quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Felizmente Adotei um Cachorro: o Puff.

(Observações inoportunas, humorísticas, e teológicas sobre os Animais).

I.
         Nunca teria imaginado tornar-me, um dia, não digo dono de um cachorro yorkshire, mas amigo dele.
Isso ocorreu, e tive o prazer de vivenciar tal experiência na companhia de minha neta e de minha mulher.
         Conto a vocês como se deu tão incrível acontecimento!
         Na minha infância, por volta dos seis ou sete anos, apaixonei-me por um gato. Chamava-se Mimi.
Adorei esse felino! Brincava com ele, gostava de acariciar-lhe o pêlo, tão macio que parecia uma pétala de jasmim com borrifos de orvalho.
Um dia, esse novo amigo – de cujo temperamento não fazia a menor idéia – deu de fazer escapadas diurnas e noturnas, ao estilo dos solteirões empedernidos.
         Numa manhã primaveril, vieram dizer-me que o gato estava morto.
Morto?
Sim, um carro – provavelmente um caminhão- o apanhara na rua, em frente à nossa casa.
         Chorei meu pobre gato!
Chorei-o autenticamente! Havia sal nas minhas lágrimas! Hoje, aos setenta e oito anos, ainda recordo esse bicho com comovida ternura.
         Depois do gato – bem mais tarde – simpatizei com um vira-lata.
Todos sabem que os vira-lata são os cachorros mais despretensiosos do Planeta.  A fama, de que desfrutam, está quase sempre envolvida pelas brumas da calúnia. Seria melhor dizer que os vira-latas são cachorros que não têm apreço pela suas certidões de nascimento. Nunca se interessaram por elas, e consideram esse tipo de documento uma frivolidade, que mais serve para garantir aos humanos suas pseudo-prosápias, do que certifica-los de seus nascimentos com sangue azul.  
- A terra é azul- – teria gaguejado um astronauta, a alguns quilômetros da terra.  
Sim...o mundo é azul, logo quem nasce nele tem sangue azul.
Que isso baste para conferir pedigree aos tristes animais racionais, que a longo prazo decepcionam mais do que os irracionais.
Formulemos uma pergunta:
- Entre um Hitler e um cachorro, quem não escolheria o cachorro?
Apesar dos pesares, desaprovo tal escolha.
Semelhante atitude não é permitida a um cristão.
De fé aceita e confessada, sei que os corpos humanos dependem do DNA de pais e avós.
Suas almas, não. As almas, infundida por Deus em cada criança, são de natureza espiritual, isto é, não são materiais.
Que a alma de um homem seja superior à de qualquer alma de bicho,  nós o sabemos pela Fé, que é um dom de Deus, e só em segundo lugar, por um ato de livre adesão da criatura humana.
Eis por que Hitler  não pode ser situado abaixo de um verme , ele que chamou de “vermes” a todos os judeus, tomando de empréstimo tal vocábulo ao lingüista berlinense, Paul  Bötticher Lagarde (1827-1891), um dos autores  favoritos do Führer.  
                  Perguntará um leitor apressado:
- Que foi feito de Hitler?
                  Respondo, enigmaticamente, com outra pergunta|:
- Que foi feito de Judas?
                  Qual dos dois exemplares humanos merece maior restrição de nossa parte?
                  Judas traiu Jesus, que era judeu como sua Mãe, como o eram seus Doze Apóstolos ; o outro traiu um povo, uma  comunidade inteira.
A originalidade de Hitler ,entre outras horripilantes originalidades, consistiu em inventar os Campos de Extermínio, entre os quais o de Auschwitz, onde a morte por gás era um processo tão rápido, que Raul Hilberg o descreve assim
- Os crematórios imitavam instalações de banho. Um carro da Cruz Vermelha aproximava-se de tais instalações com o Zyklon B (o gás empregado), e um SS, usando máscara, levantava as janelas de vidro da câmara, esvaziando nela um recipiente atrás do outro. Quando as primeiras cápsulas se abriam no chão, a lei da selva passava a imperar. Para escapar do gás, que subia imediatamente, os mais fortes derrubavam os mais fracos e pisavam nas vítimas prostradas, para prolongar a vida, alcançando as camadas de ar puro. A agonia durava dois minutos. A gritaria terminava com os moribundos caindo no chão. Em quatro minutos (no máximo), todo mundo estava morto dentro da câmara de gás.
(Citado por George Clare: Última Valsa em Viena. São Paulo, Círculo do Livro, 1990. p. 274).

