terça-feira, 12 de junho de 2012

Amigos: ainda existirão amigos?

I.
Nenhum de meus leitores se assuste: continuo a crer nos amigos!
Mais do que isso: considero-os – ph, sim, eles ainda existem em número considerável; refiro-me aos  amigos verdadeiros - uma das maravilhas deste mundo!
Falo deste mundo, deste em que vivemos, o qual, encarado de outro viés, parece ter sido capaz de converter um original límpido e precioso de Deus num borrão abominável do Diabo, povoado por manchas horrorosas, enxovalhado pelo manuseio de traidores, ladrões, pervertidos, ou simples malandros.
Voltemos, porém – e sempre – aos amigos!
Comovo-me ao pensar que a Bíblia teve a cortesia de incluir em suas páginas a seguinte constatação:
- Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro.
Quando leio essa página do Eclesiástico (capítulo 6, versículo 14), vêem-me lágrimas aos olhos, pois se é verdade que os verdadeiros amigos são um tesouro, quem nunca perdeu algum deles durante a vida?
Perder um tesouro dói sempre, por mais que o coração se habitue à idéia de o perder!
Poderia citar outras palavras da Bíblia, referentes aos amigos, mas prefiro não embaciar o brilho da única citação que desejo fazer, mas à qual acrescento, constrangido pela necessidade, outra citação – esta do próprio Deus descido a este mundo, Jesus – que disse no fim de sua vida ao discípulos mais chegados>
- Já não vos chamarei servos, mas amigos!
(João 15, 15). 
II.
- Grande abismo é o homem!  exclamou, certa vez, Santo Agostinho, num de seus lampejos de lucidez incontornável.
         (Cit. por Peter Brown, autor da biografia moderna do Santo mais apreciada Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p. 209).
Se quisermos ser lógicos, diremos:
- Grandes abismos são os amigos!
Não obstante, se é possível mencionar no santoral da Igreja um apaixonado pelos amigos, entre os grandes Doutores da Igreja, esse foi o Bispo de Hipona.
Peter Brown dedica várias páginas de sua documentada biografia a provar que Santo Agostinho, a partir do dia em que ficou Bispo, não podia mais prescindir da companhia de seus amigos.
- (...) de repente – anota Brown - percebemos, para nossa surpresa, que ele quase nunca ficou sozinho. Sempre esteve cercado de amigos.
Tinha aprendido a falar em meio ao carinho das amas, entre os gracejos de rostos sorridentes e o bom humor dos colegas de folguedos. Só um amigo era capaz de fazê-lo perder “metade da sua  alma”, e somente uma nova amizade poderia curar tal ferida.
Raras vezes o encontramos pensando sozinho: em geral ele está conversando sobre tais assuntos com os amigos.
Agostinho quase não se havia modificado nesse aspecto: na meia-idade, continuava encantadora e tragicamente exposto à mais insondável de todas as tentações da alma – a amizade.
(Ibid. p. 217).
O Bispo de Hipona, um belo dia, decidiu convidar, para morar na sua casa episcopal, um grupo de amigos de mentalidade similar à sua. Manteve, até ao fim, a tendência natural dos africanos a formarem um clã.
Para tornar mais homogêneo o grupo, Santo Agostinho instituiu uma austera rotina monástica, com uma rigorosa dieta vegetariana, e a proibição absoluta de visitantes do sexo feminino.
Esse mosteiro era isolado das comunidades ascéticas do deserto egípcio.
Ali se liam livros, faziam-se estudos e havia conversas eruditas num jardim aprazível, numa cidade cujo porto trazia muitos viajantes.
Para evitar que a comunidade pudesse degenerar, o próprio Santo afixou, no refeitório da comunidade, o seguinte lembrete em versos:
Quem se julgar capaz
de mordiscar a vida dos amigos ausentes
deve saber que é indigno desta mesa.
(Ibid. p. 242).
Os mexericos, na comunidade de Agostinho, eram considerados ofensas.
Santo Agostinho gostava de ser estimulado ao trabalho pelo aplauso de seus paerceiros.
