sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fernando Botero em Porto Alegre: Que Privilégio para os Gaúchos!

I.     Suponho que um professor universitário de História da Arte também tenha o direito de errar.
E que lhe caiba o direito simétrico de acertar - principalmente quando declara abertamente ter errado.
         Erico Veríssimo dizia-me, pouco antes de morrer:
         - Em Arte é bom a gente fiar--se da intuição. Não só em Arte: também quando se trata de amizades...
         ‘Se alguém achar que estou me gabando de uma amizade, deixe de lado o grande Erico. Assumo a autoria da citação.
         Fui educado como um discípulo dos Escolásticos e, particularmente, de Tomás de Aquino. Mais tarde, tornei-me discípulo de Descartes e Pascal.
 Gosto de pensar. Gosto, mais ainda, de sentir. Às vezes, sentir é melhor do que pensar.
Refiro-me, de modo peculiar, a sentimentos aplicados à Arte. Refiro-me às emoções estéticas, que substituem o faro dos perdigueiros à caça de perdizes.
         Emprego tal linguagem vulgar, um pouco irritante, porque, no meu caso, me irritei comigo mesmo, e com um pintor.
         Adivinhastes, benévolos leitores!
Trata-se de Botero, o colombiano.
         Na primeira vez que vi uma tela dele, babei.
Na segunda, também.
Na terceira, quase.
Na quarta, comecei a desconfiar que Botero descobrira uma receita.
Na quinta, aquela adiposidade, aquela gordura transformada em obesidade, uma obesidade obscena, me pareceu engodo, uma isca milagrosa destinada a fascinar distraídos, um jeito astucioso de desentortar mandioca em praça pública, para deixar embasbacados os passantes...
         Visitei, com o tempo, inúmeros Museus de Arte Contemporânea. Nas últimas décadas, achava Botero em toda a parte.
Ele era ubíquo. Notei que, transcorrido uma década, a imprensa boterizara-se. Numa palavra, a tevê, o mundo inteiro, o planeta boterizara-se.

II.      Resolvi, cautelosamente, fazer uma dieta de Botero.
Fiz um pacto com meus olhos, fechando-os  à aproximação de qualquer dos seus desmesurados personagens.
         Porém, certo dia... eis que me encontro com o verdadeiro Botero! 
Não me lembro mais em que Museu isso aconteceu.
Eu o vi sem a presença de cúmplices.
Eu o vi por acaso. Eu vi Botero como Manuel Bandeira viu os céus:
         Lembram-se do poema Alumbramento?
        
- Eu vi os céus! Eu vi os céus!

         Recordam outro poema do modesto e incomparável Manuel: Eu Vi uma Rosa?
         - Eu vi uma rosa
         - Uma rosa branca –
Sozinha no galho.
         No galho? Sozinha
No jardim, na rua.

         Sozinha no mundo?  

         É assim que se vê um artista!
         Um artista não se vê no meio de multidões que se acotovelam para admirar um quadro.
É até possível encontrá-lo nessas ocasiões - como uma galinha encontra um grão de ouro ciscando num pátio de bairro.
 Mas não é o local adequado para se apreciar uma obra de arte!
         Quase diria que acontece – com as obras de arte - o que Jesus recomendava aos que quisessem orar:
         - Tu, quando quiseres orar, entra no teu quarto. Fecha a porta, e ora a teu Pai que está presente sem ser visto.
(Mt 6,6).
         Os verdadeiros sentimentos, as verdadeiras emoções, não suportam o barulho, a zoeira, a tagarelice. Quando tais estados parasitários as acompanham, é porque tais emoções se encontram semi-bichadas.
As emoções estéticas não admitem chantagem.
Exigem liberdade de adesão. Elas são orgulhosas de poder ser o que são: emoções independentes.   
Botero apareceu-me, nessa ocasião, como ele é: um valente humanista, alguém que acredita em coisas em que ninguém mais acredita: vergonha-na-cara, compaixão pelos humilhados, solidariedade para com os miseráveis, luta dos idealistas e santos para para tirar o mundo
das pocilgas, reconduzindo-o às fulgurações do Gênesis:
         - Deus viu que tudo o que criara era bom!
         Nesse dia bendito em que o reconheci, desinteressei-me do outro Botero, o Botero de superfície e de verniz, o Botero da sedução óptica, o Botero das cores prostitutas.
         Encontrei o Botero que é, ao mesmo tempo, um superficial-e-um profundo, um sedutor-e-um provocador de profundezas, um colorista à Uccello, um Goya imperturbável que se serve das cores como de projéteis envenenados, e um Picasso – grande artista – quando não lhe dpá na telha ser cabotino.
         Encontrei o Botero que emigrou do folclore de sua terra às regiões misteriosas da psique humana, também às da psique de Freud, onde a própria gordura não é, como nas sociedades primitivas ou árabes, afirmação de saturação alimentar, ou de volúpia sexual, mas um complexo de inferioridade, triste deglutição da feiúra inadmitida (sob a aparência de auto-satisfações e reboleios de erotismo nas alcovas).
         Nesse momento, deixei-me cativar por sua obra.
Vi que tinha diante de mim um grande pintor, um grande escultor .
 Imaginei quelogo seria esbulhado, copiado, xerocado, transcrito, reproduzido, deformado, avacalhado, por milhares de  mimetizadores, de segunda, terceira, quarta, e até centésima categorias!
         Hélas!
         É o preço que todo artista de grande porte paga para ser o que é.

