segunda-feira, 23 de abril de 2012

Lembrete aos Interessados


Vasili Kandinsky
        Tempos atrás, inseri neste blog um texto sobre o projeto de viagem que a Biarritz Turismo Operadora, de Porto Alegre está promovendo, sob a orientação cultural do Prof. Paulo Gomes, do Instituto de Artes da UFRGS.
        Volto a recomendar essa projetada viagem aos interessados.
        Primeiramente, considerando o grau de profissionalização da Agência que a idealizou.
Em segundo lugar, considerando o gabarito intelectual do prof. Paulo Gomes, um profissional de grande cultura, de fino senso estético, e de uma comunicabilidade notável.
Que os interessados examinem os preços, verifiquem o roteiro, enfim, informem-se sobre os detalhes da excursão.
Recomendo-a, principalmente, a aposentados, a jovens que desejam conhecer pessoalmente obras de arte contemporânea, aos apreciadores das Artes Visuais em geral.
Nada substitui o contato direto com as obras de arte.
Ver uma reprodução é como ver a foto de uma pessoa. Outra experiência é estar na presença de uma obra de arte.
Não esqueçam que as obras de arte também possuem presença.
E que presença!

Armindo Trevisan   

(Biarritz Turismo Operadora.
Fone-Fax: (51) 3026-2233).

Eleições na França?

(Notas humorísticas sobre uma Europa em Crise).
Deixemos claro, desde o início: não temos simpatia por nenhum dos candidatos à Presidência da República Francesa!   
Simpatias à parte, o que, realmente, nos interessa é tecer comentários sobre a campanha eleitoral francesa, que já entrou para o segundo turno.
Comecemos por registrar que todos nós, os terceiro-mundistas, estamos impressionados com o grau de desonestidade e falta de finura, que obscureceu o prestígio da França nessa campanha. Lembremos que nessa nação o analfabetismo não atinge 5% da população.
         Honestidade?
A vôo de pássaro,  leiam-se os jornais europeus: Le Monde, Libération, Le Figaro, Corriere della Sera, La Stampa, El País, ABC.
         Será verdade o que dizem os jornais?
É evidente que não estamos dispostos a ressuscitar o cínico Procurador Romano, imortalizado no Creio Cristão, Pôncio Pilatos, para pdir-lhe que repita sua quase inverossímil pergunta a Jesus: “O que é a verdade?”
Seria demais!
E dizer que Pilatos fez tal pergunta a Quem dissera de si: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Se Jesus não lhe respondeu, foi porque nenhum homem tem o direito de fazer-lhe tão imsolente pergunta.
Perguntemo-nos, pois, se as notícias divulgadas pelos grandes jornais não são ideologicamente manipuladas, ou revestidas da invisível e corrosiva ferrugem do dinheiro dos empresários da comunicação social.
Um jornalista francês internacional resumiu a situação da campanha eleitoral francesa: “Todos mentem”.
 E explicou: as mantiras de Nicolas Sarkozy são diferentes das de François Hollande, e as de Marine Le Pen, diferentes das mentiras dos demais candidatos.
         Elegância?
 Evitemos avacalhar um vocábulo, que já teve seus dias de glória!
Consolemo-nos com os versos desabusados do amável e incisivo Manuel Bandeira, que extraímos de sua coletânea Estrela da Manhã:

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Na época, o Poeta enfrentava as verborrágicas tiradas de Benito Mussolini, que acabara de invadir a Etiópia, cujos guerreiros lutavam com flechas e lanças. Os italianos, evidentemente, invadiram a Etiópia com seus aviões de última geração e seus blindados.
Todos sabem o fim do tragicômico Duce: a vergonhosa República de Salò,  e a ignominiosa morte do amante e da amante, Clara Petacci, os dois dependurados de cabeça para baixo num posto de gasolina, em Milão...
Não estará a Europa reeditando uma nova edição dessa problemático “avachalhamento” ?
Fujamos de toda interpretação apressada.
A Europa ainda não desmoronou: nem do ponto de vista econômico, nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista religioso, nem do ponto de vista cultural.
O que ocorre na Eurozona, na “Mestra dos Continentes”, a altaneira Europa que sempre lançou olhares desdenhosos à cultura dos outros povos, é o que tem acontecido a todas as Civilizações que chegam a uma sorte de amadurecimento, e esquecem que este, findo o seu período de plenitude, pode ser seguido pela putrefação.
 Não há apodrecimento sem amadurecimento.
Tratar-se-á, então de uma corruptio optimi?
Também não.
Então o quê?
Eis a questão.
Ninguém sabe.
Talvez o fenômeno consista numa auto-saturação, numa auto-confiança que se desmanchou no ar, da soberba de um Continente que, por não saber aprender, está indo para o brejo.
A impressão que se tem é a de um fidalgo, tão confiado em suas riquezas que não se apercebeu de que seu vizinho, um ex-verdureiro ou um ex-camelô, prosperou, transformou-se em empresário, a ponto de  já vender seus produtos (e quinquilharias) sem precisar rebaixar os preços dos Grand-Crus, como o anunciou, na semana passada o galante bilionário, Monsieur Pinault, dono da FNAC.
A nós, filhos da Europa - por vezes até seus escravos – assusta-nos esse grau de vulgarização a que chegaram nossos mestres.
Não há dúvida de que os sans-culottes não desapareceram com a Revolução Francesa, antes, transformaram-se em nuvens de de gafanhotos nos caminhos – outrora florescentes - do Mercado Comum.
Que diremos da mítica Revolução Francesa, cujo centenário foi comemorado há pouco com tambores e clarinadas?  Ela tropuxe benefícios à Humanidade, especialmente na área sdos Direitos Humanos, que ela herdfou da tradição cristã. Foi, portanto, algo mais do que a tomada da Bastilha, e a decapitação de Luís XVI e de Maria Antonieta. Além de ela gerar um Napoleão Bonaparte, teve o topete de oferecer-se como substituta da Revelação (ou Revolução) Cristã. No que fracassou completamente. Não há duas verdades para o destino humano, seja pessoal, seja coletivo.
Assistimos, pois, a uma Europa que ensinou demais, e aprendeu de menos.
Leia-se, com a devida atenção, uma das últimas declarações  do candidato à Presidência da Esquerda Radical francesa. Segundo esse deslumbrado político, está na hora de imitar os gestos (ou “Gesta Dei per Latinos...) dos sul-americanos, como os da Sra. Cristina Kirchner, que acaba de rescindir os contratos assinados com a Repsol, a mesma empresa espanhola que salvou os Yacimientos Petrolíferos de  alência, nos tempo do falido ex-Presidente Menem.
Duas Guerras assolaram a Europa no espaço de 50 anos. Várias ressurreições sucederam-se na Europa, uma delas devida ao Plano Marshall.
Só os experts sabem que a Europa está sofrendo de obesidade. Aconselhada a fazer um regime dietético, o Continente inteiro recorreu a braços pobres, a pernas bambas, a felás da região mediterrânea, primeiramente – é verdade – foi a vez dos aldeãos de Portugal e descamisados de Espanha – depois a dos turcos, magrebinos, africanos. A Europa fazia questão de manter sua riqueza, seu estilo-de-vida, e por isso, além de importar matérias-primas, importou, também, homens-primos.
Por força das coisas, a prosperidade converteu-se em carência, a autonomia cultural derivou para uma salada russa. O espelho, em que seus habitantes se contemplavam, narcisisticamente encantados de si mesmo, quebrou-se.
Diz-nos, Cecília, em que cacos de vidro ficaram perdidas as faces da Alemanha, da França, da Itália, da Inglaterra?
Os franceses vão eleger François Hollande, e só por um milagre da Esposa de Clóvis, ou de Jeanne d’Arc,  reelegerão Nicolas Sarkozy.
Ate aí, nada de anormal, uma vez que a Cristianíssima França, se tornou a Paganíssima França de hoje.
É compreensível que as eleições francesas nos tenham dado um exemplo deprimente de carnaval eleitoreiro, semelhante ao de qualquer República Caraibenha, e na melhor das hipóteses, como as do Brasil e Argentina.
A um Sarkozy frio e esfíngico, contrapôs-se um estridente e quase histriônico François Hollande, produto sofisticado de uma vbida universitária francesa em crise, professor de economia, que para ocultar sua falta de carisma tenta ofuscar os olhos de um público desorientado. Trombeteia soluções econômicas e financeiras, sem apresentar a seu favor nenhuma práxis econômica concreta. Jamais administrou qualquer coisa, sequer um bistrô da banlieue  parisiense (como o denunciaram seus jornalistas patrícios) ...
Hollande parece alimentar um sonho: o de reprisar François Miterrand! Para isso, confia no ressentimento das massas, especialmente das classes populares e dos funcionários públicos, que Sarkozy humilhou, colocando-se desse modo, apesar da companhia da bela Carla Bruni, no olho do furacão 
As massas francesas, agora sonham, e desejam recuperar, no mais breve espaço de tempo, o poder aquisitivo que foi  dilapidado nas folies berghères das últimas décadas.
Em momento algum, os políticos apresentaram uma ideologia clara, representativa. O máximo de coerência que se viu nesse setor foi a de Jean-Luc Mélenchon, candidato do Partido Comunista, que tirou das prateleiras do PC anacrônicas compotas de pêssegos, e latas de conservas de pepinos esquerdistas, possivelmente reciclados pós-68.  
Que diremos da Sra. Marine Le Pen?
Figura exótica, mescla de feminista esclarecida e de burguesa à la page,, herdeira de uma paltaforma política de seu pai, uma sorte de dinosauro do conservadorismo nacional. Ao contrário do pai, bemn falante e simpática! É ela quem está seduzindo os jovens, tanto da extrema direita, como da extrema esquerda.
Nós, latino-americanos, espectadores desse show que só acusou uma ausência, a de Asterix, temos saudades da França  libertária, da França inteligente, da França cartesiana, da França pascaliana, da França voltairiana, até da França  de dois ou três metros de altura de sua Excia., o General De Gaulle, um verdadeiro herói da Última Guerra, quer simpatizemos com ele, quer não.
As campanhas eleitorais francesas de antanho mostravam um charme irresistível: chegavam a divertir-nos por seu gabarito intelectual, por seus torneios mentais sofisticados, por suas trocas de estocadas à Mosqueteiros de Alexandre Dumas Pai.
Atualmente seus candidatos entristecem-nos! Evocam-nos atores que outrora brilharam (será por isso que o filme O Artista  é uma obra-prima, não obstante ser em preto e branco?) - que na velhice não conseguem arrancar-nos o aplauso afônico de um “Bravo!”...
Nossa crônica, para ser conclusiva, deve pedir emprestado a Maurice Maeterlinck, uma de suas frases inesquecíveis:
- Se eu fosse Deus, teria compaixão do coração dos homens.!
Nossa versão soa ligeiramente diversa:
- Se eu fosse Deus, teria compaixão do coração da França!
Até agora, Deus teve compaixão da América Latina!
Pode ter chegado a hora de Ele ter compaixão da Europa. 

