sábado, 18 de fevereiro de 2012

Escrito no Ar para as Cinzas de Whitney Houston


Pensaram que ela era uma cadela!

Quando a encontraram,
morta, numa banheira de hotel,
perceberam que ela tinha três mãos,
das quais duas empregava
para incendiar um corpo solitário,
e uma alma que sempre vivera
mendiga, perseguindo através
do mundo uma invisível flor
que diziam existir
na garganta de uma ave.

Witney Huston


Seus tiranos – e seus fãs -
não sabiam que ela ocultava,
nos abismos de sua memória,
uma outra mão,
que às vezes saía de seu corpo,
e acenava a um ventre

esquecido entre móveis antigos,
ao pé de salmos que continuavam a sonhar
com o regresso de lábios que os tinham beijado,
muitas vezes, no interior
de uma tranquila igreja de Newark.    

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fernando Botero em Porto Alegre: Que Privilégio para os Gaúchos!

I.     Suponho que um professor universitário de História da Arte também tenha o direito de errar.
E que lhe caiba o direito simétrico de acertar - principalmente quando declara abertamente ter errado.
         Erico Veríssimo dizia-me, pouco antes de morrer:
         - Em Arte é bom a gente fiar--se da intuição. Não só em Arte: também quando se trata de amizades...
         ‘Se alguém achar que estou me gabando de uma amizade, deixe de lado o grande Erico. Assumo a autoria da citação.
         Fui educado como um discípulo dos Escolásticos e, particularmente, de Tomás de Aquino. Mais tarde, tornei-me discípulo de Descartes e Pascal.
 Gosto de pensar. Gosto, mais ainda, de sentir. Às vezes, sentir é melhor do que pensar.
Refiro-me, de modo peculiar, a sentimentos aplicados à Arte. Refiro-me às emoções estéticas, que substituem o faro dos perdigueiros à caça de perdizes.
         Emprego tal linguagem vulgar, um pouco irritante, porque, no meu caso, me irritei comigo mesmo, e com um pintor.
         Adivinhastes, benévolos leitores!
Trata-se de Botero, o colombiano.
         Na primeira vez que vi uma tela dele, babei.
Na segunda, também.
Na terceira, quase.
Na quarta, comecei a desconfiar que Botero descobrira uma receita.
Na quinta, aquela adiposidade, aquela gordura transformada em obesidade, uma obesidade obscena, me pareceu engodo, uma isca milagrosa destinada a fascinar distraídos, um jeito astucioso de desentortar mandioca em praça pública, para deixar embasbacados os passantes...
         Visitei, com o tempo, inúmeros Museus de Arte Contemporânea. Nas últimas décadas, achava Botero em toda a parte.
Ele era ubíquo. Notei que, transcorrido uma década, a imprensa boterizara-se. Numa palavra, a tevê, o mundo inteiro, o planeta boterizara-se.

II.      Resolvi, cautelosamente, fazer uma dieta de Botero.
Fiz um pacto com meus olhos, fechando-os  à aproximação de qualquer dos seus desmesurados personagens.
         Porém, certo dia... eis que me encontro com o verdadeiro Botero! 
Não me lembro mais em que Museu isso aconteceu.
Eu o vi sem a presença de cúmplices.
Eu o vi por acaso. Eu vi Botero como Manuel Bandeira viu os céus:
         Lembram-se do poema Alumbramento?
        
- Eu vi os céus! Eu vi os céus!

         Recordam outro poema do modesto e incomparável Manuel: Eu Vi uma Rosa?
         - Eu vi uma rosa
         - Uma rosa branca –
Sozinha no galho.
         No galho? Sozinha
No jardim, na rua.

         Sozinha no mundo?  

