quinta-feira, 29 de março de 2012

O Crucifixo e o Poder Juduciário no RS.

O advogado Antônio Carlos Gomes Nunes, de Porto Alegre, publicou na edição de domingo, dia 18 de março pp., no jornal Zero Hora uma crônica sobre o pedido das “lésbicas gaúchas”, sugerindo às autoridades competentes, a retirada do Crucifixo de todas as dependências do poder Judiciário no Estado do Rio Grande do Sul.
Esse artigo merece nosso aplauso, o de qualquer cidadão que tenha sensatez e respeito às tradições cristãs do nosso povo.
      Associando-me ao Dr. Gomes Nunes, desejaria acrescentar complementos ao seu texto.
      Comecemos por esquecer que Jesus é venerado como uma Pessoa Divina, a qual, tendo assumido a natureza humana, teve um objetivo generoso: o de reconduzir os homens à sua condição de filhos adotivos de Deus. Demos um passo mais: consideremos tal intenção uma ficção teológica. Esqueçamos, também, que sem o Cristianismo, as múltiplas declarações, - mesmo a da Revolução Francesa - sobre os Direitos Humanos talvez não tivessem sido possíveis.
      Admiro-me,ou antes, me espanto de que pessoas cultas tenham tido idéia tão infeliz, para não dizer “vingativa”.
Notem bem: refiro-me à imagem do Crucificado.
Jesus não pertence mais aos cristãos. É a figura humana mais prototípica de um injustiçado. Se Jesus está exposto nas dependências do Judiciário é por uma razão a-católica, ou supra-católica. Ele está ali para lembrar aos juízes e advogados que o maior Inocente que já houve na História foi condenado sem culpa, foi submetido ao pior suplício da época, por um representante de um regime imperialista, o dos Romanos. A rigor, Jesus não foi condenado pelo Sinédrio Judeu, mas por Pilatos, em nome do Imperador Tibério.
Portanto, quando um réu olha para a imagem do Crucifixo,numa dependência do Judiciário, não olha, propriamente,para o Fundador do Cristianismo, mas para  o de um homem, que representa todos os homens, cujos direitos foram violados gravemente.
É preciso repelir esses ataques das minorias que, depois de terem sido atacadas durante séculos, pelas maiorias, começam a imitar o pior Cristianismo que já houve, o do Imperador Teodósio Magno (346-395 d.C.), um dos sucessores de Constantino, que sendo cristão, esqueceu que seus irmãos tinham sido perseguidos, e por isso perseguiu os antigos perseguidores dios cristãos, os pagãos.
As lésbicas têm sido perseguidas, isto é, discriminadas, em nossa sociedade. Têm sido objeto de exclusão, e até, de um intolerável desdém. Seria ótimo se elas se lembrassem de seus perseguidores, e por sua vez, não perseguissem ninguém.
Se, por acaso, o corpo semi-nu de Cristo, exposto na Cruz, lhes evocar o machismo, causa-mor do desprezo que se4mpre sofreram, prescindam desse detalhe, uma vez que  a nudez sempre foi a marca das vítimas.
Li, certa vez, que até na China, onde a nudez em Arte praticamente nunca existiu, ela era admitida em se tratando de criminosos.
Nosso mundo está necessitando de maior largueza intelectual, e de um pouco de sal mental, o do humorismo. As pessoas parece que tendem a levar-se muito a sério.
O demasiado sério é ridículo.

A Barbarização da Europa?

Estará a Europa à Espera de um Neo-Renascimento?
(Devaneio sobre um Continente).

