quarta-feira, 30 de maio de 2012

Onde está o Espírito Santo Agora?

I.
 Agora?
       
É lógico que o corajoso cristão que formulou tal pergunta, com tanta honestidade e – diríamos – com tanta radicalidade – não estava querendo negar a presença do Espírito Santo na Igreja de Cristo, mas chamar a atenção dos cristãos para uma imensa realidade que tendemos a esquecer.
        A promessa do envio do Espírito Santo à humanidade foi feita pelo próprio Jesus quando ainda estava neste mundo, isto é, na Palestina. Deixemos isso claro. A promessa ocorreu em vida de Jesus, quando ele disse às pessoas que o ouviam:
        - Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7, 38).
        Para evitar qualquer má interpretação de suas palavras, o evangelista acrescenta:
        - E isso ele disse do Espírito que haviam de receber os que nele cressem, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por Jesus não ter sido ainda glorificado. (Ibid. 7,39).
        Na ocasião Jesus estava falando à Samaritana a respeito da Água Viva, que a esperta mulher desejava assegurar para si, sem ter de voltar novamente ao Poço de Jacó, e ser obrigada a lançar nele o seu balde.
        Jesus não estava interessado na água que se bebe para matar a sede, e que se torna a beber quando a sede volta. Jesus referia-se à outra realidade.
        Ele estava antecipando a realidade de seu regresso ao Pai, após sua morte e ressurreição. Quem viria, pois, assumir o seu lugar, quando ele estivesse ausente desse mundo?
Quem viria, por assim dizer,  “reencarnar-se”, de alguma forma, na vida de fé dos discípulos, durante sua ausência?
Quem fortaleceria os discípulos para que eles permanecessem na Fé, e levassem outras pessoas à Fé?
        Os discípulos de Jesus teriam de seguir a Jesus, se quisessem ser fiéis a Ele.
Notemos que Jesus prometeu enviar “um outro Paráclito”, palavra que significa defensor e consolador.
 Insistamos nesse ponto: Jesus declarou-se o Caminho, a Verdade, e a Vida. Portanto, não se tratava de encontrar um substituto para Jesus. Jesus seria sempre A Verdade.
Ocorre que Jesus ficou no mundo cerca de 33 anos. Quem ficaria no mundo nos séculos a vir? Quem recordaria o que Ele fez e disse durante a sua vida terrestre, nesses séculos a vir, não deixando que seus discípulos se sentissem órfão?
Foi nisso que Jesus pensou.
Se Jesus era a Verdade, viria, então, uma Outra Pessoa Divina a completar a sua obra.
O Espírito da Verdade viria completar a obra de Jesus. A permanência do Espírito Santo não seria mais histórica: seria trans-histórica, isto é, não haveria mais outra orfandade.
Por isso, Jesus disse:
- Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. (Jô 14,18).
A presença de Jesus não seria novamente interrompida, porque seu Espírito, que é também o do Pai, uma vez que a Pessoa do Espírito Santo é o Mistério da união substancial entre o Pai e o Filho, sem absorção de um no outro, asseguraria a continuidade.
Quando Jesus afirma que seus discípulos, após a vinda do Espírito Santo, fariam obras maiores que as que Ele tinha feito na sua vida, os que O ouviam devem ter ficado perplexos:
- Como assim? Existirá obra maior do que ressuscitar mortos, e ressuscitar Ele próprio, de entre os mortos?
Jesus falava de outro mistério: em algo maior do que ressuscitar Lázaro ou o Filho de Naim. Ou seja: Jesus falava em tornar-se co-participante da sua própria Ressurreição mediante a Fé na sua Pessoa e nas suas Palavras.
Não nos iludamos: é difícil, para nós, dizer alguma coisa válida sobre o Espírito Santo.
O que havia a dizer foi dito por Jesus. Os cristãos devem, humildemente, beber sempre da mesma Água que jorra da boca de Jesus. O que Ele disse sobre o Espírito Santo, ou deixou entender em suas palavras, é isso que devemos crer.
Só isso.
Não sejamos levianos referindo-nos ao Espírito Santo como se ele fosse uma Pomba, ou mesmo, uma Língua de Fogo, embora ele se tenha dignado a aparecer – isto é, a visibilizar-se - mediante tais sinais.
Ao passo que a Encarnação do Verbo resultou num rosto humano, de traços étnicos inconfundíveis, a Presença do Espírito Santo neste mundo não poderá jamais ser “materializada”, porque o Espírito sopra onde quer, e sua realidade viva atual não é captável à maneira do que foi captável  na encarnação de Jesus.
A “originalidade” da presença do Divino Espírito Santo consiste em ser ela um “sinal”, até ao dia em que, por um dom inimaginável de Deus,O veremos face a face.
 Só então veremos o Espírito Santo, como é dado a uma criatura vê-lo, já que sua Imensidade, Onipotência e outros dons especificamente divinos nos serão concedidos apenas na medida de nossos vasos receptivos, ainda que sobrenaturalizados.

