quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Século dos Intelectuais: Que Pensar a respeito Deles?


I. Três Livros.
         Foram publicados, nas últimas décadas, três livros sobre os intelectuais (franceses):
1.o primeiro de Michel Winock: O Século dos Intelectuais. (Tradução portuguesa de Maria da Luz Bandeira, Manuela Torres, José Manuel Lopes, Maria Filomena Duarte. Lisboa, Terramar, 2000);
2. o segundo de Herbert Lottman: La Rive Gauche. La elite intelectual e política em Francia entre 1935 e 1950. (Trad. española de José Martínezx Guerricabeitia. Barcelona, Tusquets Editores, 1994);
3. o terceiro de Pierre Assouline: Gaston Gallimard. Médio Siglo de Edición Francesa. (Trad. de Anna Montero Bosch. Valencia, Edición Alfons El Magnànim. 1987).
São obras volumosas: a primeira, 751 páginas; a segunda, 463; a terceira, 445. Ao todo: 1.659 páginas.
Imagino que os leitores deste blog não tenham, decididamente, coragem para morrerem, essoufflés, nas 200 primeiras páginas!

II. O Caso Dreyfus.

         O mais valioso, amplo e analítico, dos livros citados é o de Michel Winock.
É uma obra que nos ensina a não confiar demais nos intelectuais. E também, curiosamente, a não confiar de menos neles.
Em nossa opinião, Winock instala os intelectuais no lugar que lhes compete, onde eles próprios, em geral, não se instalam.
         Comentaremos, pois,, o livro de  Winock, adicionando-lhe precisões e subsídios extraídos dos dois outros autores.
         Michel Winock é professor de História Contemporânea no Instituto de Ciências Políticas em Paris, e membro da Comissão de Redação das revistas Histoire e Vingtième Siècle.
Comecemos por destacar uma qualidade de Winock: ele escreve bem. Talvez me explique melhor dizendo: ele escreve para o leitor de hoje.
Dou um exemplo de seu estilo, que sem dúvida, poderá convidar o leitor a fazer uma leitura prazerosa de seu aparentemente prolixo depoimento.
Referindo-se a uma livraria inaugurada em Paris, em 1898, Winock diz:
-A gestão tinha sido confiada a Bernard Lavaud, barbudo de monóculo, totalmente incompetente, perdido no meio dos livros como um pepino numa salada de frutas.
Não é cativante essa maneira de descrever um desajeitado gestor francês?
O autor , de resto,exibe uma erudição literária, política, religiosa, etc., absolutamente notáveis.
Winock não se deixa arrastar por nenhum tufão ideológico. Sua maneira de expor é clara, compreensiva, respeitosa. Não se inflama com a retórica de opiniões subliminais, nem foge à lucidez de análises implacáveis, quando a distância dos fatos lho permite.
Principia esboçando um painel histórico da França política, filosófica, e literária do século XX. Devido à sua ambição de visão panorâmica, viu-se constrangido a perseguir, no século XIX, as raízes de certas qualidades e vícios do século XX.