 Severo de Milevis, numa carta que lhe escreveu, faz eco às idéias de Agostinho:
- (...) é bom estar contigo através de teus escritos. Alegra-me estar mais estreitamente ligado a ti e, se assim posso dizer, apegar-me a ti da maneira mais sincera e poder retirar forças da riqueza transbordante de teu peito (...)
Que respondeu Agostinho a Milevis?
- Quanto a mim, quando recebo elogios de alguém muito próximo e dileto para minha alma, sinto-me como se estivesse sendo elogiado por parte de mim mesmo.
(Ibid. p. 243).
Diz Brown que, nas viagens a cavalo, que o grande Doutor era obrigado a empreender para participar de Concílios realizados em Cartago e na Numídia, Agostinho costumava convidar previamente seus colegas bispos para poder ir conversando, e assim suavizar a monotonia do percurso.
(Ibid. p. 243)
Por razões circunstanciais, o velho grupo de amigos íntimos foi obrigado a dissolver-se.
 Agostinho sofreu um rude golpe com essa separação.
(Ibid. p. 244).

III.
Deixemos Agostinho de Hipona, no século V (ele morreu em 430 d.C.).
Jamais eu imaginaria que encontraria, nas páginas de um clássico da língua portuguesa, o P. Manuel Bernardes, uma “Receita de Amigo” (para servir-me abusivamente da expressão exageradamente encomiástica da Receita de Mulher”, de Vinícius de Moraes).
Sim, o Padre Manuel Bernardes dá-nos, nos seus escritos,  uma verdadeira “Receita- de Amigo”, que não me parece inadequado trazêr-la à apreciação dos leitores, inclusive porque a linguagem do velho oratoriano é saborosa, e aos nossos ouvidos modernos sabe a vinho velho.
Bernardes começa por contar uma velha história: a das duas panelas, a de barro e a de cobre, que eram “levadas pelo rio abaixo com a força da cheia”:
- Rogou a de cobre à de barro que se chegasse para ela, para que juntas resistissem melhor ao ímpeto das águas.
- Não me convém (respondeu ela) a vossa amizade e vizinhança; porque, ou suceda topar eu convosco ou vós comigo, sempre vós ficareis inteira e eu quebrada.
Do que infere o P. Bernardes que a escolha de amigos deve pautar-se por um primeiro parâmetro: o de haver entre ambos certa  “similhança”:
- Também se requere similhança em outras cousas, prossegue o clássico, dos que querem ter amigos, v.gr. na idade, exercício, gênio, etc. Porque, como disse São Jerônimo, a amizade ou supõe ou induz igualdade nos sujeitos.; e quanto um deles for mais eminente, tanto o outro fica mais dominado, e já será adulação ou dependência o que devia ser afeto sincero.
Ilustrando mais claramente, seu pensamento, o P. Bernardes ajunta:
- Convidara um carvoeiro um lavandeiro a viverem juntos em certas casas, para lhe sair mais barato o aluguel. Escusou-se o lavandeiro, dizendo:
         - Eu a lavar, e vós a manchar, não poderemos fazer boa companhia...
A seguir, recomenda o P. Bernardes que:
- no tempo da aflição e trabalho do amigo é lei indispensável assistir-lhe com o alívio, conselho, préstimo e ainda com a pessoa, tomando sobre si a parte que puder do peso que oprime a seu amigo. E ninguém pode ser tão pobre e desvalido que lhe falte a comiseração, na qual as penas do amigo decrescem e se mitigam.
O grande seiscentista do nosso Classicismo não era tão ingênuo como poderá parecer.
Subitamente adverte o seu leitor de que:
-(...) o amigo sócio da mesa não o acharás contigo no dia da necessidade.
Talvez nesse ponto o grande clássico seja severo demais.
Cremos, porém, que na definição das “qualidades do amigo”, o Padre Bernardes é tão certeiro como um fuzileiro naval ianque, a manejar sua arma de pontaria telemétrica:
- O amigo que se há de escolher e aceitar não há de ser de natural suspeitoso, iracundo, mudável, chocalheiro e verboso.
