sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Que eu Sugeriria aos Jornais – se Eles me Perguntassem o que Poderia Torná-los mais Interessantes!

I.     Desde criança habituei-me a ler jornais.
Meu pai tinha o hábito de lê-los.
Isto é: lia os jornais a vôo de pássaro, antecipando-se aos métodos da leitura dinâmica.
Fiquei, mais tarde, fanático por jornais, sobretudo a partir do dia em que consegui inserir neles colaborações minhas. Lá dizia um velho sacristão da Catedral de Santa Maria: “A vaidade é o princípio do abismo.”
Colaborei no Diário do Povo, de Santa Maria,dirigido pelo meu estimado franco-atirador, Clarimundo Flores. Clarimundo não poupava ninguém.
 Era um Mini-Flagelo de Deus.
Tal iniciação jornalística foi, para mim, uma glória.     
Lembro-me bem de como ele me recebeu na sua sala de redação. Reconheço que o modesto espaço de Clarimundo não merecia nome tão pomposo.
Por minha vez, eu era um adolescente que ia oferecer-lhe textos, mas - para todos os efeitos (eu disse: todos!) – já exigia, no íntimo de mim, ser considerado escritor...
Pobre do escritor!
Descobriria -na dita e maldita idade provecta em que estou, que um escritor está sempre aprendendo, e nunca teria imaginado que a conquista de um estilo fosse tarefa para uma vida, que não acaba sequer com o penúltimo suspiro...
        Colaborei, também, no jornal, rival do Diário do Povo, A Razão, pertencente à cadeia dos Diários Associados, que o pároco da Igreja das Dores, fundador do Patronato Antônio Alves Ramos, co-fundador do Hospital Astrojildo de Azevedo, e patrocinador de mil e umas entidades beneficientes, costumava qualificar de Diabos Associados...
Sou, pois, não só um gourmet de jornais, mas um gourmand.
        Assisti, mais tarde, à ascensão e queda de órgãos jornalísticos que eu amava. Como entender, por exemplo, a implosão do Correio do Povo, em cujas páginas eu ia à cata, ansiosamente, aos domingos, do Caderno H de Mario Quintana?
Nas suas páginas lia, também, Moysés Vellinho, Guilhermino César, Theodemiro Tostes, Vianna Moog, Erico Veríssimo, Manuelito de Ornellas, Olyntho Sanmartin, Carlos Reverbel, e principalmente Augusto Meyer, cujo estilo me fascinava. Meyer sempré fez jus ao título que lhe deram: O Erasmo dos Pampas!
        A queda do Correio teve um efeito péssimo em mim: induziu-me à incredulidade jornalística.
Induziu-me a algo pior: ao agnosticismo.
        Não desprezo jornais, como a Zero Hora que resistiu a todas as procelas da democracia e da anti-democracia. Nesse jornal aprendi a conhecer autores de igual importância dos luminares do Correio.
Anos depois, tive um namoro platônico com o Diário do Sul, no qual vi o Tabajara Ruas escrever um editorial que, no dia seguinte li em letra de forma, redigido no meio do batuqueio dactilográfico mais alucinante deste planeta!
 Que editorial!
O Tabajara só podia dar no que deu: num dos maiores romancistas do Rio grande do Sul, principalmente por sua obra-prima (na última versão que lhe deu:): O Amor de Pedro por João.
        Talvez deva referir-me aos belos tempos em que me tornei leitor diário do Jornal do Brasil, da Folha de São Paulo, e de O Globo.
Alguns dos jornais menores, que também apreciava, estão enterrados.
Outros, poucos, continuam vivos, mas neles não se encontra mais Drummond, nem Clarice Lispector, nem outros nomes que, na época, suscitavam minha admiração, como o Gustavo Corção, que escrevia com um sabor machadiano mesclado a outros sabores menores, o qual deixou escrito num de seus ensaios: “as admirações estão cansadas”.     
        Chegou, todavia, um momento em que os jornais mudaram...
Isto é: mudei eu - querido Bruxo do Cosme Velho?
        Atualmente leio poucos jornais, e leio pouco.