II.   
     Falando sobre o Espírito Santo, Jesus pareceu minimizar sua própria Encarnação.
Por favor, leiam-me corretamente. Escrevemos: “pareceu”.
Por que?
Certa vez Jesus disse:
- O Espírito é que vivifica; a carne para nada serve. (João 6,63).
Como?
Não disse o evangelista que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós?”
Não disse, noutro lugar, o mesmo Jesus que nos daria sua carne como verdadeira comida sob as aparências do Pão vivo que desceu do céu?
Ouçamos um teólogo, que escreveu com verdadeiro espírito crisrtão:
- A carne não é má; simplesmente é incapaz, por si mesma, de atingir o mundo de Deus e de compreender as realidades divinas. Isto pode ser realizado somente pela descida do Espírito Santo à esfera da carne, da história humana.
        (George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento.São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
        No mundo em que vivemos, na nossa sociedade contemporânea, a corporalidade tem sido excessivamente valorizada.
Vivemos uma época em que a materialidade da carne, sua fisicidade, estão sobrevalorizadas. O erotismo, onipresente em nossa vida social, contribui, por paradoxal que isto pareça, para desvalorizar o corpo. Daí os olhares de pasmo, e os sorrisos de ironia quando um cristão resolve expressar sua fé com as próprias palavras de Jesus:
        - Na ressurreição, nem os homens se casam,nem as mulheres se dão em casamento, mas são todos como os anjos no céu.
(Mateus 22, 30).
        Lembro-me que, na década de 60, havia uma canção francesa que satirizava (até com cera brejeirice perdoável...) essa afirmação de Jesus, referindo-se aos Anjos com suas asas, e seus restantes atributos, visualizados de acordo com as imagens estereotipadas dos pintores renascentistas e barrocos...
        Despojemo-nos de tais criancices!
A ressurreição, prometida por Jesus, nada tem a ver com essas graçolas.
 É algo que o olho humano não viu ainda, que o ouvido não ouviu, e que o coração do homem nunca foi capaz de imaginar.
        Fiquemos nisso.
        Como “endeusamos”, porém, o sexo, a maioria dos homens – especialmente na opinião dos “machos” – não parece possível haver um mundo sem sexo. O que, no mínimo é reduzir a imaginação de Deus aos estreitos limites da fantasia humana, às possibilidades dos “efeitos especiais” do cinema.
Sejamos mais razoáveis. Ou então, deixemos de crer nesse “Deus” que é inferior ao que Ele próprio criou, para propagar a raça humana, e dar aos homens e às mulheres, um amparo à sua solidão.
        Eis por que a vinda do Divino Espírito Santo, celebrada na Festa de Pentecostes, é fundamental para o mundo, em qualquer de suas épocas, mas especialmente na nossa, de um apego à materialidade e ao corpo, que fica difícil a um cristão ser, neste momentyo, a favor e contra o sexo.
 A favor, porque o sexo é bom, é maravilhoso; contra, porque o sexo, não “amorizado” (a expressão foi usada pela primeira vez, salvo engano, por Teilhard de Chardin) é uma sorte de explosivo terrorista, capaz de fazer saltar pelos ares qualquer possibilidade de amor verdadeiro, isto é, qualquer entrega corpóreo-anímica entre dois seres que fundem seus corpos, um no outro, e sabem que seu êxtase é parcial. Que esse êxtase é uma promessa tangível de algo maior.
        Só o Espírito santo, que veio a este mundo para lembrar o que Jesus nos ensinou, pode desfazer a arrogância dos saduceus atuais, que voltam a propor a Jesus a “estória” dos sete homens que possuíram o corpo de uma única mulher.
        - Estais enganados, repete o Espírito Santo martelando sobre o que Jesus disse no seu tempo, desconheceis as Escrituras e o poder de Deus.    
        Fixemo-nos, em especial, nas palavras: “e o poder de Deus”!

III.
A Festa de Pentecostes ocorre 50 dias após a Páscoa.
 Dias atrás, comovi-me ao ver uma mulher negra passar, pelas ruas de Porto Alegre, enrolada na Bandeira do Divino.
Pensei comigo: “Essa mulher está mais perto de Deus do que os teólogos, do que nós, que pensamos compreende-lO, que nos julgamos sábios, e que tendemos a rir de tão singelas manifestações de Fé...”
        Voltemos, pois, à interrogação corajosa dos autores do Catecismo Holandês:
- Onde está o Espírito Santo agora?
Respondem esses mesmos autores:
- Os dons extraordinários: falar línguas, profetizar, operar curas, são agora mais raros que nos primeiros tempos. Por causa de outros costumes religiosos, como já vimos. Mas, talvez, também porque na fundação precisa-se de outros elementos mais do que no prossseguimento da construção. Os frutos atuais do Espírito santo são mais “comuns”, lúcidos, instrutivos, úteis, ministrantes. São eles tão comuns, que estão em casa, em toda a parte: na cozinha, no quarto, na escola, no escritório, na oficina. São Paulo ensinou-nos em sua Primeira Carta aos Coríntios 12 e 14, e sobretudo, no famoso capítulo 13, que justamente esses dons “comuns” são os mais elevados. Mais importante do que o êxtase é a interpretação, já que edifica mais a Igreja. Maior do que o falar línguas é a caridade: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade (amor) sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.
(Primeira Carta aos Coríntios 13,1).
Que isso sirva de consolo aos católicos, num momento em que irrompem escândalos na Igreja de Deus.
 O Espírito Santo não deixará que a malícia, a cobiça, a vileza humana sufoquem a palavra de Jesus. Ele fará com que esta seja cada vez mais lembrada, e seja cada vez mais atuante.
Porque ninguém, nem Ananias, nem Safira, podem enganar o Espírito Santo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Heresias sobre Cézanne

