segunda-feira, 2 de abril de 2012

São Tomás de Aquino e a Paixão de Cristo.

(Breve reflexão para a Sexta-Feira Santa).

I. Um texto de São Paulo, extraído de sua Carta aos Filipenses, deveria estar permanentemente diante dos olhos –  sobretudo no coração – de cada cristão. Penso que ninguém, jamais na História do Cristianismo, sintetizou com tanta concisão e clareza o Mistério da Paixão do Salvador:
- Jesus Cristo, existindo em sua condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de Cruz. Por isso, Deus o exaltou acima de tudo, e deu-lhe o Nome que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra, e abaixo da terra, e toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor.
 Deveríamos saber de cor (nossa expressão vernáculasignifica: pelo coração!) – esse compêndio do essencial da Revelação Evangélica.
Vejamos
1.             Primeiramente, a afirmação solene, diríamos majestosa – da Divindade de Jesus.
2.             Em segundo lugar, a incrível declaração do Apóstolo: a vinda ao mundo de Jesus foi um auto-esvaziamento, que o levou Jesus a assumir a condição de um homem qualquer, de modo que Ele mesmo pôde mais tarde afirmar: “O que fizerdes ao menor destes, vós o fareis a mim”.
3.             A Paixão de Jesus foi um ato de amor. São João o afirma no seu Evangelho: “Tendo amado os seus, que estavam no mundo, os amou até ao fim”.
4.             A trajetória terrestre de Jesus acabou quando a loucura e a crueldade dos homens tentaram destruí-lO. O eclipse de Jesus podia ser, e foi, total, mas como ele era o Sol, nenhuma nuvem, ou interferência planetária, pode matar o Sol. O seu Nome, desde o Gólgota até ao fim dos tempos, é o único Nome que é dado aos homens como garantia de obtenção da felicidade. A afirmação básica do Credo cristão é: Jesus Cristo é o Senhor.
Bastaria esse texto de São Paulo, escrito aproximadamente 40 anos após o sacrifício de Jesus, para nos ocupar a mente durante os dias de distração e férias, que costumam ser os da Semana Santa.
Já ouvi, mais de um cristão sincero, referir-se à Semana Santa como uma ocasião para se saborear uma bacalhoada.
Haverá mal nisso?
Penso que não. O mal, o absolutamente impróprio seria considerar a bacalhoada a razão dessa interrupção da vida cotidiana, desse exílio provisório da mesmice.
Saboreie-se a bacalhoada, porque, mesmo com jejum à vista, é preciso comer, e até o agnóstico (ou antes, meio-crente Machado de Assis, afirmou que não se come o ar...), porém, tenhamos sempre em vista que nossas necessidades alimentares não podem antepor-se às necessidades de nossa alma.
Precisamos aproveitar a Semana Santa não para projetos de bacalhoadas e outras peixadas, nem para turismo, mas para concentrar-nos no prodigioso Mistério de nossa Salvação. Precisamos voltar a acreditar que o comer e o beber, e o gozar do amor e de outras delícias corporais, não contradiz a medula do ensino de Jesus:
- Crede no Pai e em seu enviado Jesus, e o resto vos será dado em acréscimo. Porque o Pai sabe o de que precisais. Ele cuida dos lírios do campo e das aves do céu. Não cai um cabelo de vossas cabeças sem que Ele o saiba!
Sempre fui leitor de um pequeno livro de São Tomás de Aquino, O Credo, que acabei traduzindo do latim para o português, isto é, para um português mais moderno, mais palatável ao leitor de hoje, sem tantos rodeios escolásticos, que me lembravam, por vezes, o quilométrico fraseado de Marcel Proust, frases que fazem a volta à esquina (como dizia um de seus tradutores, Mario Quintana).
 Sugiro sua leitura aos meus leitores. Acaba de sair a terceira edição: O Credo.Petrópolis, Editora Vozes, 2012).
São Tomás é conhecido, principalmente, por suas obras-primas: A Suma Teológica (tenho uma edição bilíngüe, em latim e espanhol, que abrange 16 volumes) e a Suma Contra os Gentios, que também é constituída por vários volumes. Graças aos esforços do benemérito e saudoso Frei Rovílio Costa, ambas essas obras foram publicadas no Rio Grande do Sul pela editora que o insigne franciscano dirigia, a Editora da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes).
Tais obras são tão profundas que, na maioria das vezes, não são compreensíveis ao leitor comum, embora este, se fizer grande esforço, poderá compreendê-las.