 Façamos, agora, as contas, de acordo com os critérios de avaliação de Jesus de Nazaré:

- O que fizerdes ao menor dos homens, o fazeis a mim!    
        
Penso que é melhor não prolongarmos nossas especulações!
         Por semelhante razão, sou dos poucos que, perante um filme como A Queda, se declaram frustrados.
É um filme ambíguo, que se apresenta com o veneno escondido nos dentes reluzentes da cobra.
 Por um lado, o filme parece condenar o servilismo dos generais e corifeus nazistas, ao exibir aspectos de uma ideologia racial, desumana e repulsiva como o Apartheid.
Por outro lado, sorrimos diante das gentilezas desengonçadas, e pseudo-cavallheirescas, de Hitler , na presença de suas ingênuas secretárias bávaras, dentro da intimidade do Bunker berlinense.
 Algo asqueroso.
         Talvez os defensores do filme digam:
         - Hitler não deixava de ser humano...
         Quem o negará?
A esses apreciadores do filme levanto uma objeção:
         - Excetuados farrapos de intimidade, nos quais o Ditador mostra-se, sem dúvida, “humano”, quem não sabe – por outras vias – que ele foi um monstro?
         Deixemos esse monstro entregue à sua placidez berlinense, uma vez que está morto.
Talvez Deus o possa salvar!
Um indivíduo, que teve a infâmia de ordenar a Solução Final dos Judeus,  remetendo aos fornos crematórios de Dachau e Auschwitz, cinco ou seis milhões deles, milhares de católicos (alguns dos quais cheguei a conhecer no Pós-Guerra), e outros indivíduos, como os ciganos e portadores de deficiências congênitas, merecerá “piedade” da humanidade?        
Todo o mundo sabe que filmes são feitos para divertir as massas, às vezes, também, para ensiná-las, castigando erros e desatinos, noutras ocasiões para instruí-las, e para induzir o coração de distraídos  a um melhor estado de respeito e amor aos outros, tornando os homens mais humanos, não lhe permitindo descair abaixo dos irracionais.
         Repito: não apreciei A Queda!
É possível queo dito filme tenha servido de terapêutica, de catarse, principalmente na Alemanha, onde a maioria de seus habitantes se deixou anestesiar por esse espantoso bufão político que não era alemão: era austríaco.
 Terá alguém feito maior mal à Áustria do que Hitler?   
- Se Deus puder salvá-lo, desejo que seja salvo.
Por que?
Porque o coração de um crente deseja que Deus tenha salvo o próprio Judas, a quem o poeta Dante Alighieri colocou na região infernal mais tétrica, na região dos traidores.
O coração de um homem deve sempre torcer a favor de outro homem, mesmo  “contra Deus”, até onde é permitido a uma criatura “torcer” contra Deus,  sem ultrajar sua Santidade, sua Bondade, e sua Incompreensibilidade.
Temos de admitir que o impossível dos homens não é o impossível de Deus homens!
          

II.
         Querido Puff, perdoa-me!
         Saí, inicialmente, atrás de um felino.
Depois, persegui um vira-lata.
Depois, um Mega-Vira-Lata – dotado de rosto humano.
Retorno a ti, mimoso animal!
Deixo claro o quanto, vocês, irracionais, merecem ser estimados pelos racionais!
Vamos ao meu caso particularíssimo: durante alguns anos resisti às pressões suaves – e estridentes - de minha neta:
         - Vovô, me deixa ter um cachorro...
         - Cachorro em apartamento?  O que não trará de incômodos tal bicho?
         Acabei vencido pelo carinho de minha neta.
Um belo dia, Ingrid e sua mãe foram a um canil, e compraram o cachorro.
Encontraram um supérstite de uma ninhada de seis, da qual cinco tinham sido negociados.
Sobraste tu, ó Puff!
Estavas a um canto, semi-esquecido até dos teus atuais proprietários, que tinham outras coisas com que se preocupar.
 Logo que viste minha neta e a mãe dela, foste-lhes ao encontro com tal vontade de ser bem-amado, que as duas te tomaram nas mãos, beijando-te, e rindo de alegria.
Exclamaram, bíblicamente:
         - É este!
         Não descreverei a ambientação do Puff chez nous, as descobertas que comecei a fazer sobre sua incrível dimensão canina, os surpreendentes “gestos” de amizade que ele passou a dar à minha neta, à minha mulher, e – por que não? - a mim.  
Notem a escalação: fiquei em terceiro lugar na afeição desse bicho.
Resignei-me!
Se os homens fossem capazes de amar - como amam os cachorros, contentar-me-ia em ficar em terceiro, em quarto, até em centésimo quinto lugar na escala humana.

