domingo, 15 de abril de 2012

É Possível Crer Ainda na Ressurreição de Jesus?

O título deste blog deverá parecer a um cristão, no mínimo, marcado por insuportável insolência.
         Por que esse “crer ainda?
         Não teria sido Jesus suficientemente explícito nas suas declarações:
         - Passarão os céus e a terra, mas minhas palavras não passarão?
          Durante sua vida terrestre, Jesus exprimiu-se sobre muitos temas.  Existem, guardadas fielmente por seus Apóstolos, suas palavras.
 E estas não poderão passar.
 Em momento algum, o Salvador ocultou seu destino de Cordeiro de Deus ,vindo para salvar a humanidade. Nunca deixou de proclamar, alto e bom som, que ressuscitaria de entre os mortos.
Fixemo-nos num episódio na vida de Jesus que deveria reter permanentemente nossa atenção.
Três evangelistas o relatam. É a discussão de Jesus com os Saduceus.
Mateus a refere no capítulo 22 ; Marcos, no capítulo 12, e Lucas no capítulo 20, dos respectivos Evangelhos.
Tomemos a narrativa de Mateus:
- Naquele dia aproximaram-se os Saduceus que dizem não haver ressurreição, e interrogaram-no dizendo: “Mestre, Moisés disse: “Se algum homem morrer não tendo filhos, seu irmão case com a mulher dele, e dê descendência a seu irmão”. Havia entre nós sete irmãos; o primeiro, depois de casado, morreu. Não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Do mesmo modo o segundo, o terceiro, até ao sétimo. Por último, morreu a mulher. Na ressurreição dos mortos, de qual dos sete será esta mulher, uma vez que todos a tiveram?
 Jesus disse-lhes:
- Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Na ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as mulheres terão maridos, mas serão todos como os anjos de Deus no céu. Da ressurreição dos mortos não lestes o que foi dito por Deus, quando disse: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó?” Não há Deus dos mortos, mas dos vivos.
( Mt, 22, 23-33)
Mateus conclui: “As multidões, ouvindo isto, admiravam-se da doutrina Dele”.
Marcos acrescenta: “Vós, portanto, errais”.
Lucas fornece um detalhe: “Alguns dos escribas, disseram-lhe: “Mestre, disseste bem”. E não mais ousavam interrogá-lo”.
Além dessa afirmação claríssima de Jesus, os cristãos deverão sempre lembrar, comovidos, um texto de São Paulo, que possui carácter desafiador em relação à fé dos primeiros cristãos.
 O trecho encontra-se na Carta aos Coríntios, capítulo 15:

Se Cristo não ressuscitou,
nossa pregação e vã,    vossa fé é também vã.
Somos tidos por falsas testemunhas de Deus,
visto que temos afirmado contra Deus
que Ele ressuscitou a Cristo,
ao qual ele não ressuscitou
- se é certo que os mortos não ressuscitam.
Se Cristo não ressuscitou,
 a vossa fé é vã,
e vós permaneceis nos vossos pecados.
Ainda mais: os que dormiram no Senhor
         estão definitivamente mortos.
Se a nossa esperança em Cristo
se limita a esta vida,
somos os mais infelizes de todos os homens.

Essas palavras do Apóstolo dos Gentios deveriam estar permanentemente à nossa frente, como os jovens de hoje costumam suspender seus posters seus cantores e cantoras – Whitney Houston ou Adele - nas paredes de seus quartos. Seria ótimo se, cada manhã, ao romper do sol, e cada noite, ao deitarmos para repousar, as palavras de Paulo nos lembrassem o nosso destino final, que não são as cinzas de um corpo inanimado, dispersas no ar ou jogadas ao léu na superfície azul do mar, mas a juventude de um corpo ressuscitado.

- Se a nossa esperança em Cristo
   se limita a esta vida...

Pobres de nós!