         É assim que se vê um artista!
         Um artista não se vê no meio de multidões que se acotovelam para admirar um quadro.
É até possível encontrá-lo nessas ocasiões - como uma galinha encontra um grão de ouro ciscando num pátio de bairro.
 Mas não é o local adequado para se apreciar uma obra de arte!
         Quase diria que acontece – com as obras de arte - o que Jesus recomendava aos que quisessem orar:
         - Tu, quando quiseres orar, entra no teu quarto. Fecha a porta, e ora a teu Pai que está presente sem ser visto.
(Mt 6,6).
         Os verdadeiros sentimentos, as verdadeiras emoções, não suportam o barulho, a zoeira, a tagarelice. Quando tais estados parasitários as acompanham, é porque tais emoções se encontram semi-bichadas.
As emoções estéticas não admitem chantagem.
Exigem liberdade de adesão. Elas são orgulhosas de poder ser o que são: emoções independentes.   
Botero apareceu-me, nessa ocasião, como ele é: um valente humanista, alguém que acredita em coisas em que ninguém mais acredita: vergonha-na-cara, compaixão pelos humilhados, solidariedade para com os miseráveis, luta dos idealistas e santos para para tirar o mundo
das pocilgas, reconduzindo-o às fulgurações do Gênesis:
         - Deus viu que tudo o que criara era bom!
         Nesse dia bendito em que o reconheci, desinteressei-me do outro Botero, o Botero de superfície e de verniz, o Botero da sedução óptica, o Botero das cores prostitutas.
         Encontrei o Botero que é, ao mesmo tempo, um superficial-e-um profundo, um sedutor-e-um provocador de profundezas, um colorista à Uccello, um Goya imperturbável que se serve das cores como de projéteis envenenados, e um Picasso – grande artista – quando não lhe dpá na telha ser cabotino.
         Encontrei o Botero que emigrou do folclore de sua terra às regiões misteriosas da psique humana, também às da psique de Freud, onde a própria gordura não é, como nas sociedades primitivas ou árabes, afirmação de saturação alimentar, ou de volúpia sexual, mas um complexo de inferioridade, triste deglutição da feiúra inadmitida (sob a aparência de auto-satisfações e reboleios de erotismo nas alcovas).
         Nesse momento, deixei-me cativar por sua obra.
Vi que tinha diante de mim um grande pintor, um grande escultor .
 Imaginei quelogo seria esbulhado, copiado, xerocado, transcrito, reproduzido, deformado, avacalhado, por milhares de  mimetizadores, de segunda, terceira, quarta, e até centésima categorias!
         Hélas!
         É o preço que todo artista de grande porte paga para ser o que é.

III.      Portoalegrenses, e gaúchos em geral: fica o convite aos senhores para que conheçam tão excepcional artista!
         Realiza-se, neste momento – até 8 de março de 2012 - no Centro Cultural da CEEE (Rua dos Andradas 1223), uma mostra de Botero intitulada: Dores da Colômbia –uma das melhores exposições de arte internacional que já vi na capital.
Vale a pena deslocar-se, de qualquer cidade do interior do Rio Grande, para vir vê-la, principalmente contemplá-la, e desfrutá-la.
Desfrutá-la com dor, mas saindo dela com mais vontade de ser homem, e com mais compaixão pela humanidade.
         A curadoria da mostra é do Museu Nacional da Colômbia, ao qual, aliás, o artista, doou todas as obras dessa série.
Que gesto magnífico!
Todos sabem que Botero é um artista dos badalados circuitos de arte internacional, cujas cotações de mercado são, não só justas, mas estapafúrdias. Ele ganha dinheiro a rodo com sua arte – não o escondamos. Mas ganha esse dinheiro por ser talentoso, e  às vezes, genial.
         Venham, de Uruguaiana, de Piratini, de Mostardas, de Iraí, de Santo Cristo, de Não-Me-Toque, de Passo Fundo, de Erechim, de Santa Maria, de qualquer cidade, ou rincão do Rio Grande do Sul.
         Venham, vale a pena!
Botero o merece.
Mais: merece-o a Humanidade que existe em Botero!
         Entrem no Centro Cultural da CEEE.
Apanhem o elevador, subam até ao quarto piso. De lá desçam devagarinho aos demais pisos, atè ao primeiro.
Em tudo há obras de Botero: seis aquarelas, 36 desenhos, 25 pinturas a óleo.
         Além de Botero, vocês vão esbarrar, através de suas pinturas, com reminiscências medievais, com sugestões de Andréa Mantegna,  com o Apocalipse de Dürer.
Vocês vão esbarrar – principalmente - com Goya, um gênio no apogeu, e com Picasso, por vezes também gênio.
Embriaguem-se, primeiramente, com o lado epidérmico de Botero. Depois, bebam alegramente de suas cores. Finalmente, esqueçam tais bebedeiras, e comecem a fixar-se nos refinamentos de seu desenho, nos seus sombreados à Renascença, nas suas volumetrias corporais soberbas.
Quando tiverem saboreado todas essas iguarias, dêem-se ao luxo do postre – isto é, da sobremesa, da apreciação estética no seu mais alto grau.
 Parem, olhem, ouçam os gritos, os gemidos, os berros, os palavrões, de uma sociedade massacrada, de uma sociedade bagualizada, de uma sociedade reduzida à infra-animalidade do narcotráfico, do ódio, do para-militarismo, da canalhice laboratorial do ser humano, que já não guarda quase nada da imagem e semelhança de seu Criador.
         Botero não apóia nunca o Inferno!
Nunca lhe dá colher–de-chá, nem sequer um punhado de alpiste.
Botero rejeita o Inferno.
         Como?
         Jogando-lhe areia nos olhos!
Como por encanto, nos excrementos de tais situações, eis que aparece uma mãe, um rosto dolorido de mãe, uma criancinha flagrada no ápice de sua ternura!
         Quem é capaz disso é artista. Um grande artista!
         Porto-alegrenses e gaúchos, não percam esse “material de triste leitura”, como está escrito no folheto da mostra, distribuído aos visitantes.
Um lembrete: também vós, amigos políticos, governador, deputados, vereadores, assessores, esqueçam durante alguns minutos suas agendas!
Vão até ao Centro Cultural da  CEEE, de preferência desacompanhados 
Levem apenas as esposas e filhos.
Concentrem-se. Re-humanizem-se! Até mesmo, reanimalizem-se:
fiquem alguns minutos diante de Botero!

