terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma Virtude Esquecida: a Gratidão!

I.
As vezes, nossa fantasia – a amável louca de casa – nos leva a pensar naquilo que os homens têm dito ao longo dos séculos, e a refletir sobre algumas das numerosíssimas frases, que a memória da humanidade preservou para a posteridade.
Ao ver-me confrontado com tais frases, por vezes me acometem acessos de riso!
A maioria de tais célebres pensamentos, tidos por relevantes, uma vez transportados ao nosso século e lidos com um mínimo de sentido crítico, nos parecem insossos, pedantes, quando não falsos.
A Bíblia, em duas passagens irônicas, afirma que “da boca dos sábios sai sabedoria, e da boca dos insensatos saem tolices”, e “não respondas ao insensato com a mesma insensatez, para não te tornares semelhante a ele”.
(Livro dos Provérbios 15,2; ibid. 26,4).
Não nos atrevemos, também, a endossar as palavras severíssimas, diríamos contundentes, de Gustavo Corção, o qual, num de seus instantes de mau humor, escreveu:
- Há escritores (...) que estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura.
Avançando, de lança em punho contra tudo e contra todos, Corção não hesita em infligir-nos a estocada final:
- Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se; sofreu-se; acabou-se.
(Três Alqueires e uma Vaca. 6 ed., Rio de Janeiro, Livraria Editora AGIR, 1961. p.14-15).
Salvar-se-á algo nesse dilúvio verbal, sujeito a tão arrasadora condenação, em cujo bojo me vejo também metido, pois não passo de um pobre autor, num país, cuja natalidade literária jamais foi controlada, nem por pílulas de laboratórios estrangeiros, nem por uma dose calibrada de autocrítica nativa?
Machado de Assis, o melhor dentre nós na área da Literatura, dizia, no prefácio de suas Memórias Póstumas de Brás Cubas que se contentava com 10 ou 12 leitores...
Tenho minhas desconfianças  em relação a essas expectativas do Bruxo de Cosme Velho!
As palavras, que Machado faz seguir em“Ao Leitor”, não me convencem: -
- Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendahl, nem cinqüenta nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.
O público brasileiro, admirador de fogo-de-palha de seus escritores,  procurou mostrar-se à altura do mais genial autor tupiniquim, e por isso levou dez anos para esgotar a primeira edição de Memórias Póstumas (a edição foi de dois mil exemplares).
Bela introdução, a minha – como vedes – para um texto sobre a gratidão! Virtude que parece não ter sido incluída na cesta-bássica da psicologia brasileira!
Gratidão brasileira?
De quem? Para quem?
É por isso que considero uma frase de G. K. Chesterton, que cito de memória, das mais humanas e magníficas  escritas por uma pena humana:       
- O pior momento de um ateu é quando ele tem uma vontade de agradecer, e não sabe a quem!
Chestertton referia-se aos incrédulos, aos ateus confessos, possivelmente aos agnósticos de hoje que se assemelham aos atenienses de outrora, os do tempo do Apóstolo Paulo, que ergueram um altar ao Deus Desconhecido.
O problema dos ateus é excluir a possibilidade de Deus existir. O problema dos agnósticos é excluírem a possibilidade deeles conhecer a existência de Deus.
Interpretando generosamente nosso temperamento, ousamos afirmar que os brasileiros são “ingratos agnósticos”.

II.

Neste país ninguémse lembra de agradecer a ninguém, ao menos nos tempos bicudíssimos em que vivemos!
Nas lojas, nas ruas (menciono um indivíduo, que, não dispondo de um guia da Folha de São Paulo, pede-a a um pedestre ); nos restaurantes, aos garçons (que se tornaram arqui-serviçais nas últimas décadas); nos ônibus  aos motoristas e cobradores que estão a merecer uma pós-graduação “Honoris Causa” em gentileza...
Ninguém agradece!
Deixei para o fim a grande “revelação”, que não só me causa pasmo, como espasmo: os próprios mendigos já não agradecem!
Reparem como eles lançam olhares desdenhosos às moedas ou cédulas, que lhes pomos nas mãos, e fazem uma careta - que poderia ser melhor aproveitada nos palcos de comédias de alguma cidade interiorana – quando lhes oferecemos algo usado.
Tenho notícia ainda pior a dar-lhes: os cristãos estão se tornando desagradecidos!
Notem que tal fenômeno ocorre num país onde uma de suas expressões mais típicas,é justamente:
- Graças a Deus!
Vivemos, sem dúvida, numa época de cientistas à Dawkins, mais interessados em fazer cobranças a Deus, do que descobrir coisas que nem Darwin descobriu!
Amanhã ou depois, teremos uma nova classe de cientistas: os cientistas-teólogos, ou melhor, ateólogos!
É um fato estatístico que os néos-pagãos de nossa era exigem, antes do mais, que Deus exista espalhafatosamente, à maneira dos shows de Madonna ou Adele.
Se Ele se n ega a submeter-se a tal figurino, cobrem-no de insultos.
Os que não chegaram á perfeição do néo-paganismo, erigem certos ídolos em divindades (os Beatles, beneméritos sob outros aspectos, foram os primeiros a cair em tal insensatez!) quando se proclamaram mais famosos do que Jesus!).
Resumindo: estamos numa época de monstruosa auto-suficiência!


