sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bilhete a um Francês Eufórico        

I.
A você, meu caro francês, efusivos cumprimentos!  
Permita-me estender as felicitações aos 52% de eleitores que escolheram François Hollande para Presidente.  
De nossa parte, fazemos nossos os bons votos que o Presidente derrotado endereçou ao “candidato sem carisma” do PS:
- Boa sorte!
Acrescentamos:
- Muitíssima sorte!
Nesta conjuntura, um grãozinho de loucura, de utopia, faria bem aos europeus, amamentados pelo mais rigoroso Cartesianismo.
Que voltem a experimentar a inebriante doçura das utopias, de todas as utopias, entre as quais a do Socialismo, que levaram à queda da Bastilha, e têm sido a baguette mental diária dos latino-americanos.
As utopias podem equilibrar a austeridade econômica que assola a Europa, e lhe cinge o pescoço com uma coleira de cão bravo.
Paul Krugman insiste, com atordoante convicção, sobre a necessidade de se temperar a retomada do crescimento econômico com um mínimo de inflação. É preciso elasticizar – pontifica - a austeridade merkeliana com uma inflação de 2 a 3 %, que baniria o desemprego, o qual despejou nas ruas da Espanha cinco milhões e meio de jovens que, não tendo o que fazer, inventam o que fazer.

II.
         Creio que os leitores sabem que é Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799), o famoso autor de As Bodas de Fígaro, peça que forneceu inspiração ao libretista da ópera homônima de Rossini.
As boas línguas dizem que um Anjo lhe apareceu, em certa noite luminosa, e lhe ditou as seguintes palavras, que mereceriam ser enquadradas num pôster, e colocadas diante dos olhos estremunhados de François Hollande e, se possível, tmbém diante dos olhos das duas presidentas sul-americanas, Cristina Kirchner e Dilma Rousseff :

- fingir ignorar o que se sabe
e saber o que se ignora;
entender o que não se entende,
e não escutar o que se ouve;
poder acima de suas forças;
ter frequentemente como grande segredo
o esconder que não se tem segredos;
fechar-se num quarto
para talhar penas e parecer profundo
quando se é, apenas, como se diz,
oco e vazio;
desempenhar bem ou mal um papel;
espalhar espiões
e pagar pensões a traidores;
amolecer sinetes,
interceptar cartas,
procurar enobrecer a pobreza dos meios
pela importância dos objetivos:
eis toda a política,
ou então morra eu!

Estarei ouvindo um murmúrio de Pascal, saído de sua secular tumba, ou resmungos de Montaigne, despertado inoportunamente de sua veneranda sesta?
         Reflexões tão sensatas mereceriam ser meditadas a fundo!
         Não esqueçam que outro reputado autor francês disse:
- O bom senso é a qualidade menos equitativamente distribuída entre os mortais.
        
III.
Amigo francês, reiteramos-lhe nossos cumprimentos pela vitória de François Miterrand – aliás, François Hollande!
         Vitória suada!
Mas que, pelo menos no atual interregno que precede o desvario de mercados prestes a acossar a França, sejam os céus da Cidade-Luz iluminados por feéricos fogos de artifício.
Jules Michelet, gênio da historiografia moderna, o historiador mais verdadeiro e mais apaixonante que já li, escreveu num de seus momentos de aguda intuição social:
- Qual é a primeira parte da política?
A educação.
A segunda?
A educação.
E a terceira?
A educação.

IV.
A estas alturas, elegante francês eufórico, perguntamos-lhe:
- Para que serviria um Dicionário de Citações, mesmo sendo da autoria de um erudito, como o Sr. Paulo Rónai, a não ser para esse tipo de comemorações festivas?
         Que o champanhe seja acompanhado por uma austera meditação.
         Alguém, um dia, observou – era um pessimista nato! - que não se deveria celebrar o nascimento de uma criança. Dizia esse  pessimista que só, por ocasião da morte de um indivíduo, sabe-se o que ele fez.  Quando a criança nasce, ninguém pode imaginar o que fará.  
É evidente que, na atualidade, unicamente um louco varrido celebraria o nascimento de Adolf Hitler.
Prefiramos ao pessimista um semi-pessimista com tinturas de otimismo, um desses honnêtes hommes , como o que se lembrou de objetar ao pessimista nato que mencionamos:
-Celebra-se o nascimento de uma criança, justamente por- que se ignora o que ela fará.

V.
         Comemore-se, pois, a vitória de François Hollande, ou com maior exatidão, a derrota de Sarkozy.
Apreciadores da imortal Cultura Francesa, torceremos para que a França (e com ela a própria Europa)  acertem o passo, lembrando que nos devem, como nossas mestras absolutas no passado, o incitamento a um grau maior de civilização.
Nesta substituição de poderes na França, seja-nos concedido associar à Marselhesa o pensamento esperançoso de Lucien Febvre:
- Uma civilização pode morrer,
 a civilização não morre.
(Combats pour l’Histoire, 1953).

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