tantos caciques, que lhe criam inumeráveis empecilhos.
Não cremos, por exemplo, que foi a Sra. quem teve a estranha idéia de revogar a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos estádios.
Diz-se, à boca pequena, ou mesmo à boca escancarada, que a Sra., para não se indispor com sua maior força de apoio, deixou tal proibição ao critério dos Governadores Estaduais.
Visto que já existia uma lei mais ampla,de cunho nacional, por que teria a Presidente da República de dobrar-se às injunções dos patrocinadores da COPA, ou da própria FIFA (caso tenha sido esse o caso), e autorizar o uso de bebidas alcoólicas nos estádios?
Se, por causa da abolição dessa lei, ocorrerem desordens nesses locais de grandes aglomerações, desordens originadas da ingestão de bebidas alcoólicas, quem será responsável por isso?
Fica registrada, neste insignificanteblog, nossa radicval inconformidade com sua decisão.
Seriauma demonstração de cidadania de sua parte, Sra. Presidente, se a Sra. tornasse a comnsiderar tal decisão, e eventualmente, impusesse a soberania nacional à prepotência do Esporte Internacional, cada vez mais aviltado por escândalos de corrupção.

III.
Dias atrás, um amigo objetou-nos:
- Que ilusão, a sua, de pensar em mudar alguma coisa no cenário distrital, municipal, estadual, ou nacional, com um texto de blog?
Repliquei-lhe:
- Não foi isso, propriamente, o que nos levou a escrever. Estamos cientes de que existem estudiosos universitários que apreciam escarafunchar textos jornalísticos, ou textos puramente pessoais (colhidos em “Diários Íntimos”) de épocas correspondentes às de alguns escritores famosos, como Machado de Assis e Euclides da Cunha. Refletindo sobre isso, cheguei à conclusão de que os estudiosos desejam saber o que, na ocasião, pensavam outras pessoas, não enfeudadas aos círculos da grande literatura e do poder midiático. Foi essa a razão que nos incitou a escrever textos alternativos aos dos órgãos de grande tiragem - órgãos que são apavorantes buldozers que terraplenam a consciência cívica do público.

IV.
Sra. Dilma, lembre-se do caciquismo.
Seu predecessor não foi propriamente um cacique, mas um diplomático, e por vezes, camaleônico servidor de caciques.
O PMDB que, numa certa conjuntura histórica, exerceu influência tão memorável na abolição da Ditadura Militar, está hoje numa situação dúbia de apoio ao seu governo. O apoio, de que a Sra. necessita,  depende portanto dos caciques.
Conseguirá a Sra. desvencilhar-se de tais caciques?
Não havia  caciques-fêmeas entre nossos índios.
Portanto, na opinião dos caciques, a Sra. está na contramão da História.

V.
Pedimos-lhe. Sra. Dilma, que fique nessa contramão.
 Nós - isto é, a minoria das minorias! Não pertencemos à minoria racista, nem à minoria feminista, nem a outras quaosquer minorias ideológicas.
Fique, D. Dilma,  na contramão.
O povo, ao elegê-la Presidente, quis que a Sra. fosse  Cacique. A Única.

VI
Reconsidere, em vista disso, a lei da proibição de bebidas alcoólicas nos estádios.
Não lhe tire o tapete de sob os pés.
Faça valer semelhante lei perante os interessados em vender bebidas alcoólicas num ambiente já de si inflamado por paixões.
Imagine como hão de comportar-se as massas diante dos erros dos árbitros, e de gols dúbios, marcados a favor dos adversários?
Um poeta francês escreveu: “É impossível discutir com uma pessoa emocionada”.
Sra. Presidente, um estádio emocionado é pior que o Vesúvio! Pense em Pompéia e Herculano.
Nossos políticos formam uma espécie de tribo, ou antes, dezenas de tribos, cada qual com um ou mais caciques, que levam seus apaniguados em todas as direções possíveis.

VII.
Aproxima-se a Copa.
Os jornais europeus noticiaram que a Copa da África do Sul não trouxe vantagens econômicas ao país.
Trouxe (mas isto é outra história) uma das piores tristezas ao Presidente Mandela: a morte de uma neta, num acidente de trânsito, durante sua realização.
Por que estamos a lembrar isso?
Para dizer que a salvação do país não está em seus pés, mas em suas cabeças.
Talvez a salvação do Brasil esteja mesmo nos corações brasileiros, que ainda estão entre os melhores de nosso planeta globalizado.

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