quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Que Mal Há em ser Bonita?

(Digressões estético-humorísticas em homenagem à minha neta Ingrid).

I.
     Comecemos por tranqüilizar as leitoras: não há mal nenhum!
A favor das bonitas, e até das feias (segundo a conceituação de Vinícius de Morais), cito uma frase de um Santo – cujo nome esqueci de anotar –o qual teve a lucidez de afirmar
- Não se deve ter vergonha de apreciar o que Deus não teve vergonha de criar.
       Beleza é um conceito, que foi elaborado um tanto à maneira de Descartes, de tal modo que por vezes, seus patrocinadores se esquecem que sua base é sensorial.
A partir de determinada época, surgiu no Ocidente uma corrente de pensamento que se fixou no aspecto desinteressado da Beleza.
Para não confundir as coisas, façamos, desde já, uma distinção entre beleza natural, e beleza artificial.
       Je m’explique” – costumava dizer o P.Teilhard de Chardin! Eu também me explico:
- Beleza natural é a ratificação do real pela sensibilidade.
A concisa definição do filósofo René Le Senne me parece correta.
 A sensibilidade estética, isto é, a faculdade de apreciação, está necessariamente vinculada aos cinco sentidos. É ela que ratifica a impressão que a realidade imprime nos sentidos humanos.
Pensemos numa rosa, numa orquídea!
A impressão volumétrica, cromática, e aromática, que recebemos dessas flores, é processada pelas faculdades sensoriais. Trata-se, no caso, de uma apreensão deleitosa. Por isso a denominamos “bela impressão”. Se não o fosse, seria uma apreensão desagradável, como no-la dão corpos deformados, ou monstruosos, e até mesmo animais que facilmente associamos à sua ferocidade, venenosidade, ou asquerosidade (serpentes, sapos, feras, etc).
Beleza natural, em linguagem comum, é uma impressão agradável dos sentidos, apreensão que se acompanha de uma percepção.
A percepção – genericamente falando –consiste num conhecimento sensível, no qual se combinam  a apreensão sensorial, e os dados que lhe adicionam a memória e a imaginação de cada indivíduo.
Alguém vê, no jardim, uma rosa vermelha, e esta lhe parece um lábio de mulher.
A evocação dos lábios femininos é acrescentada à impressão visual, à aspiração do odor, à experiência táctil de quem, eventualmente, acaricia as pétalas de uma rosa, para sentir-lhes a maciez.
O indivíduo pode, também, ter a impressão de que elas possuem uma maciez úmida!
É um dado, que provém da lembrança da água, do frescor da madrugada, ou da própria pele de uma mulher, acariciada, em outro lugar e em outro tempo, que se acrescenta ao feixe de impressões sensoriais.
A percepção da beleza natural, portanto, é a sensação adicionada aos souvenirs do indivíduo, que se confronta com um objeto concreto. A distinção de nossas velhas gramáticas entre “substantivo concreto e substantivo abstrato” se encaixa dentro dessa experiência cotidiana.
Por que, então, se inventou a expressão “distância psíquica”, a qual constitui o suporte dodesinteresse estético?
Por uma razão: o prazer é uma noção que não pode espremer-se como se espreme um limão!
Existem muitos prazeres, uns interessados, outros mais ou menos desinteressados.
O prazer de comer é um prazer interessado (em certos gourmands chega a ser interessadíssimo!),. vinculado a uma necessidade do organismo: o de sua sobrevivência. Quem não come, acaba morrendo.
Ocorre que esse prazer, o da nutrição, possui um aspecto desinteressado, que o sujeito que se alimenta poderá desfrutar conjuntamente com outros prazeres que não são interessados, isto é, que são imensamente menos interessados que o prazer de alimentação.
Digamos que o indivíduo foi convidado a um banquete. Chegando ao local do festim, aproxima-se da mesa das iguarias, e (caso não estiver faminto “à beira de um ataque de nervos”), poderá apreciar, também, a disposição dos manjares, o colorido dos pratos, seus arranjos ornamentais, a graça da louça, a elegância do design dos talheres, as flores dispostas no centro das mesas.
Em resumo: o indivíduo prova uma sensação mista, de interesses e desinteresses.
É lógico que, se os pratos já estiverem servidos, o indivíduo poderá sentir-lhes a atração culinária. Mas é, também, possível que esse indivíduo coma seu assado, e beba extasiado seu vinho, experimentando as duas sensações ao mesmo tempo: uma interessada, outra (ou outras) desinteressadas.
Qual a razão disso?
O indivíduo não é só um sujeito que come e bebe; é, também, um indivíduo que aprecia volumes e cores, que possui sensibilidade às formas, à múltipla aparência das coisas.