I.
       A bagagem -que se convencionou em denominar cultural pode favorecer, em ocasiões específicas, a apreciação das telas de um pintor!
         Neste momento de nossa vida social, porém, atingimos uma fase tão verbalizada e tão pretensiosa, que deveríamos tentar – para melhor apreciar a arte – viajar sem bagagem.
Utilizo uma linguagem metafórica. Quero dizer que precisamos voltar a apreciar obras de arte sem nos prendermos, como crustáceos ao casco de um navio, a tais bagagens (que são de variadíssima natureza: estética, psicológica, sociológica, semiológica, psicanalítica...). A maioria dessas bagagens sequer foram adquiridas; muitas foram recebidas de mão beijada, ou adjudicadas a interessados excessivamente ávidos, ao longo de leituras ou visitas a Museus. Algumas entraram, neles e em nós, sutilmente, inclusive por via endovenosa indolor.
 Poucas pessoas, realmente, reservam um tempo razoável para analisá-las ou, ao menos, para questionar-lhes a solidez.  
 Assediados por tão grande cópia de informações, esquecemos que a maior “bagagem” de um apreciador de arte não é sua cultura, mas sua sensibilidade.
Concedemos que tal palavra, inegavelmente “simpática”, pode ser comparada a uma das tantas bonecas russas de encaixe, àquelas engenhosas bonecas que vão saindo uma das outras para espanto de olhos infantis.
Sensibilidade possui múltiplos significados.
Tentemos definir essa noção, ou mais modestamente aproximar-nos de seu significado.
         Em nosso entender, sensibilidade compreende um conjunto de operações sensoriais e intelectuais, visto que a sensibilidade – soi-disant em estado puro - parece não existir.
 Se existisse, seria a sensibilidade de um recém-nascido, no seus primeiros momentos de existência, mais precisamente, a que seria possível a quando ele abrisse olhos no hospital, e realizasse o seu mais original ato de visão, ou de atuação de qualquer dos seus sentidos recém-desabrochados, ou melhor, já desabrochados no útero materno.  
Existirá uma sensibilidade unidimensional? Ao que tudo indica, a sensibilidade é de natureza pluridimensional.
Nascemos sinestésicos, isto é, com um leque de sensibilidades, as quais, de acordo com os padrões tradicionais, estariam dependentes dos “cinco sentidos” - a que se referiam nossos avós - e cuja quantificação atual já não sabemos precisar. determinar. Afirmam os experts que possuímos até um sentido térmico. No passado, a sensação de calor estava associada à sensação tátil.
         Digamos que nos parece difícil, senão impossível, ver algum objeto com uma visão absolutamente imune a interferências subliminais - dos outros sentidos – não por ação direta, mas através dos vínculos que a memória reelabora, seja no plano consciente, seja à revelia do eu consciente.
         Consideramos, pois, a sensibilidade uma conjunção de elementos de outras sensibilidades, ou seja, de dados oriundos de vários sentidos, que são comandados, aqui e agora, por um deles. A hegemonia sobre os demais é apenas momentânea.
No ato sexual o predomínio das sensações táteis é indiscutível. No entanto, também no ato amoroso, o indivíduo se vê diante de uma mulher, e uma mulher, a que lhe faz companhia. Essa mulher possui determinado rosto, determinados olhos, embora, no auge da fusão corporal, a sensibilidade seja dominada primordialmente pela tactilidade.
          Na experiência visual há um predomínio do sentido da vista, mas este sentido não exerce ditadura na percepção. Os demais sentidos continuam copresentes, embora não se possa fazer uma atribuição clara de suas interferências. Todos os sentidos (o que significa: toda a corporalidade) influem na visão, embora esta seja atribuída, espec ificamente, a um dos sentidos.
         A mim, estudioso das artes visuais, principalmente na minha condição de apreciador, desconfio cada vez mais da interferência, não só dos outros sentidos, mas principalmente de teorias estéticas, de palpites de toda espécie, que tendam a excluir – do ato visual – o seu carácter de fruição.
Voltemos a insistir: o comando do ato de visão, possivelmente, estará nas complexas redes neuronais, que não são exclusivistas uma das outras, mas que enfeixam uma série de dados (sensoriais, perceptivos, memorativos) num foco único. Diríamos: as sinopses neuronais tendem ao que poderíamos designar como uma sintaxe neuronal.
         É evidente que os neurocientistas considerarão nossas observações meros exercícios de amador, exercícios enfim de fantasia,  ou, numa generosa hipótese, “devaneios bachelardianos”.
Disponho-me a aceitar suas objeções, desde que nos ajudem a encontrar explicações mais satisfatórias para uma maravilha  tão apaixonante, como o fenômeno estético.