III.      Portoalegrenses, e gaúchos em geral: fica o convite aos senhores para que conheçam tão excepcional artista!
         Realiza-se, neste momento – até 8 de março de 2012 - no Centro Cultural da CEEE (Rua dos Andradas 1223), uma mostra de Botero intitulada: Dores da Colômbia –uma das melhores exposições de arte internacional que já vi na capital.
Vale a pena deslocar-se, de qualquer cidade do interior do Rio Grande, para vir vê-la, principalmente contemplá-la, e desfrutá-la.
Desfrutá-la com dor, mas saindo dela com mais vontade de ser homem, e com mais compaixão pela humanidade.
         A curadoria da mostra é do Museu Nacional da Colômbia, ao qual, aliás, o artista, doou todas as obras dessa série.
Que gesto magnífico!
Todos sabem que Botero é um artista dos badalados circuitos de arte internacional, cujas cotações de mercado são, não só justas, mas estapafúrdias. Ele ganha dinheiro a rodo com sua arte – não o escondamos. Mas ganha esse dinheiro por ser talentoso, e  às vezes, genial.
         Venham, de Uruguaiana, de Piratini, de Mostardas, de Iraí, de Santo Cristo, de Não-Me-Toque, de Passo Fundo, de Erechim, de Santa Maria, de qualquer cidade, ou rincão do Rio Grande do Sul.
         Venham, vale a pena!
Botero o merece.
Mais: merece-o a Humanidade que existe em Botero!
         Entrem no Centro Cultural da CEEE.
Apanhem o elevador, subam até ao quarto piso. De lá desçam devagarinho aos demais pisos, atè ao primeiro.
Em tudo há obras de Botero: seis aquarelas, 36 desenhos, 25 pinturas a óleo.
         Além de Botero, vocês vão esbarrar, através de suas pinturas, com reminiscências medievais, com sugestões de Andréa Mantegna,  com o Apocalipse de Dürer.
Vocês vão esbarrar – principalmente - com Goya, um gênio no apogeu, e com Picasso, por vezes também gênio.
Embriaguem-se, primeiramente, com o lado epidérmico de Botero. Depois, bebam alegramente de suas cores. Finalmente, esqueçam tais bebedeiras, e comecem a fixar-se nos refinamentos de seu desenho, nos seus sombreados à Renascença, nas suas volumetrias corporais soberbas.
Quando tiverem saboreado todas essas iguarias, dêem-se ao luxo do postre – isto é, da sobremesa, da apreciação estética no seu mais alto grau.
 Parem, olhem, ouçam os gritos, os gemidos, os berros, os palavrões, de uma sociedade massacrada, de uma sociedade bagualizada, de uma sociedade reduzida à infra-animalidade do narcotráfico, do ódio, do para-militarismo, da canalhice laboratorial do ser humano, que já não guarda quase nada da imagem e semelhança de seu Criador.
         Botero não apóia nunca o Inferno!
Nunca lhe dá colher–de-chá, nem sequer um punhado de alpiste.
Botero rejeita o Inferno.
         Como?
         Jogando-lhe areia nos olhos!
Como por encanto, nos excrementos de tais situações, eis que aparece uma mãe, um rosto dolorido de mãe, uma criancinha flagrada no ápice de sua ternura!
         Quem é capaz disso é artista. Um grande artista!
         Porto-alegrenses e gaúchos, não percam esse “material de triste leitura”, como está escrito no folheto da mostra, distribuído aos visitantes.
Um lembrete: também vós, amigos políticos, governador, deputados, vereadores, assessores, esqueçam durante alguns minutos suas agendas!
Vão até ao Centro Cultural da  CEEE, de preferência desacompanhados 
Levem apenas as esposas e filhos.
Concentrem-se. Re-humanizem-se! Até mesmo, reanimalizem-se:
fiquem alguns minutos diante de Botero!

2 comentários:

  1. É uma pena uma gaúcha, Porto-alegrense, que não mora mais em sua cidade nata, não poder estar presente a no CEEE. Espero, no entanto, que Botero tenha o sucesso que merece.

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  2. Suas palavras para com Botero são, em si, uma obra de arte à parte. A forma simples que leva a uma complexidade única me fascinou. Sou de Minas, não conheço Botero a fundo, só vi algo que passou despercebido por minha memória, mas admito que suas descrições que chegam a ser psiquiátricas me convenceram, se não de seu amor pela obra, ao menos do amor que eu deveria sentir a tal artista. As palavras claras sabiamente bem postas jamais se equivocam. Por isso tenho a clareza de que seu texto reflete uma verdade à qual ainda sou alheio, mas não por muito tempo.

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