Duzentos e Cinqüenta Milhões de Dólares por um Cézanne?

I.       Vamos à notícia.
         Os jornais de todo o mundo divulgaram a aquisição, por parte da Família Real do Quatar, de uma tela do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906): Os Jogadores de Cartas, destinada a figurar como uma espécie de vedete no Museu Nacional de Doha.
         Cézanne pintou cinco telas com essa temática. As telas similares estão expostas no Museu d’Orsay ,em Paris; no Museu Metropolitano de Nova Iorque; no Courtauld Institute de Londres; e na Barnes Foundation, de Filadélfia.
         A tela (pintada em 1893), adquirida pelo Quatar, pertencia a um armador grego, George Embiricos, que só se dispôs a vendê-la pouco antes de morrer. A pintura mostra dois camponeses da Provença jogando cartas.
         Comecemos por afirmar o óbvio: tudo que Cézanne pintou é bom. A maioria de suas telas são ótimas. Um número considerável delas pertencem, simplesmente, à categoria de obras-primas da pintura de todos os tempos.
Roberto Longhi, talvez o maior historiador italiano da Arte, definiu Cézanne com simplicidade e precisão: “ele  foi o maior artista da Idade Moderna”.
Explicou:
- O seu testamento pictórico era: “tratar a natureza por meio do cilindro, da esfera, do cone, tudo colocado em perspectiva, de modo que cada objeto ao lado de outro  objeto, num plano, se dirija para um ponto central. Esse testamento poderia ser o de Piero della Francesca ou de Antonello da Messina
(Breve mas Verídica História da Pintura Italiana. São Paulo, Cosac Naify, 2005. p.118).

II.     A rigor, não há o que objetar à Família Real do Quatar: eles escolheram um grande, um excepcional artista do Ocidente, que alguns denominam “O Pai da Pintura Contemporânea”.
Como o presente texto, porém, é de um blog, e nos blogs os autores não estão obrigados a ocultar as próprias opiniões, atrevo-me a dizer que não incluiria a tela em pauta entre as melhores de Cézanne.
Se me fosse dado escolher- tendo tanto dinheiro à mão - escolheria uma das vistas do Monte Sainte-Victoire, ou uma das Naturezas-Mortas do Mestre, digamos: um daqueles óleos com maçãs, nos quais o volume, “em oposição absoluta, não somente aos impressionistas, que o dissolvem, mas em oposição a toda a pintura até ao Fauvismo, que se prendia às superfícies coloridas”, é tratado pelo pintor com uma originalidade inigualável
- Cézanne obtém o arredondado de uma maçã, não por meio de uma modulação contínua de luz e sombra, mas sem transição, por intermédio de contrastes de superfícies, claras e escuras, formando arestas, o que dá às suas formas plásticas algo de francamente estereométrico. (George Schmidt. Pequena História da Pintura Moderna. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1969. p. 85).
Cézanne é, além disso, um insigne colorista, não à maneira dos coloristas antigos.  Para Cézanne, “ o objeto não impõe sua cor; ao contrário, a cor lhe é imposta, segundo suas necessidades melódicas”.
Nesse domínio Cézanne é pós-impressionista – pois em toda a sua pintura só emprega a cor pura. (Ib. p. 87.).
Noutras palavras, em vez da cor local dos antigos, ele usa a cor produzida, a cor inventada, resultante de pinceladas estruturais e rítmicas, que conferem ao seu cromatismo um colorido vibrante.
Tudo é forma, proporção, tensão, equilíbrio nesse artista,  e é por isso que ele dizia, com aparente vaidade:
- Quero assombrar Paris com uma maçã!
(M. Doran: Sobre Cézanne.Conversaciones y Testimonios. Versión castellana de Josep Elias. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1980. p.23).
Demos razão à Família Real do Quatar: o tema não significa muito para Cézanne.
O que significa para ele é o que ele é capaz de fazer com o tema. Quer se trate de dois camponeses jogando cartas, quer de um fruteiro com maçãs, o que importa é a pintura.
Em termos de pintura, Cézanne é um gênio. Um Novo Giotto. Um desses criadores que não só se afirmam, pessoalmente acima dos outros, mas que abrem caminhos novos para os vindouros.