domingo, 15 de abril de 2012

É Possível Crer Ainda na Ressurreição de Jesus?

O título deste blog deverá parecer a um cristão, no mínimo, marcado por insuportável insolência.
         Por que esse “crer ainda?
         Não teria sido Jesus suficientemente explícito nas suas declarações:
         - Passarão os céus e a terra, mas minhas palavras não passarão?
          Durante sua vida terrestre, Jesus exprimiu-se sobre muitos temas.  Existem, guardadas fielmente por seus Apóstolos, suas palavras.
 E estas não poderão passar.
 Em momento algum, o Salvador ocultou seu destino de Cordeiro de Deus ,vindo para salvar a humanidade. Nunca deixou de proclamar, alto e bom som, que ressuscitaria de entre os mortos.
Fixemo-nos num episódio na vida de Jesus que deveria reter permanentemente nossa atenção.
Três evangelistas o relatam. É a discussão de Jesus com os Saduceus.
Mateus a refere no capítulo 22 ; Marcos, no capítulo 12, e Lucas no capítulo 20, dos respectivos Evangelhos.
Tomemos a narrativa de Mateus:
- Naquele dia aproximaram-se os Saduceus que dizem não haver ressurreição, e interrogaram-no dizendo: “Mestre, Moisés disse: “Se algum homem morrer não tendo filhos, seu irmão case com a mulher dele, e dê descendência a seu irmão”. Havia entre nós sete irmãos; o primeiro, depois de casado, morreu. Não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Do mesmo modo o segundo, o terceiro, até ao sétimo. Por último, morreu a mulher. Na ressurreição dos mortos, de qual dos sete será esta mulher, uma vez que todos a tiveram?
 Jesus disse-lhes:
- Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Na ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as mulheres terão maridos, mas serão todos como os anjos de Deus no céu. Da ressurreição dos mortos não lestes o que foi dito por Deus, quando disse: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó?” Não há Deus dos mortos, mas dos vivos.
( Mt, 22, 23-33)
Mateus conclui: “As multidões, ouvindo isto, admiravam-se da doutrina Dele”.
Marcos acrescenta: “Vós, portanto, errais”.
Lucas fornece um detalhe: “Alguns dos escribas, disseram-lhe: “Mestre, disseste bem”. E não mais ousavam interrogá-lo”.
Além dessa afirmação claríssima de Jesus, os cristãos deverão sempre lembrar, comovidos, um texto de São Paulo, que possui carácter desafiador em relação à fé dos primeiros cristãos.
 O trecho encontra-se na Carta aos Coríntios, capítulo 15:

Se Cristo não ressuscitou,
nossa pregação e vã,    vossa fé é também vã.
Somos tidos por falsas testemunhas de Deus,
visto que temos afirmado contra Deus
que Ele ressuscitou a Cristo,
ao qual ele não ressuscitou
- se é certo que os mortos não ressuscitam.
Se Cristo não ressuscitou,
 a vossa fé é vã,
e vós permaneceis nos vossos pecados.
Ainda mais: os que dormiram no Senhor
         estão definitivamente mortos.
Se a nossa esperança em Cristo
se limita a esta vida,
somos os mais infelizes de todos os homens.