Uma pergunta começa a perturbar a opinião pública: estaria barbarizando-se a Europa?
Noutras palavras: estaria ocorrendo no Continente europeu um regresso a hábitos de vida coletiva regidos pela lei do mais forte, e por outras leis predatórias do mesmo gênero?
Nos tempos pré-civilizatórios não existiam Direitos Humanos. Existiam Direitos Animais, ou se preferirmos, Direitos Irracionais.
Quem teria, hoje, competência para pronunciar-se sobre questão tão relevante - e embaraçosa?
A Europa, nossa conhecida até ontem, era a Europa dos estudos humanísticos, a Europa civilizada (até certo ponto, já que não existe Civilização em estado laboratorial). Conhecíamos uma Europa onde se podia viver com certa normalidade, sem assaltos, nem vexames, (como nós lá vivemos, na década de 60, quando estudávamos na Universidade de Fribourg, na Suíça).
Diríamos que essa Europa deixou saudades! Vivia relativamente em paz – a despeito de duas Guerras que a tinham devastado, e de seus campos de concentração e câmaras de gás, cuja memória será sempre motivo de confusão e vergonha, não só para a Europa, mas para a humanidade inteira.
Topamos, na atualidade, com uma Europa heteróclita, que oferece a lamentável impressão de ter perdido parte de sua memória, e de modo especial sua unidade, se é que essa unidade existiu alguma vez.
A Europa de 2012 pode ser, às vezes, francesa, alemã, inglesa, ou italiana...Ela tornou-se uma sorte de Europa semi-anônima– malgrado os desesperados esforços que os “europeenses” fazem para viabilizar um denominador comum.
Seus líderes políticos vêm, há muito, apostando na pior das unidades, dentre as que se apresentavam no seu leque de opções: a econômica, a unidade da moeda única – imaginando, possivelmente, que a economia, cuja única lei aceita na sociedade consumista, é a da selva, pudesse recivilizá-los.
Pensando melhor: teriam esses líderes outra opção pragmática diante das pressões americana e chinesa?
Na ânsia pela obtenção de seu novo status mundial, a Europa prescindiu do legado cristão – no que este possuía de mais intrínseco e renovador, preferindo-se aos seus verdadeiros valores religiosos, intelectuais e éticos, fósseis de valores, fósseis culturais e ideológicos recolhidos nos destroços do próprio Cristianismo. Tais fósseis não oferecem nenhuma utilidade prática, salvo para os estudiosos de Paleontologia Psíquica.
Para explicar a derrocada de seu universo, os europeus têm recorddido, algumas vezes, a um bode expiatório. O caprino chegou na hora certa: são os migrantes de todos continentes, que desabaram na Eurozona, turcos, maghrebinos, africanos, latino-americanos, chineses, representantes de todos os animais racionais existentes no Planeta.
 Dotaram o Continente de uma braçalidade laboral multicolorida e esfuziante.  Não se tratou, apenas, de um déferlement étnico! Visto que a Europa vinha se descristianizando há séculos, não subsistiam nela anticorpos que pudessem reabsorver os elementos solapadores, procedentes do Islamismo, do Africanismo, do Latino-Americanismo - admirável coquetel de sincretismos que substituiu os cálices de cristal da finesse  autóctone.
Confiada em suas bases filosóficas e ideológicas, a Europa pensou que podia neutralizar, ou ao menos, desarmar tais importações mentais.
O mal-estar civilizatório, infelizmente, tomou conta dela, não atingindo somente os europeus. Atingiu, por ricochete os recém-chegados.
Barbarizou-se a Europa?
Convém usar-se um eufemismo: deseuropeizou-se.
Talvez tenha ocorrido um fenômeno de anestesia progressiva de uma certa identidade.
Se, como sempre se supôs, existira já uma Europa com rosto específico, ao menos desde Carlos Magno, o Pai da Europa, semelhante identidade acabou deformando-se. Nutrida pelo Cristianismo, robustecida pelo Humanismo renascentista, ela recebeu no seu tronco variedade infinita de enxertos, alguns dos quais sem nenhuma afinidade com sua vocação semítico-cristã.
Em termos mais generosos: a Europa não se barbarizou, deixou apenas de ser o que era, ou o que pretendia ser, ou o que desejava ser.
Deixou de ser uma certa Europa, para ser um simulacro de si mesma.
Até hoje nunca havia existido uma Europa tão estranha a si mesma. Referimo-nos a essa Europa que nos contempla atualmente, à maneira da Europa “posta nos cotovelos” de Fernando Pessoa, a que fitava o Ocidente, “futuro do passado”, “com olhar “esfíngico e fatal”. Cada nação européia reivindica, hoje, seu passado, revelando uma paixão mórbida pelo seu DNA psíquico, o qual, com certa freqüência, contradiz o Liberalismo, que conferiu a seus filósofos o honroso título de Mestres do Livre Pensar.
Temos, pois, diante de nós, uma Europa caleidoscópica, cujas características étnicas e culturais se afirmam com raiva, tanto mais espumante quanto menos detectável a olho nu.
É evidente que a ex-Europa continua, aos olhos dos estranhos, pluralista, fraterna, cortês.
Por isso, o Terrorismo, que a mergulha na confusão e no terror, encontra nela, não uma aliada complacente, mas uma Velha Senhora à Dürrematt.
É melancólico para nós, que nos consideramos seus filhos espirituais, intelectuais, econômicos, políticos, olhar para ela, e ter de presenciar cenas como a do cerco do drogado psíquico, o fanatizado franco-argelino de Toulouse.
Sem dúvida, ele não escapou das mãos dos policiais franceses...
Dirijamo-nos, portanto, à Velha e sempre Nova Mãe, dizendo-lhe, quase à maneira de uma prece:

- Ó Europa, a quem tanto amamos, e a quem tanto queremos amar, voltarás a ser, não o que já foste, nem o que talvez tenhas sido, mas o que tens a obrigação de ser, por te haver sido atribuída a herança do que de melhor foi criado e produzido em dois mil anos, no Ocidente?
Recobrarás um mínimo de dignidade, e de influência política e religiosa, que volte a te aproximar da que exibias,a nós, terceiro-mundistas (que, por nossa vez, sonhamos ser o que nunca fomos!), de modo que possamos, por uma espécie de milagre, reencontrar em ti os estímulos, que
podem nos impulsionar rumo a uma utópica Liberdade, e também a um utópico Cristianismo?
 Não queremos, evidentemente, um Cristianismo à Constantino Magno, o filho da piedosa Santa Helena, Estatal e interesseiro, nem um Cristianismo à Vaticano, em permanentes relações promíscuas com a Política e o Mundo dos Negócios, mas um Proto-Cristianismo recém-nascido (se possível) do Evangelho de Jesus, e do exemplo humilde de seu discípulo mais próximo a nós no tempo, Francisco de Assis.
 Talvez algum sucessor do Poverello nos conduza a esse Cristianismo autônomo, fundamentado na Bíblia, na Tradição Apostólica, e na Fé de seus seguidores mais abertos, Cristiasnismo que se recusa a pactuar com os magnatas deste mundo, cuja permissivividade ética, sexual e consumista já não permite a salvação das crianças, dos ofendidos e dos humilhados, na medida em que estes retêm vestígios da imagem e semelhança do Gênesis, e das imagens xilográficas do Cristo Sofredor e Ressuscitado, que comovem os verdadeiros adoradores em espírito e verdade, desde o século de Tibério até ao século de Martin Luther King Jr. e Teresa de Calcutá.  

segunda-feira, 5 de março de 2012

“A Dama com o Unicórnio” e a Cortesia.

I.
O historiador da Arte, Kenneth Clark (1903-1983) pertenceu à maravilhosa plêiade de historiadores que não só eram eruditos e professores universitários – como também gourmets de sensibilidade, capazes de unir a ciência e a finesse num único e aromático buquê.
Clark escreveu uma página que me impressionou particularmente, sobre a qual tenho refletido com certa freqüência.
O nosso século XXI parece caracterizar-se por um Réquiem à cortesia, em geral, e à cortesia no tocante à mulher em especial.
Sob pretexto de democratização dos costumes, de socialização da vida diária, e outras parolices,  ninguém mais se importa com aquilo que, outrora, era conceituado como Cavalheirismo:
- Tirar o chapéu diante das senhoras, dar-lhes precedência, e na América de outros tempos, ajudá-las a sentarem-se à mesa...
Acrescenta Clark:
- Cultivávamos a ilusão de que elas eram seres castos e puros, em cuja presença não podíamos contar certas piadas, nem proferir certas palavras.
Não concordo totalmente com Kenneth Clark!
Havia, também, no celebrado cavalheirismo uma ritualização de gestos mecânicos .
O que me interessa saber é se ainda existe, no mundo em que vivemos, polidez, e – mais do que polidez – o refinamento chamado Cortesia.
Em boa hora, o século XX varreu farfalhices pseudo-c ortesãs, terraplenou códigos artificiais de comportamento, desgalhou beijos e abraços.
A mulher contemporânea evoluiu para uma certa simplicidade. É verdade que, após a simplicidade, a vulgaridade também apareceu, e seus chifrezinhos maléficos.
Despindo sua casca de serpente heráldica, a mulher de nossos dias assumiu-se, não raro a contragosto, também como serpente de verdade, inclusive a mulher superior, genericamente discreta.
A emancipação feminina teve seu início e, também, teve seu fim.
A expressão “emancipar-se” significa, literalmente: livrar-se da escravidão.
Sim, a mulher deixou de ser escrava. Deixou de submeter-se ao machismo opressor.
Mas foi o cachimbo do homem que entortou a boca da mulher!
 Ao humilhá-la, para satisfazer seus instintos - normais ou bestiais – o homem impôs à mulher a sofisticação de sua perfídia, a pós-graduação em insídias, a otimização de suas raposices e de seus jogos de faz-de-conta.
Por sua vez, os homens felicitaram-se por poder proclamar, com a ajuda de Verdi, que La Donna è Mobile!
 Mobile?
É cômico verificar a quantidade estapafúrfia de clichês que os machos atribuíram às mulheres, como se tais pseudo-qualidades lhes fossem conaturais.
Contribuíram para isso, com bom balaio de frutos ácidos, os míticos monges celibatários da Idade Média, herdeiros das ascese desumanas dos eremitas do Egito.
A pena venenosa de Anatole France satirizou um desses anacoretas no romance Thaís,  convertido em Ópera por Jules Massenet (1842-1912).