III. 

Desalentado diante de tal panorama, decidimos pedir ajuda a um simpático clássico da língua portuguesa, o amável P. Manuel Bernardes que, como todos sabem, foi um frade do Oratório.
Em vez de catar sentenças e aforismos no jardim do venerável clássico, onde elas vicejam copiosamente, preferimos furtar-lhe um único delicioso apólogo:
- Sonhou um homem que via um ovo atado na ponta do seu cobertor. Consultou a um agoureiro, o qual lhe disse por interpretação:
- Que naquele lugar onde dormia estava escondido dinheiro.
        Cavou o homem, e achou ouro e prata. Desta deu por prêmio ao adivinhador uma pouca parte, o qual, aceitando-a meio alegre meio triste, disse aludindo ao ouro:
-E da gema, não há nada?

Senhores leitores, perceberam?
No tempo do P. Bernardes, cogitava-se que os beneficiários de sonhos favoravelmente interpretados repartissem alguma parte do dinheiro encontrado, debaixo do travesseiro (a alguns metros dele, é claro!). Pelo menos, supunha-se que se desse algo pela clara do ovo.
 O bom oratoriano, porém, exigia mais:
- E da gema, não há nada?
Oh, se nós pudéssemos comunicar-nos diretamente com o P. Bernardes, que deve estar entre os Bem-aventurados!
Nós dire-lhe-íamos:
- Reverendíssimo Padre, na nossa época, da qual talvez nem tendes ouvido notícia - a dos Capitais Voláteis e dos cachorros-quentes - sumiu a antiga praxe da gratidão! Sabeis que agora tudo acontece “no osso do peito”...
À guisa de pós-escrito, adicionaríamos – à observação acima - as seguintes palavras que Miguel de Unamuno atribui a Ernest Renan:
- Dá-me ( o Deus!) a vida - que eu me encarrego do resto!
(De Esto y de Aquello. Tomo III. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1953. p.313).
Antes que alguém se chateie comigo, concluo meu texto com uma observação do próprio Unamuno:
- Es tan raro saber ser justo con los que nos hicieron!
(Ibid. p. 254).

Em que Mundo Estamos, Dona Dilma?

I.
Leio nos jornais que a Presidente do Brasil, diante da compulsividade retórica de seus ministros, tornou a recomendar-lhes a divisa do governo, a qual, sob certo sentido, se opõe às divisas dos governos anteriores.
- Trabalhar muito, e falar somente o necessário.
Umavez que estamos falando em ministros, que significa, etimologicamente, essa designação?
O brasileiro das ruas, “o popular”, como se tem  convencionado em chamá-lo, – ignora tal subtileza.    
Ministério, segundo o linguajar cristão, tornou-se algo litúrgico. Entrou no próprio vocabulário do Apóstolo São Paulo, ou dito com mais exatidão, dele procede.
 A palavra grega que o Apóstolo empregou foi diakonia:
- Em sentido genérico, diákonos é alguém que se põe a serviço de um mestre, ou de qualquer pessoa. A autoridade da sociedade pagã (dos tempos do Cristianismo Primitivo) era chamada os diákonos de Deus.
(Dicionário Enciclopédido da Bíblia. 4 edição. Redator principal: A. Van den Born. Com a colaboração de 46 especialistas. Editora Vozes, 1987. p.393- 394).
‘O mesmo Dicionário acrescenta:
- A Vulgata (tradução latina do Novo Testamento) traduz “Diákonos” por “Minister”, isto é, Servidor.
(Ibid. p. 394).
Portanto, a palavra ministro” significa simplesmente servidor.
Sabemos que o Brasil, antes de ser descoberto por Portugal, era terra de índios.
Índios -a bem da verdade, eram criaturas,sob certo ponto de vista, mais felizes do que nós (se é que tal interpretação mão passa de uma miragem retrospectiva nossa).
Eles tinham um hábito que nos transmitiram: obedecer aos caciques.
É de tal estirpe, defendida no Brasil por um gênio da solidariedade, o Marechal Rondon, e por seu discípulo, quase outro gênio, Darcy Ribeiro, que ficou um dos elementos que nossa cultura política assimilou.

