terça-feira, 29 de maio de 2012

Escândalos no Vaticano: Reflexões de um Católico Perplexo.

I.
       Comecemos por esclarecer, de uma vez por todas, umn ponto:  um católico não crê no Vaticano, isto é, nos quarenta e quatro hectares de poder territorial, econômico, e político de um dos menores Estados do mundo.
Um católico crêem unicamente nos doze artigos de fé do Credo, recitado em todas as missas dominicais, após a leitura do Evangelho.
         Um católico, além disso, não esquece as palavras de Jesus: “A ninguém chameis Mestre: um só é o Vosso Mestre”.
         Um católico, também, se lembra – isso é uma imposição do Senhor – que não se deve julgar ninguém, em termos de consciência pessoal, no tocante às intenções do coração. O católico aplica a si, com honestidade, as palavras do Senhor: “Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos”.
         Um católico procura guardar na memória, não só algumas palavras de Jesus, mas todas as suas palavras.Ttambém as seguintes: “Passarão o céu a terra, mas não passarão as minhas palavras”. (Mateus 24,35).
Portanto: um católico faz questão de ter diante dos olhos a advertência: “Quem quiser ser o maior entre vocês, seja o menor, e sirva seus irmãos”.
Um católico faz das seguintes palavras de Jesus sua divisa: “A verdade vos fará livres” (João 8,32).

II.
        
Apliquemos tais critérios aos escândalos, que acabam de ocupar as manchetes dos jornais, entre os quais o da divulgação das “Cartas Secretas do Papa Bento XVI” que um jornalista italiano, Gianluigi Nuzzi, editou sob o título: “Sua Santità”.
         Suponhamos que muitos católicos estejam “por fora” de tal notícia, ou “queiram estar por fora” - para não serem obrigados a tomar posição em relação a tal notícia, e assim serem obrigados a enfrentar desafios à sua Fé.
         Afinal:
- De que se trata?
         Trata-se de um Vaticanleaks – como o rotularam os jornalistas – de uma fuga de documentos secretos do Vaticano. Tais documentos versam assuntos da intimidade dos dirigentes da Igreja, em última análise, de assuntos que põem em cheque a credibilidade de dignitários eclesiásticos, levantam suspeitas sobre sua honestidade e a limpidez de suas opções, bem como sobre a catolicidade de seus atos, e até sobre a liquidez espiritual de seus Pastores.
 Por último, para coroar o imbróglio, incluem-se nele intervenções clamorosas do“ Dio Danaro”, e do  Dio Potere” – como escrevem, debochadamente, alguns jornalistas romanos.
         Comecemos por aplicar algumas medidas de profilaxia midiática às notícias:
- Que pensar sobre a autenticidade de tais documentos?
Tratando-se de cópias autógrafas, a autenticidade não foi problematizada. Nenhuma autoridade do Vaticano, até este momento, contestou a autenticidade de tais documentos. O que as autoridades eclesiásticas do Vaticano reprovam é a “traição” de pessoas juramentadas, que fizeram com que tais documentos chegassem às mãos de jornalistas.
         Podemos questionar, inicialmente, as informações que tais documentos contêm (problema diverso do anterior). Perguntar, por exemplo, se as confissões de pessoas, citadas nos documentos, são fidedignas e se correspondem aos fatos, ou não passam de interpretações elaboradas pelas pessoas envolvidas.
Um exemplo: as cartas do jornalista Dino Boffo, ex- íntimo dos Cardeais, posteriormente acusado de homossexualismo pelo jornalista Vittorio Feltri (Il Giornale) da cadeia de jornais de Silvio Berlusconi, que acabou sendo demitido, pelos próprios Cardeais, da direção de L’Avenire, jornal oficioso da Conferência Episcopal Italiana.
Dino Boffo foi isentado de culpa e, mais tarde, reinvestido de um cargo importante, isto é, da Direção da TV dos Bispos Italianos, pelos próprios Bispos.
Seriam, então, as suas cartas íntimas, auto-justificativas e com acusações explícitas aos seus inimigos, de perto e de longe, endereçadas pelo mesmo Boffo ao Secretário Pessoal do Papa, Monsenhor Georg Gänswein, detentoras de verdades? Ou seriam meras suposições do acusado e absolvido?  
Para um leigo - já não digo católico, mas simplesmente cristão-  que se vê posto diante de tal tsunami de problemas, de intrigas, de bisblhotices  – enfim, para um leigo constrangido a assistir a tão obsceno striptease -  esse pastícciaccio  não só é decepcionantde, como desagradabilísssimo e, para dizer tudo, nojento!
         Penso que ninguém de nós gostaria de ver seu pai jogado na rua, numa poça de vômitos, espezinhado por bêbedos.
 Sob algum aspecto, os Bispos e Cardeais da Igreja são nossos “pais espirituais”, exercendo sobre todos os fiéis uma sorte de paternidade simbólica.