III.    Recorramos, agora, a uma ficção muito batida.
Tornemos Cézanne presente em 2012.
         Perguntemos-lhe o que ele acha da transação comercial da Família Real do Quatar.
Provavelmente, o famoso “urso” fará uma careta. como só os franceses sabem fazer, e dirá:
         - Isso nada tem a ver nada com o que pintei. É coisa de americano ou japonês. Ou antes: é negócio de árabe!
         Se insistíssemos com ele, o pintor perderia a paciência, e soltaria um palavrão, contanto, naturalmente, que não estivesse na presença de sua governanta, Madame Brémond, que ele respeitava, chamando-a sempre, mesmo na intimidade, de Madame Brémond.
         Talvez, depois de pigarrear, dissesse:
         - O gênio é o poder de renovar a própria emoção no seu contato cotidiano. Isso de comprar arte tem sua importância para o artista, visto que nenhum artista vive de ar. Mas, afora isso, é uma atividade como qualquer outra, como comprar batatas, por exemplo. Nada tem a ver com a Arte, ainda mais se a questão é prover um Museu de quadros.
         De repente, num acesso de  bom humor, coisa um tanto rara nele, ajuntaria:
         - Disseram-me que, agora, querem fazer dos Museus obras de arte. Fazem-nos bizarros. A arte é algo mais sincero, mais humano. O artista não modula suas emoções como um pássaro modula seus gorjeios. O artista compõe. Será que a humanidade entende isso em 2012?
         É possível que algum dos circunstantes o interpelasse:
        
         - Sr. Cézanne, o problema é que a arte se socializou. O turismo universalizou-a. As pessoas querem ver aquilo que é badalado no mundo inteiro...
        
- Badalado? O que é isso? A importância da arte não se descobre na universalidade de seus resultados imediatos.
         - Então, Mestre Cézanne, onde se descobre a arte?
         - A arte é uma religião. A sua meta está na elevação do pensamento. Estará alguém neste momento interessado nisso? Disseram-me que as pessoas só estão interessadas na elevação da Taxa de Câmbio, nos Capitais Voláteis...
         Após um minuto de silêncio, o pintor poderia acrescentar, sempre de mau humor:
         - Respeito a Família Real do Quatar. Acho até que eles, por distração, pensaram em mim! Desconfio que pensaram muito mais no Quatar, no Museu deles, na atração que isso pode ocasionar. O mundo virou um monstruário de quinquilharias. Agradeço à Família Real a publicidade que me deram, embora isso não me interesse. Estou persuadido de que a busca de novidades e a sofreguidão em ser original, é uma necessidade falsa, que mal consegue dissimular a trivialidade e a falta de criatividade.
         - Mestre Cézanne, poderia explicar porque escolheu dois camponeses jogando cartas como assunto de sua tela? Soubemos que o Sr. pintou outras quatro telas sobre esse mesmo tema.
         - Meu filho, os camponeses pouco têm a ver com minha tela. Já afirmei que pintar não significa copiar um objeto, mas captar uma harmonia entre abundantes relações, transferi-las a uma gama de cores, conferir-lhes uma lógica nova e original. Não sei se vocês já se deram conta: os camponeses não são capazes de ver uma paisagem. Não a vêem porque a vida é dura demais para eles. Não sobram olhos para isso... Nós mesmos já não vemos a Natureza, vemos quadros. Nossa visão está cansada e enganada pela recordação de tantas imagens, de tantos quadros em museus, megaexposições... Eu procuro ver a obra de Deus!
         - Nesse caso, Sr. Cézanne, deveríamos deixar de ir ao Louvre?
         - O Louvre é um bom livro de consulta. Não deve ser considerado mais do que um intermediário...
         - Sr. Cézanne, disseram-nos que o Sr. é católico. Por que o Sr. nunca pintou um Cristo?
         -  Porque muitos já o pintaram... É difícil sugerir o que está por detrás da natureza humana de Cristo. Não me atrevo a isso!