II.
Precisamos, ainda, saber por que os monges da Tebaida  se afastaram do Evangelho de Cristo, e da própria atitude Dele.
Cristo reprovou, sem dúvida, o comportamento de mulheres adúlteras. Nunca, porém, as desprezou.
A uma delas, depois de perdoar-lhe os pecados, disse-lhe:
- Vai em paz, e não tornes a pecar.
O Salvador foi mais cáustico no tocante à duplicidade de seus adversários. Invectivou-os:
- As prostitutas vos precederão no Reino dos Céus.
Nos séculos  III e IV d.C., a misoginia vicejou nos meios eclesiásticos.
Finjamos ignorar o que houve, a esse respeito, de indecoroso, e até de estúpido, na História da Igreja.
A partir de determinada época, principalmente nos tempos do Românico, aproximadamente no Ano Mil, a tensão anti-feminina intensificou-se.
Essa tensão não deteve a evolução da mentalidade, e especialmente, da sensibilidade cristã.
Deixou-a excitada, um tanto histérica.
Com o decurso dos anos, graças especialmente ao surgimento da Poesia de Amor Cortês e, simultaneamente, à descoberta do Culto à Mãe de Deus, promovido por  Francisco de Assis, Anselmo de Canterbury e Bernardo de Claraval, surgiu, no interior do Cristianismo, inclusive em seu bojo oficial, uma nova atitude em relação à Mulher.
Na Idade da Fé, ou seja, no tempo do Gótico Radioso, a mulher foi respeitada, até idealizada, como o revelam as poesias de Dante Alighieri, sw Petrarca, e antes deles, os hinos consagrado à Virgem, entre os quais a sublime antífona Salve Rainha.

III.

Voltemos a Kenneth Clark.
O ilustre historiador indicou o Portal Norte da Catedral de Chartres como o local onde já se identificam os sinais anunciadores da mudança de mentalidade, e sobretudo de sensibilidade:
- No canto do pórtico, vê-se a primeira figura intencionalmente graciosa da Arte Ocidental. Não fazia muito tempo, as mulheres eram imaginadas como viragos mal-humoradas e atarracadas, como se vê na Pia Batismal da Catedral de Winchester.(...) Admirem agora esta encarnação da castidade, segurando o manto, levantando a mão, voltando o rosto num gesto delicado e tímido – que mais tarde se tornaria afetado, mas que aqui é genuinamente modesto. Poderia ser a Beatriz de Dante. Na realidade, representa uma Santa, chamada Modesta(...) Aqui, pela primeira vez na arte visual, temos um sentido da relação humana entre o homem e a mulher.
(Civilização. Uma Visão Pessoal. Tradução de Madalena Nicol. São Paulo-Brasília, Martins Fontes Editora-Editora Universidade do Brasil,-1980, p.81-83).
 Com a autoridade que todos lhe reconhecem, Clark afirma que o amor ideal era desconhecido na Antiguidade. Na Antiguidade só existia  o amor físico, o gozo carnal, não “o estado de total submissão aos desejos de uma mulher”, ou - dito de outra maneira -:“o sentimento do amor ideal ou cortês”.
(Ibid. p. 83).
Para um grego, ou para um romano, seria algo “grande demais” gastar uma vida cortejando uma dama exigente ou sofrendo por ela. Isso seria “não só absurdo mas inconcebível”:
‘- Entretanto, conclui Clark,tal atitude  foi aceita durante séculos e inspirou enormemente a literatura, desde Chrétien de Troyes a Shelley (...)
A Shelley?
Pensemos, como herdeiros que somos da língua portuguesa, em Camões, e seus Sonetos.
Laura – a amada idealizada de Petrarca – serviu de modelo à lírica amorosa de Camões.
Antonio José Saraiva e Oscar Lópes dizem-no sem rodeios::
- No retrato da Amada, Camões não faz mais do que seguir o padrão de Laura.  
(História da Literatura Portuguesa. Porto, Porto Editora, 1973. p.340).
Que diremos de nosso Tomás  Antônio Gonzaga, e sua Marília de Dirceu? Não segue ele o modelo de Camões?
Petrarca dedicou sua vida, e a maior parte dos 366 poemas do seu Cancioneiro a celebrar uma mulher que, muito jovem, se casou com um nobre e, ao longo de sua existência, teve 11 filhos.
Com certo humor brejeiro, o erudito Jamil Almansur Haddad, tradutor para o português de excertos do Cancioneiro, adverte:
- Na vida, a Musa (de Petrarca) chamava-se Laura de Noves, casada aos 18 anos de idade com Ugo de Sade. Conheceu-a o poeta em 1327 numa igreja, havendo já dois anos que estava casada, e dela se enamorou. Quer dizer que já vem de longe a tradição de os senhores poetas se interessarem pelas senhoras casadas... Petrarca amou-a então por mais vinte anos que Laura viveu, e os vinte que o poeta lhe sobreviveu. Sempre fiel em seu amor por essa afinal de contas avantajada matrona.
(“Introdução” ao Cancioneiro de Petrarca. Rio de Janeiro,  Technoprint Gráfica- Edições de Ouro, 1967..p.24).
Clark aproveita a oportunidade para mostrar-nos como, na famosa tapeçaria  A Dama com o Unicórnio, jóia do Museu de Cluny em Paris, cujo “tema aparente são os quatro sentidos”, se exibe – em verdade – uma alegoria do poder do amor, que consegue subjugar as forças da natureza, a saber, a luxúria e a ferocidade, simbolizadas pelo Unicórnio e pelo Leão:
‘- Lá estão, remata Clark,  ajoelhados aos pés dessa encarnação da castidade, segurando a orla de sua tenda. No sentido heráldico, tais feras se tornaram seus defensores.(...) Em volta da Dama vê-se a natureza domesticada no cachorrinho sentado na almofada. É uma imagem da mais requintada felicidade mundana, que os franceses denominam douceur de vivre, por muitos confundida com civilização.
(Civilização. p. 81).
Que pretende dizer com isso Clark senão que do Culto à Virgem deriva, em boa parte, a veneração erótico-sentimental que os nossos ancestrais dedicavam à Mulher?
Um pouco adiante, o historiador nos surpreende com uma ducha fria:
‘-Parece que isso acabou...
(Civilização. p. 84).