III  
        
         Nesse Affaire tudo denuncia uma arrasadora falta de classe!
Primeiramente – por mais que o Vaticano, um Estado leigo como qualquer “Estado”, com a diferença de que se propõe a ser um Estado Leigo que deseja observar os princípios éticos de Jesus ( ou seja: o Vaticano é um estado leigo sui-generis) - sim, uma vez que esse Estado não consegue camuflar ações e atividades que, de uns anos para cá,  desconcertam os católicos, como chamá-lo de Estado Leigo Católico?
         Mencionemos, a vôo de pássaro, alguns dos casos que desconcertaram os católicos:
I. o affaire de Emmanuela Orlandi (1983);
II. o affaire dos Guardas Suíços (1998), que terminou com a morte do Comandante da Guarda Suíça,  de sua mulher, e de um dos guardas;
III. o affaire de Gian Salvi, do Banco Ambrosiano;
IV. o affaire do Hospital de Milão San Raffaele;
V. o affaire da defenestração de Ettore Gotti Tedeschi, pessoa de confiança do Papa Bento XVI, episódio tão misterioso que teria provocado uma crise de choro do Papa (La Repubblica. 28-05-2012).
Quanta coisa por esclarecer!
Alguém chegou a comparar a atual situação do Vaticano à que Lutero teve de afrontar no final do século XV.
É evidentemente um exagero.
Além disso, existem notáveis diferenças entre ambas:
1.                          nos tempos de Lutero não existiam meios de comunicação tão rápidos, e tão espalhafatosos;
2.                         o Papa Bento XVI, homem virtuoso, não pode ser equiparado ao Papa Leão X , um pontífice renascentista mundano;
3.                         a despeito dos escândalos atuais, aos quais devemos adicionar as acusações de pedofilia do clero, os desmandos da Legião de Cristo, etc., a Igreja está longe de ser, na sua condição de comunidade de crentes, uma Igreja depravada.  A olhos imparciais a Igreja Católica atual oferece exemplos de coerência evangélica, e de vida segundo as exigências éticas de Jesus. Há no seio da Igreja grandes personalidades como Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, e centenas de outras figuras silenciosas, de comprovada santidade.
4.                         Jesus, por outro lado, preveniu-nos: “Escândalos sempre hão de existir. Ai daqueles por quem os escândalos vêm!”
5.                         En plus, Jesus já nos avidou que o inimigo semearia joio no meio do trigo.
Concluamos: estamos tristes e perplexos, mas não desanimados, nem derrotados.
A rocha, sobre a qual a Igreja de Jesus foi edificada, resistirá a esses, e a outros tufões de igual malignidade.

IV.
           O que, então, pretendemos?
Seria impossível fazer retroceder a História ao seu ponto de partida! Ou seja: desejar que os Papas voltem a ser carvoeiros ou administradores de catacumbas, como o foram alguns no Cristianismo Primitivo.
Sejamos realistas: algum Vaticano terá sempre de existir!
 A Igreja, Corpo Místico de Cristo, tem necessidade de um mínimo de suportes sócio-econômicos, diríamos, de infra-estruturas.   
Não necessariamente as que foram instaladas no Vaticano.
Embora o Papa não seja um monarca, nem deva ser, poderá ter a seu serviço uma complexa, posto que não corrupta, estrutura administrativa, que exija especialistas nas suas respectivas áreas.
A Santa Sé pode – e deve – viver a salvo das influências políticas do país, em cujo território seu minúsculo Estado está encravado, isto é, a Itália.  É preciso afastar as pressões financeiras que terminam em “branqueamento de dinheiro”, e em outras operações incompatíveis com os ideais cristãos.
         Qualquer católico do mundo subscreverá – tenho certeza disso – o seguinte quase ingênuo anseio que ousamos formular:
- Poupem-nos, a nós católicos, um Vaticano de intrigas e de negócios censuráveis!
Além de ser homem de fé, Bento XVI precisa, na atual conjuntura, ser também homem de ação.
         Não escreveu ele próprio dois tomos magistrais sobre Jesus de Nazaré?
É inadmissível que o Papa tenha esquecido que a traição a Jesus começou na Bolsa de Esmolas de Judas!
Com humor, acrescentamos: numa espécie de...IOR.  