 Leio-os com inapetência, unicamente para tirar a febre da loucura do mundo. Às vezes, tenho a satisfação de encontrar, no meio dessa loucura, algumas pepitas de ouro,sobretudo fiapos da ternura dos trogloditas, nossos irmãos do passado longínquo. Por vezes, me lembro dos recém-inaugurados homens-sapíens que, numa caverna do atual Irã, a de Shanidar, na Montanha Zagros, enterraram um homem, dispondo junto dele ramalhetes de mil-folhas, cardos-de-são-barnabé, jacintos, rabos-de-cavalo-de pau e um tipo de malva. Os especialistas descobriram tal manifestação de ternura graças aos grãos de pólen que sobreviveram durante cerca de 60 mil anos...
Sinceramente, já não experimento os brividi de outrora!
Por que?
Porque os jornais atuais tornaram-se clones uns dos outros.
Publicam matérias que já vêm etiquetadas pelo mesmo fornecedor.
 Seria Murdoch, o australiano, que não tem uma cara de troglodita? A cara de Murdoch, isto é, sua máscara, está muito bem adatada aos seus propósitos de empresário dos escândalos mundiais, os quais, no seu caso, substituem as indulgências do tempo de Lutero, que davam tanto lucro aos eclesiásticos renascentistas.  
Em tempos remotos, cada jornal fazia questão de ter as próprias impressões digitais.
Vejam o que acontece agora, quando uma notícia exótica, catastrófica, ou apocalíptica, cai do céu no doce aconchego de uma redação de jornais.
Pensemos no naufrágio do Concordia Costa.
 Esse monstruoso acidente demonstra, ad nauseam, o que estamos querendo evidenciar.
Antes de mais nada, os jornais teriam de explicar como um navio desse porte, dotado de todos os recursos tecnológicos, pôde naufragar.
 Em segundo lugar: qual a verdadeira causa de seu semi-afundamento?
Talvez uma cortesia cafona dos tripulantes a uma Ilha, de nome castíssimo, Il Giglio, que azedou antes de ser servida? 
A impressão que os leitores têm é que estão sendo vítimas de desinformação.
Alguns de meus amigos dizem-me em tom fr confidência:
        - Cherchez la femme...
        Outros, argutíssimos, observam-me, com desdenhosa piedade, acrescentando:
        - Cherchez les femmes!
        Com atraso, descubro que se referem a uma tripulação italiana, em cujo seio imperava o obsoleto mito do Latin Lover.
        Não me impressiono com a perspicácia de meus amigos. Penso no saldo de vítimas fatais de tal naufrágio cômico.
Pobres turistas que desejavam alijar de si o stress de poluídas e estridentes cidades, em busca de Paraísos Artificiais!
Entre esses ingênuos turistas foram, até, identificados membros do clero católico.
O pároco, do Concórdia Costa, avisara, em tempo, seus paroquianos  de que estaria ausente durante uma quinzena de dias, para poder visitar seus familiares. O sacerdote não mentiu: viajou no navio na companhia de familiares.
        É penoso constatar que todos os jornais do mundo se aferram - como cachorros esqueléticos - a um único osso de restaurante falido – ao tal de Óbvio Ululante que Nelson Rodrigues inventou.
Mas quem explica por que continuamos a ser bombardeados, durante um mês por fotos quase iguais do  navio adernado?
        No entanto, pior que tudo isso é constatar, fora de qualquer naufrágio, que alguns jornais não são mais jornais:, mas um conjunto de crônicas empilhadas.
Tais jornalistas deveriam assumir sua condição de escritores.
 Muitos jornalistas são escritores de verdade. Escrevem com clareza, concisão, elegância, e têm o que dizer. Mereceriam fazer companhia a Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras.
Um deles: Flávio Tavares.
Tavares não só escreve crônicas semanais informativas, ou sobre nossa história recente (ou sobre temas políticos e culturais), como nos empurra para regiões desconhecidas da reflexão.
 Esses jornalistas nos obrigam a abandonar a mesmice política, a adentrar-nos no “pensamento negativo” do esquecido Herbert Marcuse, e sua Ideologia da Sociedade Industrial.
Livros como: “O Dia em que Getúlio Matou Salvador Alliende” ou “Memórias do Esquecimento” deveriam ser lidos pelos jovens das gerações atuais. Esses jovens saberiam, de verdade, o que conduziu o país à Ditadura, e o quanto a Ditadura violou os Direitos Humanos.
        