IV.

Acabou?
Acho que não acabou.
Prefiro falar em eclipse.
A cortesia sofreu um eclipse, e como todos os eclipses, não suprimiu a luz. Esta pode reaparecer, e ter a última palavra.
É possível que a Humanidade já experimente saudades do amor cortês, e as mulheres estejam um pouco arrependidas de ter sido ludibriadas pela astúcia dos homens, e por sua própria voluptuosidade.
O romantismo, como estado de espírito, possui sete fôlegos.
 É por isso que, enquanto alguns esnobes pensam, com arrogância, obrigar o povão a segui-los, o povão dá um jeito de recuperar o Romantismo através do kitsch, ou de formas atenuadas de pressão artística e social.


IV.

Reflexionemos brevemente sobre a relativização do pudor e o pretenso descaramento da mulher contemporânea.
Até onde será verdade que a mulher de hoje é descarada?
É fora de dúvida que existem mulheres descaradas, ou se quiserem, impudentes, desavergonhadas, insólitas e insolentes. Muitas delas escondem seu descaramento sob as aparências de profissionalismo. São manequins, top-models, etc.
A bem da verdade, não confundamos as descaradas com as profissionais, no sentido rigoroso do termo.
 As descaradas distinguem-se das não-descaradas por um  plus de egolatria, super-vaidade, fixação nas suas curvas e recurvas, enfim, na primazia concedida aos quadris e nádegas.
Já as profissionais, sem abdicarem de seus quadris e nádegas, submetem-nas a uma espécie de coreografia mais elevada, dentro da qual a inteligência e a sensibilidade impõem o que se chama, em qualquer região do mundo, de  elegância.
O sex-appeal,uma sorte de atração regida pelo bom gosto, pode ser elegante, até mesmo elegantíssimo, quando, apesar de seu esplendor erótico, não se sobrepõe à personalidade, ou melhor, à pessoalidade da possuidora.
 Essas profissionais sabem que o melhor não é reservado aos voyeurs, mas aos maridos e amantes, nos seus espaços de fruição..
A cortesia, no seu significado primordial, isto é, medieval ou romântico, pode coexistir com os hábitos de nossa civilização, mesmo quando esta cede às tentações do híbrido e do debochado.
Felizmente, para honra da humanidade, existem, no mundo do espetáculo,e em outros mundos, exemplos de mulheres que não precisam ser descaradas para obterem sucesso.
Exemplos?
Pensem em Kiri Te Kanawa. June Anderson, Mirella Freni e Renée Fleming  no mundo da Opera; ou em alguns icones da música popular, como Adele (nome sugerido por minha neta Ingrid, já que não tenho informações específicas nessa área), em Meryl Streep no cinema, em Fernanda Montenegro no teatro.
Pensem em outros nomes pertencentes a qualquer outro ramo artístico, desde que se admita que tais mulheres têm tudo o que têm as outras mulheres: atração, beleza, charme, sortilégio, inteligência, sensibilidade, cultura: e que estes atributos são acompanhados por um não sei quê da graça digamos de um  Botticelli,  ou de um Modigliani.
A cortesia é privilégio de mulheres, não de “fêmeas” ou de criações ficcionais de costureiros e manipuladores de grandes negócios em torno do Sexo.
Tais mulheres sexy-bombs (como as chamava Vittorio Gassman na sua autobiografia) não são dignas da homenagem da cortesia. Merecem, apenas, o respeito, que é decvido também às meretrizes, na sua condição de seres humanos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Livro mais Triste que Li nos Últimos Anos