II.
Não podemos negar que guardamos, como um legado para nossa vida pública, a idéia do Caciquismo.
 Não temos ministros, nem servidores; temos caciques, mais ou menos controlados por uma Presidente.
Com efeito, Sra. Presidente, assistimos todos, com progressiva irritação, a sua luta para driblar tantos caciques, que lhe criam inumeráveis empecilhos.
Não cremos, por exemplo, que foi a Sra. quem teve a estranha idéia de revogar a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos estádios.
Diz-se, à boca pequena, ou mesmo à boca escancarada, que a Sra., para não se indispor com sua maior força de apoio, deixou tal proibição ao critério dos Governadores Estaduais.
Visto que já existia uma lei mais ampla,de cunho nacional, por que teria a Presidente da República de dobrar-se às injunções dos patrocinadores da COPA, ou da própria FIFA (caso tenha sido esse o caso), e autorizar o uso de bebidas alcoólicas nos estádios?
Se, por causa da abolição dessa lei, ocorrerem desordens nesses locais de grandes aglomerações, desordens originadas da ingestão de bebidas alcoólicas, quem será responsável por isso?
Fica registrada, neste insignificanteblog, nossa radicval inconformidade com sua decisão.
Seriauma demonstração de cidadania de sua parte, Sra. Presidente, se a Sra. tornasse a comnsiderar tal decisão, e eventualmente, impusesse a soberania nacional à prepotência do Esporte Internacional, cada vez mais aviltado por escândalos de corrupção.

III.
Dias atrás, um amigo objetou-nos:
- Que ilusão, a sua, de pensar em mudar alguma coisa no cenário distrital, municipal, estadual, ou nacional, com um texto de blog?
Repliquei-lhe:
- Não foi isso, propriamente, o que nos levou a escrever. Estamos cientes de que existem estudiosos universitários que apreciam escarafunchar textos jornalísticos, ou textos puramente pessoais (colhidos em “Diários Íntimos”) de épocas correspondentes às de alguns escritores famosos, como Machado de Assis e Euclides da Cunha. Refletindo sobre isso, cheguei à conclusão de que os estudiosos desejam saber o que, na ocasião, pensavam outras pessoas, não enfeudadas aos círculos da grande literatura e do poder midiático. Foi essa a razão que nos incitou a escrever textos alternativos aos dos órgãos de grande tiragem - órgãos que são apavorantes buldozers que terraplenam a consciência cívica do público.

IV.
Sra. Dilma, lembre-se do caciquismo.
Seu predecessor não foi propriamente um cacique, mas um diplomático, e por vezes, camaleônico servidor de caciques.
O PMDB que, numa certa conjuntura histórica, exerceu influência tão memorável na abolição da Ditadura Militar, está hoje numa situação dúbia de apoio ao seu governo. O apoio, de que a Sra. necessita,  depende portanto dos caciques.
Conseguirá a Sra. desvencilhar-se de tais caciques?
Não havia  caciques-fêmeas entre nossos índios.
Portanto, na opinião dos caciques, a Sra. está na contramão da História.

V.
Pedimos-lhe. Sra. Dilma, que fique nessa contramão.
 Nós - isto é, a minoria das minorias! Não pertencemos à minoria racista, nem à minoria feminista, nem a outras quaosquer minorias ideológicas.
Fique, D. Dilma,  na contramão.
O povo, ao elegê-la Presidente, quis que a Sra. fosse  Cacique. A Única.

VI
Reconsidere, em vista disso, a lei da proibição de bebidas alcoólicas nos estádios.
Não lhe tire o tapete de sob os pés.
Faça valer semelhante lei perante os interessados em vender bebidas alcoólicas num ambiente já de si inflamado por paixões.
Imagine como hão de comportar-se as massas diante dos erros dos árbitros, e de gols dúbios, marcados a favor dos adversários?
Um poeta francês escreveu: “É impossível discutir com uma pessoa emocionada”.
Sra. Presidente, um estádio emocionado é pior que o Vesúvio! Pense em Pompéia e Herculano.
Nossos políticos formam uma espécie de tribo, ou antes, dezenas de tribos, cada qual com um ou mais caciques, que levam seus apaniguados em todas as direções possíveis.

VII.
Aproxima-se a Copa.
Os jornais europeus noticiaram que a Copa da África do Sul não trouxe vantagens econômicas ao país.
Trouxe (mas isto é outra história) uma das piores tristezas ao Presidente Mandela: a morte de uma neta, num acidente de trânsito, durante sua realização.
Por que estamos a lembrar isso?
Para dizer que a salvação do país não está em seus pés, mas em suas cabeças.
Talvez a salvação do Brasil esteja mesmo nos corações brasileiros, que ainda estão entre os melhores de nosso planeta globalizado.

Ségolene Royal e as Estratégias da Hipocrisia.