III.
        
Sempre que possível, considero os acontecimentos à luz da Fé Cristã.
Somos cristãos para quê?
Para nos gabarmos de uma certidão de nascimento batismal?
         Tive uma decepção.
Os animais não parecem interessar os teólogos e filósofos cristãos.
         Jesus fez referência às aves do céu (que não semeiam nem colhem, nem amontoam grãos nos celeiros . Mt 6,26).
Recorreu a uma jumenta e a um jumentinho, para fazer sua entrada em Jerusalém, no dia de ramos.
         Excetuadas tais cenas, poucas referências existem nos Evangelhos – o qual está longe de ser um tratado de zoologia, e de ser tampouco um libelo em defesa do tratamento benévolo dos animais.
         Estranhei.
Resolvi recorrer aos Dicionários de Teologia.
O primeiro deles, deu-me uma sensação insupotável de penúria!
Refiro-me ao Dicionário Enciclopédico da Bíblia, organizado por A. van den Born, com a colaboração de 46 especialistas católicos holandeses (4 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 1987).
Tal dicionário dedica, até, um verbete à alfarrobeira,  mas não registra o verbete “Animais”.
Ou melhor: o verbete “Animal” remete para o verbete “Fauna”.
         Fui ver o verbete Fauna.
Não há dúvida: os autores do Dicionário esforçaram-se por fornecer informações sobre todos os tipos de animais que aparecem na Bíblia, classificando-os por espécies, animais aquáticos, animais (maiores) com asas, animais terrestres que andam em pé, répteis.
 Do ponto de vista religioso, classificaram-nos em animais puros e impuros.
O dicionário levou seu capricho a divulgar a lista dos mamíferos, insetos, e aves da Bíblia.
         Em seguida, os autores fazem uma referência simpática ao fato de que os animais foram criados no mesmo dia em que os homens (Gen 1,24). Sublinham, devidamente, a servidão dos infelizes em relação aos humanos, notando que Adão e Eva foram encarregados de dar-lhes nomes, o que (na douta opinião desses experts) suporia “um direito absoluto sobre eles” (Ib. p. 563).
         - Absoluto?
 Notem o desrespeito desses doutos...
Acrescentam, complementando as informações, que a Bíblia “não manifesta nenhuma hostilidade para com o mundo dos animais” pelo contrário, afirma repetidas vezes “que Deus cuida deles” (Mt 6,26).
O Dicionário registra que o Deuteronômio (22, 6) E O Evangelho de Mateus (Mt 18,12) os protegem, em termos de legislação. Anota que os animais serviam para os sacrifícios do culto, por exemplo, a ovelha, a cabra, o boi, a rola. Deviam ser sem defeito.
Os autores finalmente aludem aos remédios, que os homens podiam extrair de determinados órgãos animais, por exemplo: da vesícula, do coração, e do rins do peixe.
Informam o leitor que as Escrituras Sagradas proíbem o cruzamento de animais de espécies diferentes. Proíbem, sobretudo, relações sexuais com eles (Ex 22,18).
Concluem suas informações, expondo com detalhes, a simbologia: a cerva e a camurça, devido a algumas características, eram imagens da mulher atraente. Nomes de animais tornaram-se nomes próprios: Raquel (ovelha): Débora (abelha); Zeeb (lobo).
Senti-me razoavelmente consolado com tão copiosas informações.
Esperava mais.
O citado Dicionário nada registra sobre as relações – digamos “existenciais” – entre os animais e os homens.
Será que os animais foram criados por Deus apenas para servirem aos homens?
Não teriam valor intrínseco?
Nenhuma sombra de “mistério” existirá neles?
         Estava nessa perplexidade quando recorri à outra fonte de informações, o Vocabulário de Teologia Bíblica (1117 páginas de texto) que o P. Xavier Leon Dufour, e seus auxiliares Jean Duplacy, Augustin George, Pierre Grelot, Jacques Guillet e Marc François Lacan, editaram.
         (7 edição. Trad. de Frei Simão Voigt O.F.M., Petrópolis, Editora Vozes, 2002).
         OVocabulário encantou-me!
Os animais, segundo essa equipe de biblistas franceses, eram criaturas mais importantes do que eu pensava. Possuiam significado teológico.
É evidente que a Bíblia não podia antecipar-se aos dados científicos!
Cabe aos pesquisadores, principalmente cristãos, investigar as relações que a vida animal mantém com a vida humana;
Se a Evolução Darwiniana oferece probabilidade de ser científica  – retocada em alguns pontos, pode ser aceita pelos cristãos -  importa olhar para os animais com outros olhos, mais respeitosos e carinhosos.
É o que faz o Vocabulário de Teologia Bíblica. 