II.
Lutero é, geralmente, considerado o pai da livre interpretação da Bíblia.
Depois dele, parece que alguém teve a curiosa idéia de propor que levássemos às últimas consequências seu método de leitura escriturística.
Esse discípulo de Lutero, cujo nome ignoro, teria imaginado um indivíduo que, de repente, encontrasse os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, enterrados no fundo de seu quintal, guardados dentro de uma cápsula protetora – e já traduzidos para seu idioma materno.
Tal indivíduo seria convidado a ler os Evangelhos como se sua mente fosse uma tabula rasa, portanto, sem influências de nenhuma natureza, e assim, julgava ele, pudesse ter acesso à própria Palavra de Jesus, à sua ipsissima vox na expressão do teólogo bíblico Joachim Jeremias.
O imaginoso autor, com essa proposição, teria inventado o que nos podemos considerar: a ficção teológica.
Tal exercício – questionam alguns  teólogos - seria útil em termos de espiritualidade cristã?
Deixemos aos teólogos a solução da questão.
A nós interessa, apenas, aplicar tal método à apreciação das obras de arte. Não será possível tentar, através desse método, chegar a uma sorte de ficção estética?
 Esta consistiria em sentirmos – ou, mais genericamente, em vivenciarmos-  uma obra de arte como se ela, por sua vez, tivesse sido extraviada em nosso quintal, e aí topássemos com uma obra de arte sem nome, sem autor, sem elemento algum identificador de sua condição de “obra de arte”.
Tal experiência, obviamente, só pode ser feita no plano imaginativo.
 A apreciação, que a acompanharia, seria herética, como o seria uma imaginada leitura bíblica pessoal, caso fosse praticada na sua radicalidade.
Em nosso mundo super-informatizado, onde todas as coisas parecem estar ao nosso alcance, tais heresias poderiam ser ótimas como catarse, isto é, como pasteurização de nossas sofisticações.
O problema básico, segundo pensamos, reside no “dejà vu” (“Já vi isso!”), do qual nos é difícil – senão impossível – libertar-nos.
O que é que um cidadão, entrado no século XXI com 40 anos, não viu, ou não pode ver?
Não obstante, tentemos um exercício visual – do tipo tabula rasa - sobre Paul Cézanne.

III.

Uma vez que comecei “cometendo heresias”, cometerei mais uma: a de apanhar um álbum de reproduções de Cézanne, não necessariamente o melhor deles, um álbum que já esteve à venda no Brasil, e foi adquirido por muita gente em bancas de jornais.
Abramos o álbum Grandes Mestres da Pintura, Coleção Folha. N. 2.
(Barueri, Editorial Sol 90, 2007).
Saltemos a Biografia do mestre.
Saltemos, igualmente, o texto introdutório O Pintor e Sua Época.
À imitação dos cavalo de torneios hípicos, pulemos  os demais “obstáculos”, indo diretamente às ilustrações.  
Desde já, deixemos claro uma coisa: apreciar uma ilustração não é apreciar um quadro.
 A ilustração quase não guarda nada das impressões digitais do pintor. Nem teve, aliás, contacto com elas. O contacto com a mão do pintor só ocorre no ato da pintura. Portanto, somente esta – a pintura verdadeira na sua materialidade tangível - pode colocar-nos em presença da porção residual do consciente, do inconsciente, e até das frustrações pessoais – do artista.
Uma vez, pois, acentuemos mais uma vez, que é impossível esquivar as interferências, aceitemos ao menos mais uma, da parte dos organizadores do álbum (o que não seria desejável, levando-se em consideração que a descoberta está já sendo pilotada): o critério cronológico que enquadra a produção artística do autor.
Como desejamos “ser heréticos”, não deveríamos admitir nem mesmo essa interferência.
Dissemos que pretendíamos fazer uma apreciação sem balizas, isto é, uma abordagem livre da obra do pintor.
É hora de perguntar-nos: por falar nisso, alguma vez realizou-se o sonho dos (assim ditos) livres-pensadores?
A resposta é: não existe pensamento absolutamente livre. Teríamos que nascer sem pai nem mãe.
Por isso também: não existem apreciadores-de-arte absolutamente livres.
Sejamos modestos: contentemo-nos com o que o que nos puseram nos olhos antes que fossemos verdadeiramente donos de nossa visão.
Se não dispomos, pois, de um filé óptico, um filé de terneiro criado no campo, dos que são dotados de um rastreador de satélite, comamos a carne de um frango, alimentado com rações balançadas...
Prossigamos...sempre com humor!
A primeira ilustração do álbum que deparamos é um Auto-Retrato de Cézanne com Chapéu Preto (Kunstmuseum de Berna Suíça).
Não é interessante para nosso propósito de heresia estética tal percepção.
Para que conhecer o autor?
Objetará um erudito:
- Não existe apreciação correta de Cézanne sem que se saiba quem foi Céxanne...
Concedido. Mas quem disse que queríamos fazer uma apreciação correta?
Nossa intenção é, precisamente, deixar o asfalto dos lugares-comuns, e buscar uma espécie de caminho de chão batido; Noutras palavras, desejamos afastar-nos da ortodoxia estética.
Nossa heresia consiste em fazer uma apreciação de Cézanne -como se ele não existisse...
Voltemos aos Quatro Evangelhos: não pretendíamos ler os Evangelhos de Jesus... como se Jesus não existisse?
Dito mais claramente: como se ele não fosse judeu, como se ele não conhecesse o Antigo Testamento, como se não tivesse tido discípulos, nem camin hado sobre as águas do Lago de Genesaré...
Persistamos em nossa tentativa.
As ilustrações. Que se seguem, são uma comparação entre duas Olimpias: a moça original de Manet (de 1863), isto é, a do                                Déjeuner sur l’Herbe (Almoço no Campo),  e a de Cézanne, que o álbum afirma ter sido “suscitada pela obra” de Manet, e pintada dez anos depois.
Como não é nossa intenção analisar todas as ilustrações do mencionado álbum, prescindiremos de muitas ilustrações.  
Diremos, apenas, ao leitor que ele está organizado em três temas: figuras (humanas e de animais), Paisagens, Naturezas-Mortas.

