segunda-feira, 5 de março de 2012

“A Dama com o Unicórnio” e a Cortesia.

I.
O historiador da Arte, Kenneth Clark (1903-1983) pertenceu à maravilhosa plêiade de historiadores que não só eram eruditos e professores universitários – como também gourmets de sensibilidade, capazes de unir a ciência e a finesse num único e aromático buquê.
Clark escreveu uma página que me impressionou particularmente, sobre a qual tenho refletido com certa freqüência.
O nosso século XXI parece caracterizar-se por um Réquiem à cortesia, em geral, e à cortesia no tocante à mulher em especial.
Sob pretexto de democratização dos costumes, de socialização da vida diária, e outras parolices,  ninguém mais se importa com aquilo que, outrora, era conceituado como Cavalheirismo:
- Tirar o chapéu diante das senhoras, dar-lhes precedência, e na América de outros tempos, ajudá-las a sentarem-se à mesa...
Acrescenta Clark:
- Cultivávamos a ilusão de que elas eram seres castos e puros, em cuja presença não podíamos contar certas piadas, nem proferir certas palavras.
Não concordo totalmente com Kenneth Clark!
Havia, também, no celebrado cavalheirismo uma ritualização de gestos mecânicos .
O que me interessa saber é se ainda existe, no mundo em que vivemos, polidez, e – mais do que polidez – o refinamento chamado Cortesia.
Em boa hora, o século XX varreu farfalhices pseudo-c ortesãs, terraplenou códigos artificiais de comportamento, desgalhou beijos e abraços.
A mulher contemporânea evoluiu para uma certa simplicidade. É verdade que, após a simplicidade, a vulgaridade também apareceu, e seus chifrezinhos maléficos.
Despindo sua casca de serpente heráldica, a mulher de nossos dias assumiu-se, não raro a contragosto, também como serpente de verdade, inclusive a mulher superior, genericamente discreta.
A emancipação feminina teve seu início e, também, teve seu fim.
A expressão “emancipar-se” significa, literalmente: livrar-se da escravidão.
Sim, a mulher deixou de ser escrava. Deixou de submeter-se ao machismo opressor.
Mas foi o cachimbo do homem que entortou a boca da mulher!
 Ao humilhá-la, para satisfazer seus instintos - normais ou bestiais – o homem impôs à mulher a sofisticação de sua perfídia, a pós-graduação em insídias, a otimização de suas raposices e de seus jogos de faz-de-conta.
Por sua vez, os homens felicitaram-se por poder proclamar, com a ajuda de Verdi, que La Donna è Mobile!
 Mobile?
É cômico verificar a quantidade estapafúrfia de clichês que os machos atribuíram às mulheres, como se tais pseudo-qualidades lhes fossem conaturais.
Contribuíram para isso, com bom balaio de frutos ácidos, os míticos monges celibatários da Idade Média, herdeiros das ascese desumanas dos eremitas do Egito.
A pena venenosa de Anatole France satirizou um desses anacoretas no romance Thaís,  convertido em Ópera por Jules Massenet (1842-1912).

II.
Precisamos, ainda, saber por que os monges da Tebaida  se afastaram do Evangelho de Cristo, e da própria atitude Dele.
Cristo reprovou, sem dúvida, o comportamento de mulheres adúlteras. Nunca, porém, as desprezou.
A uma delas, depois de perdoar-lhe os pecados, disse-lhe:
- Vai em paz, e não tornes a pecar.
O Salvador foi mais cáustico no tocante à duplicidade de seus adversários. Invectivou-os:
- As prostitutas vos precederão no Reino dos Céus.
Nos séculos  III e IV d.C., a misoginia vicejou nos meios eclesiásticos.
Finjamos ignorar o que houve, a esse respeito, de indecoroso, e até de estúpido, na História da Igreja.
A partir de determinada época, principalmente nos tempos do Românico, aproximadamente no Ano Mil, a tensão anti-feminina intensificou-se.
Essa tensão não deteve a evolução da mentalidade, e especialmente, da sensibilidade cristã.
Deixou-a excitada, um tanto histérica.
Com o decurso dos anos, graças especialmente ao surgimento da Poesia de Amor Cortês e, simultaneamente, à descoberta do Culto à Mãe de Deus, promovido por  Francisco de Assis, Anselmo de Canterbury e Bernardo de Claraval, surgiu, no interior do Cristianismo, inclusive em seu bojo oficial, uma nova atitude em relação à Mulher.
Na Idade da Fé, ou seja, no tempo do Gótico Radioso, a mulher foi respeitada, até idealizada, como o revelam as poesias de Dante Alighieri, sw Petrarca, e antes deles, os hinos consagrado à Virgem, entre os quais a sublime antífona Salve Rainha.