Sintetizemos suas principais informações:

I.                           O Vocabulário, primeiramente, mostra “o liame entre o animal e o homem”. (Ibid. p. 58). Depois de uma prévia advertência: a da efemeridade tanto do animal irracional como do animal racional, ela destaca a relação fraterna que existe entre ambos os viventes: assim Noé salva das águas do Dilúvio um casal de cada espécie; uma mula clarividente socorre Balaão (Livro dos Números 22,22-35); corvos alimentam Elias (1R 17,6); uma Baleia intervém em favor de Jonas, obrigando-o a cumprir as ordens divinas. (Jn 2).
II.                       Os animais participam da Aliança entre Deus e Noé. (Gn 9,9ss);
III.                    O sábado vale tanto para o boi como para o servo (Ex 23,12; Dt 5,14). Prescreve para com eles uma atitude de humanidade (Ex 23,5;Dt. 22,6; 1 Cor 9,9; 1 Tim 5,18).
IV.                    A bestialidade  (ou seja, o sexo entre homens e animais) é  punido. (Ex 22,18;Dt 27,21; Lv 18,23);
V.                        Sugere-se que a revolta do homem contra o Criador acarretou a revolta dos animais contra o homem. (Rm 8,19-22). Recorda-se que, no universo redimido por Cristo, o que há de animal no homem será inteiramente transfigurado pela Ressurreição. (1 Cor 15,44 ss.). A Criação inteira participará da Ressurreição, graças ao sacrifício de Jesus na Cruz, ele que se dignou chamar-se “O Cordeiro de Deus”
(Cf. Vocabulário de Teologia Bíblica. p. 56-59).
         Podemos ver que a reflexão cristã progrediu, e que a maneira de considerar os animais já não é a mesma do passado.
A Bíblia teria mudado?
Não, o que mudou foram os olhos e o coração dos que a lêem.

IV.

Não me lembro de ter lido, em toda minha vida, um único texto de um teólogo católico dedicado ao sofrimento dos animais.
Ou, mais genericamente: dedicado à significação teológica dos animais (a não ser, os textos  que citamos dos Dicionários Bíblicos).
O primeiro texto com tal conteúdo, encontrei-o em  C.S. Lewis (Clive Staples Lewis), um autor irlandês, famoso por seus trabalhos sobre Literatura Medieval e Renascentista, ex-professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Lewis celebrizou-se mundialmente por duas razões, em especial: por ter sido o melhor amigo de J. R.R.Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis, transformada em filmes que obtiverem clamoroso sucesso; e por ele mesmo ter escrito as Crônicas de Nárnia, traduzidas para o português, e também filmadas.
Lewis, nascido em 1898 e falecido em 1963, é autor de numerosas obras para a infância, e de textos de reflexão teológica, como Os Quatro Amores , O Problema do Sofrimento,  Milagres (Um Estudo Preliminar),Cristianismo Puro e Simples, Surpreendido pela Alegria (Autobiografia de sua Conversão).
O texto de C.S. Lewis, intitulado O Sofrimento dos Animais  revela notável agudeza teológica.
        