IV.    A mini-entrevista terminou.
         Para conhecimento dos admiradores de Cézanne, transcrevo o anúncio fúnebre que Le Journal publicou sobre seu falecimento:
        
- Roga-se a assistência aos funerais de Paul Cézanne. Faleceu em Aix, Provença, depois de receber os sacramentos de nossa Mãe Igreja, no dia 23 de outubro de 1905, aos 68 anos.
        
Concluo este breve exercício de ficção, agradecendo a Michael Doran a possibilidade que me deu de inserir nele fragmentos das Conversações e Testemunhos sobre o grande pintor, extraídos do importante dossier que ele editou, citado anteriormente por nós.

O Que eu Sugeriria aos Jornais – se Eles me Perguntassem o que Poderia Torná-los mais Interessantes!

I.     Desde criança habituei-me a ler jornais.
Meu pai tinha o hábito de lê-los.
Isto é: lia os jornais a vôo de pássaro, antecipando-se aos métodos da leitura dinâmica.
Fiquei, mais tarde, fanático por jornais, sobretudo a partir do dia em que consegui inserir neles colaborações minhas. Lá dizia um velho sacristão da Catedral de Santa Maria: “A vaidade é o princípio do abismo.”
Colaborei no Diário do Povo, de Santa Maria,dirigido pelo meu estimado franco-atirador, Clarimundo Flores. Clarimundo não poupava ninguém.
 Era um Mini-Flagelo de Deus.
Tal iniciação jornalística foi, para mim, uma glória.     
Lembro-me bem de como ele me recebeu na sua sala de redação. Reconheço que o modesto espaço de Clarimundo não merecia nome tão pomposo.
Por minha vez, eu era um adolescente que ia oferecer-lhe textos, mas - para todos os efeitos (eu disse: todos!) – já exigia, no íntimo de mim, ser considerado escritor...
Pobre do escritor!
Descobriria -na dita e maldita idade provecta em que estou, que um escritor está sempre aprendendo, e nunca teria imaginado que a conquista de um estilo fosse tarefa para uma vida, que não acaba sequer com o penúltimo suspiro...
        Colaborei, também, no jornal, rival do Diário do Povo, A Razão, pertencente à cadeia dos Diários Associados, que o pároco da Igreja das Dores, fundador do Patronato Antônio Alves Ramos, co-fundador do Hospital Astrojildo de Azevedo, e patrocinador de mil e umas entidades beneficientes, costumava qualificar de Diabos Associados...
Sou, pois, não só um gourmet de jornais, mas um gourmand.
        Assisti, mais tarde, à ascensão e queda de órgãos jornalísticos que eu amava. Como entender, por exemplo, a implosão do Correio do Povo, em cujas páginas eu ia à cata, ansiosamente, aos domingos, do Caderno H de Mario Quintana?
Nas suas páginas lia, também, Moysés Vellinho, Guilhermino César, Theodemiro Tostes, Vianna Moog, Erico Veríssimo, Manuelito de Ornellas, Olyntho Sanmartin, Carlos Reverbel, e principalmente Augusto Meyer, cujo estilo me fascinava. Meyer sempré fez jus ao título que lhe deram: O Erasmo dos Pampas!
        A queda do Correio teve um efeito péssimo em mim: induziu-me à incredulidade jornalística.
Induziu-me a algo pior: ao agnosticismo.
        Não desprezo jornais, como a Zero Hora que resistiu a todas as procelas da democracia e da anti-democracia. Nesse jornal aprendi a conhecer autores de igual importância dos luminares do Correio.
Anos depois, tive um namoro platônico com o Diário do Sul, no qual vi o Tabajara Ruas escrever um editorial que, no dia seguinte li em letra de forma, redigido no meio do batuqueio dactilográfico mais alucinante deste planeta!
 Que editorial!
O Tabajara só podia dar no que deu: num dos maiores romancistas do Rio grande do Sul, principalmente por sua obra-prima (na última versão que lhe deu:): O Amor de Pedro por João.
        Talvez deva referir-me aos belos tempos em que me tornei leitor diário do Jornal do Brasil, da Folha de São Paulo, e de O Globo.
Alguns dos jornais menores, que também apreciava, estão enterrados.
Outros, poucos, continuam vivos, mas neles não se encontra mais Drummond, nem Clarice Lispector, nem outros nomes que, na época, suscitavam minha admiração, como o Gustavo Corção, que escrevia com um sabor machadiano mesclado a outros sabores menores, o qual deixou escrito num de seus ensaios: “as admirações estão cansadas”.     
        Chegou, todavia, um momento em que os jornais mudaram...
Isto é: mudei eu - querido Bruxo do Cosme Velho?