III.

Voltemos a Kenneth Clark.
O ilustre historiador indicou o Portal Norte da Catedral de Chartres como o local onde já se identificam os sinais anunciadores da mudança de mentalidade, e sobretudo de sensibilidade:
- No canto do pórtico, vê-se a primeira figura intencionalmente graciosa da Arte Ocidental. Não fazia muito tempo, as mulheres eram imaginadas como viragos mal-humoradas e atarracadas, como se vê na Pia Batismal da Catedral de Winchester.(...) Admirem agora esta encarnação da castidade, segurando o manto, levantando a mão, voltando o rosto num gesto delicado e tímido – que mais tarde se tornaria afetado, mas que aqui é genuinamente modesto. Poderia ser a Beatriz de Dante. Na realidade, representa uma Santa, chamada Modesta(...) Aqui, pela primeira vez na arte visual, temos um sentido da relação humana entre o homem e a mulher.
(Civilização. Uma Visão Pessoal. Tradução de Madalena Nicol. São Paulo-Brasília, Martins Fontes Editora-Editora Universidade do Brasil,-1980, p.81-83).
 Com a autoridade que todos lhe reconhecem, Clark afirma que o amor ideal era desconhecido na Antiguidade. Na Antiguidade só existia  o amor físico, o gozo carnal, não “o estado de total submissão aos desejos de uma mulher”, ou - dito de outra maneira -:“o sentimento do amor ideal ou cortês”.
(Ibid. p. 83).
Para um grego, ou para um romano, seria algo “grande demais” gastar uma vida cortejando uma dama exigente ou sofrendo por ela. Isso seria “não só absurdo mas inconcebível”:
‘- Entretanto, conclui Clark,tal atitude  foi aceita durante séculos e inspirou enormemente a literatura, desde Chrétien de Troyes a Shelley (...)
A Shelley?
Pensemos, como herdeiros que somos da língua portuguesa, em Camões, e seus Sonetos.
Laura – a amada idealizada de Petrarca – serviu de modelo à lírica amorosa de Camões.
Antonio José Saraiva e Oscar Lópes dizem-no sem rodeios::
- No retrato da Amada, Camões não faz mais do que seguir o padrão de Laura.  
(História da Literatura Portuguesa. Porto, Porto Editora, 1973. p.340).
Que diremos de nosso Tomás  Antônio Gonzaga, e sua Marília de Dirceu? Não segue ele o modelo de Camões?
Petrarca dedicou sua vida, e a maior parte dos 366 poemas do seu Cancioneiro a celebrar uma mulher que, muito jovem, se casou com um nobre e, ao longo de sua existência, teve 11 filhos.
Com certo humor brejeiro, o erudito Jamil Almansur Haddad, tradutor para o português de excertos do Cancioneiro, adverte:
- Na vida, a Musa (de Petrarca) chamava-se Laura de Noves, casada aos 18 anos de idade com Ugo de Sade. Conheceu-a o poeta em 1327 numa igreja, havendo já dois anos que estava casada, e dela se enamorou. Quer dizer que já vem de longe a tradição de os senhores poetas se interessarem pelas senhoras casadas... Petrarca amou-a então por mais vinte anos que Laura viveu, e os vinte que o poeta lhe sobreviveu. Sempre fiel em seu amor por essa afinal de contas avantajada matrona.
(“Introdução” ao Cancioneiro de Petrarca. Rio de Janeiro,  Technoprint Gráfica- Edições de Ouro, 1967..p.24).
Clark aproveita a oportunidade para mostrar-nos como, na famosa tapeçaria  A Dama com o Unicórnio, jóia do Museu de Cluny em Paris, cujo “tema aparente são os quatro sentidos”, se exibe – em verdade – uma alegoria do poder do amor, que consegue subjugar as forças da natureza, a saber, a luxúria e a ferocidade, simbolizadas pelo Unicórnio e pelo Leão:
‘- Lá estão, remata Clark,  ajoelhados aos pés dessa encarnação da castidade, segurando a orla de sua tenda. No sentido heráldico, tais feras se tornaram seus defensores.(...) Em volta da Dama vê-se a natureza domesticada no cachorrinho sentado na almofada. É uma imagem da mais requintada felicidade mundana, que os franceses denominam douceur de vivre, por muitos confundida com civilização.
(Civilização. p. 81).
Que pretende dizer com isso Clark senão que do Culto à Virgem deriva, em boa parte, a veneração erótico-sentimental que os nossos ancestrais dedicavam à Mulher?
Um pouco adiante, o historiador nos surpreende com uma ducha fria:
‘-Parece que isso acabou...
(Civilização. p. 84).