III.
       Figuras?
Sem dúvida.
Encontramos imediatamente um óleo: Cipião (atualmente no Museu de Arte de São Paulo).
Segue-o: Paul Aléxis lê um manuscrito de Zola (no mesmo Museu).
No caso dessa pintura, anotemos um detalhe: o pintor coloca-nos diante de uma anti-fotografia.
 O que a fotografia pretende captar, é totalmente driblado nessa tela, em que os personagens são confrontados. A figura do romancista Zola chega a evocar uma daquelas pintura do Budismo Chan,  minimalistas avant la lettre, com economia de traços, e pela sua técnica, um esboço incrivelmente sugestivo do  busto de Zola.  Só a cabeça aparece cuidadosamente pintada.
         Tomo nota disso, mas prefiro deixar-me atrair pelas paisagens do pintor.
Comecemos pela Casa do Enforcado (Museu d’Orsay). Qual a razão do título “ Casa do Enforcado” ?
“Casa” já era suficiente.
Para apreciar tal paisagem, vigorosamente mineralizada, não há necessidade de se citar seu proprietário.
Chega de interferências!
Elas são as impurezas do branco dos versos drummondianos...
Fixemo-nos unicamente nos seus volumes agressivos. O volume da direita chega a assemelhar-se ao focinho de um touro da Gruta de Lascaux .
Isso também é interferência!
 Quanto à casa: Cézanne apanhou-a pelo gasnete!
E dizer que o estrangulamento óptico da tela termina numa tranquila aparência de lago, que se espraia no horizonte...
Cézanne despreza , nessa tela, as cores sensuais. É o anti-Renoir.
Mais outra interferência. Deixemos Renoir em paz.
         Eu, porém, que nunca tinha apreciado particularmente as Banhistas do pintor, eis que sou surpreendido, neste instante, ao topar com a tela: As Três banhistas (Museu d’Orsay).
Sinto-me... “tocado”?
As Banhistas evocam-me o Adão e Eva de Masaccio (A Expulsão do Paraíso), um afresco da Capela Brancacci, da Igreja Santamaría del Carmine, em Florença.
Seria, também, uma interferência!
Coloco-me, agora, diante da Natureza-Morta com Sopeira (Museu d’Orsay): um cesto de frutas, uma garrafa, um vaso de cerâmica colorida, uma mesa...
Como explicar esse milagre de Cézanne, mesmo para um herege?
São cores, sem dúvida. Cores que eu nunca vi: cores entre-vistas, pluri-vistas, mal-vistas, bem-vistas?
Sei dizer, apenas, que não comeria tais frutos! Gostaria de tê-los comigo para sempre.
         Chego, enfim, devagarinho,  às Rochas em l’Estaque que, para nossa sorte, também estão entre os tesouros do Museu de Arte de São Paulo.
Um óleo desses é suficiente para impor respeito a um Museu!
Pergunto:
- Ao longo da História da Arte, terá alguém  jamais pintado uma rocha dessa maneira?
Como sou “herege”, peço aos leitores que folheiem álbuns de pintura renascentista ou barroca. E também de pintura moderna.
As pinturas de rochas mais parecidas com a de Cézanne são, talvez, as de Courbet.
Mas Cézanne vai muito mais além do que o insolente realisra!
 Minha sensibilidade o consagra como único nessa modalidade de paisagem. Cézanne me faz descobrir nas rochas a sua natureza, não só geológica, mas – como direi? – para-geológica? Arqueológica?
          De suas Flores e Frutas, que figuram na National Galerie de Berlim) só anotarei o seguinte: aqui, mais do que noutras pinturas de Cézanne, a fotografia a cores revela sua obscenidade. Não há paralelo entre uma coisa e outra.
Quem teria a estupidez de confrontar uma belíssima mulher viva com uma belíssima mulher morta? Quem teria a desfaçatez de colocar, lado a lado, o sex-appeal verdadeiro, embora quase heráldico, de uma mulher ardente, a Armida da Ópera de Rossini na versão do Metropolitan  de New York,  onde Renée Fleming se expõe até onde é possível a uma cantora da classe dela se expor, e o  sex-appeal de uma mulher num ataúde, ainda que totalmente nua?