Vou resumir o essencial desse texto:
        
I. O autor começa por perguntar-se por que os animais sofrem, visto que são incapazes de pecado ou de virtude. A explicação da dor cristã não pode ser estendida à dor dos animais. Estes não merecem nem podem ser aperfeiçoados pelo sofrimento. Segundo Lewis, tal questão “está fora do alcance de nosso conhecimento”. (Ib. p. 93). Deus nos deu pistas para compreender o nosso sofrimento humano. Não nos deu detalhes sobre os sofrimentos dos animais:
         - Não sabemos por que os animais foram feitos, nem o que são, e tudo que dizemos a respeito dos mesmos é especulativo.
(O Problema do Sofrimento. 2 edição. Trad. de Neyd Siqueira.São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1986. p.93-94).
Prossegue:
- A partir da doutrina de que Deus é bom, podemos com toda confiança deduzir que a aparência de crueldade divina no reino animal é ilusão. O fato de que o único sofrimento que conhecemos (o nosso próprio sofrimento) revelar-se como não sendo crueldade, irá tornar mais fácil acreditar nisso. A partir desse ponto, tudo o mais é adivinhação. (Ibid. p. 94).

II. Mais adiante, formula três perguntas surpreendentes:

1.     O que os animais sofrem?
2.     Qual a origem desses sofrimento?
3.     O sofrimento animal pode ser conciliado com a justiça de Deus?
Observa que fazer uma distinção entre um macaco e uma ostra, entre um tigre e uma minhoca, não resolve a questão. É lógico que os macacos apresentam afinidades neurológicas conosco, mas isso não nos exime de abordar a questão mais ampla: até onde vai a sensibilidade dos animais, mesmo os inferiores?
O autor introduz uma questão delicada: qual a diferença entre sensibilidade e consciência?  Para se ter sensibilidade à dor, é preciso que o indivíduo seja capaz de registrar a sucessão de seus estados psíquicos. Ora, para chegar a tanto, o animal teria que ter por suporte um eu, uma espécie de alma. Teriam os animais uma alma semelhante à alma humana?
Lewis opina que os animais não atingem tal grau de consciência. Eles reagiriam às sensações dolorosas como reagem, por exemplo, as pessoas anestesiadas. Ou seja, podem ter reflexos, mas não consciência da dor.
A questão mais difícil de solucionar, segundo Lewis, é a da conciliação do sofrimento animal com a justiça divina.
Antes de o homem existir, existiram os animais. Ora, reflexiona Lewis, parece que os animais não foram atingidos pelo poder do mal, originado da revolta do homem contra Deus, mas antes dessa revolta, foram atingidos por outra revolta: a dos Anjos, que teriam contaminado a Criação com o seu mal.
Nesse caso, os animais sofreriam as conseqüências da rebelião de criaturas mais categorizadas do que os homens, pertencentes, com o próprio homem, à Criação no seu conjunto. Numa palavra: os animais seriam vítimas indiretas da maldade de seres conscientes, quer se trate de anjos rebeldes, quer que se trate de homens.
Diz Lewis:
- A corrupção satânica dos animais seria análoga, em um sentido, à corrupção do homem.
Lewis quer significar que os homens, também, foram tentados pela Serpente, que representava o Tentador.
(Ibid. p.. 96-97).
Antes de Adão e Eva pecarem, os homens não sofriam, embora tivessem sido criados com possibilidade de sofrer. A invulnerabilidade humana recuou à vulnerabilidade dos animais. Não teria ocorrido outro tanto com os animais? Teriam eles recuado a uma espécie de insensibilidade para-vegetal?
- Você pode dizer que a “força da vida” foi corrompida, enquanto eu afirmo que os seres vivos foram corrompidos por um ente angélico maldoso. (Ibid. p. 98).
Lewis avança mais:
- Não vamos esquecer que Nosso Senhor, certa ocasião, atribuiu a enfermidade humana a Satanás (Lucas 13,16), e não à ira divina.
(Ibid. p. 98).
Concluindo, propõe outra questão:
- A grande dificuldade em supor que a maioria dos animais seja imortal é que a imortalidade quase não tem significado para uma criatura que não seja consciente. Se a vida de uma ostra, ou de um camundongo, for simplesmente uma sucessão de sensações, que sentido teria dizer que a ostra ou o camundongo morreram? Eles não iriam reconhecer-se como ostras e camundongos. Eles só teriam sentido como ressuscitados  se neles houvesse um eu, que fosse recompensado pelos seus sofrimentos. Logo, tais criaturas não têm propriamente “experiências dolorosas”.
Com humor, remata:
- Seria como se eles pudessem compor as letras RDO, porém não as pudessem ler como: DOR!
(Ibid. p. 99).
Que pensar de tudo isso?
Não me atrevo a dizer que as reflexões de Lewis sejam fantasiosas!
Serão verossímeis?
Por mim, acho notável que Lewis se tenha arriscado a formular hipóteses.
Ficar calado não me parece a atitude de um cristão diante dos desafios de sua Fé
É preciso ter coragem de pensar, mesmo que, a partir de certa altura, o pensamento seja obrigado a dobrar as asas, e voltar à sua pista de pouso.