 Bernardes é também notável quando valoriza a confiança que se deve ter no amigo:
- Porque é o mesmo que introduzi-lo ao aposento ou recâmara mais interior de nossa alma; do que se mostra a confiança que dele fazemos para que se dê por obrigado a pagá-la em fidelidade. Por onde amizade que reserva segredos não chegou ainda a ser íntima e verdadeira.
Diz ainda:
- Também não sabe das leis da amizade o que, ouvindo murmurar ou detrair do amigo, não acode a defender sua fama, antes se cala, que vale o mesmo, nestes termos, que consentir com o murmurador.
Surge uma questão delicada:
- É permitido tentar corrigir os amigos?
O Padre Bernardes explica:
-  Não é amor, é lisonja; não é prudência, é traição ou, quando menos, pusilanimidade. Porém esta correção não pede pressa e, muito menos, sanha ou cólera.
Segundo o virtuoso frade, deve-se :
-(...) aguardar que o ânimo do amigo esteja sereno, largo e susceptível, e então lhe porei diante dos olhos o que nos dos outros não parece bem. Isso sem exageração nem prólogos que movem expectação no ouvinte, com risco de antecipar a sua turbação à minha doutrina; com confiança e brevidade, como pílula que há de ser dourada e pequenina, que quase primeiro se sente engolida do que amargosa.
Finalmente, o Padre Bernardes aborda uma questão com plicada:
- É possível ter muitos amigos?
Com sabedoria chinesa, o P. Bernardes sentencia:
‘- (...) por amigos havemos de ter a poucos, mas por inimigo a nenhum.
As lições de acima foram extraídas da Antologia sobre o P. Manuel Bernardes, organizada pelo escritor português Agostinho de Campos (Volume II. Segunda edição. Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1921. p. 185-192).

IV.
Literalmente: graças a Deus, sempre tive fiéis amigos e o que é, também, dádiva divina, tenho-os ainda, e amigos generosos.
Não são muitos, porém também não são poucos.
Perdi alguns amigos, para dizer raríssimos, por minha culpa: desinteligências? Equívocos? Malentendidos?
Talvez, até, mesquinhez de minha parte.
Não fico a remoer culpas pessoais, nem me distraio com eventuais erros de meus ex-amigos, más interpretações, irritações indesculpáveis, juízos apressados.
Penso não ter rancores em mim, e julgo que meus ex-amigos não os têm em relação a mim.
Afastamo-nos uns dos outros, como barcos que as ondas do mar levam, uns para o sul, outros para o norte. Há relativamente abundância de pontos cardeais para outras direções.
Amo meus amigos mais do que sou capaz de expressar-lhes meus sentimentos. Atrevo-me a dizer que os amo dentro de minha fé religiosa, pois muitos deles são ateus, agnósticos, alguns – estranhamente – anti-cristãos, ou mais especificamente anti-católicos.
  Talvez eles não sabem de uma estratégia íntima que cultivo: a de recomendá-los a Deus nas minhas preces!
Sou capaz de pedir a Deus que os cure de um câncer, de uma enfermidade qualquer, mas peço por eles coisas mais essenciais: que adiram à Pessoa de Jesus, que O amem, pois Ele é o Caminho, a a Verdade e a Vida.
E também : a Ressurreição.
O resto é literatura.

V.
Uma pergunta me tem sido dirigida, eventualmente:
- É possível, para um homem casado, ter amigas? E para uma mulher casada, ter amigos?
Vou ser franco.
É possível. Diria mesmo: é até recomendável!
Com uma condição: que os amigos e as amigas adotem uma ética definida. Bem definida.
 Ou antes: que tenham, até, uma fé religiosa que os ilumine e os oriente nas suas perplexidades.
Existe sempre um perigo por perto: o sexo.
Não que o sexo seja o eterno vilão da história, embora, com, frequência aterradora, ele o seja.
É possível, para nós homens, ter amigas, e para as mulheres ter amigos, sempre que estes sejam englobados num amor que tenha qualquer coisa de religioso. Não me refiro à opção religiosa em si. Refiro-me a uma certa atitude que anteponha ao prazer da companhia a alegria – sim -  a alegria da companhia da pessoa querida.