IV.
Só podemos erotizar-nos, do ponto de vista estético, até certo ponto.
Dizia alguém que tentar apreciar, num Museu de alta qualificação, mais de 50 obras de arte, é perseguir o impossível.
         Por isso, detenhamo-nos, para concluir, em duas pinturas de Cézanne:
a) a natureza-morta Maçãs e Laranjas (Museu d’Orsay);
b) e a paisagem Montagne Sainte-Victoire vista de Les Lauves (Kunsthaus, Zurique, Suíça).
Diante de tais assombros (continuo diante apenas de ilustrações, e não de pinturas reais) minha sensibilidade não tem mais nada a dizer.
Flaubert tinha razão: “Les chefs-d’oeuvres sont bêtes”.
Que pintores da História da Arte seriam capazes de despertar em mim sensações e emoções tão puras - tão distantes da mesquinhez humana! - tão alheias ao erotismo banal de nossas fêmeas exibicionistas da iconografia midática contemporânea!
 Cézanne traz à superfície – não só das mulheres – mas também das coisas um erotismo fiel ao sentido grego da expressão, o velho sentido que, na década de 60, Herbert Marcuse reivindicava para seus textos, o erotismo que deriva, sem dúvida, do prazer carnal, mas que o transcende mediante a estesia, mediante o distanciamento pséquico sem o qual não existe apreciação estética, isto é, por uma sensibilidade governada pela razão, e não prisioneira da sensorialidade instintiva.
 Num momento assim, só podemos pensar numa espécie de “êxtase sensorial”, numa “sobrenaturalização” da visão animal.
Invejemos, pois, esse artista que, mediante pigmentos comprados comercialmente, mediante traços aparentemente rudes (poderiam ser considerados prenúncios dos contornos vitralistas de Rouault), com pinceladas acotoveladas, destrói a mesmice de nossa existência, marcada por depressões, solidões, euforias ridículas, conduzindo-nos ao ar livre da libnerdade, a uma esfera onde não somos já animais, mas animais racionais.
Cézanne, um pobre-diabo como nós, oferece-nos um “universo”, em cujo bojo o dinheiro, a cobiça, o egoísmo, a voracidasde sexual, e a própria crueldade, são abolidos, constrangendo-nos a remergulhar na nossa própria corporalidade, até reencontrarmos nela o elo que nos une à terra em que pisamos, às montanha, às realidades cósmicas, aos seres primordiais que jazem nas entranhas do mundo.
A verdade?
É esta: estar diante das pinturas de Cézanne (das obras, não das ilustrações!), é pressentir a existência de algo maior do que nosso orgulho.


Escândalos no Vaticano: Reflexões de um Católico Perplexo.

I.
       Comecemos por esclarecer, de uma vez por todas, umn ponto:  um católico não crê no Vaticano, isto é, nos quarenta e quatro hectares de poder territorial, econômico, e político de um dos menores Estados do mundo.
Um católico crêem unicamente nos doze artigos de fé do Credo, recitado em todas as missas dominicais, após a leitura do Evangelho.
         Um católico, além disso, não esquece as palavras de Jesus: “A ninguém chameis Mestre: um só é o Vosso Mestre”.
         Um católico, também, se lembra – isso é uma imposição do Senhor – que não se deve julgar ninguém, em termos de consciência pessoal, no tocante às intenções do coração. O católico aplica a si, com honestidade, as palavras do Senhor: “Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos”.
         Um católico procura guardar na memória, não só algumas palavras de Jesus, mas todas as suas palavras.Ttambém as seguintes: “Passarão o céu a terra, mas não passarão as minhas palavras”. (Mateus 24,35).
Portanto: um católico faz questão de ter diante dos olhos a advertência: “Quem quiser ser o maior entre vocês, seja o menor, e sirva seus irmãos”.
Um católico faz das seguintes palavras de Jesus sua divisa: “A verdade vos fará livres” (João 8,32).

II.
        
