quinta-feira, 1 de março de 2012

O Livro mais Triste que Li nos Últimos Anos

     I.
Tenho insistido com amigos para que dêem particular atenção às biografias publicadas nas últimas décadas.
Algumas dessas biografias têm o mesmo valor que os melhores romances contemporâneos.
Digo mais: são-lhes, às vezes, superiores em qualidade literária, e fascinação de leitura.
Indiquei neste blog, tempos atrás, várias biografias que me pareceram excepcionais, entre elas,  as de Gerald Clarke sobre Truman Capote, e de José Castello sobre Vinicius de Moraes.
Acabo de ler outra impressionante biografia, escrita por uma escritora americana de probidade impecável, de respeito único pela pessoa e pelo personagem biografado.
Refiro-me ao livro de Patrícia Morrisroe: Mapplethorpe: uma Biografia. (Tradução de Flávia Villas-Boas. Rio de Janeiro, Editora Record, 1996).
Hesitei antes de a ler.
Não me apetece perder tempo com bizarrices, ou pior ainda, com bisbilhotices sobre ícones da mídia.
Mapplethorpe?
Eu havia visto alguma coisa desse fotógrafo.
Procurei sua biografia e imagens na Internet.
Fiquei, primeiramente, chocado; depois, entediado.
O que, no entanto, me decidiu à leitura do livro foi um acaso: ao folheá-lo, descobri duas coisas raras:
a) que Mapplethorpe procedia de uma família católica tradicional;
 b) que ele, e outros católicos de seu círculo, não se contentavam em não ser católicos: queriam ser maus católicos!
- Você foi educado como católico – perguntou-lhe a autora, na primeira entrevista que teve com o fotógrafo.
- Acho que (...) que tenho uma certa estética católica – explicou.
Patrícia Morrisroe, com amarga ironia, conclui:
 - Fiquei aliviada por descobrir alguma coisa em comum, embora tenha me dado conta de que iria levar mais de duas horas para compreender como um garoto católico de classe média do subúrbio de Queens havia se transformado no documentarista do cenário gay sado-masoquista.
(Ib. p. 14).
Mapplethorpe possuía uma mente confusa. O que ele parecia possuir de clareza, ou perspicácia visual, não tinha em termos de reflexão. Pensava com os olhos, ou seja, com o que via, e não com a ajuda de seus neurônios cerebrais.
O fotógrafo gay sado-masoquista possuía dois olhos azuis, sem dúvida, mas os empregava apenas para si mesmo. Consagrava-os à própria beleza.
Culpa dele?
Era um homem que, com o passar dos anos, ficaria obcecado pela beleza masculina, mas cujo relacionamento mais duradouro em sua vida haveria de ser uma roqueira: Patti Smith
 Mapplethorpe cultuava homens negros, embora os denegrisse com epítetos raciais.
Celebrizou-se pela franqueza, soi-disant  “libertadora”, de suas fotografias e, no entanto, ficava petrificado ao pensar que os pais poderiam descobrir que ele era homossexual.
Foi um mestre da fotografia em preto-e-branco, porém, definitivamente nada havia de preto e branco nele Toda a sua vida era moralmente ambígua.
Reproduzi, quase ipsis litteris, o texto com que Morrisroe remata sua “Nota da Autora”.
Alguém explicará jamais o que aconteceu a esse ex- membro da juventude católica da Paróquia de Nossa Senhora das Neves, em Floral Park, Queens?
 O Padre George Stack, a quem a família de Mapplethorpe pediu para oficiar-lhe as exéquias, contou que, 25 anos antes de morrer, o fotógrafo procurava-o para mostrar-lhe seus desenhos, em geral imagens de Nossa Senhora.  
Pouco antes de morrer, a mãe de Robert Mapplethorpe pediu ao P. Stack que fosse visitar o filho, “a fim de que ele morresse em estado de graça” .
(Ib. p. 22).
Os dois homens passaram uma tarde conversando, depois da qual Robert pediu ao religioso para voltar novamente.
Nesse entretempo, o fotógrafo morreu.
Ciente de que o ex-menino de sua paróquia, se especializara em fotografias homoeróticas de alta voltagem, o benevolente sacerdote não teve outro recurso, na hora do funeral, que lembrar-se dos “lírios” que Mapplethorpe também fotografava.
Animou, pois, os pais, dizendo-lhes:
- Ninguém que vier a mim será por mim rejeitado. Por causa dessa promessa acreditamos que, quando Robert atravessou os portais da morte e se pôs diante do trono do julgamento de Deus, Jesus abriu seus braços para acolher Robert em seu lar.
(Ibid. p. 23).
Atentos leitores, eu vos adverti que Patricia Morrisroe era uma autora excepcional, capaz de mostrar respeito incondicional por seu biografado.
O fotógrafo foi incinerado, e suas cinzas, durante algum tempo, ficaram à espera de uma decisão sobre o local onde deviam ser espalhadas...