Vivemos numa sociedade hipócrita, que faz questão de ser hipócrita.
Analisemos o affaire da ex-mulher de François Hollande, eleito recentemente Presidente da França, o qual, nas eleições legislativas de 17 de junho pp., obteve aplastante vitória sobre o partido de Sarkozy e do direitista Le Pen.
Ségolène parece ter cometido uma loucura: desafiar os barões do Partido Socialista Francês, quando da disputa do poder com Sarkozy, em 2007.
Ela não percebeu que ninguém, de seu Partido, se interessou em impugnar sua candidatura. Os barões já sabiam que Sarkozy venceria as eleições.
Diante disso, por que tentar barrar Ségolène?
Todo o mundo sabia que ela iria ser destroçada pelo leão sem juba, o futuro Presidente Sarkozy, como o seriam, aliás, os barões do PS, se naquela ocasião tivessem concorrido.
Quando chegou a hora das novas eleições, Ségolène ousou, com inexplicável candura, recandidatar-se. Nenhum mandarim socialista se importou com sua pretensão.
 Diante da rejeição de seus “pares”, Ségolène chorou.
Mulher guerreira, uma vez enxugado o pranto, arregaçou as mangas. Não era ela a mãe dos quatro filhos de François Hollande, o atual Presidente da França?
Seu ex-marido teve a honestidade de apoiar a sua candidatura a deputada. Ségolène disputou a indicação partidária com outro candidato socialista, ficando combinado entre eles que quem obtivesse maior número de votos, seria apoiado pelo candidato vencido.
 Ségolène venceu.
Monsieur Olivier Falorni, seu rival, não aceitou a derrota. Declarou-se “socialista dissidente”, e registrou sua candidatura no segundo turno
Ao que parece, Monsieur Falorni continuou a ser apoiado, secretamente, pelos barões do Partido. Favoreceram-no, também, os votos da Frente Popular da Sra. Marine Lê Pen.
Resultado desse imbróglio: Ségolène foi mais uma vez derrotada.
Para complicar a situação, a nova esposa do Presidente Hollande, Valérie Trierweiler, interveio na briga: publicou no seu tuíter uma nota, recomendando a candidatura de Monsieur  Olivier Falorni, o socialista dissidente.
A grande imprensa mundial condenou, em todas os idiomas possíveis, a intervenção política de Trierweiler.
Pergunta-se:
- Qual teria sido o motivo de tão imprevisto ato?
Segundo a maioria dos comentaristas:
 - La gelosia!  
O vocábulo italiano é empregado aqui para conferir uma moldura operística ao ciúme da nova companheira de Hollande.
Ségolène manifestou sua insatisfação, tanto em relação à traição dos barões, como em relação à “traição” da Sra.Trierweiler.
Possivelmente, alguns leitores deste blog suscitarão uma questão: qual o interesse em abordar em nosso blog  um incidente que só teve protagonistas descendentes de Obelix?
- Ledo e ivo engano – diria, com seu sorriso enigmático, o Sr. Luís Fernando Veríssimo.
Respondemos:
- A derrota de Ségolène tem a ver com o Brasil.
Mulheres do Brasil, não se iludam!
O feminismo não conseguiu todas as vitórias que pensou ter conseguido.
No comportamento social, político, e cultural brasileiro subsiste um fundo de machismo. Um machismo rancoroso, talvez“canceroso”, capaz de resistir às mais ardilosas quimioterapias.
A realidade é que a Sra. Ségolène (por quem não não temos nem simpatia nem antipatia!) foi sabotada politicamente por ser mulher.
Sem dúvida, ela cometeu erros, especialmente um maiúsculo: antes das eleições do segundo turno, declarou que, se eleita, disputaria a Presidência da Assembléia Francesa.
Em muitas situações da política nacional, analistas independentes  têm percebido indícios de um  anti-machismo em nosso meio, o qual tenta solapar o prestígio da Presidente Dilma.
 Não nos atribuam visões quixotescas de gigantes nos moinhos-de-vento de Brasília, e alhures – que não as temos.
 Os gigantes existem, e os moinhos de-vento, em boa hora, estão sendo substituídos por pilares geradores de energia eólica.
As mulheres brasileiras, essas é que devem prevenir-se.
Todos os brasileiros progressistas deveriam, neste momento, colocar-se do lado delas, contra o machismo.
Tal machismo, em grande parte, subliminal na política, ma vida social, e na cultura nacionais,  só lhe falta - para ser mais vulgar do que tem sido – extremar-se, e fazer o que Mario Quintana dizia que alguns “grossos” do seu Estado fazem, quando se reencontram: :
- Param, relincham-se, abraçam-se...
(Poesia Completa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 2005. p. 801).

terça-feira, 12 de junho de 2012

Onde está o Espírito Santo Agora?