Apliquemos tais critérios aos escândalos, que acabam de ocupar as manchetes dos jornais, entre os quais o da divulgação das “Cartas Secretas do Papa Bento XVI” que um jornalista italiano, Gianluigi Nuzzi, editou sob o título: “Sua Santità”.
         Suponhamos que muitos católicos estejam “por fora” de tal notícia, ou “queiram estar por fora” - para não serem obrigados a tomar posição em relação a tal notícia, e assim serem obrigados a enfrentar desafios à sua Fé.
         Afinal:
- De que se trata?
         Trata-se de um Vaticanleaks – como o rotularam os jornalistas – de uma fuga de documentos secretos do Vaticano. Tais documentos versam assuntos da intimidade dos dirigentes da Igreja, em última análise, de assuntos que põem em cheque a credibilidade de dignitários eclesiásticos, levantam suspeitas sobre sua honestidade e a limpidez de suas opções, bem como sobre a catolicidade de seus atos, e até sobre a liquidez espiritual de seus Pastores.
 Por último, para coroar o imbróglio, incluem-se nele intervenções clamorosas do“ Dio Danaro”, e do  Dio Potere” – como escrevem, debochadamente, alguns jornalistas romanos.
         Comecemos por aplicar algumas medidas de profilaxia midiática às notícias:
- Que pensar sobre a autenticidade de tais documentos?
Tratando-se de cópias autógrafas, a autenticidade não foi problematizada. Nenhuma autoridade do Vaticano, até este momento, contestou a autenticidade de tais documentos. O que as autoridades eclesiásticas do Vaticano reprovam é a “traição” de pessoas juramentadas, que fizeram com que tais documentos chegassem às mãos de jornalistas.
         Podemos questionar, inicialmente, as informações que tais documentos contêm (problema diverso do anterior). Perguntar, por exemplo, se as confissões de pessoas, citadas nos documentos, são fidedignas e se correspondem aos fatos, ou não passam de interpretações elaboradas pelas pessoas envolvidas.
Um exemplo: as cartas do jornalista Dino Boffo, ex- íntimo dos Cardeais, posteriormente acusado de homossexualismo pelo jornalista Vittorio Feltri (Il Giornale) da cadeia de jornais de Silvio Berlusconi, que acabou sendo demitido, pelos próprios Cardeais, da direção de L’Avenire, jornal oficioso da Conferência Episcopal Italiana.
Dino Boffo foi isentado de culpa e, mais tarde, reinvestido de um cargo importante, isto é, da Direção da TV dos Bispos Italianos, pelos próprios Bispos.
Seriam, então, as suas cartas íntimas, auto-justificativas e com acusações explícitas aos seus inimigos, de perto e de longe, endereçadas pelo mesmo Boffo ao Secretário Pessoal do Papa, Monsenhor Georg Gänswein, detentoras de verdades? Ou seriam meras suposições do acusado e absolvido?  
Para um leigo - já não digo católico, mas simplesmente cristão-  que se vê posto diante de tal tsunami de problemas, de intrigas, de bisblhotices  – enfim, para um leigo constrangido a assistir a tão obsceno striptease -  esse pastícciaccio  não só é decepcionantde, como desagradabilísssimo e, para dizer tudo, nojento!
         Penso que ninguém de nós gostaria de ver seu pai jogado na rua, numa poça de vômitos, espezinhado por bêbedos.
 Sob algum aspecto, os Bispos e Cardeais da Igreja são nossos “pais espirituais”, exercendo sobre todos os fiéis uma sorte de paternidade simbólica.

III  
        
         Nesse Affaire tudo denuncia uma arrasadora falta de classe!
Primeiramente – por mais que o Vaticano, um Estado leigo como qualquer “Estado”, com a diferença de que se propõe a ser um Estado Leigo que deseja observar os princípios éticos de Jesus ( ou seja: o Vaticano é um estado leigo sui-generis) - sim, uma vez que esse Estado não consegue camuflar ações e atividades que, de uns anos para cá,  desconcertam os católicos, como chamá-lo de Estado Leigo Católico?
         Mencionemos, a vôo de pássaro, alguns dos casos que desconcertaram os católicos:
I. o affaire de Emmanuela Orlandi (1983);
II. o affaire dos Guardas Suíços (1998), que terminou com a morte do Comandante da Guarda Suíça,  de sua mulher, e de um dos guardas;
III. o affaire de Gian Salvi, do Banco Ambrosiano;
IV. o affaire do Hospital de Milão San Raffaele;
V. o affaire da defenestração de Ettore Gotti Tedeschi, pessoa de confiança do Papa Bento XVI, episódio tão misterioso que teria provocado uma crise de choro do Papa (La Repubblica. 28-05-2012).
Quanta coisa por esclarecer!
Alguém chegou a comparar a atual situação do Vaticano à que Lutero teve de afrontar no final do século XV.
É evidentemente um exagero.
Além disso, existem notáveis diferenças entre ambas:
1.                          nos tempos de Lutero não existiam meios de comunicação tão rápidos, e tão espalhafatosos;
2.                         o Papa Bento XVI, homem virtuoso, não pode ser equiparado ao Papa Leão X , um pontífice renascentista mundano;
3.                         a despeito dos escândalos atuais, aos quais devemos adicionar as acusações de pedofilia do clero, os desmandos da Legião de Cristo, etc., a Igreja está longe de ser, na sua condição de comunidade de crentes, uma Igreja depravada.  A olhos imparciais a Igreja Católica atual oferece exemplos de coerência evangélica, e de vida segundo as exigências éticas de Jesus. Há no seio da Igreja grandes personalidades como Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, e centenas de outras figuras silenciosas, de comprovada santidade.
4.                         Jesus, por outro lado, preveniu-nos: “Escândalos sempre hão de existir. Ai daqueles por quem os escândalos vêm!”
5.                         En plus, Jesus já nos avidou que o inimigo semearia joio no meio do trigo.
Concluamos: estamos tristes e perplexos, mas não desanimados, nem derrotados.
A rocha, sobre a qual a Igreja de Jesus foi edificada, resistirá a esses, e a outros tufões de igual malignidade.