        Atualmente leio poucos jornais, e leio pouco.
 Leio-os com inapetência, unicamente para tirar a febre da loucura do mundo. Às vezes, tenho a satisfação de encontrar, no meio dessa loucura, algumas pepitas de ouro,sobretudo fiapos da ternura dos trogloditas, nossos irmãos do passado longínquo. Por vezes, me lembro dos recém-inaugurados homens-sapíens que, numa caverna do atual Irã, a de Shanidar, na Montanha Zagros, enterraram um homem, dispondo junto dele ramalhetes de mil-folhas, cardos-de-são-barnabé, jacintos, rabos-de-cavalo-de pau e um tipo de malva. Os especialistas descobriram tal manifestação de ternura graças aos grãos de pólen que sobreviveram durante cerca de 60 mil anos...
Sinceramente, já não experimento os brividi de outrora!
Por que?
Porque os jornais atuais tornaram-se clones uns dos outros.
Publicam matérias que já vêm etiquetadas pelo mesmo fornecedor.
 Seria Murdoch, o australiano, que não tem uma cara de troglodita? A cara de Murdoch, isto é, sua máscara, está muito bem adatada aos seus propósitos de empresário dos escândalos mundiais, os quais, no seu caso, substituem as indulgências do tempo de Lutero, que davam tanto lucro aos eclesiásticos renascentistas.  
Em tempos remotos, cada jornal fazia questão de ter as próprias impressões digitais.
Vejam o que acontece agora, quando uma notícia exótica, catastrófica, ou apocalíptica, cai do céu no doce aconchego de uma redação de jornais.
Pensemos no naufrágio do Concordia Costa.
 Esse monstruoso acidente demonstra, ad nauseam, o que estamos querendo evidenciar.
Antes de mais nada, os jornais teriam de explicar como um navio desse porte, dotado de todos os recursos tecnológicos, pôde naufragar.
 Em segundo lugar: qual a verdadeira causa de seu semi-afundamento?
Talvez uma cortesia cafona dos tripulantes a uma Ilha, de nome castíssimo, Il Giglio, que azedou antes de ser servida? 
A impressão que os leitores têm é que estão sendo vítimas de desinformação.
Alguns de meus amigos dizem-me em tom fr confidência:
        - Cherchez la femme...
        Outros, argutíssimos, observam-me, com desdenhosa piedade, acrescentando:
        - Cherchez les femmes!
        Com atraso, descubro que se referem a uma tripulação italiana, em cujo seio imperava o obsoleto mito do Latin Lover.
        Não me impressiono com a perspicácia de meus amigos. Penso no saldo de vítimas fatais de tal naufrágio cômico.
Pobres turistas que desejavam alijar de si o stress de poluídas e estridentes cidades, em busca de Paraísos Artificiais!
Entre esses ingênuos turistas foram, até, identificados membros do clero católico.
O pároco, do Concórdia Costa, avisara, em tempo, seus paroquianos  de que estaria ausente durante uma quinzena de dias, para poder visitar seus familiares. O sacerdote não mentiu: viajou no navio na companhia de familiares.
        É penoso constatar que todos os jornais do mundo se aferram - como cachorros esqueléticos - a um único osso de restaurante falido – ao tal de Óbvio Ululante que Nelson Rodrigues inventou.
Mas quem explica por que continuamos a ser bombardeados, durante um mês por fotos quase iguais do  navio adernado?
        No entanto, pior que tudo isso é constatar, fora de qualquer naufrágio, que alguns jornais não são mais jornais:, mas um conjunto de crônicas empilhadas.
Tais jornalistas deveriam assumir sua condição de escritores.
 Muitos jornalistas são escritores de verdade. Escrevem com clareza, concisão, elegância, e têm o que dizer. Mereceriam fazer companhia a Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras.
Um deles: Flávio Tavares.
Tavares não só escreve crônicas semanais informativas, ou sobre nossa história recente (ou sobre temas políticos e culturais), como nos empurra para regiões desconhecidas da reflexão.
 Esses jornalistas nos obrigam a abandonar a mesmice política, a adentrar-nos no “pensamento negativo” do esquecido Herbert Marcuse, e sua Ideologia da Sociedade Industrial.
Livros como: “O Dia em que Getúlio Matou Salvador Alliende” ou “Memórias do Esquecimento” deveriam ser lidos pelos jovens das gerações atuais. Esses jovens saberiam, de verdade, o que conduziu o país à Ditadura, e o quanto a Ditadura violou os Direitos Humanos.
        