Essas palavras do Apóstolo dos Gentios deveriam estar permanentemente à nossa frente, como os jovens de hoje costumam suspender seus posters seus cantores e cantoras – Whitney Houston ou Adele - nas paredes de seus quartos. Seria ótimo se, cada manhã, ao romper do sol, e cada noite, ao deitarmos para repousar, as palavras de Paulo nos lembrassem o nosso destino final, que não são as cinzas de um corpo inanimado, dispersas no ar ou jogadas ao léu na superfície azul do mar, mas a juventude de um corpo ressuscitado.

- Se a nossa esperança em Cristo
   se limita a esta vida...

Pobres de nós!

Demos a palavra ao maior teólogo do Cristianismo, Tomás de Aquino. Leiamos um texto, em que ele não se dirige aos teólogos de Paris, mas aos habitantes de Nápoles do século XIII, a uma gente humilde, em que 90 por cento das pessoas eram analfabetas.
O Prêmio Nobel Bertrand Russell, o filósofo e matemático inglês, coloca Tomás de Aquino entre os grandes pensadores do Ocidente. Pois bem, em Nápoles ele falou a toda gente, sem discriminação de cabeças e corações. Falou como um teólogo genial, e um cristão capaz de adorar seu Redentor.
Eu o prefiro a todos os teólogos contemporâneos, inclusive ao Papa Bento XVI, autor de um livro extraordinário, Jesus de Nazaré, digno de leitura por todos os católicos por seu conteúdo e estilo.
Prefiro, a bem dizer, Tomás a ele próprio... Quero dizer,  prefiro - o Tomás que falava aos humildes - ao Tomás que  às vezes teologiza excessivamente, incidindo em elucubrações mentais complicadíssimas a nós homens que não temos a mesma devoção dele a Aristóteles, o Grego.
No excerto que reproduzo de seu livro Credo temos a água límpida que jorra dos lábios de Jesus, e não está turvada pelas pseudo-sutilezas de nossa razão:
         - É necessário que creiamos que Jesus não só morreu, mas que também ressuscitou dentre os mortos. Por essa razão  professamos no Credo: Ressuscitou ao terceiro dia. Sabemos pelo Evangelho que muitos homens ressuscitaram dentre os mortos, entre os quais Lázaro, o filho da viúva de Naim, e a filha de Jairo. A ressurreição de Jesus é diferente daquelas, e de todas as outras em quatro aspectos.
         Primeiramente quanto à sua causa. Todos os outros ressuscitaram, não por seu próprio poder, e sim, pelo poder de Cristo; ou devido às orações de alguns santos. Cristo ressuscitou por seu próprio poder, visto que não só era homem, mas também Deus, e a Divindade do Verbo nunca se separou de sua alma, nem de seu corpo. Quando quis, seu corpo retomou sua alma, e esta seu corpo, segundo está escrito:”Tenho poder para entregar a minha alma, e tenho poder para retomá-la”. (Evangelho de São João 10,18).
Embora Cristo tenha morrido, não morreu por fraqueza ou necessidade, mas livremente. Ao entregar o seu espírito, deu um grande grito. Os outros, quando morrem, não podem dar gritos, porque morrem por fraqueza, Daí a exclamação do Centurião: “De fato, Ele era o Filho de Deus”. (Evangelho de São Mateus, 37,54).
Do mesmo modo como Cristo entregou sua alma livremente, também a retomou livremente. Por isso se diz no Credo: “Ressuscitou” – e não: foi ressuscitado, como se outro pudesse lhe ter restituído a vida.
         Esse texto não está em contradição com outro texto dos Atos dos Apóstolos, no qual se diz: “Este Jesus, Deus o resssuscitou” (At 2,23).
O Pai o ressuscitou, e o Filho também, porque o poder do Pai e o poder do Filho são um só poder divino.
Em segundo lugar, a ressurreição de Cristo se diferencias das outras ressurreições pela vida para a qual Ele ressuscitou. Cristo ressuscitou para uma vida gloriosa e incorruptível.
Os outros, que resuscitaram, ressuscitaram para a mesma vida que tinham tido antes, como ocorreu com Lázaro.
A terceira diferença revela-se no seu fruto e na sua eficácia. É pelo poder da ressurreição de Cristo que todos ressuscitam.
É preciso afirmar que Cristo chegou á Glória por sua Paixão, conforme está escrito no Evangelho de Lucas:
- Então o Messias não tinha que sofrer tudo isso antes de ser glorificado? (Lucas 24,21. Aparição aos Discípulos de Emaús).
         Assim Cristo nos ensinou como é possível chegar à glória. Paulo e Barnabé também nos exortam:
         - Devemos passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus. (Atos 14,21).
A quarta diferença é relativa ao tempo. A ressurreição dos demais homens só acontece no fim dos tempos, a não ser que, por um privilégio especial, seja antecipada, como o foi a da Virgem Maria e, segundo se crê piedosamente, a de São João Evangelista. Cristo, ao contrário, ressuscitou ao terceiro dia.
A razão disso é que a sua Ressurreição e a sua Morte tinham por finalidade nossa salvação. Ele só quis ressuscitar quando isso fosse vantajoso para nossa salvação. Se Cristo tivesse ressuscitado logo, ninguém teria acreditado na sua morte. Se tivesse ressuscitado muito tempo depois, os discípulos perderiam a fé, e sua Paixão teria sido inútil.
        Ressuscitou, portanto, ao terceiro dia, para que se acreditasse que, realmente, tinha morrido, e para que os discípulos não perdessem a fé.
         São Tomás acrescenta, ao texto, algumas considerações de natureza espiritual, para aproveitamento de cada fiel.
Conclui o seu texto de forma lapidar:
         - Como última lição: se ressuscitamos para uma vida nova e gloriosa, devemos evitar tudo o que antes foi para nós ocasião e causa de morte e pecado. O mesmo Apóstolo noz diz:
- Como Cristo ressuscitou de entre os mortos pelo poder do Pai, assim devemos viver uma vida nova. (Rom 6,4).
Esta vida nova é vida de justiça, que renova a alma, e conduz à vida da Glória.
         (O Credo de São Tomás de Aquino. Terceira edição. Tradução, prefácio e notas de Armindo Trevisan. Petrópolis, Editora Vozes, 2012. p.65-69).
           
