quarta-feira, 30 de maio de 2012

Onde está o Espírito Santo Agora?

I.
 Agora?
       
É lógico que o corajoso cristão que formulou tal pergunta, com tanta honestidade e – diríamos – com tanta radicalidade – não estava querendo negar a presença do Espírito Santo na Igreja de Cristo, mas chamar a atenção dos cristãos para uma imensa realidade que tendemos a esquecer.
        A promessa do envio do Espírito Santo à humanidade foi feita pelo próprio Jesus quando ainda estava neste mundo, isto é, na Palestina. Deixemos isso claro. A promessa ocorreu em vida de Jesus, quando ele disse às pessoas que o ouviam:
        - Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7, 38).
        Para evitar qualquer má interpretação de suas palavras, o evangelista acrescenta:
        - E isso ele disse do Espírito que haviam de receber os que nele cressem, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por Jesus não ter sido ainda glorificado. (Ibid. 7,39).
        Na ocasião Jesus estava falando à Samaritana a respeito da Água Viva, que a esperta mulher desejava assegurar para si, sem ter de voltar novamente ao Poço de Jacó, e ser obrigada a lançar nele o seu balde.
        Jesus não estava interessado na água que se bebe para matar a sede, e que se torna a beber quando a sede volta. Jesus referia-se à outra realidade.
        Ele estava antecipando a realidade de seu regresso ao Pai, após sua morte e ressurreição. Quem viria, pois, assumir o seu lugar, quando ele estivesse ausente desse mundo?
Quem viria, por assim dizer,  “reencarnar-se”, de alguma forma, na vida de fé dos discípulos, durante sua ausência?
Quem fortaleceria os discípulos para que eles permanecessem na Fé, e levassem outras pessoas à Fé?
        Os discípulos de Jesus teriam de seguir a Jesus, se quisessem ser fiéis a Ele.
Notemos que Jesus prometeu enviar “um outro Paráclito”, palavra que significa defensor e consolador.
 Insistamos nesse ponto: Jesus declarou-se o Caminho, a Verdade, e a Vida. Portanto, não se tratava de encontrar um substituto para Jesus. Jesus seria sempre A Verdade.
Ocorre que Jesus ficou no mundo cerca de 33 anos. Quem ficaria no mundo nos séculos a vir? Quem recordaria o que Ele fez e disse durante a sua vida terrestre, nesses séculos a vir, não deixando que seus discípulos se sentissem órfão?
Foi nisso que Jesus pensou.
Se Jesus era a Verdade, viria, então, uma Outra Pessoa Divina a completar a sua obra.
O Espírito da Verdade viria completar a obra de Jesus. A permanência do Espírito Santo não seria mais histórica: seria trans-histórica, isto é, não haveria mais outra orfandade.
Por isso, Jesus disse:
- Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. (Jô 14,18).
A presença de Jesus não seria novamente interrompida, porque seu Espírito, que é também o do Pai, uma vez que a Pessoa do Espírito Santo é o Mistério da união substancial entre o Pai e o Filho, sem absorção de um no outro, asseguraria a continuidade.
Quando Jesus afirma que seus discípulos, após a vinda do Espírito Santo, fariam obras maiores que as que Ele tinha feito na sua vida, os que O ouviam devem ter ficado perplexos:
- Como assim? Existirá obra maior do que ressuscitar mortos, e ressuscitar Ele próprio, de entre os mortos?
Jesus falava de outro mistério: em algo maior do que ressuscitar Lázaro ou o Filho de Naim. Ou seja: Jesus falava em tornar-se co-participante da sua própria Ressurreição mediante a Fé na sua Pessoa e nas suas Palavras.
Não nos iludamos: é difícil, para nós, dizer alguma coisa válida sobre o Espírito Santo.
O que havia a dizer foi dito por Jesus. Os cristãos devem, humildemente, beber sempre da mesma Água que jorra da boca de Jesus. O que Ele disse sobre o Espírito Santo, ou deixou entender em suas palavras, é isso que devemos crer.
Só isso.
Não sejamos levianos referindo-nos ao Espírito Santo como se ele fosse uma Pomba, ou mesmo, uma Língua de Fogo, embora ele se tenha dignado a aparecer – isto é, a visibilizar-se - mediante tais sinais.
Ao passo que a Encarnação do Verbo resultou num rosto humano, de traços étnicos inconfundíveis, a Presença do Espírito Santo neste mundo não poderá jamais ser “materializada”, porque o Espírito sopra onde quer, e sua realidade viva atual não é captável à maneira do que foi captável  na encarnação de Jesus.
A “originalidade” da presença do Divino Espírito Santo consiste em ser ela um “sinal”, até ao dia em que, por um dom inimaginável de Deus,O veremos face a face.
 Só então veremos o Espírito Santo, como é dado a uma criatura vê-lo, já que sua Imensidade, Onipotência e outros dons especificamente divinos nos serão concedidos apenas na medida de nossos vasos receptivos, ainda que sobrenaturalizados.