IV.

Acabou?
Acho que não acabou.
Prefiro falar em eclipse.
A cortesia sofreu um eclipse, e como todos os eclipses, não suprimiu a luz. Esta pode reaparecer, e ter a última palavra.
É possível que a Humanidade já experimente saudades do amor cortês, e as mulheres estejam um pouco arrependidas de ter sido ludibriadas pela astúcia dos homens, e por sua própria voluptuosidade.
O romantismo, como estado de espírito, possui sete fôlegos.
 É por isso que, enquanto alguns esnobes pensam, com arrogância, obrigar o povão a segui-los, o povão dá um jeito de recuperar o Romantismo através do kitsch, ou de formas atenuadas de pressão artística e social.


IV.

Reflexionemos brevemente sobre a relativização do pudor e o pretenso descaramento da mulher contemporânea.
Até onde será verdade que a mulher de hoje é descarada?
É fora de dúvida que existem mulheres descaradas, ou se quiserem, impudentes, desavergonhadas, insólitas e insolentes. Muitas delas escondem seu descaramento sob as aparências de profissionalismo. São manequins, top-models, etc.
A bem da verdade, não confundamos as descaradas com as profissionais, no sentido rigoroso do termo.
 As descaradas distinguem-se das não-descaradas por um  plus de egolatria, super-vaidade, fixação nas suas curvas e recurvas, enfim, na primazia concedida aos quadris e nádegas.
Já as profissionais, sem abdicarem de seus quadris e nádegas, submetem-nas a uma espécie de coreografia mais elevada, dentro da qual a inteligência e a sensibilidade impõem o que se chama, em qualquer região do mundo, de  elegância.
O sex-appeal,uma sorte de atração regida pelo bom gosto, pode ser elegante, até mesmo elegantíssimo, quando, apesar de seu esplendor erótico, não se sobrepõe à personalidade, ou melhor, à pessoalidade da possuidora.
 Essas profissionais sabem que o melhor não é reservado aos voyeurs, mas aos maridos e amantes, nos seus espaços de fruição..
A cortesia, no seu significado primordial, isto é, medieval ou romântico, pode coexistir com os hábitos de nossa civilização, mesmo quando esta cede às tentações do híbrido e do debochado.
Felizmente, para honra da humanidade, existem, no mundo do espetáculo,e em outros mundos, exemplos de mulheres que não precisam ser descaradas para obterem sucesso.
Exemplos?
Pensem em Kiri Te Kanawa. June Anderson, Mirella Freni e Renée Fleming  no mundo da Opera; ou em alguns icones da música popular, como Adele (nome sugerido por minha neta Ingrid, já que não tenho informações específicas nessa área), em Meryl Streep no cinema, em Fernanda Montenegro no teatro.
Pensem em outros nomes pertencentes a qualquer outro ramo artístico, desde que se admita que tais mulheres têm tudo o que têm as outras mulheres: atração, beleza, charme, sortilégio, inteligência, sensibilidade, cultura: e que estes atributos são acompanhados por um não sei quê da graça digamos de um  Botticelli,  ou de um Modigliani.
A cortesia é privilégio de mulheres, não de “fêmeas” ou de criações ficcionais de costureiros e manipuladores de grandes negócios em torno do Sexo.
Tais mulheres sexy-bombs (como as chamava Vittorio Gassman na sua autobiografia) não são dignas da homenagem da cortesia. Merecem, apenas, o respeito, que é decvido também às meretrizes, na sua condição de seres humanos.

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