II.
Voltemos à beleza das mulheres.
       É mais complicada do que a beleza das coisas .
Ninguém vai para a cama com uma orquídea, nem se entrega às carícias de um Vaso do Período Song da China.
Vai-se para a cama com um corpo ,que possui uma alma.
Se alguém não admitir essa alma (suposta, segundo a fé cristã, imaterial, embora esteja ao corpo substancialmente), pode imaginá-la-como lhe parecer melhor. Como uma psique, por exemplo.
Ocorre que, nos homens, bem como nos animais, o instinto sexual existe,  levando à necessidade de uma parceira, que possa contribuir à perpetuação da espécie,  proporcionando, ao mesmo tempo, um prazer intensíssimo e específico.
Impossível separar uma coisa da outra, em termos estritamente biológicos. O estudo da anatomia sexual demonstra que as duas dimensões da sexualidade se complementam, a dimensão genital e a dimensão erótica (esta, compreendida no seu significado amplo de fruição pa dois, não só como conseqüência de uma união destinada procriação, mas também em termos de um encontro entre corpos que se dão bem, e que se dispõem a provocar, um no outro, sentimentos e emoções voluptuosos).
Num livro recente (2005) o conhecido zoólogo Desmond Morris registrou|:
- O corpo masculino contém em média 28 quilos de músculos, enquanto o feminino tem 15 quilos. O corpo do homem é 30% mais forte, 10% mais pesado e 7% mais alto do que o da mulher. Devido à sua importância para a reprodução, o corpo feminino tinha que ser mais protegido da fome. Por isso, o corpo arredondado da mulher contém em média 25% de gordura, enquanto o masculino tem apenas 12,5%.
(A Mulher Nua. Um Estudo do Corpo Feminino.Tradução de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005. p.12-13)..
O instinto sexual, contudo, tem exigências tão imperiosas como o instinto de sobrevivência.
A linguagem popular unificou as exigências dos dois instintos, o da sobrevivência e o instinto sexual no verbo “comer”, considerado vulgar  quando aplicado ao sexo, mas que revela a contigüidade de ambos.
São dois instintos básicos.
Em alguns casos o instinto sexual sobrepõe-se ao instinto de sobrevivência, e a outros instintos menos sôfregos.
A razão disso está no fato de que, nesse caso, a memória e a imaginação intervêm, intensificando o instinto, conferindo-lhe alta-voltagem. É por causa da memória e da imaginação excitadas, que não existe cio humano.
O cio existe nos animais, isto é, nos animais onde a satisfação do sexo é imediata, não existindo nenhuma imediação psíquica.
O instinto sexual, em tais animais, desengatilha-se, e dispara. Pronto.
No homem, o tempo intervém.
Daí os preparativos eróticos do ato final, que alguns chegam a equiparar ao orgasmo em si. Por isso, em todas as estações, a qualquer dia e a qualquer hora, é tempo de fazer amor.
Pode ocorrer, porém, que o amor ...tenha que ser exercido a contratempo, devido as pressões inesperadas da memória e da imaginação.
Estamos, mais uma vez, distanciados do primeiro objetivo deste texto: a questão: a beleza física da mulher.
Beleza física é conceito difícil de ser encerrado numa noção. Podemos, porém, esquematizar um pouco as coisas.
I) A mulher é bonita quando seu corpo provoca, à primeira vista, o sex-appeal.
II) A mulher é linda, quando o sex-appeal funciona, porém não despoticamente mas despertando, ao mesmo tempo, círculos de atenção a qualidades adicionais femininas: voz, jeito de falar, de olhar, etc.
III) A mulher é bela quando, ao sex-appeal e à percepção de outras qualidades suas,  se junta uma percepção mais consciente e lúcida de sua personalidade intelectual e emotiva.
Dizemos, então, que a mulher é bela. Significa que essa mulher combina em si o sex-appeal, a graça da presença, e aquele plus que nos convence de que essa mulher (fêmea e pessoa) tem: uma capacidade de o que pensa, de dizer o que diz, e de amar o que amar.