I.
Agora?
É lógico que o corajoso cristão que formulou tal pergunta, com tanta honestidade, e com tanta radicalidade, não estava pretendendo negar a presença do Espírito Santo na Igreja de Cristo, mas chamar a atenção dos cristãos para uma imensa realidade que se tende a esquecer.
A promessa do envio do Espírito Santo à humanidade foi feita pelo próprio Jesus quando ainda estava neste mundo, isto é, na Palestina.
Deixemos isso claro. A promessa ocorreu em vida de Jesus, quando ele disse às pessoas que o ouviam:
- Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7, 38).
Para evitar qualquer interpretação equívoca de suas palavras, o evangelista acrescenta:
- Isso ele disse do Espírito que haviam de receber os que nele cressem, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por Jesus não ter sido ainda glorificado. (Ibid. 7,39).
Jesus, nessa ocasião, estava falando à Samaritana a respeito da Água Viva, que a esperta mulher desejava assegurar para si, sem ter de voltar novamente ao Poço de Jacó, e ser obrigada a lançar nele o seu balde.
Jesus não estava interessado na água que se bebe para matar a sede, e que se torna a beber quando a sede volta. Jesus referia-se a outra realidade.
Jesus estava antecipando a realidade de seu regresso ao Pai, após sua morte e ressurreição. Quem viria assumir o seu lugar, quando Ele estivesse ausente desse mundo?
Quem viria, por assim dizer, “reencarnar-se” na comunidade de fé dos discípulos, durante sua ausência?
Notemos que Jesus prometeu enviar “um outro Paráclito”, palavra que significa Defensor e Consolador.
Insistamos nesse ponto: Jesus declarou-se o Caminho, a Verdade, e a Vida. Portanto, não se tratava de encontrar um substituto para Jesus. Jesus seria sempre A Verdade.
Ocorre que Jesus ficou no mundo cerca de 33 anos. Quem ficaria no mundo nos séculos que se lhe sucederiam
Quem recordaria (isto é, traria ao coração!)o que Ele fez e disse durante sua vida terrestre, ao longo0 dos séculos, não deixando que seus discípulos se sentissem órfãos?
Se Jesus era a Verdade, viria, então, uma Outra Pessoa Divina a completar sua obra.
O Espírito da Verdade viria completar a obra de Jesus. A permanência do Espírito Santo não seria mais histórica: seria trans-histórica.
Por isso, Jesus disse:
- Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. (Jô 14,18).
A presença de Jesus não seria novamente interrompida, porque seu Espírito, que é também o do Pai, uma vez que a Pessoa do Espírito Santo é o Mistério da união substancial entre o Pai e o Filho, sem absorção de um no outro, asseguraria a continuidade.
Quando Jesus afirma que seus discípulos, após a vinda do Espírito Santo, fariam obras maiores que as que Ele tinha feito em vida, os que O ouviam devem ter ficado perplexos:
- Como assim? Existirá obra maior do que ressuscitar mortos, e ressuscitar Ele próprio de entre os mortos?
Jesus falava de outro mistério: em algo maior do que ressuscitar Lázaro ou o Filho de Naim. Ou seja: Jesus falava em tornar seus fiéis co-participantes da sua própria Ressurreição mediante a Fé na sua Pessoa e nas suas Palavras.
Não nos iludamos: é difícil, para nós, dizer alguma coisa válida sobre o Espírito Santo!
O que havia a dizer foi dito por Jesus. Os cristãos devem, humildemente, beber da mesma Água que jorra da boca de Jesus. O que Ele disse sobre o Espírito Santo, ou deixou entender em suas palavras, é isso que devemos crer.
Não sejamos levianos ao nos referirmos ao Espírito Santo, como se ele fosse uma Pomba, ou mesmo, uma Língua de Fogo, embora ele se tenha dignado a visibilizar-se mediante tais sinais.
Ao passo que a Encarnação do Verbo resultou num rosto humano, de traços étnicos inconfundíveis, a Presença do Espírito Santo neste mundo não poderá jamais ser “materializada”, porque o Espírito sopra onde quer, e sua realidade viva não é captável à maneira do rosto de Jesus, que podia ser contemplado durante sua permanência neste mundo.
A originalidade da presença do Divino Espírito Santo consiste em ser um “sinal”, até ao dia em que, por um dom inimaginável de Deus, O veremos face a face.
 Só então veremos o Espírito Santo, como é dado a uma criatura vê-lo, uma vez que sua Imensidade, Onipotência e outros dons especificamente divinos nos serão concedidos, embora numa medida adequada a uma criatura, mesmo sobrenaturalizada.