Quem melhor do que Tomás de Aquino expressou o núcleo das verdades relativas à Ressurreição de Jesus?
O mundo contemporâneo precisa beber da água viva da Revelação Cristã. Não precisa que essa água seja higienizada pelo flúor dos Teólogos, às vezes preocupados em exibir a própria perfomance intelectual, e não a discreta luz da Revelação Cristã.
A Revelação Cristã nunca está interessada em ofuscar nossos olhos, mas em abri-los à Luz, isto é, à Palavra que se fez Carne no seio de Maria.
De longe em longe, a Providência Divina suscita, entre os próprios Teólogos, vultos excepcionais, que nos ajudam a perceber segredos que se ocultam sob outros segredos, à semelhança de bonecas russas que aparentemente são uma boneca só, mas que, no interior  alojam inúmeras outras bonecas, embora menores.
Só recentemente, li a obra Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd,  anglicano, ex-professor do Fuller Theological Seminary da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A edição que possuo foi revisada por R.T. France e David Wenham, e tem tradução portuguesa de Degmar Ribas Júnior. (São Paulo, Editora Hagnos, 2003).
         Recomendo a leitura desse livro.
 É uma meditação sóbria, vigorosa, cintilante, sobre o principal mistério da Fé Cristã.
         O capítulo sobre a Ressurreição de Jesus (da página 453 à página 468) foi a melhor coisa que li nas últimas décadas sobre verdade tão necessária ao mundo de hoje.
         George E. Ladd, cingindo-se às narrativas evangélicas, apresenta-nos uma síntese do que de melhor foi meditado pela Tradição Cristã, e do que de melhor ela tem hoje a apresentar aos homens de nosso tempo.
         Destacaria, como “provocações” à sua leitura, alguns trechos:

I.                  A funcão primária dos Apóstolos na comunhão dos primeiros cristãos não era dominar ou governar, mas dar testemunho da Ressurreição de Jesus. Isso pode ser demonstrado pelas qualificações exigidas para o sucessor de Judas: ele devia ser testemunha da Ressurreição de Jesus.
(Cf. Atos dos Apóstolos, 1,22).
II.               Se Cristo não tivesse ressuscitado, a longa jornada de seus atos redentores teria terminado num beco sem saída, isto é,  num túmulo.
III.           O testemunho do Novo Testamento é que um ato objetivo aconteceu num jardim fora dos limites de Jerusalém, onde Jesus apareceu vivo. O fato objetivo que no instante de sua realização histórica não teve testemunhas, não pode ser “provado” à maneira de um fato registrado por um repórter de nosso tempo. Somente por uma iluminação do Espírito Santo o coração humano pode crer nele.
IV.           Não obstante, é importante acentuar a historicidade da Ressurreição.
Certamente, essa historicidade existiu, mas ela transcende a História. Não significa “a ressurreição de um cadáver”. O que aconteceu foi um evento histórico, cuja magnitude superou os simples “fatos”. A única explicação histórica, que se pode dar, é que os discípulos de Cristo tiveram tais experiências, subjetivas, tais visões, que os obrigaram a admitir uma evidência: Cristo estava vivo outra vez: “A fé não produziu as visões, e as visões não produziram a fé. Não há explicação adequada que justifique o surgimento da fé na Ressurreição de Cristo, a não ser esta: Jesus ressuscitou dentre os mortos”.
V.               Voltemos a insistir: O Novo Testamento não descreve a ressurreição de um cadáver, mas a emergência de uma Nova Ordem de Vida dentro do Espaço e do Tempo.
VI.            A Natureza da Ressurreição de Jesus foi claramente corpórea. Contudo, seu corpo era um corpo que possuía poderes novos e mais elevados do que os que seu corpo físico possuía de antes de sua morte.
VII.       Jesus foi capaz de comer: ele comeu um pedaço de peixe na presença dos discípulos (Cf. Lucas 24,43). Mas as palavras diante deles deixam claro que isso foi feito como um sinal de sua ressurreição corporal. Em Emaús, depois de partir o pão com dois discípulos, Jesus desapareceu repentinamente. (Cf. Lucas 24,31). Quando os discípulos retornaram a Jerusalém e relataram sua experiência, Jesus, subitamente, se manifestou entre eles. Chegou de modo tão repentino que ficaram pasmados, pensando que fosse um espírito. O corpo ressuscitado de Jesus possuía surpreendentes poderes. Parecia pertencer a uma ordem diferente de realidade.
VIII.    Em resumo: a ressurreiçlão de Jesus foi corporal, porém seu corpo possuía poderes que transcendiam as limitações físicas, e ao mesmo tempo lhe permitiam interagir com a ordem natural.
IX.            O que provoca perturbação ao historiador moderno é que a Ressurreição de Jesus não teve uma causa histórica. Foi um ato de Deus, e o historiador, como tal, não tem o que falar a respeito de Deus. Trata-se de um evento sem analogia, simplesmente único, e isto ejeta o historiador fora da experiência histórica comum. O historiador nada conhece acerca da Vida Eterna ou do século futuro. Contudo, ocorreu como um evento objetivo, no meio da História.
X.               Essa é a razão porque o historiador moderno com freqüência interpreta a Ressurreição de Jesus de alguma outra forma que não a corpórea. Ele, porém, deve levá-la em conta para explicar a fé na ressurreição, e no surgimento da Igreja.
XI.            Para quem acredita na existência de um Deus vivo e onipotente, a “hipótese” de que Jesus foi ressuscitado corporalmente é a única explicação adequada aos fatos “históricos”.
XII.        Um autor dá grande destaque ao fato de que “ninguém viu Jesus ressuscitar”. A Ressurreição de Jesus é uma inferência construída a partir das aparições. Isso deve ser admitido. Devemos, também, insistir que se trata de uma inferência necessária, imposta a partir das evidências. O significado das narrativas da Ressurreição é que Jesus continua vivo em pessoa, e que os discípulos, inclusive Pedro, creram em virtude de terem reeencontrado pessoalmente o Senhor em forma corpórea.
XIII.     De alguma forma, os eventos da Ressurreição de Jesus pertencem ao fim dos tempos. A consumação dita “escatológica” invadiu – e modificou a História Humana.
A História deve acatar o que não pode compreender. João já advertia, no Prólogo do seu Evangelho: “Ninguém nunca viu a Deus”.
Podemos acrescentar: “Ninguém também viu Jesus ressuscitar”.
De igual modo como a criação do mundo não foi vista por ninguém, e seus efeitos estão diante de todos os homens, assim a Ressurreição de Jesus, embora não tenha sido vista por ninguém, exibe seus efeitos à vista de toda a humanidade.
É por isso que os cristãos cantam não só o Aleluia de Händel, mas qualquer Aleluia, por menor que seja, desde que seja sussurrado pelos lábios de um homem, cujo coração diga o que disse  o pai daquele epiléptico do Evangelho:  “Eu creio, Senhor, ajuda minha falta de fé”!


segunda-feira, 2 de abril de 2012

São Tomás de Aquino e a Paixão de Cristo.

