segunda-feira, 23 de abril de 2012

Eleições na França?

(Notas humorísticas sobre uma Europa em Crise).
Deixemos claro, desde o início: não temos simpatia por nenhum dos candidatos à Presidência da República Francesa!   
Simpatias à parte, o que, realmente, nos interessa é tecer comentários sobre a campanha eleitoral francesa, que já entrou para o segundo turno.
Comecemos por registrar que todos nós, os terceiro-mundistas, estamos impressionados com o grau de desonestidade e falta de finura, que obscureceu o prestígio da França nessa campanha. Lembremos que nessa nação o analfabetismo não atinge 5% da população.
         Honestidade?
A vôo de pássaro,  leiam-se os jornais europeus: Le Monde, Libération, Le Figaro, Corriere della Sera, La Stampa, El País, ABC.
         Será verdade o que dizem os jornais?
É evidente que não estamos dispostos a ressuscitar o cínico Procurador Romano, imortalizado no Creio Cristão, Pôncio Pilatos, para pdir-lhe que repita sua quase inverossímil pergunta a Jesus: “O que é a verdade?”
Seria demais!
E dizer que Pilatos fez tal pergunta a Quem dissera de si: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Se Jesus não lhe respondeu, foi porque nenhum homem tem o direito de fazer-lhe tão imsolente pergunta.
Perguntemo-nos, pois, se as notícias divulgadas pelos grandes jornais não são ideologicamente manipuladas, ou revestidas da invisível e corrosiva ferrugem do dinheiro dos empresários da comunicação social.
Um jornalista francês internacional resumiu a situação da campanha eleitoral francesa: “Todos mentem”.
 E explicou: as mantiras de Nicolas Sarkozy são diferentes das de François Hollande, e as de Marine Le Pen, diferentes das mentiras dos demais candidatos.
         Elegância?
 Evitemos avacalhar um vocábulo, que já teve seus dias de glória!
Consolemo-nos com os versos desabusados do amável e incisivo Manuel Bandeira, que extraímos de sua coletânea Estrela da Manhã:

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Na época, o Poeta enfrentava as verborrágicas tiradas de Benito Mussolini, que acabara de invadir a Etiópia, cujos guerreiros lutavam com flechas e lanças. Os italianos, evidentemente, invadiram a Etiópia com seus aviões de última geração e seus blindados.
Todos sabem o fim do tragicômico Duce: a vergonhosa República de Salò,  e a ignominiosa morte do amante e da amante, Clara Petacci, os dois dependurados de cabeça para baixo num posto de gasolina, em Milão...
Não estará a Europa reeditando uma nova edição dessa problemático “avachalhamento” ?
Fujamos de toda interpretação apressada.
A Europa ainda não desmoronou: nem do ponto de vista econômico, nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista religioso, nem do ponto de vista cultural.
O que ocorre na Eurozona, na “Mestra dos Continentes”, a altaneira Europa que sempre lançou olhares desdenhosos à cultura dos outros povos, é o que tem acontecido a todas as Civilizações que chegam a uma sorte de amadurecimento, e esquecem que este, findo o seu período de plenitude, pode ser seguido pela putrefação.
 Não há apodrecimento sem amadurecimento.
Tratar-se-á, então de uma corruptio optimi?
Também não.
Então o quê?
Eis a questão.
Ninguém sabe.
Talvez o fenômeno consista numa auto-saturação, numa auto-confiança que se desmanchou no ar, da soberba de um Continente que, por não saber aprender, está indo para o brejo.
A impressão que se tem é a de um fidalgo, tão confiado em suas riquezas que não se apercebeu de que seu vizinho, um ex-verdureiro ou um ex-camelô, prosperou, transformou-se em empresário, a ponto de  já vender seus produtos (e quinquilharias) sem precisar rebaixar os preços dos Grand-Crus, como o anunciou, na semana passada o galante bilionário, Monsieur Pinault, dono da FNAC.
A nós, filhos da Europa - por vezes até seus escravos – assusta-nos esse grau de vulgarização a que chegaram nossos mestres.
Não há dúvida de que os sans-culottes não desapareceram com a Revolução Francesa, antes, transformaram-se em nuvens de de gafanhotos nos caminhos – outrora florescentes - do Mercado Comum.
Que diremos da mítica Revolução Francesa, cujo centenário foi comemorado há pouco com tambores e clarinadas?  Ela tropuxe benefícios à Humanidade, especialmente na área sdos Direitos Humanos, que ela herdfou da tradição cristã. Foi, portanto, algo mais do que a tomada da Bastilha, e a decapitação de Luís XVI e de Maria Antonieta. Além de ela gerar um Napoleão Bonaparte, teve o topete de oferecer-se como substituta da Revelação (ou Revolução) Cristã. No que fracassou completamente. Não há duas verdades para o destino humano, seja pessoal, seja coletivo.
Assistimos, pois, a uma Europa que ensinou demais, e aprendeu de menos.
Leia-se, com a devida atenção, uma das últimas declarações  do candidato à Presidência da Esquerda Radical francesa. Segundo esse deslumbrado político, está na hora de imitar os gestos (ou “Gesta Dei per Latinos...) dos sul-americanos, como os da Sra. Cristina Kirchner, que acaba de rescindir os contratos assinados com a Repsol, a mesma empresa espanhola que salvou os Yacimientos Petrolíferos de  alência, nos tempo do falido ex-Presidente Menem.
Duas Guerras assolaram a Europa no espaço de 50 anos. Várias ressurreições sucederam-se na Europa, uma delas devida ao Plano Marshall.
Só os experts sabem que a Europa está sofrendo de obesidade. Aconselhada a fazer um regime dietético, o Continente inteiro recorreu a braços pobres, a pernas bambas, a felás da região mediterrânea, primeiramente – é verdade – foi a vez dos aldeãos de Portugal e descamisados de Espanha – depois a dos turcos, magrebinos, africanos. A Europa fazia questão de manter sua riqueza, seu estilo-de-vida, e por isso, além de importar matérias-primas, importou, também, homens-primos.
Por força das coisas, a prosperidade converteu-se em carência, a autonomia cultural derivou para uma salada russa. O espelho, em que seus habitantes se contemplavam, narcisisticamente encantados de si mesmo, quebrou-se.
Diz-nos, Cecília, em que cacos de vidro ficaram perdidas as faces da Alemanha, da França, da Itália, da Inglaterra?
Os franceses vão eleger François Hollande, e só por um milagre da Esposa de Clóvis, ou de Jeanne d’Arc,  reelegerão Nicolas Sarkozy.
Ate aí, nada de anormal, uma vez que a Cristianíssima França, se tornou a Paganíssima França de hoje.
É compreensível que as eleições francesas nos tenham dado um exemplo deprimente de carnaval eleitoreiro, semelhante ao de qualquer República Caraibenha, e na melhor das hipóteses, como as do Brasil e Argentina.
A um Sarkozy frio e esfíngico, contrapôs-se um estridente e quase histriônico François Hollande, produto sofisticado de uma vbida universitária francesa em crise, professor de economia, que para ocultar sua falta de carisma tenta ofuscar os olhos de um público desorientado. Trombeteia soluções econômicas e financeiras, sem apresentar a seu favor nenhuma práxis econômica concreta. Jamais administrou qualquer coisa, sequer um bistrô da banlieue  parisiense (como o denunciaram seus jornalistas patrícios) ...
Hollande parece alimentar um sonho: o de reprisar François Miterrand! Para isso, confia no ressentimento das massas, especialmente das classes populares e dos funcionários públicos, que Sarkozy humilhou, colocando-se desse modo, apesar da companhia da bela Carla Bruni, no olho do furacão 
As massas francesas, agora sonham, e desejam recuperar, no mais breve espaço de tempo, o poder aquisitivo que foi  dilapidado nas folies berghères das últimas décadas.
Em momento algum, os políticos apresentaram uma ideologia clara, representativa. O máximo de coerência que se viu nesse setor foi a de Jean-Luc Mélenchon, candidato do Partido Comunista, que tirou das prateleiras do PC anacrônicas compotas de pêssegos, e latas de conservas de pepinos esquerdistas, possivelmente reciclados pós-68.  
Que diremos da Sra. Marine Le Pen?
Figura exótica, mescla de feminista esclarecida e de burguesa à la page,, herdeira de uma paltaforma política de seu pai, uma sorte de dinosauro do conservadorismo nacional. Ao contrário do pai, bemn falante e simpática! É ela quem está seduzindo os jovens, tanto da extrema direita, como da extrema esquerda.
Nós, latino-americanos, espectadores desse show que só acusou uma ausência, a de Asterix, temos saudades da França  libertária, da França inteligente, da França cartesiana, da França pascaliana, da França voltairiana, até da França  de dois ou três metros de altura de sua Excia., o General De Gaulle, um verdadeiro herói da Última Guerra, quer simpatizemos com ele, quer não.
As campanhas eleitorais francesas de antanho mostravam um charme irresistível: chegavam a divertir-nos por seu gabarito intelectual, por seus torneios mentais sofisticados, por suas trocas de estocadas à Mosqueteiros de Alexandre Dumas Pai.
Atualmente seus candidatos entristecem-nos! Evocam-nos atores que outrora brilharam (será por isso que o filme O Artista  é uma obra-prima, não obstante ser em preto e branco?) - que na velhice não conseguem arrancar-nos o aplauso afônico de um “Bravo!”...
Nossa crônica, para ser conclusiva, deve pedir emprestado a Maurice Maeterlinck, uma de suas frases inesquecíveis:
- Se eu fosse Deus, teria compaixão do coração dos homens.!
Nossa versão soa ligeiramente diversa:
- Se eu fosse Deus, teria compaixão do coração da França!
Até agora, Deus teve compaixão da América Latina!
Pode ter chegado a hora de Ele ter compaixão da Europa. 

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