V.
O que pedimos aos nossos Pastores, que foram constituídos pelo próprio Jesus como autoridades sobre o Povo de Deus, é que não esqueçam que os católicos são ovelhas do seu rebanho, não porém ovelhas cegas. nem amordaçadas, forçadas a um silencio vergonhoso sobre as atividades de seus Pastores.
O próprio Mestre tomou a si a tarefa de deixar-nos uma descrição meridiana dos maus pastores. Basta ler o Evangelho de São João, capítulo 10, versículos 1-16.
Somos, portanto, ovelhas que pleiteiam a existência de Bons Pastores, os quais, ao menos longinquamente, evoquem o Bom Pastor.
         Eis por que, a rigor, não acusamos nossos Pastores.
Limitamo-nos a rogar-lhes que eles mesmos se auto-acusem, que eles mesmos se auto-critiquem. Que deponham as máscaras com que nos escondem seus verdadeiros rostos, cientes de que somos ovelhas, mas não ovelhas que se dispõem a ser ludibriadas.

VI. 
         Nós, católicos, nos tornamos neste momento espetáculo para o mundo:
         - Julgo que Deus nos expôs, a nós, apóstolos, em último lugar, como condenados à morte: fomos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens.
         (São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios 4, 9).
          Transfiramos o aspecto espetacular aos ícones da política, do esporte, do showbiz, aos gestores de capitais voláteis, aos empresários cujo enriquecimento não se fez senão a expensas de...às top-models que servem aos interesses comerciais de seus patrões, e anestesiam as massas com suas perfomances. 
         Aos nossos Pastores pedimos, apenas, que honrem os seus compromissos espirituais.
Que tenham proximidade com as ovelhas, e lhes escutem, não só os balidos, como também as palavras de sabedoria, que podem oferecer-lhes.
Que orem mais com elas, e por elas.
Que preparem melhor as pregações dominicais.
Que não nos sirvam pastagens impregnadas de pesticidas, nocivas ao rebanho.
Que surjam eventuais reformadores?
Sim, contanto que não identifiquem a Igreja  Católica com a FIFA - como se a Igreja tivesse que competir com outras Igrejas, ou outros organismos de serviço social, e desejasse enaltecer “astros” de suas equipes.
 Desejamos que nossos pastores nos recordem somente o que Jesus ensinou, e por essa razão roguem ao Espírito de Jesus que os iluimine.
 Que a Igreja não imagine que só meios de comunicação lhe possibiklitarão espalhar a Boa Nova. Que sejam utilizados com moderação, e sobretudo com respeito à verdade.
Afora isso, que o Fundador do Cristianismo nos dê o sal que nos recomendou, para que ele salgue nossas cabeças e nossos corações, e não nos deixe  iludir por “efeitos especiais”, nem por megaeventos, de que o Todo Poderoso não precisa para se fazer ouvido.
O que realmente interessa aos católicos é viver a Fé, na esperança da Revelação Futura, como filhos adotivos do Pai,  na expectativa do dom final - o da Ressurreição que Jesus prometeu aos homens de boa vontade.
O que escrevemos neste blog (nós o reconhecemos!) se apresenta como uma imperdoável ingenuidade, com uma indesculpável candura.
É a única forma que o Catolicismo contemporâneo tem de proporcionar um antídoto à esperteza e safadeza do mundo de hoje, pretensioso e hostil, que rejeita com arrogância as advertências de Jesus, inclusive a seguinte:  
- Sede simples como as pombas, e astutos como as serpentes.
Tais palavras foram interpretadas por um certo segmento do Catolicismo em favor das serpentes.

Um comentário:

  1. Lendo eu esta sinopse de autodefesa, quero te dizer meu caro Senhor que não concordo de forma alguma com seus argumentos em defesa desta instituição e daqueles que a representam, sabendo pois que esta Instituição como Igreja de fato nunca pregou o verdadeiro evangelho de Cristo a quem quer que seja, muito pelo contrario, o que se sabe é de que através dos primórdios do seu surgimento é de que todos que estiveram por cabeça no comando desta instituição, a grande maioria deles praticaram os mais absurdos atos criminosos da historia da humanidade, e nada poderia ter sido mais avassalador na face da terra do que os crimes cometido por estes que se diziam representantes e edificadores da Igreja de Cristo, sabemos também que desde o seu fundamento a Igreja católica negou continua negando o verdadeiro evangelho de Cisto, e isto todos nós sabemos que deste mesmo evangelho que vos falo é pregado em migalha na suas congregações, pois o que mais tem se pregado para as ovelha da Igreja romana é só o mais puro blablablá e nada mais.....

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