Demos a palavra ao maior teólogo do Cristianismo, Tomás de Aquino. Leiamos um texto, em que ele não se dirige aos teólogos de Paris, mas aos habitantes de Nápoles do século XIII, a uma gente humilde, em que 90 por cento das pessoas eram analfabetas.
O Prêmio Nobel Bertrand Russell, o filósofo e matemático inglês, coloca Tomás de Aquino entre os grandes pensadores do Ocidente. Pois bem, em Nápoles ele falou a toda gente, sem discriminação de cabeças e corações. Falou como um teólogo genial, e um cristão capaz de adorar seu Redentor.
Eu o prefiro a todos os teólogos contemporâneos, inclusive ao Papa Bento XVI, autor de um livro extraordinário, Jesus de Nazaré, digno de leitura por todos os católicos por seu conteúdo e estilo.
Prefiro, a bem dizer, Tomás a ele próprio... Quero dizer,  prefiro - o Tomás que falava aos humildes - ao Tomás que  às vezes teologiza excessivamente, incidindo em elucubrações mentais complicadíssimas a nós homens que não temos a mesma devoção dele a Aristóteles, o Grego.
No excerto que reproduzo de seu livro Credo temos a água límpida que jorra dos lábios de Jesus, e não está turvada pelas pseudo-sutilezas de nossa razão:
         - É necessário que creiamos que Jesus não só morreu, mas que também ressuscitou dentre os mortos. Por essa razão  professamos no Credo: Ressuscitou ao terceiro dia. Sabemos pelo Evangelho que muitos homens ressuscitaram dentre os mortos, entre os quais Lázaro, o filho da viúva de Naim, e a filha de Jairo. A ressurreição de Jesus é diferente daquelas, e de todas as outras em quatro aspectos.
         Primeiramente quanto à sua causa. Todos os outros ressuscitaram, não por seu próprio poder, e sim, pelo poder de Cristo; ou devido às orações de alguns santos. Cristo ressuscitou por seu próprio poder, visto que não só era homem, mas também Deus, e a Divindade do Verbo nunca se separou de sua alma, nem de seu corpo. Quando quis, seu corpo retomou sua alma, e esta seu corpo, segundo está escrito:”Tenho poder para entregar a minha alma, e tenho poder para retomá-la”. (Evangelho de São João 10,18).
Embora Cristo tenha morrido, não morreu por fraqueza ou necessidade, mas livremente. Ao entregar o seu espírito, deu um grande grito. Os outros, quando morrem, não podem dar gritos, porque morrem por fraqueza, Daí a exclamação do Centurião: “De fato, Ele era o Filho de Deus”. (Evangelho de São Mateus, 37,54).
Do mesmo modo como Cristo entregou sua alma livremente, também a retomou livremente. Por isso se diz no Credo: “Ressuscitou” – e não: foi ressuscitado, como se outro pudesse lhe ter restituído a vida.
         Esse texto não está em contradição com outro texto dos Atos dos Apóstolos, no qual se diz: “Este Jesus, Deus o resssuscitou” (At 2,23).
O Pai o ressuscitou, e o Filho também, porque o poder do Pai e o poder do Filho são um só poder divino.
Em segundo lugar, a ressurreição de Cristo se diferencias das outras ressurreições pela vida para a qual Ele ressuscitou. Cristo ressuscitou para uma vida gloriosa e incorruptível.
Os outros, que resuscitaram, ressuscitaram para a mesma vida que tinham tido antes, como ocorreu com Lázaro.
A terceira diferença revela-se no seu fruto e na sua eficácia. É pelo poder da ressurreição de Cristo que todos ressuscitam.
É preciso afirmar que Cristo chegou á Glória por sua Paixão, conforme está escrito no Evangelho de Lucas:
- Então o Messias não tinha que sofrer tudo isso antes de ser glorificado? (Lucas 24,21. Aparição aos Discípulos de Emaús).
         Assim Cristo nos ensinou como é possível chegar à glória. Paulo e Barnabé também nos exortam:
         - Devemos passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus. (Atos 14,21).
A quarta diferença é relativa ao tempo. A ressurreição dos demais homens só acontece no fim dos tempos, a não ser que, por um privilégio especial, seja antecipada, como o foi a da Virgem Maria e, segundo se crê piedosamente, a de São João Evangelista. Cristo, ao contrário, ressuscitou ao terceiro dia.
A razão disso é que a sua Ressurreição e a sua Morte tinham por finalidade nossa salvação. Ele só quis ressuscitar quando isso fosse vantajoso para nossa salvação. Se Cristo tivesse ressuscitado logo, ninguém teria acreditado na sua morte. Se tivesse ressuscitado muito tempo depois, os discípulos perderiam a fé, e sua Paixão teria sido inútil.
        Ressuscitou, portanto, ao terceiro dia, para que se acreditasse que, realmente, tinha morrido, e para que os discípulos não perdessem a fé.
         São Tomás acrescenta, ao texto, algumas considerações de natureza espiritual, para aproveitamento de cada fiel.
Conclui o seu texto de forma lapidar:
         - Como última lição: se ressuscitamos para uma vida nova e gloriosa, devemos evitar tudo o que antes foi para nós ocasião e causa de morte e pecado. O mesmo Apóstolo noz diz:
- Como Cristo ressuscitou de entre os mortos pelo poder do Pai, assim devemos viver uma vida nova. (Rom 6,4).
Esta vida nova é vida de justiça, que renova a alma, e conduz à vida da Glória.
         (O Credo de São Tomás de Aquino. Terceira edição. Tradução, prefácio e notas de Armindo Trevisan. Petrópolis, Editora Vozes, 2012. p.65-69).
           