II.   
     Falando sobre o Espírito Santo, Jesus pareceu minimizar sua própria Encarnação.
Por favor, leiam-me corretamente. Escrevemos: “pareceu”.
Por que?
Certa vez Jesus disse:
- O Espírito é que vivifica; a carne para nada serve. (João 6,63).
Como?
Não disse o evangelista que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós?”
Não disse, noutro lugar, o mesmo Jesus que nos daria sua carne como verdadeira comida sob as aparências do Pão vivo que desceu do céu?
Ouçamos um teólogo, que escreveu com verdadeiro espírito crisrtão:
- A carne não é má; simplesmente é incapaz, por si mesma, de atingir o mundo de Deus e de compreender as realidades divinas. Isto pode ser realizado somente pela descida do Espírito Santo à esfera da carne, da história humana.
        (George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento.São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
        No mundo em que vivemos, na nossa sociedade contemporânea, a corporalidade tem sido excessivamente valorizada.
Vivemos uma época em que a materialidade da carne, sua fisicidade, estão sobrevalorizadas. O erotismo, onipresente em nossa vida social, contribui, por paradoxal que isto pareça, para desvalorizar o corpo. Daí os olhares de pasmo, e os sorrisos de ironia quando um cristão resolve expressar sua fé com as próprias palavras de Jesus:
        - Na ressurreição, nem os homens se casam,nem as mulheres se dão em casamento, mas são todos como os anjos no céu.
(Mateus 22, 30).
        Lembro-me que, na década de 60, havia uma canção francesa que satirizava (até com cera brejeirice perdoável...) essa afirmação de Jesus, referindo-se aos Anjos com suas asas, e seus restantes atributos, visualizados de acordo com as imagens estereotipadas dos pintores renascentistas e barrocos...
        Despojemo-nos de tais criancices!
A ressurreição, prometida por Jesus, nada tem a ver com essas graçolas.
 É algo que o olho humano não viu ainda, que o ouvido não ouviu, e que o coração do homem nunca foi capaz de imaginar.
        Fiquemos nisso.
        Como “endeusamos”, porém, o sexo, a maioria dos homens – especialmente na opinião dos “machos” – não parece possível haver um mundo sem sexo. O que, no mínimo é reduzir a imaginação de Deus aos estreitos limites da fantasia humana, às possibilidades dos “efeitos especiais” do cinema.
Sejamos mais razoáveis. Ou então, deixemos de crer nesse “Deus” que é inferior ao que Ele próprio criou, para propagar a raça humana, e dar aos homens e às mulheres, um amparo à sua solidão.
        Eis por que a vinda do Divino Espírito Santo, celebrada na Festa de Pentecostes, é fundamental para o mundo, em qualquer de suas épocas, mas especialmente na nossa, de um apego à materialidade e ao corpo, que fica difícil a um cristão ser, neste momentyo, a favor e contra o sexo.
 A favor, porque o sexo é bom, é maravilhoso; contra, porque o sexo, não “amorizado” (a expressão foi usada pela primeira vez, salvo engano, por Teilhard de Chardin) é uma sorte de explosivo terrorista, capaz de fazer saltar pelos ares qualquer possibilidade de amor verdadeiro, isto é, qualquer entrega corpóreo-anímica entre dois seres que fundem seus corpos, um no outro, e sabem que seu êxtase é parcial. Que esse êxtase é uma promessa tangível de algo maior.
        Só o Espírito santo, que veio a este mundo para lembrar o que Jesus nos ensinou, pode desfazer a arrogância dos saduceus atuais, que voltam a propor a Jesus a “estória” dos sete homens que possuíram o corpo de uma única mulher.
        - Estais enganados, repete o Espírito Santo martelando sobre o que Jesus disse no seu tempo, desconheceis as Escrituras e o poder de Deus.    
        Fixemo-nos, em especial, nas palavras: “e o poder de Deus”!

III.
A Festa de Pentecostes ocorre 50 dias após a Páscoa.
 Dias atrás, comovi-me ao ver uma mulher negra passar, pelas ruas de Porto Alegre, enrolada na Bandeira do Divino.
Pensei comigo: “Essa mulher está mais perto de Deus do que os teólogos, do que nós, que pensamos compreende-lO, que nos julgamos sábios, e que tendemos a rir de tão singelas manifestações de Fé...”
        Voltemos, pois, à interrogação corajosa dos autores do Catecismo Holandês:
- Onde está o Espírito Santo agora?
Respondem esses mesmos autores:
- Os dons extraordinários: falar línguas, profetizar, operar curas, são agora mais raros que nos primeiros tempos. Por causa de outros costumes religiosos, como já vimos. Mas, talvez, também porque na fundação precisa-se de outros elementos mais do que no prossseguimento da construção. Os frutos atuais do Espírito santo são mais “comuns”, lúcidos, instrutivos, úteis, ministrantes. São eles tão comuns, que estão em casa, em toda a parte: na cozinha, no quarto, na escola, no escritório, na oficina. São Paulo ensinou-nos em sua Primeira Carta aos Coríntios 12 e 14, e sobretudo, no famoso capítulo 13, que justamente esses dons “comuns” são os mais elevados. Mais importante do que o êxtase é a interpretação, já que edifica mais a Igreja. Maior do que o falar línguas é a caridade: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade (amor) sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.
(Primeira Carta aos Coríntios 13,1).
Que isso sirva de consolo aos católicos, num momento em que irrompem escândalos na Igreja de Deus.
 O Espírito Santo não deixará que a malícia, a cobiça, a vileza humana sufoquem a palavra de Jesus. Ele fará com que esta seja cada vez mais lembrada, e seja cada vez mais atuante.
Porque ninguém, nem Ananias, nem Safira, podem enganar o Espírito Santo.

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