terça-feira, 29 de maio de 2012

Amanhã ou Depois: Economistas e Leitores Seremos Surdos Uns aos Outros!

    Se os jornais impressos ou televisivos continuarem como estão, terá surgido no mundo mais um animal exótico: o economista.
       Décadas atrás, quando a economia não se tinha convertido numa teologia do dinheiro, naqueles saudosos tempos em que ninguém se interessava por ela, os leitores liam as raras páginas econômicas de então como se tivessem sido escritas por um Júlio Verne da ficção econômica.
Eram tempos nos quais um drible de Garrincha provocava manchetes,que hoje são exclusivas das elucubrações do Sr.Mantega, e no Exterior, das disputas pela pole position entre a Sra. Ângela Merker e o Sr. François Hollande.
      
Mas veio um vento de Desesperança
soprando cinzas pela noite morta...

Quem não sabe que tais versos são de Mario Quintana?
Podemos aplicá-los à nossa vida de pobres-diabos, funcionários públicos dependurados a um contracheque cada vez mais esquelético. Mas, se o pobre-diabo não tem nem easse cabide?  quem não dispõe desse cabide?
Bem, nesse caso, ele estará dependurado a um pincel invisível.
Um dia, porém, principiaram a aparecer nos jornain comentários econômicos. No início, não passavam de notas que podiam elegantemente equiparar-se a jogos de palavras.  
Mais adiante, com o por um passe de mágica, apareceram as Universidades, com variadas Faculdades Federais e Particulares. Deu-se, nessa altura, um fenômeno digno da atenção dos apicultores: pela “noite morta” de Quintana os economistas deram de enxaimar.
Seja dito a bem da verdade: eles lutaram para encontrar um lugar ao sol.
Os jornais e as televisões passaram a exibi-los nas suas horas de pico.
Por um tempo, ainda, ficaram entre o óbvio e o esotérico. Era, nessa época, ainda possível deliciar-se com seus clichês, com suas suculentas metáforas que tinham a vantagem de só ser entendidas, às vezes, pelos seus autores. Menção especial, entre tais sumidades, merece o Sr. Joelmir Betting.
 Com o passar dos anos, a linguagem sofisticou-se. Os economistas importaram expressões “made in Usa” e, a longo prazo, os bisonhos glosadores de aventuras de faits-divers de empresários bem-sucedidos, do tipo Eike Batista, se transformaram em Guimarães Rosas dos Grandes Sertões: Veredas dos negócios e agro-negócios, e até das negociatas nacionais.
 Menção especial para um simpático careça mineiro, que se tornou um Rasputin da Czarina da Rússia tupiniquim, nossa Bolsa de Valores.
Quem hoje os entende?
A resposta é óbvia: seus pares.
Nós, os ímpares, é que passamos a desentendê-los.
Meu pai, homem sensato, contou-me que, nos seus tempos de criança, havia oradores sacros que se compraziam em despejar dos púlpitos toneladas de eloqüência pseudo-teológica. Muitos desses oradores porfiavam em imitar os cipoais conceptistas do Padre Antônio Vieira.
Em certa ocasião, meu pai não podendo ir à missa, resolveu dirigir-se a um amigo para informar-se sobre o que o sacerdote tinha pregado no último domingo.
- Foi maravilhoso, respondeu-lhe o amigo. O Sr. pároco deixou todo o mundo de queixo caído.
- O quê? Insistiu meu pai.
- Bem, para dizer a verdade não sei. Juro que ele falou bonito! Um sermão de arromba!
Acho que os economistas estão chegando a tais requintes oratórios.
A nossa sorte é contarmos com um Prêmio Nobel americano que se desgarrou do rebanho: Paul  Krugman, que fala para ser compreendido, tanto nos seus blogs, como nos seus artigos. Sua linguagem, na medida do possível, está ao alçcance dos animais racionais.
 Afora tal economista, a grei dos pares está mais e mais instalada nas regiões estratosféricas.
Tenho-me interrogado sobre esse fenômeno estranho, que coincide com a trivialização da linguagem médica, até mesmo com sua semi- brutalização. Um fato não pode ser contestado: os clínicos desceram de suas pernas-de-pau heráldicas, e começaram, antes de tudo, a assinar legivelmente suas receitas. Depois deram um passo adiante: resolveram descer à linguagem galponeira, quase atingindo o realismo dos peões de estância.
Explico-me: nos velhos tempos, quando os clínicos se viam na contingência de informar a família sobre um caso grave - digamos sobre um câncer – possuíam certa ardileza demoníaca no linguajar. Recorriam a expressões complexas, algumas delas mais complicadas do que as frases dos romances de um conhecido Prêmio Nobel lusitano.
De uns tempos para cá, tudo mudou. A concisão dos médicos beira a estenografia verbal:
- Seu marido sofre de um tumor maligno! Digo, claramente, à família de que não lhe restam senão cinco ou seis meses...
A futura viúva desmaia.
Às vezes morre antes do marido.
Em tempos tão bicudos, os economistas deveriam fazer um esforço singular para nos informarem sobre os perigos que correm nossas algibeiras, com ou sem Taxas Selic. Deveriam sentir piedade dos humilhados e ofendidos. Deveriam alertar o cidadão comum contra o sex-appeal do consumismo, e de outras piranhas abstrata
Ao invés de nos enrolarem com teorias importadas, fariam melhor usando a sinceridade dos tigres que já comeram metade das pernas de uma gazela:
- Vocês, meus caros, estão numa pior! Tratem de poupar!
Nossa presidente Dilma, que não é uma economista, pode estar se tornando otimista demais. Como aceitar sua declaração recente:
- O Brasil está 300% preparado para as crises que assolam a Europa.
Trezentos por cento, Senhora Dilma?
Evite expressões tão otimistas, que só fariam sentido para quem não bebeu ainda um gole de sua garrafa de vinho.
A nós, que já bebemos metade da garrafa, tal auto-segurança não nos tranqüiliza.

   

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