 Outro é o caso do Credo, que reúne os sermões que S. Tomás fez ao povo em Nápoles, no fim da vida. Essas pregações eram dirigidas a analfabetos. A analfabetos? Mas quanta sabedoria e finesse em tais pregações!
Demos uma amostra delas, a propósito da Sexta-Feira Santa de 2012.
São Tomás aborda a questão no artigo 4 do Credo:
    - Pode alguém perguntar: que necessidade havia de o Verbo de Deus padecer por nós?
(Ibid. p. 52).
    O grande teólogo responde:
    - Grande necessidade! Podemos apresentar, em particular, duas razões: a primeira é que os padecimentos de Cristo foram remédio para os nossos pecados; a segunda, é que eles serviram de exemplo para as nossas ações.
    A Paixão de Cristo, com efeito, foi remédio para todos os males que nos resultaram do pecado.
Cinco males resultaram dele. O primeiro consiste na própria mancha do pecado. Quando um homem peca, contamina sua alma, visto que a virtude embeleza, e o pecado desfigura. Lê-se no livro do Profeta Baruc: “Que é isto, ó Israel? Por que estás tu em terra inimiga, definhando em terra estranha? Por que te contaminaste com os mortos? (3,10).
    A Paixão de Cristo é lavada no sangue de Cristo, do qual o sacramento do Batismo recebe sua força regeneradora. Por isso, quando alguém se mancha com um pecado, faz uma injúria a Cristo, e este último pecado é maior de qualquer pecado cometido antes do Batismo.
    O segundo mal, que resulta do pecado, é merecermos a rejeição de Deus. Assim como o homem carnal ama a beleza da alma, assim Deus ama a beleza do espírito, isto é, a beleza da alma. (...) A Paixão de Cristo remove o mal, uma vez que ela deu satisfação ao Pai pelo pecado. Tal satisfação não poderia ser dada pelo homem. A caridade e o amor de Cristo foram maiores do que o pecado e a desobediência do primeiro homem.
O terceiro mal, que resultou do pecado, foi a fragilidade. O homem, depois de pecar pela primeira vez, pensa que pode evitar o pecado. Acontece-lhe o contrário. Enfraquecido pelo primeiro, fica mais inclinado a pecar. O pecado acaba por do- minar, progressivamente, esse homem que, por sua própria vontade, se põe em situação de pecar, como alguém que se atira num poço, donde só pode sair com a ajuda de Deus. (...)
    O quarto mal é a obrigação de expiar nossa culpa. A justiça de Deus exige que o pecado seja punido, e que a pena seja proporcional à culpa. Considerando-se que a culpa do pecado é infinita, dado que se opõe ao Bem Infinito, isto é, a Deus, cujos mandamentos o pecador transgride, também a pena devida ao pecado é infinita. Cristo, por meio de sua Paixão, livrou-nos dessa pena, assumindo-a Ele próprio, como se lê na Primeira Carta de São Pedro: “Sobre o madeiro lavou nossos pecados em seu próprio corpo”.(2,24).
(...)
    O quinto mal foi exilar-nos do reino do céu. Aqueles que ofendem aos reis são forçados ao exílio.O mesmo aconteceu ao homem que, devido ao pecado, foi expulso do Paraíso. (...)
Ao abrir-se o lado de Cristo, abriu-se também a porta do Paraíso, e ao derramar Ele seu sangue, a mancha foi apagada. Deus foi aplacado, a fraqueza foi destruída, a pena expiada, e os exilados chamados novamente para o reino. Eis por que foi dito ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
(Lc 23,43).
    Com isso fica esclarecido por que a Paixão de Cristo nos foi útil como remédio contra o pecado, e não menos útil como exemplo.(Ib. p. 52-55).
   
Omiti alguns pontos da argumentação de São Tomás, para não tornar excessivamente longo este blog.
    São Tomás é ofuscantemente claro. Quem quiser meditar seriamente sobre os Mistérios de Jesus, leia o Credo, um livro de apenas 107 páginas, onde está toda a Suma teológica ao alcance do grande público.
Deixe-se aos teólogos os 16 volumes da Biblioteca dos Autores Cristãos, de Madrid, ou aos monumentais volumes da edição brasileira de Frei Rovílio.
    Pessoalmente, minha leitura predileta, depois do Novo Testamente, é essa súmula da Fé cristã de São Tomás.
É um diamante que pode estar na fronte de qualquer cristão, mas que nenhuma fronte régia deste mundo poderia merecê-lo.
Deus revelou sua verdade aos pequeninos, e não aos grandes deste planeta, onde Ele próprio se dignou fazer-se pequeno:
- Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração – disse-nos Ele, um dia.

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