II.     É hora, pois, de expormos as sugestões que daríamos - sempre com humildade (como dizem os suados vencedores de uma partida de futebol, à saída dos estádios) a quem lhes pede entrevistas...- aos jornais que resolvessem pedi-las a não-profissionais da imprensa.

Ei-las:

1.   Deve haver mais seleção nas notícias.
No Brasil persiste uma insistência, até certo ponto simpática, em publicar fotos de ancas femininas. É possível que tais ancas, bem como as nádegas que as acompanham  (Desmond Morris, no seu notável estudo A Mulher Nua enumera 11 sinônimos destoutra glamurizada parte do corpo feminino, objeto no passado “de piadas sujas”) - ficariam melhor em outros espaços do jornal. Para o zoólogo inglês, “as nádegas são um atributo exclusivamente humano”, adquirido pelos animais racionais quando “deram um passo gigantesco e se puseram de pé sobre as pernas traseiras”. Não se deve, pois, comparar as nádegas humanas às dos macacos, mesmo às dos macacos mais desenvolvidos.
Já que essa parte do corpo feminino é tão nobre, por que não por poupar ao público um excedente de quadris e nádegas?
Fique claro que consideramos maravilhosas todas as partes corporais humanas. Se Frederico Fellini, num momento de paroxismo verbal, chegou a afirmar: “a mulher bunduda é um épico molecular de feminilidade”, Desmond Morris, que incluiu no seu livro tal frase, pôs-lhe no dorso o seguinte comentário: “a frase parece ter perdido algo na tradução”!
Aos jornalistas, uma sugestão: substituir, tal tsunami de fotos por informações precisas sobre os órgãos citados. É só ler os capítulos 16 e 21 de A Mulher Nua, cujo subtítulo é: “Um Estudo do Corpo Feminino”.
Em síntese: Desmond Morris ensina a converter a grosseria machista por algo que pode fazer crer que  o animal racional possui, por vezes, delicadeza, finesse, civilidade.
Visto que estou nesse item, refiro-lhes que fiquei decepcionado com um deslize do ensaísta católico, Paul Johnson, que divulgou uma observação grosseira de Saint-Beuve, retomada por Flaubert, no seu livro Os Criadores (Rio de Janeiro, Elsevier, 2006):
- Muitos retratos mostram que ela (George Sand) era feiosa, como Madame de Staël, com um rosto comprido e lúgubre. Sua aparência não era masculinizada, como equivocadamente se possa supor, mas grosseira. Saint-Beuve testemunhou: “Era dona de uma alma fantástica e de um traseiro enorme.(...) Quando ela perguntou a Flaubert, que era um normando rude, mas bastante sincero: “Meu traseiro fica bem com essa roupa?”,o romancista respondeu: “Madame, seu traseiro fica grande com qualquer roupa”. (Ibid. p. 121).
Se Madame Sand possuía “uma alma fantástica”, que importavam suas nádegas grandes? Avaliar as pessoas por semelhantes fitas-métricas mentais, é torná-las competidoras de fêmeas nos Parques de Exposição de Esteio.

2.     Menos notícias sobre atletas, principalmente sobre jogadores com nomes de bichos!
 Tais jogadores são dotados do domo de fascinar filhas de primeiros-ministros estrangeiros. A expressão: “alguém terá de pagar o pato” merece ser banida das manchetes.

3.  Os jornais precisariam fornecer aos leitores detalhes mais extensos em seus boletins metereológicos.
Quem não adora boletins metereológicos? São os mais belos textos de ficção da literatura nacional. Os boletins metereológicos apresentam outra vantagem: atiçam nossa esperança em chuvas para as estiagens. Nos dias monótonos do ramerrão, em que as falcatruas e as desengonçadas declarações de amor à atual Presidente não conseguem distrair-nos, tais boletins são terapêuticos. Convidam-nos aos devaneios de Gaston Bachelard.

4.   Seria oportuno conceder maior espaço às informações sobre temas religiosos.
Reserve-se menos espaço às críticas ao Papa Bento XVI, e a outros Dignatários Eclesiásticos, Rabinos, Ímãs, e Mães-de-Santo. Tais líderes não têm culpa de sermos o que somos. Não têm culpa de existirem em nossa sociedade pulhas. Seria preciso, en plus, que os jornalistas tivessem bagagem filosófica e teológica. Criticar o Papa sem conhecer a História e sem ter noções de Teologia é pobreza de espírito. O Papa merece ser criticado quando suas preocupações não coincidem com as do Evangelho. Assuntos, por exemplo, relativos ao Vaticano, podem ser passados a pente-fino. Mas, quando for o caso, busquem-se fontes de informação sérias. Indico uma: a de Thomas J. Reese, O Vaticano por Dentro ( Trad. de Magda Lopes. Bauru, EDUSC, 1999).
Seria, também, ótimo se os jornalistas arranjassem tempo para ler os dois últimos volumes, que Bento XVI publicou sobre Jesus de Nazaré. Ficariam assombrados com a cultura teológica do Pontífice.