II.
Robert foi o terceiro filho de um casal que teve quatro filhos.
Os pais de Mapplethorpe viviam numa cidade provinciana. Eram gente como a gente, embora, posteriormente, a mãe tenha sido declarada maníaco-depressiva.
Robert era o filho favorito de sua mãe.
Cresceu dentro de um esquema doméstico severo, e foi educado segundo os padrões de uma educação católica que o sensibilizou para o conceito de culpa e pecado.
(Ibid. p, 33).
Durante algum tempo, a idéia do inferno aterrorizou o menino.
Robert contou a um amiguinho:
- Tem um relógio no Inferno que toca um carrilhão a cada hora: “Você nunca vai sair daqui...você nunca vai sair daqui...você nunca vai sair daqui”.
(Ib. p. 34).
Seria fastidioso percorrer, ponto por ponto, a vida de Robert, desde o incidente da descoberta pelos pais do romance O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, escondido no seu quarto, até a notícia de quanto o menino se sentia atraído, não só por fotos de mulheres nuas, mas também de homens nus.
A idéia de ser homossexual era, para Robert, “mais do que aterradora”.
(Ib. p. 41).
Aos 18 anos, um companheiro de Robert deu vinte dólares a uma prostituta para poder fazer sexo com ela, e depois passou-a a Mapplethorpe, “cujo desempenho representou um fecho humilhante para a comemoração de seu aniversário”.
(Ib. p. 51).
Mapplethorpe decidiu que seria artista.
Objetou-lhe o pai:
- Como é que você vai ganhar a vida sendo artista?
Tempos depois, Mapplethrope perdeu a virgindade num episódio do qual só guardou constrangimento.
(Ib. p. 58).
Dormiu, a seguir, com outras mulheres, embora o sexo nunca representasse para ele uma experiência deleitosa.
A partir de certo momento, o fotógrafo resolveu conviver com um macaco, cujas estrepolias domésticas o irritaram tanto, que ele acabou decapitando-o com um facão de cozinha.
Ele e um colega, ambos com o projeto de se dedicarem às Artes Visuais, decidiram que não seriam artistas”, se não se liberassem de sua moralidade católica tradicional. Era preciso “abraçar a vida”.
(Ib. p. 62).
Mapplethorpe conheceu, então, uma  moça exótica, Patti Smith. A moça era obcecada por Rimbaud, o poeta francês que pregava le deréglément des sens , isto é, o descontrole dos sentidos, em função de possíveis êxtases extra-sensoriais.
 Amaram-se?
 É difícil saber. De qualquer modo, Patti Smith ajudou Robert a sentir-se mais artista.
Quando, após ter tido uma menina (que entregou para ser adotada), Patti quis ir embora, Robert lhe disse:
- Se você for embora, eu me tornarei gay.
Patti Smith foi embora.
Robert afundou-se no homossexualismo:
- Minha vida começou no verão de 1969. Antes disso, eu não existia.
  (Ib. p. 87).
O que veio a seguir é de uma pasmosa monotonia dentro de uma anormalidade mais pasmosa ainda.
 Um dia, Robert teve um surto. Começou a gritar:
- Sou o demônio! Sou o demônio!
(Ib. p. 111).
Ao completar 24 anos, em 1970, convertera-se, literalmente, “num pavão emplumado em couro”.
(Ib. p. 112).
Os relacionamentos homossexuais tornaram-se freqüentes.
Robert explicou:
- Ninguém queria ser normal nos anos 70...
(Ibid. p.119).
Surgiu um novo parceiro: John Mckendry, indivíduo fascinado pelo proibido, que “adorava a idéia de ser mau católico”.
(Ib. p. 124).
 Mapplethorpe deslumbrou-se:
- Sexo é a única coisa pela qual vale a pena viver...
não havia mais o que fazer.
(Ib. p. 150).
O resto é silêncio...
Se fosse possível haver silêncio... numa existência tão aberrante como a dos jovens da década de 70.