     I.
Tenho insistido com amigos para que dêem particular atenção às biografias publicadas nas últimas décadas.
Algumas dessas biografias têm o mesmo valor que os melhores romances contemporâneos.
Digo mais: são-lhes, às vezes, superiores em qualidade literária, e fascinação de leitura.
Indiquei neste blog, tempos atrás, várias biografias que me pareceram excepcionais, entre elas,  as de Gerald Clarke sobre Truman Capote, e de José Castello sobre Vinicius de Moraes.
Acabo de ler outra impressionante biografia, escrita por uma escritora americana de probidade impecável, de respeito único pela pessoa e pelo personagem biografado.
Refiro-me ao livro de Patrícia Morrisroe: Mapplethorpe: uma Biografia. (Tradução de Flávia Villas-Boas. Rio de Janeiro, Editora Record, 1996).
Hesitei antes de a ler.
Não me apetece perder tempo com bizarrices, ou pior ainda, com bisbilhotices sobre ícones da mídia.
Mapplethorpe?
Eu havia visto alguma coisa desse fotógrafo.
Procurei sua biografia e imagens na Internet.
Fiquei, primeiramente, chocado; depois, entediado.
O que, no entanto, me decidiu à leitura do livro foi um acaso: ao folheá-lo, descobri duas coisas raras:
a) que Mapplethorpe procedia de uma família católica tradicional;
 b) que ele, e outros católicos de seu círculo, não se contentavam em não ser católicos: queriam ser maus católicos!
- Você foi educado como católico – perguntou-lhe a autora, na primeira entrevista que teve com o fotógrafo.
- Acho que (...) que tenho uma certa estética católica – explicou.
Patrícia Morrisroe, com amarga ironia, conclui:
 - Fiquei aliviada por descobrir alguma coisa em comum, embora tenha me dado conta de que iria levar mais de duas horas para compreender como um garoto católico de classe média do subúrbio de Queens havia se transformado no documentarista do cenário gay sado-masoquista.
(Ib. p. 14).
Mapplethorpe possuía uma mente confusa. O que ele parecia possuir de clareza, ou perspicácia visual, não tinha em termos de reflexão. Pensava com os olhos, ou seja, com o que via, e não com a ajuda de seus neurônios cerebrais.
O fotógrafo gay sado-masoquista possuía dois olhos azuis, sem dúvida, mas os empregava apenas para si mesmo. Consagrava-os à própria beleza.
Culpa dele?
Era um homem que, com o passar dos anos, ficaria obcecado pela beleza masculina, mas cujo relacionamento mais duradouro em sua vida haveria de ser uma roqueira: Patti Smith
 Mapplethorpe cultuava homens negros, embora os denegrisse com epítetos raciais.
Celebrizou-se pela franqueza, soi-disant  “libertadora”, de suas fotografias e, no entanto, ficava petrificado ao pensar que os pais poderiam descobrir que ele era homossexual.
Foi um mestre da fotografia em preto-e-branco, porém, definitivamente nada havia de preto e branco nele Toda a sua vida era moralmente ambígua.
Reproduzi, quase ipsis litteris, o texto com que Morrisroe remata sua “Nota da Autora”.
Alguém explicará jamais o que aconteceu a esse ex- membro da juventude católica da Paróquia de Nossa Senhora das Neves, em Floral Park, Queens?
 O Padre George Stack, a quem a família de Mapplethorpe pediu para oficiar-lhe as exéquias, contou que, 25 anos antes de morrer, o fotógrafo procurava-o para mostrar-lhe seus desenhos, em geral imagens de Nossa Senhora.  
Pouco antes de morrer, a mãe de Robert Mapplethorpe pediu ao P. Stack que fosse visitar o filho, “a fim de que ele morresse em estado de graça” .
(Ib. p. 22).
Os dois homens passaram uma tarde conversando, depois da qual Robert pediu ao religioso para voltar novamente.
Nesse entretempo, o fotógrafo morreu.
Ciente de que o ex-menino de sua paróquia, se especializara em fotografias homoeróticas de alta voltagem, o benevolente sacerdote não teve outro recurso, na hora do funeral, que lembrar-se dos “lírios” que Mapplethorpe também fotografava.
Animou, pois, os pais, dizendo-lhes:
- Ninguém que vier a mim será por mim rejeitado. Por causa dessa promessa acreditamos que, quando Robert atravessou os portais da morte e se pôs diante do trono do julgamento de Deus, Jesus abriu seus braços para acolher Robert em seu lar.
(Ibid. p. 23).
Atentos leitores, eu vos adverti que Patricia Morrisroe era uma autora excepcional, capaz de mostrar respeito incondicional por seu biografado.
O fotógrafo foi incinerado, e suas cinzas, durante algum tempo, ficaram à espera de uma decisão sobre o local onde deviam ser espalhadas...