II. Maurice Barrès e o Caso Dreyfus.

O autor começa por explicar quem foi Maurice Barres (1862-1923), escritor que se tornou conhecido, inicialmente, por uma obra: Sob os olhos dos Bárbaros, lançada em 1888, “verdadeiro templo consagrado ao culto do eu” - segundo o historiador Philippe Van Tieghem. Com outras obras, como O Jardim de Berenice (1891), o Romance da Energia Nacional (composto de três volumes, entre os quais Os Desarraigados e O Apelo do Soldado), passou a exercer uma influência incalculável no grande público.
Winock cita-o largamente, e diverte-nos com páginas como a da lição de Taine noromance “Le Roman de l’Energie Nationale”, que dá o tom do autor.
O personagem  Roemerspacher vai visitar Taine. O filósofo e crítico arrasta seu jovem admirador ao Jardin des Invalides. Conduz o discípulo a um plátano, e dá-lhe uma lição que o jovem não esquecerá mais:
- Cada um esforça-se por desempenhar o seu simples papel, e mexe-se como se mexe cada folha do plátano; mas seria agradável e nobre, duma nobreza e dum prazer divinos, que as folhas compreendessem sua dependência do plátano e como o seu destino favorece e limita, produz e engloba os seus destinos particulares”. (Ib. p. 12).
A influência de Barrès foi, sem dúvida, política. Mas a influência moral foi maior. Nenhum de seus livros “tem unidade”. São como fragmentos justapostos, que evocam páginas de Pascal e Chateaubriand.
Segundo Van Tieghem, Barrès é um autor que só pode ser apreciado quando lido numa seleção de textos . A tensão contínua de sua escrita fatiga o leitor.
Além de escritor, Barrès notabilizou-se por ter assumido o papel de ferrenho inimigo do capitão judeu-francês Alfred Dreyfus (1859-1935).
Winock narra, com abundância de pormenores ,esse sórdido affaire, de cujo sortilégio a França, ainda hoje, parece sofrer as conseqüências.
A intervenção do romancista Émile Zola, na defesa do oficial judeu, expôs às claras o antisemitismo da sociedade de então, influenciada, em parte, pelo clero (um dos maiores inimigos de Dreyfus foi o jornal católico La Croix, dirigido pelos Padres Assuncionistas).
O escândalos Dreyfus produziu uma cisão espiritual na França. Uma idéia de tal estado de espírito pode ser entrevista  neste trecho de uma carta que Lucien Herr enviou a Maurice Barrès, publicada na Revue Blanche de 15 de fevereiro de 1898:
- Não conte mais com a adesão de corações que lhe têm sido indulgentes nas suas menos toleráveis fantasias.
Herr, bibliotecário da Escola Normal, que muitos afirmam ter sido “o modelo secreto para Jean Jaurès”, ajunta:
- O homem que, em si, odeia os judeus, e odeia os homens de além-Vosges, esteja certo de que é o selvagem do século XII e o bárbaro do século XVII.
(Winock. Ob. cit. p. 14).
         O Caso Dreyfus há de ser sempre lembrado como
uma das páginas mais vergonhosas da cultura francesa, nação que pode ser invejada em termos de lucidez e sensibilidade aos Direitos Humanos.
Registremos que a narração de Winock nunca se torna ampulosa.
No âmago da narração, o autor intercala frases que nos ajudam a compreender o clima da época Mencionemos uma delas, a do político Georges Clemenceau (1841-1929), perfeitamente aplicável aos homens públicos de hoje:
- A maior doença da alma é o frio.
-(Ibid. p. 22).
Já que estamos falando sobre intelectuais, não fica fora de contexto transcrever uma definição proposta, em 1898, pelo diretor da  Revue des Deux Mondes, Ferdinand Brunetière:
         - (...) esta palavra” intelectuais” foi criada para designar, como uma espécie de casta nobiliária, as pessoas que vivem nos laboratórios e nas bibliotecas;, este fato denuncia um dos obstáculos mais ridículos de nossa época, a pretensão de elevar os escritores, os sábios, os professores, os filólogos, à classe de super-homens. As aptidões intelectuais, que certamente não desprezo, têm apenas valor relativo. Para mim, na ordem social, aprecio muito mais a moderação da vontade, a força de carácter, a segurança de julgamento, a experiência prática. Deste modo, não hesito em colocar um agricultor ou um negociante, que conheço, muito acima de tal erudito ou de tal biólogo, ou de tal matemático que não me agrada nomear.
         (Ib. p. 24).
         Não vale a pena esmiuçar detalhes das agressões ignominiosas que Zola sofreu, devido à sua tomada de posição em favor da inocência de Dreyfus, com seu libelo: “Eu acuso”.
O escritor acabou condenado a um ano de prisão, e ao pagamento de 1000 francos de multa. Tendo recorrido da sentença, obteve uma decisão favorável. Mesmo assim, Clemenceau aconselhou-o a exilar-se imediatamente, antes que um novo processo viesse incriminá-lo.
Jules Renard, ardente defensor de Zola, registrou em seu Diário:
         - Declaro que a palavra Justiça é a mais bela na língua dos homens; só nos resta chorar se os homens já não a compreendem.
         (Cit. Ib. p. 32).
Winock traz à baila determinados elementos que nos permitem entender a História e as Estórias que envolveram o Capitão Dreyfus até sua condenação definitiva por traição à Pátria.
Sabe-se que o verdadeiro responsável pela traição foi um galante playboy da época, o Conde Walsin Esterhazy.