III.
     Oh...se o mundo em que vivemos não tivesse passado por nenhum trauma em sua evolução, dos assim ditos preâmbulos até nós! Seis ou sete milhões de anos.
Um porção considerável da humanidade afirma que ela criada num estado diferente daquele em que existe hoje. Num estado de integridade e santidade (conforme o explica o grande teólogo alemão, Mathias Joseph Scheeben. (Cf. sua obra monumental: “Les Mystères du Christianisme”. 2 ed. Traduction de A. Kerkvoorde. Bruges, Desclée de Brouwer, 1947. p. 249 ss.).
Os agnósticos e ateus, porém, dizem que se trata de um mito. Sustentam que não houve nenhum Pecado Original, e que as inclinações naturais ao sexo são aquilo que são, isto é, movimentos biológicosd mais ou menos compulsivos.
Porém,a maior objeção existencial a eles é que,na presença do sexo oposto, o homem e a mulher nunca se sentem seguros de si.
Diante de uma mulher que lhe apetece, o homem (por mais Dom Juan que seja) vacila. A mulher, por mais Messalina que seja, também vacila.
Aquilo que os cristãos chamam de concupiscência carnal  existe, sem dúvida, quer a denominemos atração sexual natural, quer a distingamos de outras atrações fatais.
Na proximidade do sexo, o homem experimenta algo que nenhum animal experimenta: a sensação de estar perante um enigma, ou um mistério. Ou seja: tem a impressão de que o sexo funciona invariavelmente, mas que a alma, que “está” nalgum “lugar” desse corpo, se interpõe nas suas relações sexuais, produzindo tensões.
Não invadirei, todavia, o campo dos sexólogos.
A eles coube, e caberá, explicar esse “enigma” ou “mistério”.
Ficarei no campo da estética.
Até hoje, não consigo entender como o desinteresse possa funcionar diante de uma mulher.
Pode estar aí, sem dúvida, à maneira de um cão com focinheira (ou sem ela), bem adestrado para não morder. Mas da mesma forma que o cão – se for um cão bravo! – conserva seu instinto, também o homem , diante da mulher, “tirada de sua costela” (como diz poeticamente a Bíblia) tende a reclamá-la.
Como então apreciar uma mulher sem um mínimo dessa reclamação clandestina
Não creio que exista o esteta puro diante de uma mulher.
O esteta puro pode pintar uma maçã, esculpir um touro, fazer um filme sobre os golfinhos. Nesse tipo de apreciação quae não interferem pulsões eróticas.
Quando, porém, se trata do mundo feminino, não há como evitar a dimensão erótica, mesmo em baixíssima voltagem).

IV.
Admito uma exceção: a devoção à Virgem Maria.
Tal dimensão pode estar completamente ausente nessa devoção, quer nos artistas que compõem as suas imagens, quer nos que as veneram.
Posto seja uma pessoa concreta, a Virgem só é acessível pela Fé. Nenhum de seus devotos a viu, nem esteve alguma vez na sua presença. A Virgem Maria (e as Santas em geral) poderão, portanto, ser cultuadas sem que nesse culto se infiltrem, necessariamente, imaginações eróticas.
Em se tratando de indivíduos mórbidos, é possível que tais pulsões eróticas ingovernáveis os possam perturbar.
       Perguntará alguém:
       - O Sr. acredita que não existe beleza desinteressada,em relação às mulheres?
Como esteta e como cristão, sustento que tal apreciação estética só pode coexistir com um mínimo de  repressão sexual voluntária.
       Freud sustentava que não poderia haver civilização civilizada sem esse mínimo, ou melhor, sem um mínimo de sublimação.
       Penso que também não existe apreciação estética da beleza feminina sem essa intervenção do consciente humano.
Dizer, portanto que uma mulher é bonita é dizer que toda mulher provoca um mínimo de sex-appeal.
Dizer que ela é linda, é dizer que ela, além do sex-appeal, as mulheres  possuem outras qualidades de educação, polidez e elegância, etc.
Dizer que uma mulher é bela, é confessar que ela – além das qualidades mencionadas – possui outra, difícil de definir, que tem a ver com sua personalidade, isto é, com as impressões digitais de seus neurônios.
       Se,do ponto de vista puramente estético, não consegui explicar-me melhor, que os leitores me perdoem.
       Como cristão, afirmo que é possível admirar  uma mulher sem cobiçá-la, que é possível apreciar-lhe a beleza física, bem como a beleza emotiva e mental de seu temperamento e carácter, mas que tal atitude só é possível quando se tem um substrato psicológico  bem estruturado, e quando se crê, do ponto de vista religioso, que todas as mulheres são criaturas de Deus, irmãs na Fé, e que seus corpos não estão destinados a se converterem em pó, mas  a um estado novo de existência, onde o sexo existirá, não simplesmente desativado, ou sucateado, mas transfigurado por uma integração completa entre espírito e matéria, de modo que o sexo , se funcionasse em tal estado, seria um êxtase, no qual o orgasmo corporal teria o mesmo brilho que uma lâmpada incandescente frente à luminosidade imperial do sol.
       São Paulo deixou-nos algumas reflexões inspiradas sobre esse corpo espiritualizado, na sua “Primeira Carta aos Coríntios”, capítulo 15:
       - O último inimigo a ser vencido é a morte. A Escritura diz: “Deus determinou que tudo estivesse debaixo do seu domínio”(...).Enterra-se um corpo sem beleza, e ressuscita um corpo cheio de esplendor; enterra-se um corpo fraco, e ressuscita um corpo forte. Enterra-se um simples corpo humano, e aparece depois um corpo cheio de vida nova, dada pelo Espírito.
       É tudo o que consigo pensar, como poeta e cristão, sobre esse tema.
A despeito de tais limitações, torno a perguntar...e, aqui, remeto tal pergunta ao mestre de todos os poetas, Dante Alighieri:
- Que mal há em ser bonita?

Um comentário:

  1. Lindo texto e belíssimo substrato psicológico muito bem estruturado, possivelmente tendo como aporte principal a sensibilidade. Obrigada por partilhar tão tocante pensamento.

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