quinta-feira, 29 de março de 2012

A Barbarização da Europa?

Estará a Europa à Espera de um Neo-Renascimento?
(Devaneio sobre um Continente).

Uma pergunta começa a perturbar a opinião pública: estaria barbarizando-se a Europa?
Noutras palavras: estaria ocorrendo no Continente europeu um regresso a hábitos de vida coletiva regidos pela lei do mais forte, e por outras leis predatórias do mesmo gênero?
Nos tempos pré-civilizatórios não existiam Direitos Humanos. Existiam Direitos Animais, ou se preferirmos, Direitos Irracionais.
Quem teria, hoje, competência para pronunciar-se sobre questão tão relevante - e embaraçosa?
A Europa, nossa conhecida até ontem, era a Europa dos estudos humanísticos, a Europa civilizada (até certo ponto, já que não existe Civilização em estado laboratorial). Conhecíamos uma Europa onde se podia viver com certa normalidade, sem assaltos, nem vexames, (como nós lá vivemos, na década de 60, quando estudávamos na Universidade de Fribourg, na Suíça).
Diríamos que essa Europa deixou saudades! Vivia relativamente em paz – a despeito de duas Guerras que a tinham devastado, e de seus campos de concentração e câmaras de gás, cuja memória será sempre motivo de confusão e vergonha, não só para a Europa, mas para a humanidade inteira.
Topamos, na atualidade, com uma Europa heteróclita, que oferece a lamentável impressão de ter perdido parte de sua memória, e de modo especial sua unidade, se é que essa unidade existiu alguma vez.
A Europa de 2012 pode ser, às vezes, francesa, alemã, inglesa, ou italiana...Ela tornou-se uma sorte de Europa semi-anônima– malgrado os desesperados esforços que os “europeenses” fazem para viabilizar um denominador comum.
Seus líderes políticos vêm, há muito, apostando na pior das unidades, dentre as que se apresentavam no seu leque de opções: a econômica, a unidade da moeda única – imaginando, possivelmente, que a economia, cuja única lei aceita na sociedade consumista, é a da selva, pudesse recivilizá-los.
Pensando melhor: teriam esses líderes outra opção pragmática diante das pressões americana e chinesa?
Na ânsia pela obtenção de seu novo status mundial, a Europa prescindiu do legado cristão – no que este possuía de mais intrínseco e renovador, preferindo-se aos seus verdadeiros valores religiosos, intelectuais e éticos, fósseis de valores, fósseis culturais e ideológicos recolhidos nos destroços do próprio Cristianismo. Tais fósseis não oferecem nenhuma utilidade prática, salvo para os estudiosos de Paleontologia Psíquica.
Para explicar a derrocada de seu universo, os europeus têm recorddido, algumas vezes, a um bode expiatório. O caprino chegou na hora certa: são os migrantes de todos continentes, que desabaram na Eurozona, turcos, maghrebinos, africanos, latino-americanos, chineses, representantes de todos os animais racionais existentes no Planeta.
 Dotaram o Continente de uma braçalidade laboral multicolorida e esfuziante.  Não se tratou, apenas, de um déferlement étnico! Visto que a Europa vinha se descristianizando há séculos, não subsistiam nela anticorpos que pudessem reabsorver os elementos solapadores, procedentes do Islamismo, do Africanismo, do Latino-Americanismo - admirável coquetel de sincretismos que substituiu os cálices de cristal da finesse  autóctone.
Confiada em suas bases filosóficas e ideológicas, a Europa pensou que podia neutralizar, ou ao menos, desarmar tais importações mentais.
O mal-estar civilizatório, infelizmente, tomou conta dela, não atingindo somente os europeus. Atingiu, por ricochete os recém-chegados.
Barbarizou-se a Europa?
Convém usar-se um eufemismo: deseuropeizou-se.
Talvez tenha ocorrido um fenômeno de anestesia progressiva de uma certa identidade.
Se, como sempre se supôs, existira já uma Europa com rosto específico, ao menos desde Carlos Magno, o Pai da Europa, semelhante identidade acabou deformando-se. Nutrida pelo Cristianismo, robustecida pelo Humanismo renascentista, ela recebeu no seu tronco variedade infinita de enxertos, alguns dos quais sem nenhuma afinidade com sua vocação semítico-cristã.
Em termos mais generosos: a Europa não se barbarizou, deixou apenas de ser o que era, ou o que pretendia ser, ou o que desejava ser.
Deixou de ser uma certa Europa, para ser um simulacro de si mesma.
Até hoje nunca havia existido uma Europa tão estranha a si mesma. Referimo-nos a essa Europa que nos contempla atualmente, à maneira da Europa “posta nos cotovelos” de Fernando Pessoa, a que fitava o Ocidente, “futuro do passado”, “com olhar “esfíngico e fatal”. Cada nação européia reivindica, hoje, seu passado, revelando uma paixão mórbida pelo seu DNA psíquico, o qual, com certa freqüência, contradiz o Liberalismo, que conferiu a seus filósofos o honroso título de Mestres do Livre Pensar.
Temos, pois, diante de nós, uma Europa caleidoscópica, cujas características étnicas e culturais se afirmam com raiva, tanto mais espumante quanto menos detectável a olho nu.
É evidente que a ex-Europa continua, aos olhos dos estranhos, pluralista, fraterna, cortês.
Por isso, o Terrorismo, que a mergulha na confusão e no terror, encontra nela, não uma aliada complacente, mas uma Velha Senhora à Dürrematt.
É melancólico para nós, que nos consideramos seus filhos espirituais, intelectuais, econômicos, políticos, olhar para ela, e ter de presenciar cenas como a do cerco do drogado psíquico, o fanatizado franco-argelino de Toulouse.
Sem dúvida, ele não escapou das mãos dos policiais franceses...
Dirijamo-nos, portanto, à Velha e sempre Nova Mãe, dizendo-lhe, quase à maneira de uma prece:

- Ó Europa, a quem tanto amamos, e a quem tanto queremos amar, voltarás a ser, não o que já foste, nem o que talvez tenhas sido, mas o que tens a obrigação de ser, por te haver sido atribuída a herança do que de melhor foi criado e produzido em dois mil anos, no Ocidente?
Recobrarás um mínimo de dignidade, e de influência política e religiosa, que volte a te aproximar da que exibias,a nós, terceiro-mundistas (que, por nossa vez, sonhamos ser o que nunca fomos!), de modo que possamos, por uma espécie de milagre, reencontrar em ti os estímulos, que
podem nos impulsionar rumo a uma utópica Liberdade, e também a um utópico Cristianismo?
 Não queremos, evidentemente, um Cristianismo à Constantino Magno, o filho da piedosa Santa Helena, Estatal e interesseiro, nem um Cristianismo à Vaticano, em permanentes relações promíscuas com a Política e o Mundo dos Negócios, mas um Proto-Cristianismo recém-nascido (se possível) do Evangelho de Jesus, e do exemplo humilde de seu discípulo mais próximo a nós no tempo, Francisco de Assis.
 Talvez algum sucessor do Poverello nos conduza a esse Cristianismo autônomo, fundamentado na Bíblia, na Tradição Apostólica, e na Fé de seus seguidores mais abertos, Cristiasnismo que se recusa a pactuar com os magnatas deste mundo, cuja permissivividade ética, sexual e consumista já não permite a salvação das crianças, dos ofendidos e dos humilhados, na medida em que estes retêm vestígios da imagem e semelhança do Gênesis, e das imagens xilográficas do Cristo Sofredor e Ressuscitado, que comovem os verdadeiros adoradores em espírito e verdade, desde o século de Tibério até ao século de Martin Luther King Jr. e Teresa de Calcutá.  

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