sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Duzentos e Cinqüenta Milhões de Dólares por um Cézanne?

I.       Vamos à notícia.
         Os jornais de todo o mundo divulgaram a aquisição, por parte da Família Real do Quatar, de uma tela do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906): Os Jogadores de Cartas, destinada a figurar como uma espécie de vedete no Museu Nacional de Doha.
         Cézanne pintou cinco telas com essa temática. As telas similares estão expostas no Museu d’Orsay ,em Paris; no Museu Metropolitano de Nova Iorque; no Courtauld Institute de Londres; e na Barnes Foundation, de Filadélfia.
         A tela (pintada em 1893), adquirida pelo Quatar, pertencia a um armador grego, George Embiricos, que só se dispôs a vendê-la pouco antes de morrer. A pintura mostra dois camponeses da Provença jogando cartas.
         Comecemos por afirmar o óbvio: tudo que Cézanne pintou é bom. A maioria de suas telas são ótimas. Um número considerável delas pertencem, simplesmente, à categoria de obras-primas da pintura de todos os tempos.
Roberto Longhi, talvez o maior historiador italiano da Arte, definiu Cézanne com simplicidade e precisão: “ele  foi o maior artista da Idade Moderna”.
Explicou:
- O seu testamento pictórico era: “tratar a natureza por meio do cilindro, da esfera, do cone, tudo colocado em perspectiva, de modo que cada objeto ao lado de outro  objeto, num plano, se dirija para um ponto central. Esse testamento poderia ser o de Piero della Francesca ou de Antonello da Messina
(Breve mas Verídica História da Pintura Italiana. São Paulo, Cosac Naify, 2005. p.118).

II.     A rigor, não há o que objetar à Família Real do Quatar: eles escolheram um grande, um excepcional artista do Ocidente, que alguns denominam “O Pai da Pintura Contemporânea”.
Como o presente texto, porém, é de um blog, e nos blogs os autores não estão obrigados a ocultar as próprias opiniões, atrevo-me a dizer que não incluiria a tela em pauta entre as melhores de Cézanne.
Se me fosse dado escolher- tendo tanto dinheiro à mão - escolheria uma das vistas do Monte Sainte-Victoire, ou uma das Naturezas-Mortas do Mestre, digamos: um daqueles óleos com maçãs, nos quais o volume, “em oposição absoluta, não somente aos impressionistas, que o dissolvem, mas em oposição a toda a pintura até ao Fauvismo, que se prendia às superfícies coloridas”, é tratado pelo pintor com uma originalidade inigualável
- Cézanne obtém o arredondado de uma maçã, não por meio de uma modulação contínua de luz e sombra, mas sem transição, por intermédio de contrastes de superfícies, claras e escuras, formando arestas, o que dá às suas formas plásticas algo de francamente estereométrico. (George Schmidt. Pequena História da Pintura Moderna. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1969. p. 85).
Cézanne é, além disso, um insigne colorista, não à maneira dos coloristas antigos.  Para Cézanne, “ o objeto não impõe sua cor; ao contrário, a cor lhe é imposta, segundo suas necessidades melódicas”.
Nesse domínio Cézanne é pós-impressionista – pois em toda a sua pintura só emprega a cor pura. (Ib. p. 87.).
Noutras palavras, em vez da cor local dos antigos, ele usa a cor produzida, a cor inventada, resultante de pinceladas estruturais e rítmicas, que conferem ao seu cromatismo um colorido vibrante.
Tudo é forma, proporção, tensão, equilíbrio nesse artista,  e é por isso que ele dizia, com aparente vaidade:
- Quero assombrar Paris com uma maçã!
(M. Doran: Sobre Cézanne.Conversaciones y Testimonios. Versión castellana de Josep Elias. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1980. p.23).
Demos razão à Família Real do Quatar: o tema não significa muito para Cézanne.
O que significa para ele é o que ele é capaz de fazer com o tema. Quer se trate de dois camponeses jogando cartas, quer de um fruteiro com maçãs, o que importa é a pintura.
Em termos de pintura, Cézanne é um gênio. Um Novo Giotto. Um desses criadores que não só se afirmam, pessoalmente acima dos outros, mas que abrem caminhos novos para os vindouros.