II.   
Falando sobre o Espírito Santo, Jesus parecia minimizar sua própria Encarnação.
Por favor, leiam-nos corretamente. Escrevemos: “parecia”.
Por que?
Certa vez Jesus disse:
- O Espírito é que vivifica; a carne para nada serve. (João 6,63).
Como?
Não disse o evangelista que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós?”
Noutra  passagem Jesus afirmou que nos daria sua carne como verdadeira comida (sob as aparências do Pão vivo que desceu do céu).
Ouçamos um teólogo, que escreveu com verdadeiro espírito cristão:
- A carne não é má; simplesmente é incapaz, por si mesma, de atingir o mundo de Deus e de compreender as realidades divinas. Isto pode ser realizado somente pela descida do Espírito Santo à esfera da carne, da história humana.
(George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
Em nossa sociedade contemporânea, a corporalidade tem sido  exageradamente valorizada.
Vivemos uma época em que a materialidade da carne está sobrevalorizada.
O erotismo aparece onipresente em nossa vida social, contribuindo assim, por paradoxal que isto pareça, para a desvalorização do corpo. Daí os olhares de pasmo, e os sorrisos de ironia quando um cristão resolve expressar sua fé com as próprias palavras de Jesus:
- Na ressurreição, nem os homens se casam,nem as mulheres se dão em casamento, mas são como os anjos no céu.
(Mateus 22, 30).
Lembro-me de que, na década de 60, havia uma canção francesa que satirizava a afirmação de Jesus, referindo-se aos Anjos com suas asas, e seus outros atributos, visualizados de acordo com as imagens dos pintores renascentistas e barrocos...
Atiremos às urtigas, ou às lixeiras de nossas cidades,  tais criancices!
A ressurreição, prometida por Jesus, nada tem a ver com tais bobices..
 É algo que o olho humano não viu ainda, que o ouvido não ouviu, e que o coração do homem nunca foi capaz de imaginar.
Como “endeusamos”, porém, o sexo, a maioria dos homens não parece conceber um mundo sem sexo. O que, no mínimo é reduzir a imaginação de Deus aos estreitos limites da fantasia humana, às possibilidades dos “efeitos especiais” do cinema...
Sejamos razoáveis.
Ou então, deixemos de crer nesse “Deus” que é inferior ao que Ele próprio criou, destinado a propagar a raça humana, e dar aos homens e às mulheres, um amparo à sua solidão.
Eis por que a vinda do Divino Espírito Santo, celebrada na Festa de Pentecostes, é fundamental para o mundo de hoje, de um apego à matéria e ao corpo, que fica difícil a um cristão ser, neste momento, tanto a favor, como contra o sexo.
A favor?
Sim, porque o sexo é bom, é maravilhoso.
Contra o sexo?
Sim, porque o sexo não “amorizado” (a expressão foi usada por Teilhard de Chardin) é uma sorte de explosivo, capaz de fazer saltar pelos ares a possibilidade de amor verdadeiro, isto é, a entrega corpóreo-anímica entre dois seres , que sabem que seu êxtase é um êxtase, mas parcial. Que esse êxtase é uma promessa de algo maior.
Só o Espírito santo, que veio a este mundo para lembrar o que Jesus ensinou, pode desfazer a arrogância dos saduceus atuais, que voltam a propor a Jesus a pseudo-complicação dos sete homens que tinham dormido com uma única mulher.
- Estais enganados, repete o Espírito Santo as palavras ditas outrora por Jesus.Desconheceis as Escrituras e o poder de Deus.
Fixemo-nos, em especial, numa expressão de Jesus: “o poder de Deus””!

III.
A Festa de Pentecostes ocorre 50 dias após a Páscoa.
Comovi-me, dias atrás, ao ver uma negra passar, pelas ruas de Porto Alegre enrolada na Bandeira do Divino.
Pensei comigo: “Essa mulher está mais perto de Deus do que os teólogos. Está mais perto de Deus do que todos nós, que nos julgamos “sábios”, e tendemos a rir de tão singelas manifestações”.
Voltemos à interrogação corajosa dos autores do Catecismo Holandês:
- Onde está o Espírito Santo agora?
Respondem esses mesmos autores:
- Os dons extraordinários: falar línguas, profetizar, operar curas, são agora mais raros do que nos primeiros tempos. Por causa de outros costumes religiosos, como já vimos. Mas, talvez, também porque na fundação precisava-se de outros elementos mais do que no prossseguimento da construção. Os frutos atuais do Espírito Santo são hoje mais “comuns”, lúcidos, instrutivos, úteis, ministrantes. São eles tão comuns, que estão em casa, em toda a parte: na cozinha, no quarto, na escola, no escritório, na oficina. São Paulo ensinou-nos em sua Primeira Carta aos Coríntios 12 e 14, e sobretudo, no famoso capítulo 13, que justamente esses dons “comuns” são os mais elevados. Mais importante do que o êxtase é a interpretação, já que edifica mais a Igreja. Maior do que o falar línguas é a caridade: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.
Que isso sirva de consolo aos católicos, num momento em que irrompem escândalos na Igreja de Deus.
 O Espírito Santo não deixará que a malícia, a cobiça, a vileza humana sufoquem a palavra de Jesus.
Ele fará com que a voz de Jesus seja cada vez mais ouvida na intimidade do coração de cada crente, e que ela seja cada vez mais produtiva de bons frutos.

“Noites Tropicais”: o que a gente aprende com a história da Música Popular Brasileira?

I.
     A grande vantagem de se ler um livro, que esteve em moda, e agora está fora de moda, é perceber mais claramente o que constituía sua “verdade”, ou ao menos o que  nele existia “de verdade”.
        Gosto de ler livros que foram considerados importantes, e que deixaram de ser – aparentemente – importantes.
Na minha opinião, a moda nasce sempre fora de moda, e quando está na crista da onde, é quando fica mesma fora de moda.  
        Que é uma moda?
Um surto de sarampo.
Pode-se trocar tão desairosa expressão por outra, de feição gentil: a moda é uma epidemia de bom gosto; um gosto que nem sempre é bom gosto, e que é gosto de alguns interessados, que têm tal vocação de ditadores (ou de comercioantes) que fazem tudo para que todo o mundo tenha um único “bom gosto”: o deles.
Pode ser,também, uma convenção social que dá certo, (obviamente na opinião de seus promotores) e que, uma vez granjeados os favores públicos, desaba como um edifício que é implodido.