 O prazer pode existir, porém sempre à coleira do respeito, da não-cobiça, da valorização dos predicados espirituais da pessoa, isto é, sua inteligência, sua sensibilidade estética, sua capacidade de doação social, sua cultura.
Li, numa coletânea de crônicas de Gustavo Corção, a seguinte frase que me chocou, inicialmente, mas que lida pelo registro do humor, revela tão somente a dificuldade que nós homens, em nossa condição carnal, devemos enfrentar.
 Corção, que era um católico de direita, radiacal, por vezes não truculento, escreveu o seguinte período num de seus livros, período que eu nunca o teria imaginado no bico de sua controladíssima pena, embora ele tenha prevenido numa passagem de Dez Anos:
- Numa página que o leitor encontrará mais adiante, suposta sua perseverança, eu me abri num sábado de delírio, e confessei publicamente a inveja que tenho da graciosa liberdade dos poetas, e não ocultei a tentação que às vezes me acomete de desatar o doido que trago sob custódia.
(Dez Anos. Rio de Janeiro, Livraria AGIR Editora, 1957. p. 10-11).
Pois bem, noutro sábado de delírio, Corção escreveu:
- (...) bonito é o que a gente gosta de olhar.Ora, francamente, eu não gosto de olhar as capas das revistas, que estampam as misses, e as pernas das misses, em tal profusão, e com tal saliência que chego a ter a aflitiva impressão de que elas têm mais pernas do que o comum das moças que passam na rua e que dão gosto de ver. E não julgue o leitor que eu não gosto de ver pernas bonitas.Já aqui se torna mais delicado o assunto em vista de minha conspícua idade e dos casrgos que ocupo, mas o amor à clareza da exposição me força a confessar que também gosto de ver perna bonita. Mas não assim, não tanta perna a entrar pelo olho da gente, a tomar a dianteira, a pretender a hegemonia no conjunto do corpo. Não esse abuso, essa inflação de coxas.
(Ibid. p. 111-112).
Concordo com o saudoso Gustavo Corção, um dos maiores estilistas da língua portuguesa no Brasil!
Não sei se concordo com sua admiração delirante pelas pernas bonitas, porque, sob esse aspecto, sou mais cauteloso. Prefiro o tal pacto com os olhos, a que se referia o velho Jó, do famoso livro da Bíblia (capítulo 31, versículo 1):
Na presença de Deus, tomei o compromisso
de nunca fixar o olhar numa jovem.
         (Tradução Interconfessional da Bíblia. Lisboa, Difusora Bíblica, 1993. p.547).
Eu fiz um pacto com meus olhos
para não olhar para uma virgem.
(Tradução da Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Edições Paulinas, 1985. p.922).
Não que os cristãos devam fugir visualmente das mulheres, como em geral fugimos das cobras...Nada disso!
O que se quer sublinhar é que um certo pudor nos preserva de quedas e acidentes éticos.
Sejamos sinceros: as mulheres possuem muitos outros  atributos que as tornam agradáveis, estimulantes, conviviais,  até mesmo fascinantes, sem que corramos o risco de nos ver enredados em relações que não desejávamos, e que – por vezes – são para elas constrangedoras e humilhantes. Certos atributos do homem ou da mulher, em especial, o sex-appeal de cada um deles, são reservados para os lentos e deleitosos encontros da alcova.
Não convém insistir nisso.
Tenho excelentes amigas, sensíveis, inteligentes, cultas, imaginosas, engraçadas, dotadas de borbulhante humor, imprevisíveis no seu encanto pessoal.
Isso basta para me tornar as amigas uma presença in dispensável. Às vezes penso numa certa declaração de Jean-Paul Sartre, que a rigor não pode ser mencionado como referência nessa área conflituosa... dizia que se divertia, intelectualmente, mais na companhia das mulheres do que dos homens.
Talvez o autor de O Ser e o Nada quisesse referir-se à incorrigível vaidade varonil!
 Os homens acham-se, todos, irresistíveis, e por isso menosprezam as qualidades intelectuais das mulheres.
Creio que – falando nu e cruamente - essa é a razão secreta da afirmação de Sartre.

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