II.
Robert foi o terceiro filho de um casal que teve quatro filhos.
Os pais de Mapplethorpe viviam numa cidade provinciana. Eram gente como a gente, embora, posteriormente, a mãe tenha sido declarada maníaco-depressiva.
Robert era o filho favorito de sua mãe.
Cresceu dentro de um esquema doméstico severo, e foi educado segundo os padrões de uma educação católica que o sensibilizou para o conceito de culpa e pecado.
(Ibid. p, 33).
Durante algum tempo, a idéia do inferno aterrorizou o menino.
Robert contou a um amiguinho:
- Tem um relógio no Inferno que toca um carrilhão a cada hora: “Você nunca vai sair daqui...você nunca vai sair daqui...você nunca vai sair daqui”.
(Ib. p. 34).
Seria fastidioso percorrer, ponto por ponto, a vida de Robert, desde o incidente da descoberta pelos pais do romance O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, escondido no seu quarto, até a notícia de quanto o menino se sentia atraído, não só por fotos de mulheres nuas, mas também de homens nus.
A idéia de ser homossexual era, para Robert, “mais do que aterradora”.
(Ib. p. 41).
Aos 18 anos, um companheiro de Robert deu vinte dólares a uma prostituta para poder fazer sexo com ela, e depois passou-a a Mapplethorpe, “cujo desempenho representou um fecho humilhante para a comemoração de seu aniversário”.
(Ib. p. 51).
Mapplethorpe decidiu que seria artista.
Objetou-lhe o pai:
- Como é que você vai ganhar a vida sendo artista?
Tempos depois, Mapplethrope perdeu a virgindade num episódio do qual só guardou constrangimento.
(Ib. p. 58).
Dormiu, a seguir, com outras mulheres, embora o sexo nunca representasse para ele uma experiência deleitosa.
A partir de certo momento, o fotógrafo resolveu conviver com um macaco, cujas estrepolias domésticas o irritaram tanto, que ele acabou decapitando-o com um facão de cozinha.
Ele e um colega, ambos com o projeto de se dedicarem às Artes Visuais, decidiram que não seriam artistas”, se não se liberassem de sua moralidade católica tradicional. Era preciso “abraçar a vida”.
(Ib. p. 62).
Mapplethorpe conheceu, então, uma  moça exótica, Patti Smith. A moça era obcecada por Rimbaud, o poeta francês que pregava le deréglément des sens , isto é, o descontrole dos sentidos, em função de possíveis êxtases extra-sensoriais.
 Amaram-se?
 É difícil saber. De qualquer modo, Patti Smith ajudou Robert a sentir-se mais artista.
Quando, após ter tido uma menina (que entregou para ser adotada), Patti quis ir embora, Robert lhe disse:
- Se você for embora, eu me tornarei gay.
Patti Smith foi embora.
Robert afundou-se no homossexualismo:
- Minha vida começou no verão de 1969. Antes disso, eu não existia.
  (Ib. p. 87).
O que veio a seguir é de uma pasmosa monotonia dentro de uma anormalidade mais pasmosa ainda.
 Um dia, Robert teve um surto. Começou a gritar:
- Sou o demônio! Sou o demônio!
(Ib. p. 111).
Ao completar 24 anos, em 1970, convertera-se, literalmente, “num pavão emplumado em couro”.
(Ib. p. 112).
Os relacionamentos homossexuais tornaram-se freqüentes.
Robert explicou:
- Ninguém queria ser normal nos anos 70...
(Ibid. p.119).
Surgiu um novo parceiro: John Mckendry, indivíduo fascinado pelo proibido, que “adorava a idéia de ser mau católico”.
(Ib. p. 124).
 Mapplethorpe deslumbrou-se:
- Sexo é a única coisa pela qual vale a pena viver...
não havia mais o que fazer.
(Ib. p. 150).
O resto é silêncio...