II.
     O livro de Nelson Motta: Noites Tropicais principia trombeteando uma afirmação: “Eu não gostava de música”. (p.9).
Ah, senhor Nelson Motta: nós também temos uma relação precária com a música popular brasileira!
Somos, na realidade, arcaicos.
Pertencemos à minoria que que se encantam com velharias, e principalmente com o óbvio cantante.
 Apreciamos, a rigor, coisas obsoletas, coisas tão assimiladas pelo inconsciente do povão, que chegamos a privilegiar a toada: “Ó jardineira porque estás tão triste!”
Distinto Sr. Nelson: chegamos, é verdade,  à Minha Mãe Menininha do Gantois, do Caimy,  e é a canção que mais nos delicia, com alguns sambas de Noel Rosa ( cujas letras nos agradam mais do que suas melodias!),a Banda do Chico,  Disparada de Vandré, Pedro Pedreiro (também do Chico), e outras canções, que não vale a pena citar, porque a maioria dos brasileiros as conhecem, ou são consideradas bregas.
Nos nossos momentos de maior auto-exigência, adoramos Construção e Águas de Março de Tom Jobim.
Por falar em Tom Jobim: por que deram seu nome a um Aeroporto?
 Tom Jobim merecia ficar longe dessas babéis do consumo, do frenesi, e da tristeza internacional.
Teréamos imaginado para ele outro tipo de homenagem: uma Universidade, um Instituto de Música de Vanguarda, um santuário ecológico repleto de jacarés e de outros bichos em extinção.
Por exemplo:Pantanal Tom Jobim...

III.
        Voltemos ao livro de Nelson Motta.
        Dizem que é um livro “para ser lido como um romance vertiginoso” – na opinião evidentemente imparcial de seus editores.
Tentemos falar com maior objetividade: o livro de Nelson Motta é uma coletânea bem  estruturada, inteligente, não raro engraçada,em geral ardilosa, sempre efervescente,  de fait-divers, de confidências, de lampejos de gênio, de sonhos eróticos, de belezas estranhas (de “boconas e olhos caídos”, de vozes felinas), de mil e uma noites com uísque,acompanhados  às vezes por baseados, mescalina, cocaína, incidentes semi-hilariantes como  roubos de perus assados em casa de Cônsules Argentinos, de “abotoe estes decotes” e vê se cobre estes joelhos”, de irreverências à Jucas Chaves, de comparecimentos das três divindades de nosso violão:  João Gilberto, Vinícius, Tom, e - acima das nuvens – de aparições de Nara Leão (meio japonesa,meio índia, meio existencialista francesa) com o eventual cortejo de Tim Maias e “mulatos bonitos”, como Jorge Bem.
Não é um livro de se gostar ou não gostar.
É um conjunto de calidoscópicas reportagems, nas quais o autor quase sempre éo personagem central, em cujo entorno gravitam ícones midiáticos, alguns enterrados, outros semi-enterrados, outros gloriosamente “ressuscitados” ao terceiro dia...
Livro bem escrito?
Talvez sim.Jornalisticamente palatável. Em linguagem líquida: de se bebericar com uísque.
Nelson Motta é uma sorte de anjo bíblico, que nos toma pela mãop, e nos faz percorrer os grandes sertões: veredas da música popular.
Quem quiser ter uma vista panorâmica do que foi a aventura da Bossa-Nova, precisa ler o livro de Nelson Motta.
Lá estão as “Viniçadas”(p. 53 ss) as histórias do Velho e o Mar, isto é, de Ronaldo Bóscoli, e suas praias, numa das quais nasceu a Garota de Ipanema, que Elis Regina detestava, e prometeu a si mesma jamais cantar.
Esta é uma das fofocas do autor!
Foi Elis Regina, também, que lhe ensinou a pronunciar o seu nome:
- Eu sou a Elis. Não a Élis... (p. 74).
Por falar nessa admirável e quase trágica cantora, vale a pena ler o livro para descobrir que ela foim efetivamente, um prodígio.
Guardemos a memória dessa feliz-infeliz filha de uma lavadeira de Porto Alegre!
Nos velhos tempos, acompanhamos alguns dos Festivais da Música Brasileira. Lembram-se, ó trogloditas, do Roberto Carlos e seu sucesso:“Quero que Vá Tudo pro Inferno”?
No meio dessa multidão de egos inflados,que Nelson Motta nos exibe como uma bandeja turística das década de cinquenta, aqueles tabuleiros  forrados de borboletas azuis que se vendiam no Rio de Janeiro, insere-se uma exótica fábula: a do policial Mariel Mariscott.
Ao lado seaase policial midiático, quem aparece? Flóvio Cavalcanti, o das insolências de um moralismo sensacionalista, que o celebrizaram.
Creio que não existe nenhum sexagenário nacional que não tenha ouvido a canção, que percorreu a nação:

- Eu era nenén, não tinha talco,
Mamãe passou açúcar em mim.