Quem melhor do que Tomás de Aquino expressou o núcleo das verdades relativas à Ressurreição de Jesus?
O mundo contemporâneo precisa beber da água viva da Revelação Cristã. Não precisa que essa água seja higienizada pelo flúor dos Teólogos, às vezes preocupados em exibir a própria perfomance intelectual, e não a discreta luz da Revelação Cristã.
A Revelação Cristã nunca está interessada em ofuscar nossos olhos, mas em abri-los à Luz, isto é, à Palavra que se fez Carne no seio de Maria.
De longe em longe, a Providência Divina suscita, entre os próprios Teólogos, vultos excepcionais, que nos ajudam a perceber segredos que se ocultam sob outros segredos, à semelhança de bonecas russas que aparentemente são uma boneca só, mas que, no interior  alojam inúmeras outras bonecas, embora menores.
Só recentemente, li a obra Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd,  anglicano, ex-professor do Fuller Theological Seminary da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A edição que possuo foi revisada por R.T. France e David Wenham, e tem tradução portuguesa de Degmar Ribas Júnior. (São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
         Recomendo a leitura desse livro.
 É uma meditação sóbria, vigorosa, cintilante, sobre o principal mistério da Fé Cristã.
         O capítulo sobre a Ressurreição de Jesus (da página 453 à página 468) foi a melhor coisa que li nas últimas décadas sobre verdade tão necessária ao mundo de hoje.
         George E. Ladd, cingindo-se às narrativas evangélicas, apresenta-nos uma síntese do que de melhor foi meditado pela Tradição Cristã, e do que de melhor ela tem hoje a apresentar aos homens de nosso tempo.
         Destacaria, como “provocações” à sua leitura, alguns trechos:

I.                  A funcão primária dos Apóstolos na comunhão dos primeiros cristãos não era dominar ou governar, mas dar testemunho da Ressurreição de Jesus. Isso pode ser demonstrado pelas qualificações exigidas para o sucessor de Judas: ele devia ser testemunha da Ressurreição de Jesus.
(Cf. Atos dos Apóstolos, 1,22).
II.               Se Cristo não tivesse ressuscitado, a longa jornada de seus atos redentores teria terminado num beco sem saída, isto é,  num túmulo.
III.           O testemunho do Novo Testamento é que um ato objetivo aconteceu num jardim fora dos limites de Jerusalém, onde Jesus apareceu vivo. O fato objetivo que no instante de sua realização histórica não teve testemunhas, não pode ser “provado” à maneira de um fato registrado por um repórter de nosso tempo. Somente por uma iluminação do Espírito Santo o coração humano pode crer nele.
IV.           Não obstante, é importante acentuar a historicidade da Ressurreição.
Certamente, essa historicidade existiu, mas ela transcende a História. Não significa “a ressurreição de um cadáver”. O que aconteceu foi um evento histórico, cuja magnitude superou os simples “fatos”. A única explicação histórica, que se pode dar, é que os discípulos de Cristo tiveram tais experiências, subjetivas, tais visões, que os obrigaram a admitir uma evidência: Cristo estava vivo outra vez: “A fé não produziu as visões, e as visões não produziram a fé. Não há explicação adequada que justifique o surgimento da fé na Ressurreição de Cristo, a não ser esta: Jesus ressuscitou dentre os mortos”.
V.               Voltemos a insistir: O Novo Testamento não descreve a ressurreição de um cadáver, mas a emergência de uma Nova Ordem de Vida dentro do Espaço e do Tempo.
VI.            A Natureza da Ressurreição de Jesus foi claramente corpórea. Contudo, seu corpo era um corpo que possuía poderes novos e mais elevados do que os que seu corpo físico possuía de antes de sua morte.
VII.       Jesus foi capaz de comer: ele comeu um pedaço de peixe na presença dos discípulos (Cf. Lucas 24,43). Mas as palavras diante deles deixam claro que isso foi feito como um sinal de sua ressurreição corporal. Em Emaús, depois de partir o pão com dois discípulos, Jesus desapareceu repentinamente. (Cf. Lucas 24,31). Quando os discípulos retornaram a Jerusalém e relataram sua experiência, Jesus, subitamente, se manifestou entre eles. Chegou de modo tão repentino que ficaram pasmados, pensando que fosse um espírito. O corpo ressuscitado de Jesus possuía surpreendentes poderes. Parecia pertencer a uma ordem diferente de realidade.
VIII.    Em resumo: a ressurreiçlão de Jesus foi corporal, porém seu corpo possuía poderes que transcendiam as limitações físicas, e ao mesmo tempo lhe permitiam interagir com a ordem natural.
IX.            O que provoca perturbação ao historiador moderno é que a Ressurreição de Jesus não teve uma causa histórica. Foi um ato de Deus, e o historiador, como tal, não tem o que falar a respeito de Deus. Trata-se de um evento sem analogia, simplesmente único, e isto ejeta o historiador fora da experiência histórica comum. O historiador nada conhece acerca da Vida Eterna ou do século futuro. Contudo, ocorreu como um evento objetivo, no meio da História.
X.               Essa é a razão porque o historiador moderno com freqüência interpreta a Ressurreição de Jesus de alguma outra forma que não a corpórea. Ele, porém, deve levá-la em conta para explicar a fé na ressurreição, e no surgimento da Igreja.
XI.            Para quem acredita na existência de um Deus vivo e onipotente, a “hipótese” de que Jesus foi ressuscitado corporalmente é a única explicação adequada aos fatos “históricos”.
XII.        Um autor dá grande destaque ao fato de que “ninguém viu Jesus ressuscitar”. A Ressurreição de Jesus é uma inferência construída a partir das aparições. Isso deve ser admitido. Devemos, também, insistir que se trata de uma inferência necessária, imposta a partir das evidências. O significado das narrativas da Ressurreição é que Jesus continua vivo em pessoa, e que os discípulos, inclusive Pedro, creram em virtude de terem reeencontrado pessoalmente o Senhor em forma corpórea.
XIII.     De alguma forma, os eventos da Ressurreição de Jesus pertencem ao fim dos tempos. A consumação dita “escatológica” invadiu – e modificou a História Humana.
A História deve acatar o que não pode compreender. João já advertia, no Prólogo do seu Evangelho: “Ninguém nunca viu a Deus”.
Podemos acrescentar: “Ninguém também viu Jesus ressuscitar”.
De igual modo como a criação do mundo não foi vista por ninguém, e seus efeitos estão diante de todos os homens, assim a Ressurreição de Jesus, embora não tenha sido vista por ninguém, exibe seus efeitos à vista de toda a humanidade.
É por isso que os cristãos cantam não só o Aleluia de Händel, mas qualquer Aleluia, por menor que seja, desde que seja sussurrado pelos lábios de um homem, cujo coração diga o que disse  o pai daquele epiléptico do Evangelho:  “Eu creio, Senhor, ajuda minha falta de fé”!


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