Mapplethorpe tornou-se promísculo, um “viciado sexual”, “ligado em sexo 24 horas”.
(Ib. p. 168-169).
Quase ao mesmo tempo, esse assim dito “gênio da fotografia” defrontou-se com a brutalidade chique dos meios de New York.
O sórdido e o repugnante passaram a dominar o artista. Ao ponto que ele, em 1978, pressionado por um fotógrafo alemão, não vacilou em inserir o cabo de um chicote no ânus, e em seguida voltar um olhar penetrante e desafiador para a câmera...
(Ibid. 218).
Ficou, como um marco histórico, sua Mostra Fotográfica de 1978.
Nesse momento, Patti Smith fez uma reviravolta na sua existência:  abandonou música, drogas, aventuras, sucesso de vendas, tornando-se uma esposa fiel e mãe dedicada.
Mapplethorpe, despeitado, remergulhou ainda mais nos seus abismos.
Seguiu-se a fase dos Amantes Negros.
Depois, O Momento Perfeito.
Por fim, a AIDS.
As amigas, que se apaixonavam por ele, demonstraram-lhe maior solidariedade, por ocasião de sua enfermidade, que todos os Amantes, brancos ou negros, que o tinham acompanhado, e não raro, explorado.
Um dia – como era previsível – desabou sobre a família a notícia inaceitável de sua homossexualidade.
- Oh Deus, não! – gemeu a mãe – Não o meu preferido!
(Ib. p. 369|0
Mapplethorpe confidenciou a um amigo que “sua maior tristeza na vida era não ter conseguido manter um relacionamento bem sucedido com alguém”.
Veio-lhe a idéia de comprar um filhote de cachorro porque desejava algo com quem se aninhar à noite...
(Ibid. p. 378).
Robert Mapplethorpe morreu, aos 42 anos de idade.
Antes de morrer, ouviram-no murmurar:
- Eu vou morrer. Sei que isso vai acontecer, e não quero morrer.
(Ibid. p. 386).
No dia 9 de março de 1988, seu irmão Ed, que estava junto ao leito, cumpriu a promessa que havia feito à mãe: notificar o Capelão do Hospital sobre o estado de saúde de Robert, e pedir-lhe que lhe administrasse os últimos sacramentos.
O Capelão católico do Hospital atendeu ao pedido de Ed.
Uma amiga de Robert, Alexandra Knaust, não o abandonou nunca, Ficou com ele, assistindo-o, dando-lhe todos os alívios possíveis.
O enfermeiro sabia que ela estava exausta, e acreditava que ela não pudesse lidar com a morte de Mapplethorpe.
- Se Robert acordar (afinal concordou Alexandra) diga-lhe que Deus está com ele. Não quero que pense que está sozinho!
Mapplethrope não acordou mais.

III.
Rendamos sincera homenagem a Alexandra Knaust!
Ela foi dormir, porque não tinha mais condições de ficar desperta. Deixou Deus no seu lugar  junto ao fotógrafo.        

IV.
Agradeço à autora, Patrícia Morrisroe, por me ter proporcionado a oportunidade de ler o mais triste livro dos meus últimos anos – e um dos mais tristes que li na minha vida.  
Esse livro, não obstante, teve um efeito paradoxalmente positivo em mim: aproximou-me mais de Deus – e dos homens.
Continuarei a rezar por Robert Mapplethorpe, e por todos os artistas gays que vier a conhecer.
Por ele, e também pelas mulheres, que costumam apaixonar-se por eles.
Afinal, a nós, cristãos, resta um consolo, em casos tão inexplicáveis, insolúveis, e com uma dimensão arrasadora de fatalidade.
Crer firmemente como escrevia o Apóstolo João na sua Terceira Carta, que:
- Se o nosso coração nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.

Um comentário:

  1. Adoro ler biografias. Não qualquer biografia, mas uma boa, onde o biografado e o autor da biografia se respeitem, e relatem ao leitor além da história de vida de alguém, o retrato da época em que este alguém viveu.

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