Nelson Motta faz subitamente uma pausa. Uma pausa preparatória à aventura de Bóscoli “com a potranca puro sangue, que precisava ser domada”: é assim que o autor se refere a Elis Regina. (p.131).
Como sintetizar as perfomances do Chacrinha e suas mulatas, cujos predicados o autor nos relembra com debochada maestria:
-  (Chacrinha) era malicioso e desbocado, humilhava os calouros, apresentava-os misturados com bailarinas gostosas de biquíni, as “Chacretes” que rebolavam lubricamente suas bundas imensas para as câmeras, sempre focalizadas de baixo para cima”? (p. 140).
Não sabemos o que admirar nesses porres visuais machistas!
Por mais incrível que sejam os corpos das mulheres, eles estão sempre dentro do espaço e do tempo, no espaço e no espaço mentais, à Kant. Não mereciam elas em geral nascidas em barracos, mais com preensão e respeito?
Nelson Motta não esquece nada: Ponteio, Domingo no Parque, Sem lenço nem Documento, o violão arremessado contra a platéia por  Sérgio Ricardo, os milagres dos peixes de um modesto Milton Nascimento.
Nelson traça um quadro das Novelas, da Alvorada Tropicalista, do AI-5, da prisão de Gil e Caetano.
Não deixa de falar nem nas “ramplonerías” de Vinícius, o grande poeta que, no dia do casamento de Nelson Motta e Mônica Silveira, “uma moça da sociedade carioca, educada na Suíça”, casamento abençoado por Dom Helder Câmara, teve a idéia de estropiar um de seus mais belos sonetos (os poetas também sabem ser cafonas, quando se consideram idolatrados pelas fêmeas), e respondeu às insistências dos convidados:
- Fala! Fala! Fala!
com uma das maiores grosserias à presença dos “amigos e amigas do esposo”, ao declamar seu soneto, coroando-o com um mau gosto exemplar:
- Que não seja imortal, posto que chama...
mas que seja infinito...enquanto duro!  
(p. 196).
Nelson não precisava ter incluído no seu livro esse dito de mau gosto!
Os poetas, enquanto poetas de verdade, porque eles o são às vezes, devem ser respeitados, mesmo quando se metem em bobices e chulice
O livro inteiro, com seus capítulos de Ouro e Chumbo, com suas referências a o Pasquim, com sua narrativa do tétano de Mônica (primeiramente amada, depois abandonada), com as loucuras de verão e os horrores da Ditadura Militar, a ascensão e queda dos Hippies, o desbunde  que se lhe seguiu, o surgimento de Raul Seixas, as letras do alquimista Paulo Coelho, a proibição do Cálice-Cale-se de Chico, as Noites Frenéticas no Dancing Days, a morte do Poetinha (em 1980), o assassinato de John Lennon, o advento do cavalariano General João Figueiredo (considerado o Pôncio Pilatos do Credo Bossa-novista), etc.
        O autor finaliza com Djavan e Daniela Mercury, e alude ao impecheament de Fernando Collor, a respeito da qual diz:
- Até os cachorros estavam de preto naquele dia luminoso!

IV.
        Seria interessante, a partir do itinerário de Nelson Motta, estabelecer um inventário e uma análise das canções brasileiras citadas por ele.
A julgar por esse itinerário, nunca  existiu metafísica no Brasil, ninguém, ainda hoje, pensa na morte (Pascal, no eixo Rio-São Paulo, não teria leitores), ninguém nas favelas sofre fome,a nossa discriminação racial dista mais de nós do que Aldebarã.
Nosso ideal de vida (ou de qualidade de vida!) parece ser o sexo, explícito ou implícito.
 Somos euforicamente superficiais. Somos especialistas em firulas e frivolidades, damos provas  irrefutáveis de um sentimentalismo bravio-voluptuoso, de um sex-apealismo xucro.
Saio, portanto, de Noites Tropicais com vontade de me embrenhar em outro Brasil, em outros Brasis, os de Manuel Bandeira, de Graciliano, de Erico, de Cabral de melo Neto, do Marechal Rondon, de Paulo Freire, de Celso Furtado, de Irmã Dulce da Bahia, de brasileiros que esperam que sua música popular não seja unicamente...  
-O quê?
Talvez um apelo à auto-descoberta de nossa condição brasileira, de nossa medula espiritual, do núcleo sigiloso, e múltiplo, de virtualidades que se ocultam no fundo da alma brasileira.
Algum resto do sopro do Gênesis terá ficado nas narinas dos que cantam com seus violões, berimbaus, pandeiros, bandolins,e guitarras elétricas , e que ainda sabem – graças a Deus - ser geniais nos seus achados e perdidos da fantasia.