(Breve reflexão para a Sexta-Feira Santa).

I. Um texto de São Paulo, extraído de sua Carta aos Filipenses, deveria estar permanentemente diante dos olhos –  sobretudo no coração – de cada cristão. Penso que ninguém, jamais na História do Cristianismo, sintetizou com tanta concisão e clareza o Mistério da Paixão do Salvador:
- Jesus Cristo, existindo em sua condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de Cruz. Por isso, Deus o exaltou acima de tudo, e deu-lhe o Nome que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra, e abaixo da terra, e toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor.
 Deveríamos saber de cor (nossa expressão vernáculasignifica: pelo coração!) – esse compêndio do essencial da Revelação Evangélica.
Vejamos
1.             Primeiramente, a afirmação solene, diríamos majestosa – da Divindade de Jesus.
2.             Em segundo lugar, a incrível declaração do Apóstolo: a vinda ao mundo de Jesus foi um auto-esvaziamento, que o levou Jesus a assumir a condição de um homem qualquer, de modo que Ele mesmo pôde mais tarde afirmar: “O que fizerdes ao menor destes, vós o fareis a mim”.
3.             A Paixão de Jesus foi um ato de amor. São João o afirma no seu Evangelho: “Tendo amado os seus, que estavam no mundo, os amou até ao fim”.
4.             A trajetória terrestre de Jesus acabou quando a loucura e a crueldade dos homens tentaram destruí-lO. O eclipse de Jesus podia ser, e foi, total, mas como ele era o Sol, nenhuma nuvem, ou interferência planetária, pode matar o Sol. O seu Nome, desde o Gólgota até ao fim dos tempos, é o único Nome que é dado aos homens como garantia de obtenção da felicidade. A afirmação básica do Credo cristão é: Jesus Cristo é o Senhor.
Bastaria esse texto de São Paulo, escrito aproximadamente 40 anos após o sacrifício de Jesus, para nos ocupar a mente durante os dias de distração e férias, que costumam ser os da Semana Santa.
Já ouvi, mais de um cristão sincero, referir-se à Semana Santa como uma ocasião para se saborear uma bacalhoada.
Haverá mal nisso?
Penso que não. O mal, o absolutamente impróprio seria considerar a bacalhoada a razão dessa interrupção da vida cotidiana, desse exílio provisório da mesmice.
Saboreie-se a bacalhoada, porque, mesmo com jejum à vista, é preciso comer, e até o agnóstico (ou antes, meio-crente Machado de Assis, afirmou que não se come o ar...), porém, tenhamos sempre em vista que nossas necessidades alimentares não podem antepor-se às necessidades de nossa alma.
Precisamos aproveitar a Semana Santa não para projetos de bacalhoadas e outras peixadas, nem para turismo, mas para concentrar-nos no prodigioso Mistério de nossa Salvação. Precisamos voltar a acreditar que o comer e o beber, e o gozar do amor e de outras delícias corporais, não contradiz a medula do ensino de Jesus:
- Crede no Pai e em seu enviado Jesus, e o resto vos será dado em acréscimo. Porque o Pai sabe o de que precisais. Ele cuida dos lírios do campo e das aves do céu. Não cai um cabelo de vossas cabeças sem que Ele o saiba!
Sempre fui leitor de um pequeno livro de São Tomás de Aquino, O Credo, que acabei traduzindo do latim para o português, isto é, para um português mais moderno, mais palatável ao leitor de hoje, sem tantos rodeios escolásticos, que me lembravam, por vezes, o quilométrico fraseado de Marcel Proust, frases que fazem a volta à esquina (como dizia um de seus tradutores, Mario Quintana).
 Sugiro sua leitura aos meus leitores. Acaba de sair a terceira edição: O Credo.Petrópolis, Editora Vozes, 2012).
São Tomás é conhecido, principalmente, por suas obras-primas: A Suma Teológica (tenho uma edição bilíngüe, em latim e espanhol, que abrange 16 volumes) e a Suma Contra os Gentios, que também é constituída por vários volumes. Graças aos esforços do benemérito e saudoso Frei Rovílio Costa, ambas essas obras foram publicadas no Rio Grande do Sul pela editora que o insigne franciscano dirigia, a Editora da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes).
Tais obras são tão profundas que, na maioria das vezes, não são compreensíveis ao leitor comum, embora este, se fizer grande esforço, poderá compreendê-las.