II.     É hora, pois, de expormos as sugestões que daríamos - sempre com humildade (como dizem os suados vencedores de uma partida de futebol, à saída dos estádios) a quem lhes pede entrevistas...- aos jornais que resolvessem pedi-las a não-profissionais da imprensa.

Ei-las:

1.   Deve haver mais seleção nas notícias.
No Brasil persiste uma insistência, até certo ponto simpática, em publicar fotos de ancas femininas. É possível que tais ancas, bem como as nádegas que as acompanham  (Desmond Morris, no seu notável estudo A Mulher Nua enumera 11 sinônimos destoutra glamurizada parte do corpo feminino, objeto no passado “de piadas sujas”) - ficariam melhor em outros espaços do jornal. Para o zoólogo inglês, “as nádegas são um atributo exclusivamente humano”, adquirido pelos animais racionais quando “deram um passo gigantesco e se puseram de pé sobre as pernas traseiras”. Não se deve, pois, comparar as nádegas humanas às dos macacos, mesmo às dos macacos mais desenvolvidos.
Já que essa parte do corpo feminino é tão nobre, por que não por poupar ao público um excedente de quadris e nádegas?
Fique claro que consideramos maravilhosas todas as partes corporais humanas. Se Frederico Fellini, num momento de paroxismo verbal, chegou a afirmar: “a mulher bunduda é um épico molecular de feminilidade”, Desmond Morris, que incluiu no seu livro tal frase, pôs-lhe no dorso o seguinte comentário: “a frase parece ter perdido algo na tradução”!
Aos jornalistas, uma sugestão: substituir, tal tsunami de fotos por informações precisas sobre os órgãos citados. É só ler os capítulos 16 e 21 de A Mulher Nua, cujo subtítulo é: “Um Estudo do Corpo Feminino”.
Em síntese: Desmond Morris ensina a converter a grosseria machista por algo que pode fazer crer que  o animal racional possui, por vezes, delicadeza, finesse, civilidade.
Visto que estou nesse item, refiro-lhes que fiquei decepcionado com um deslize do ensaísta católico, Paul Johnson, que divulgou uma observação grosseira de Saint-Beuve, retomada por Flaubert, no seu livro Os Criadores (Rio de Janeiro, Elsevier, 2006):
- Muitos retratos mostram que ela (George Sand) era feiosa, como Madame de Staël, com um rosto comprido e lúgubre. Sua aparência não era masculinizada, como equivocadamente se possa supor, mas grosseira. Saint-Beuve testemunhou: “Era dona de uma alma fantástica e de um traseiro enorme.(...) Quando ela perguntou a Flaubert, que era um normando rude, mas bastante sincero: “Meu traseiro fica bem com essa roupa?”,o romancista respondeu: “Madame, seu traseiro fica grande com qualquer roupa”. (Ibid. p. 121).
Se Madame Sand possuía “uma alma fantástica”, que importavam suas nádegas grandes? Avaliar as pessoas por semelhantes fitas-métricas mentais, é torná-las competidoras de fêmeas nos Parques de Exposição de Esteio.

2.     Menos notícias sobre atletas, principalmente sobre jogadores com nomes de bichos!
 Tais jogadores são dotados do domo de fascinar filhas de primeiros-ministros estrangeiros. A expressão: “alguém terá de pagar o pato” merece ser banida das manchetes.

3.  Os jornais precisariam fornecer aos leitores detalhes mais extensos em seus boletins metereológicos.
Quem não adora boletins metereológicos? São os mais belos textos de ficção da literatura nacional. Os boletins metereológicos apresentam outra vantagem: atiçam nossa esperança em chuvas para as estiagens. Nos dias monótonos do ramerrão, em que as falcatruas e as desengonçadas declarações de amor à atual Presidente não conseguem distrair-nos, tais boletins são terapêuticos. Convidam-nos aos devaneios de Gaston Bachelard.

4.   Seria oportuno conceder maior espaço às informações sobre temas religiosos.
Reserve-se menos espaço às críticas ao Papa Bento XVI, e a outros Dignatários Eclesiásticos, Rabinos, Ímãs, e Mães-de-Santo. Tais líderes não têm culpa de sermos o que somos. Não têm culpa de existirem em nossa sociedade pulhas. Seria preciso, en plus, que os jornalistas tivessem bagagem filosófica e teológica. Criticar o Papa sem conhecer a História e sem ter noções de Teologia é pobreza de espírito. O Papa merece ser criticado quando suas preocupações não coincidem com as do Evangelho. Assuntos, por exemplo, relativos ao Vaticano, podem ser passados a pente-fino. Mas, quando for o caso, busquem-se fontes de informação sérias. Indico uma: a de Thomas J. Reese, O Vaticano por Dentro ( Trad. de Magda Lopes. Bauru, EDUSC, 1999).
Seria, também, ótimo se os jornalistas arranjassem tempo para ler os dois últimos volumes, que Bento XVI publicou sobre Jesus de Nazaré. Ficariam assombrados com a cultura teológica do Pontífice.


5.   Os jornais poderiam fornecer mais esclarecimentos sobre descobertas científicas.
Contratem-se especialistas na área, capazes de explicar as descobertas recentes, que precisam ser ilustradas com gráficos adequados, borrifados com alguns salpicos de humor.