 III. O Capítulo da Action Française e seus Desdobramentos.
        
Outra página melancólica, que pesa sobre a consciência francesa, concerne aos episódios do movimento católico ultra-direitista, que se celebrizou com tal denominação, singularizando-se pelo combate a três  supostos inimigos da Religião: o espírito franco-maçônico; o espírito protestante; e o espírito judeu. (Ibid. p. 77).
Winock tem um grande mérito: faz justiça a uma figura excêntrica, inclassificável, porém indiscutivelmente profética e contestadora, da época: Charles Péguy. (Ibid. p. 81 ss.;p. 108 ss.). Winock consagra, também, muitas páginas a outra figura da ultra-direita católica, o admirado do Ditador português Salazar - mas não de Hitler - o guardião vigilante do regime de Pétain, Charles Maurras, que foi  aprisionado no fim da II Grande Guerra. Safou-se por milagre de morrer justiçado. Uma de suas célebres afirmações ainda soa exótica: “De Gaule é um traidor que comanda a escumalha do mundo”. (Cit. Ib. p. 372).
São interessantes, do ponto de vista histórico, as observações de Winock sobre  o surgimento da Nouvelle Revue Français em 1908, capitaneada por André Gide.
Winock reporta-se, ainda, às influências que, a partir de 1922, o Fascismo Italiano inoculou “nas veias abertas da França”. Aborda o prestígio de Gide após a Grande Guerra. Não sem alguma malícia, revela o grande engano do autor de Os Frutos da Terra, futuro Nobel, em relação a Marcel Proust. Gide não conseguiu perceber o talento de Proust, e deu um parecer desfavorável ao seu romance Du Coté de Chez Swan, primeiro volume de À la Recherche du Temps Perdu.(Ib. p. 125).
Sobre isso, de resto, quem nos informa melhor é Pierre Assouline que reproduz o Mea Culpa de Gide, em carta a Proust:
- A recusa de seu livro permanecerá como o mais grave erro cometido pela Nouvelle Revue Française e (embora me envergonhe de ser um dos responsáveis por isso) um dos pesares e remorsos mais agudos de minha vida
(Gaston Gallimard.Medio Siglo de Edición Francesa. p. 61).
Winock dedica algumas páginas à revelação que Gide fez ao grande público de sua opção homossexual, quando da publicação de seu livro Corydon.
Soam-nos, hoje, anacrônicas e disparatadas, as lições de moral que o poeta católico convertido, PaulClaudel, resolveu dar ao romancista numa carta que lhe remeteu de Hamburg, onde era cônsul:
- Deveremos acreditar – coisa que nunca aceitei – que você é um dos que praticam esses deploráveis costumes? Responda-me. Deve-me isso.”
(Ibid. p. 162).
Gide respondeu a Claudel com dignidade:
- É agora ao amigo que falo, como falaria a um padre, cujo dever seria o de manter o segredo perante Deus. Nunca senti desejo perante as mulheres; e o meu maior desgosto é que o amor mais constante, mais duradouro, mais intenso, não tenha podido fazer-se acompanhar (em mim) daquilo que geralmente o precede. Pelo contrário, parece que o amor impede em mim o desejo.(...) Não escolhi ser assim. Posso lutar contra os meus desejos; posso refreá-los, mas não posso escolher o objeto de meus desejos nem inventar outros por encomenda.
(Ibid. p. 162).
Winock dedica diversas páginas informativas, de grande finura, ao aparecimento da Revolução Surrealista de André Breton nos Anos Vinte, à condenação pontifícia, em 1916, da Action Française, à estréia de Georges Bernanos em 1926, com seu romance : Sob o Sol de Satã”,e também à Traição dos Intelectuais, de Julien Benda , que, propôs nova definição de intelectual:
-É um homem de letras, um artista, um cientista, que não traça como objetivo imediato um resultado prático. Cultivando a Arte e o Pensamento puro, a sua felicidade reside num prazer, antes de mais, espiritual, dizendo de certo modo:  “O meu reino não é deste mundo”. Coloca a razão acima das paixões que agitam a multidão: família, raça, pátria, classe. O intelectual é o campeão do eterno, da verdade universal
(Ibid. p. 202)..
Segundo Benda, havia, então, uma tendência da inteligência a perder de vista os valores desinteressados, para mergulhar em querelas insignificantes.
         Vale a pena ler, com atençãoredobrada, o que Winock escreve sobre outro affaire famoso, o de Louis Ferdinand Céline (seu verdadeiro sobrenome era Destouches). A respeito disso, sugiro que se leia, também, o que Pierre Assouline escreveu em sua biografia de Gaston Gallimard. (p.187-190).
         Céline tem sido, possivelmente, sobrevalorizado devido ao seu estilo. O autor, sem dúvida, possui um talento ficcional inovador. Ainda recentemente, Bernard Pivot, na sua Bibliothèque Idéale inseriu a seguinte nota sobre Viagem ao Fim da Noite:
         - Um estilo, uma música, um sopro ofegante, uma nova sintaxe. Ninguém ainda recuperou-se de sua primeira frase: “Ça a debuté comme ça”.
         (Paris, Albin Michel, 1988. p.102).
         Winock, também, aprecia o estilo de Céline:
         - Revolucionando a linguagem escrita, abalando todos os conformismos, Céline, num texto alucinante, rangente, rabelaisiano, fazia o seu herói Bardamu passar por todas as baixezas da sociedade moderna, a guerra, a África colonialista, a fábrica americana, os subúrbios sórdidos de Paris. A crítica de esquerda, quase unânime, vê nele uma violenta denúncia do mundo capitalista, sem pressentir – exceptuando Paul Nizan – a visão desesperada e fatalista do autor, que pode conduzi-lo às mais opostas opções políticas. Em todo o caso, com Céline não restam dúvidas: está-se com os pés na lama, no pus, no sangue”.(Ibid. p. 322).
         Não podemos esquecer que um escritor é, antes de tudo um homem. Esse homem, embora seja genial, tem responsabilidades, não só em relação à sua língua e à tradição cultural de seu país, mas também em relação aos Direitos Humanos da Humanidade. O escritor-médico, que participou da propaganda hitlerista, cujo órgão Service Mondial, contribuiu largamente para sua fama, conseguiu, após a libertação de Paris, não ser fuzilado porque se refugiou na Embaixada Alemã e, logo a seguir, na companhia do Marechal Pétain e outros colaboracionistas, em Sigmaringen, no sudoeste da Alemanha.
         (Cf. Herbert Lotmann: La Rive Gauche. La Elite Intelectual y Política em Francia entre 1935 e 1950.Barcelona, Tusquets Editores, 1994. p. 1221-122; p. 257-258;p.269-271;p.326-327; 338-339.)
         Em Céline temos o pior exemplo de um grande escritor que é, ao mesmo tempo, um fascista asqueroso, um antisemita primário, que pôde escrever a seguinte infâmia:
         - Os judeus estão aqui para nossa desgraça...São mil vezes mais funestos que todos os alemães do mundo”.
         (Cit. por Herbert Lotmann. Ibid. p. 122).

IV. Balanço Geral.

O livro de Winock, na sua Segunda Parte, aborda as vicissitudes da Segunda Guerra, a tragédia da França submetida à bota dos nazistas, o período do Governo de Vichy, com o velho herói, Marechal Felippe Pétain, reduzido a títere de Hitler, a página negra dos intelectuais colaboracionistas, especialmente visível na atuação de Drieu

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