 Outro é o caso do Credo, que reúne os sermões que S. Tomás fez ao povo em Nápoles, no fim da vida. Essas pregações eram dirigidas a analfabetos. A analfabetos? Mas quanta sabedoria e finesse em tais pregações!
Demos uma amostra delas, a propósito da Sexta-Feira Santa de 2012.
São Tomás aborda a questão no artigo 4 do Credo:
    - Pode alguém perguntar: que necessidade havia de o Verbo de Deus padecer por nós?
(Ibid. p. 52).
    O grande teólogo responde:
    - Grande necessidade! Podemos apresentar, em particular, duas razões: a primeira é que os padecimentos de Cristo foram remédio para os nossos pecados; a segunda, é que eles serviram de exemplo para as nossas ações.
    A Paixão de Cristo, com efeito, foi remédio para todos os males que nos resultaram do pecado.
Cinco males resultaram dele. O primeiro consiste na própria mancha do pecado. Quando um homem peca, contamina sua alma, visto que a virtude embeleza, e o pecado desfigura. Lê-se no livro do Profeta Baruc: “Que é isto, ó Israel? Por que estás tu em terra inimiga, definhando em terra estranha? Por que te contaminaste com os mortos? (3,10).
    A Paixão de Cristo é lavada no sangue de Cristo, do qual o sacramento do Batismo recebe sua força regeneradora. Por isso, quando alguém se mancha com um pecado, faz uma injúria a Cristo, e este último pecado é maior de qualquer pecado cometido antes do Batismo.
    O segundo mal, que resulta do pecado, é merecermos a rejeição de Deus. Assim como o homem carnal ama a beleza da alma, assim Deus ama a beleza do espírito, isto é, a beleza da alma. (...) A Paixão de Cristo remove o mal, uma vez que ela deu satisfação ao Pai pelo pecado. Tal satisfação não poderia ser dada pelo homem. A caridade e o amor de Cristo foram maiores do que o pecado e a desobediência do primeiro homem.
O terceiro mal, que resultou do pecado, foi a fragilidade. O homem, depois de pecar pela primeira vez, pensa que pode evitar o pecado. Acontece-lhe o contrário. Enfraquecido pelo primeiro, fica mais inclinado a pecar. O pecado acaba por do- minar, progressivamente, esse homem que, por sua própria vontade, se põe em situação de pecar, como alguém que se atira num poço, donde só pode sair com a ajuda de Deus. (...)
    O quarto mal é a obrigação de expiar nossa culpa. A justiça de Deus exige que o pecado seja punido, e que a pena seja proporcional à culpa. Considerando-se que a culpa do pecado é infinita, dado que se opõe ao Bem Infinito, isto é, a Deus, cujos mandamentos o pecador transgride, também a pena devida ao pecado é infinita. Cristo, por meio de sua Paixão, livrou-nos dessa pena, assumindo-a Ele próprio, como se lê na Primeira Carta de São Pedro: “Sobre o madeiro lavou nossos pecados em seu próprio corpo”.(2,24).
(...)
    O quinto mal foi exilar-nos do reino do céu. Aqueles que ofendem aos reis são forçados ao exílio.O mesmo aconteceu ao homem que, devido ao pecado, foi expulso do Paraíso. (...)
Ao abrir-se o lado de Cristo, abriu-se também a porta do Paraíso, e ao derramar Ele seu sangue, a mancha foi apagada. Deus foi aplacado, a fraqueza foi destruída, a pena expiada, e os exilados chamados novamente para o reino. Eis por que foi dito ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
(Lc 23,43).
    Com isso fica esclarecido por que a Paixão de Cristo nos foi útil como remédio contra o pecado, e não menos útil como exemplo.(Ib. p. 52-55).
   
Omiti alguns pontos da argumentação de São Tomás, para não tornar excessivamente longo este blog.
    São Tomás é ofuscantemente claro. Quem quiser meditar seriamente sobre os Mistérios de Jesus, leia o Credo, um livro de apenas 107 páginas, onde está toda a Suma teológica ao alcance do grande público.
Deixe-se aos teólogos os 16 volumes da Biblioteca dos Autores Cristãos, de Madrid, ou aos monumentais volumes da edição brasileira de Frei Rovílio.
    Pessoalmente, minha leitura predileta, depois do Novo Testamente, é essa súmula da Fé cristã de São Tomás.
É um diamante que pode estar na fronte de qualquer cristão, mas que nenhuma fronte régia deste mundo poderia merecê-lo.
Deus revelou sua verdade aos pequeninos, e não aos grandes deste planeta, onde Ele próprio se dignou fazer-se pequeno:
- Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração – disse-nos Ele, um dia.