5.   Os jornais poderiam fornecer mais esclarecimentos sobre descobertas científicas.
Contratem-se especialistas na área, capazes de explicar as descobertas recentes, que precisam ser ilustradas com gráficos adequados, borrifados com alguns salpicos de humor.

6.   Mantenham-se, como estão, sem modificações, as Colunas de Humor.
Ofereçam aos humoristas – um dos mais brilhantes, já se sabe que é o Luís Fernando Veríssimo - semestres sabáticos, com a possibilidade de realizarem viagens pelo mundo.
O humor, embora em toda a parte, seja crítica impiedosa com xilocaína, precisa reciclar-se. Seria sensacional se os jornais brasileiros nos proporcionassem fatias generosas de irrisão à Voltaire sobre François de Hollande, o sofisticado político e ator da Comédie Française, entendendo-se esta como um ludismo de boas intenções, que esconde más intenções.
Tais complementos, adicionados aos cardápios nacionais, poderiam “alavancar” as tiragens dos jornais.
Outro assunto humorístico: a gravidade cardinalícia do atual Presidente Sarkozy,que também dá a curiosa impressão de ser uma raposa  pós-graduada de La Fontaine. Jogue-se um pouco de sal sobre Le Pen e sua filha. O conservadorismo, mesmo sendo francês, é indigesto.
        Material para o riso nacional poderiam ser, também, nos dias de inverno, as tiradas tétricas do líder da Liga Norte, Sr. Bossi. Na falta dessas tiradas, algumas ênfases bolivarianas poderiam ser aproveitadas como hors-d’oeuvre.
É claro que existem outras jazidas do humor nacional e mundial. O caso do russo Putin é um tanto complicado: pressupõe bibliografia especializada. 

7.  Não havendo matéria jornalística nacional,
Apele-se a matérias do Mercosul.
Até recentemente, os ditadores latino-americanos forneciam arrobas de humor aos jornalistas. Agora, alguns com câncer, outros com prazo-de-validade para seus governos, convém não exagerar. A safra de humor nacional é suficiente para abrir nossa boca de orelha a orelha, como um pára-quedas que se desdobra num céu de brigadeiro.        

8.   Sugestão importante: não se deveriam multiplicar entrevistas com ícones da mídia.
A razão é uma só: são especializados nos lugares-comuns.

9. Recomendação, igualmente capital: copidesque-se sempre o que as Misses Brasileiras digam, principalmente quando tentam dizer aos jornalistas que estão no ápice da fama, isto é, no ápice da nudez.

10. Entrevistas com jogadores de seleção?  Raras.
 Havendo carência de matéria esportiva, os jornalistas do setor devem dirigir-se aos técnicos de futebol. Não tentem obter deles minúcias técnicas, nem horóscopos. Perguntem-lhes como assam seus espetos nos fins-de-semana. Aos bandeirinhas, como preparam suas caipirinhas. Aos gandulas, o tipo de sorvete que suas namoradas apreciam.

11. Criticar o Governador do Estado, o Prefeito da Capital, e outras figuras do cenário político local deve ser desafio reservado aos jornalistas totalmente lúcidos e atilados.
 Os governantes só devem ser alvo de críticas quando as balas não passarem por cima de suas cabeças, mas os atingirem no coração.
No coração?
Sim, porque é do coração que nascem as invejas, as cotoveladas, os Mensalões.

12. Consagre-se mais espaço aos Empresários.
 Estes precisam ser instados a expor suas idéias – em relação à Administração. Um Jorge Gerdau deveria ser entrevistado todos os dias.

13. Quanto às páginas policiais: proíba-se aos criminosos, comuns e incomuns, aos delegados de polícia, e aos juízes, dar entrevistas.

14.  Os jornais precisam conceder dar mais espaço aos professores.
O piso salarial, no Rio Grande do Sul, ainda não foi atingido.

15.  Homens - como o Dr. José Camargo, que escrevem para o Caderno Vida, de Zero Hora – mereceriam chamadas obrigatórias de primeira página.


III.   Leon Bloy disse, certa vez, que um cristão do nosso tempo deveria ler os Jornais e a Bíblia.
                Tenho uma sugestão amistosa aos amigos jornalistas:
                - Leiam primeiramente a Bíblia; depois os jornais.