6.   Mantenham-se, como estão, sem modificações, as Colunas de Humor.
Ofereçam aos humoristas – um dos mais brilhantes, já se sabe que é o Luís Fernando Veríssimo - semestres sabáticos, com a possibilidade de realizarem viagens pelo mundo.
O humor, embora em toda a parte, seja crítica impiedosa com xilocaína, precisa reciclar-se. Seria sensacional se os jornais brasileiros nos proporcionassem fatias generosas de irrisão à Voltaire sobre François de Hollande, o sofisticado político e ator da Comédie Française, entendendo-se esta como um ludismo de boas intenções, que esconde más intenções.
Tais complementos, adicionados aos cardápios nacionais, poderiam “alavancar” as tiragens dos jornais.
Outro assunto humorístico: a gravidade cardinalícia do atual Presidente Sarkozy,que também dá a curiosa impressão de ser uma raposa  pós-graduada de La Fontaine. Jogue-se um pouco de sal sobre Le Pen e sua filha. O conservadorismo, mesmo sendo francês, é indigesto.
        Material para o riso nacional poderiam ser, também, nos dias de inverno, as tiradas tétricas do líder da Liga Norte, Sr. Bossi. Na falta dessas tiradas, algumas ênfases bolivarianas poderiam ser aproveitadas como hors-d’oeuvre.
É claro que existem outras jazidas do humor nacional e mundial. O caso do russo Putin é um tanto complicado: pressupõe bibliografia especializada. 

7.  Não havendo matéria jornalística nacional,
Apele-se a matérias do Mercosul.
Até recentemente, os ditadores latino-americanos forneciam arrobas de humor aos jornalistas. Agora, alguns com câncer, outros com prazo-de-validade para seus governos, convém não exagerar. A safra de humor nacional é suficiente para abrir nossa boca de orelha a orelha, como um pára-quedas que se desdobra num céu de brigadeiro.        

8.   Sugestão importante: não se deveriam multiplicar entrevistas com ícones da mídia.
A razão é uma só: são especializados nos lugares-comuns.

9. Recomendação, igualmente capital: copidesque-se sempre o que as Misses Brasileiras digam, principalmente quando tentam dizer aos jornalistas que estão no ápice da fama, isto é, no ápice da nudez.

10. Entrevistas com jogadores de seleção?  Raras.
 Havendo carência de matéria esportiva, os jornalistas do setor devem dirigir-se aos técnicos de futebol. Não tentem obter deles minúcias técnicas, nem horóscopos. Perguntem-lhes como assam seus espetos nos fins-de-semana. Aos bandeirinhas, como preparam suas caipirinhas. Aos gandulas, o tipo de sorvete que suas namoradas apreciam.

11. Criticar o Governador do Estado, o Prefeito da Capital, e outras figuras do cenário político local deve ser desafio reservado aos jornalistas totalmente lúcidos e atilados.
 Os governantes só devem ser alvo de críticas quando as balas não passarem por cima de suas cabeças, mas os atingirem no coração.
No coração?
Sim, porque é do coração que nascem as invejas, as cotoveladas, os Mensalões.

12. Consagre-se mais espaço aos Empresários.
 Estes precisam ser instados a expor suas idéias – em relação à Administração. Um Jorge Gerdau deveria ser entrevistado todos os dias.

13. Quanto às páginas policiais: proíba-se aos criminosos, comuns e incomuns, aos delegados de polícia, e aos juízes, dar entrevistas.

14.  Os jornais precisam conceder dar mais espaço aos professores.
O piso salarial, no Rio Grande do Sul, ainda não foi atingido.

15.  Homens - como o Dr. José Camargo, que escrevem para o Caderno Vida, de Zero Hora – mereceriam chamadas obrigatórias de primeira página.


III.   Leon Bloy disse, certa vez, que um cristão do nosso tempo deveria ler os Jornais e a Bíblia.
                Tenho uma sugestão amistosa aos amigos jornalistas:
                - Leiam primeiramente a Bíblia; depois os jornais.
 

2 comentários:

  1. Querido Trevisan:

    Faltou a ARTE, muito pouco divulgada.

    Muita luz, saúde e paz.

    Alceo Luiz De Costa
    Santa Cruz do Sul RS

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    1. Alguém finalmente manifestou-se contra esta imprensa! Eu também, gostava muito de ler jornais, mas hoje em dia, passo os olhos para não ficar desinformada. Enojam-me certas coisas que leio. Termino deixando-o de lado e partindo para outras. Parabéns, pelo seu maravilhoso texto e obrigada.

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