IV.
           O que, então, pretendemos?
Seria impossível fazer retroceder a História ao seu ponto de partida! Ou seja: desejar que os Papas voltem a ser carvoeiros ou administradores de catacumbas, como o foram alguns no Cristianismo Primitivo.
Sejamos realistas: algum Vaticano terá sempre de existir!
 A Igreja, Corpo Místico de Cristo, tem necessidade de um mínimo de suportes sócio-econômicos, diríamos, de infra-estruturas.   
Não necessariamente as que foram instaladas no Vaticano.
Embora o Papa não seja um monarca, nem deva ser, poderá ter a seu serviço uma complexa, posto que não corrupta, estrutura administrativa, que exija especialistas nas suas respectivas áreas.
A Santa Sé pode – e deve – viver a salvo das influências políticas do país, em cujo território seu minúsculo Estado está encravado, isto é, a Itália.  É preciso afastar as pressões financeiras que terminam em “branqueamento de dinheiro”, e em outras operações incompatíveis com os ideais cristãos.
         Qualquer católico do mundo subscreverá – tenho certeza disso – o seguinte quase ingênuo anseio que ousamos formular:
- Poupem-nos, a nós católicos, um Vaticano de intrigas e de negócios censuráveis!
Além de ser homem de fé, Bento XVI precisa, na atual conjuntura, ser também homem de ação.
         Não escreveu ele próprio dois tomos magistrais sobre Jesus de Nazaré?
É inadmissível que o Papa tenha esquecido que a traição a Jesus começou na Bolsa de Esmolas de Judas!
Com humor, acrescentamos: numa espécie de...IOR.  

V.
O que pedimos aos nossos Pastores, que foram constituídos pelo próprio Jesus como autoridades sobre o Povo de Deus, é que não esqueçam que os católicos são ovelhas do seu rebanho, não porém ovelhas cegas. nem amordaçadas, forçadas a um silencio vergonhoso sobre as atividades de seus Pastores.
O próprio Mestre tomou a si a tarefa de deixar-nos uma descrição meridiana dos maus pastores. Basta ler o Evangelho de São João, capítulo 10, versículos 1-16.
Somos, portanto, ovelhas que pleiteiam a existência de Bons Pastores, os quais, ao menos longinquamente, evoquem o Bom Pastor.
         Eis por que, a rigor, não acusamos nossos Pastores.
Limitamo-nos a rogar-lhes que eles mesmos se auto-acusem, que eles mesmos se auto-critiquem. Que deponham as máscaras com que nos escondem seus verdadeiros rostos, cientes de que somos ovelhas, mas não ovelhas que se dispõem a ser ludibriadas.

VI. 
         Nós, católicos, nos tornamos neste momento espetáculo para o mundo:
         - Julgo que Deus nos expôs, a nós, apóstolos, em último lugar, como condenados à morte: fomos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens.
         (São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios 4, 9).
          Transfiramos o aspecto espetacular aos ícones da política, do esporte, do showbiz, aos gestores de capitais voláteis, aos empresários cujo enriquecimento não se fez senão a expensas de...às top-models que servem aos interesses comerciais de seus patrões, e anestesiam as massas com suas perfomances. 
         Aos nossos Pastores pedimos, apenas, que honrem os seus compromissos espirituais.
Que tenham proximidade com as ovelhas, e lhes escutem, não só os balidos, como também as palavras de sabedoria, que podem oferecer-lhes.
Que orem mais com elas, e por elas.
Que preparem melhor as pregações dominicais.
Que não nos sirvam pastagens impregnadas de pesticidas, nocivas ao rebanho.
Que surjam eventuais reformadores?
Sim, contanto que não identifiquem a Igreja  Católica com a FIFA - como se a Igreja tivesse que competir com outras Igrejas, ou outros organismos de serviço social, e desejasse enaltecer “astros” de suas equipes.
 Desejamos que nossos pastores nos recordem somente o que Jesus ensinou, e por essa razão roguem ao Espírito de Jesus que os iluimine.
 Que a Igreja não imagine que só meios de comunicação lhe possibiklitarão espalhar a Boa Nova. Que sejam utilizados com moderação, e sobretudo com respeito à verdade.
Afora isso, que o Fundador do Cristianismo nos dê o sal que nos recomendou, para que ele salgue nossas cabeças e nossos corações, e não nos deixe  iludir por “efeitos especiais”, nem por megaeventos, de que o Todo Poderoso não precisa para se fazer ouvido.
O que realmente interessa aos católicos é viver a Fé, na esperança da Revelação Futura, como filhos adotivos do Pai,  na expectativa do dom final - o da Ressurreição que Jesus prometeu aos homens de boa vontade.
O que escrevemos neste blog (nós o reconhecemos!) se apresenta como uma imperdoável ingenuidade, com uma indesculpável candura.
É a única forma que o Catolicismo contemporâneo tem de proporcionar um antídoto à esperteza e safadeza do mundo de hoje, pretensioso e hostil, que rejeita com arrogância as advertências de Jesus, inclusive a seguinte:  
- Sede simples como as pombas, e astutos como as serpentes.
Tais palavras foram interpretadas por um certo segmento do Catolicismo em favor das serpentes.