Se fosse possível haver silêncio... numa existência tão aberrante como a dos jovens da década de 70.
Mapplethorpe tornou-se promísculo, um “viciado sexual”, “ligado em sexo 24 horas”.
(Ib. p. 168-169).
Quase ao mesmo tempo, esse assim dito “gênio da fotografia” defrontou-se com a brutalidade chique dos meios de New York.
O sórdido e o repugnante passaram a dominar o artista. Ao ponto que ele, em 1978, pressionado por um fotógrafo alemão, não vacilou em inserir o cabo de um chicote no ânus, e em seguida voltar um olhar penetrante e desafiador para a câmera...
(Ibid. 218).
Ficou, como um marco histórico, sua Mostra Fotográfica de 1978.
Nesse momento, Patti Smith fez uma reviravolta na sua existência:  abandonou música, drogas, aventuras, sucesso de vendas, tornando-se uma esposa fiel e mãe dedicada.
Mapplethorpe, despeitado, remergulhou ainda mais nos seus abismos.
Seguiu-se a fase dos Amantes Negros.
Depois, O Momento Perfeito.
Por fim, a AIDS.
As amigas, que se apaixonavam por ele, demonstraram-lhe maior solidariedade, por ocasião de sua enfermidade, que todos os Amantes, brancos ou negros, que o tinham acompanhado, e não raro, explorado.
Um dia – como era previsível – desabou sobre a família a notícia inaceitável de sua homossexualidade.
- Oh Deus, não! – gemeu a mãe – Não o meu preferido!
(Ib. p. 369|0
Mapplethorpe confidenciou a um amigo que “sua maior tristeza na vida era não ter conseguido manter um relacionamento bem sucedido com alguém”.
Veio-lhe a idéia de comprar um filhote de cachorro porque desejava algo com quem se aninhar à noite...
(Ibid. p. 378).
Robert Mapplethorpe morreu, aos 42 anos de idade.
Antes de morrer, ouviram-no murmurar:
- Eu vou morrer. Sei que isso vai acontecer, e não quero morrer.
(Ibid. p. 386).
No dia 9 de março de 1988, seu irmão Ed, que estava junto ao leito, cumpriu a promessa que havia feito à mãe: notificar o Capelão do Hospital sobre o estado de saúde de Robert, e pedir-lhe que lhe administrasse os últimos sacramentos.
O Capelão católico do Hospital atendeu ao pedido de Ed.
Uma amiga de Robert, Alexandra Knaust, não o abandonou nunca, Ficou com ele, assistindo-o, dando-lhe todos os alívios possíveis.
O enfermeiro sabia que ela estava exausta, e acreditava que ela não pudesse lidar com a morte de Mapplethorpe.
- Se Robert acordar (afinal concordou Alexandra) diga-lhe que Deus está com ele. Não quero que pense que está sozinho!
Mapplethrope não acordou mais.

III.
Rendamos sincera homenagem a Alexandra Knaust!
Ela foi dormir, porque não tinha mais condições de ficar desperta. Deixou Deus no seu lugar  junto ao fotógrafo.        

IV.
Agradeço à autora, Patrícia Morrisroe, por me ter proporcionado a oportunidade de ler o mais triste livro dos meus últimos anos – e um dos mais tristes que li na minha vida.  
Esse livro, não obstante, teve um efeito paradoxalmente positivo em mim: aproximou-me mais de Deus – e dos homens.
Continuarei a rezar por Robert Mapplethorpe, e por todos os artistas gays que vier a conhecer.
Por ele, e também pelas mulheres, que costumam apaixonar-se por eles.
Afinal, a nós, cristãos, resta um consolo, em casos tão inexplicáveis, insolúveis, e com uma dimensão arrasadora de fatalidade.
Crer firmemente como escrevia o Apóstolo João na sua Terceira Carta, que:
- Se o nosso coração nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.