III.    Recorramos, agora, a uma ficção muito batida.
Tornemos Cézanne presente em 2012.
         Perguntemos-lhe o que ele acha da transação comercial da Família Real do Quatar.
Provavelmente, o famoso “urso” fará uma careta. como só os franceses sabem fazer, e dirá:
         - Isso nada tem a ver nada com o que pintei. É coisa de americano ou japonês. Ou antes: é negócio de árabe!
         Se insistíssemos com ele, o pintor perderia a paciência, e soltaria um palavrão, contanto, naturalmente, que não estivesse na presença de sua governanta, Madame Brémond, que ele respeitava, chamando-a sempre, mesmo na intimidade, de Madame Brémond.
         Talvez, depois de pigarrear, dissesse:
         - O gênio é o poder de renovar a própria emoção no seu contato cotidiano. Isso de comprar arte tem sua importância para o artista, visto que nenhum artista vive de ar. Mas, afora isso, é uma atividade como qualquer outra, como comprar batatas, por exemplo. Nada tem a ver com a Arte, ainda mais se a questão é prover um Museu de quadros.
         De repente, num acesso de  bom humor, coisa um tanto rara nele, ajuntaria:
         - Disseram-me que, agora, querem fazer dos Museus obras de arte. Fazem-nos bizarros. A arte é algo mais sincero, mais humano. O artista não modula suas emoções como um pássaro modula seus gorjeios. O artista compõe. Será que a humanidade entende isso em 2012?
         É possível que algum dos circunstantes o interpelasse:
        
         - Sr. Cézanne, o problema é que a arte se socializou. O turismo universalizou-a. As pessoas querem ver aquilo que é badalado no mundo inteiro...
        
- Badalado? O que é isso? A importância da arte não se descobre na universalidade de seus resultados imediatos.
         - Então, Mestre Cézanne, onde se descobre a arte?
         - A arte é uma religião. A sua meta está na elevação do pensamento. Estará alguém neste momento interessado nisso? Disseram-me que as pessoas só estão interessadas na elevação da Taxa de Câmbio, nos Capitais Voláteis...
         Após um minuto de silêncio, o pintor poderia acrescentar, sempre de mau humor:
         - Respeito a Família Real do Quatar. Acho até que eles, por distração, pensaram em mim! Desconfio que pensaram muito mais no Quatar, no Museu deles, na atração que isso pode ocasionar. O mundo virou um monstruário de quinquilharias. Agradeço à Família Real a publicidade que me deram, embora isso não me interesse. Estou persuadido de que a busca de novidades e a sofreguidão em ser original, é uma necessidade falsa, que mal consegue dissimular a trivialidade e a falta de criatividade.
         - Mestre Cézanne, poderia explicar porque escolheu dois camponeses jogando cartas como assunto de sua tela? Soubemos que o Sr. pintou outras quatro telas sobre esse mesmo tema.
         - Meu filho, os camponeses pouco têm a ver com minha tela. Já afirmei que pintar não significa copiar um objeto, mas captar uma harmonia entre abundantes relações, transferi-las a uma gama de cores, conferir-lhes uma lógica nova e original. Não sei se vocês já se deram conta: os camponeses não são capazes de ver uma paisagem. Não a vêem porque a vida é dura demais para eles. Não sobram olhos para isso... Nós mesmos já não vemos a Natureza, vemos quadros. Nossa visão está cansada e enganada pela recordação de tantas imagens, de tantos quadros em museus, megaexposições... Eu procuro ver a obra de Deus!
         - Nesse caso, Sr. Cézanne, deveríamos deixar de ir ao Louvre?
         - O Louvre é um bom livro de consulta. Não deve ser considerado mais do que um intermediário...
         - Sr. Cézanne, disseram-nos que o Sr. é católico. Por que o Sr. nunca pintou um Cristo?
         -  Porque muitos já o pintaram... É difícil sugerir o que está por detrás da natureza humana de Cristo. Não me atrevo a isso!

IV.    A mini-entrevista terminou.
         Para conhecimento dos admiradores de Cézanne, transcrevo o anúncio fúnebre que Le Journal publicou sobre seu falecimento:
        
- Roga-se a assistência aos funerais de Paul Cézanne. Faleceu em Aix, Provença, depois de receber os sacramentos de nossa Mãe Igreja, no dia 23 de outubro de 1905, aos 68 anos.
        
Concluo este breve exercício de ficção, agradecendo a Michael Doran a possibilidade que me deu de inserir nele fragmentos das Conversações e Testemunhos sobre o grande pintor, extraídos do importante dossier que ele editou, citado anteriormente por nós.

Um comentário:

  1. Excelente texto sobre este grande artista. Obrigada por tão boa leitura.

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