VI.
Às vezes, meu cachorro, que frequentemente dorme no seu dormidor  ao meu lado, enquanto escrevo, ergue-se, e fita-me durante segundos.
Fita-me, como se tivesse consciência disso.
Olho para ele, e me pergunto:
- O que estará pensando esse animalzinho?
Sei que não é ainda pensamento. Será um pré-pensamento?
Então me dou conta de que o amor, que não é propriamente pensamento, veio antes do pensamento.
Agradeço a Deus por ter criado primeiramente o amor, e só em segundo lugar, o pensamento.
Isso me faz amar mais os animais, e ter menos orgulho dos seres humanos, que ousam submeter o amor às suas mentes, ou – se os leitores preferirem – às suas acrobacias neuronais, que mais divertem os pretensiosos, que as criaturas humanas felizes,as quais os observam, sem saber o que pensar.

VII.
     Há qualquer coisa de puro no amor dos animais, que não existe no amor humano ordinário (no duplo significado que este adjetivo possui).
         O amor dos animais será interesseiro?
Não!
É um amor ditado pela necessidade de sobreviver.
Eles não tem culpa de estar em condições de inferioridade em relação à cupidez – e à crueldade – humanas. Se os homens não interferissem, Deus os sustentaria, como declarou sustentar as aves do céu e os lírios do campo.
         Os homens disputam-lhes até migalhas, em vez de lhas dar. Os homens querem tudo para si. São insaciáveis como os investidores de Nova Iorque, Londres e Frankfurt, que manipulam vagalhões de capitais voláteis.
         Quando saciados, os leões e os tigres convivem com as gazelas e as ovelhas.
         Os homens, em relação às próprias mulheres, que dizem amar, são o que Manuel Bandeira disse um dia deles:
 - Uns cavalões!
Os bichos fazem o amor à moda deles, uma moda não-humana.  Nunca fazem amor à moda humana, isto é, à moda animalesca.
          O gatilho dos músculos animais é acionado pelo instinto. Os homens se servem do instinto para deixar de ser humanos.
         Se eu tivesse de votar, contra ou a favor dos animais, contra ou a favor dos homens, levando em conta a situação atual em que vive o gênero humano (depois do Pecado Original, sobretudo, depois dos pecados pessoais) , votaria pela inocência obrigatória dos bichos.
 Como, porém, o Filho de Deus se encarnou entre os homens - e não entre os animais - votarei sempre a favor dos homens, mesmo em se tratando de Hitler, Stalin e outros seres que se esforçaram por fazer emergir o animal subjacente ao EGO deles.
         Admiro os animais, e os amo, porque são animais, e ninguém pode obrigá-los a não ser animais.
     Mesmo no cio, amam como animais.
Os homens, ainda quando apaixonados, estão sempre a um passo da traição.
A bestialidade, ou seja, as relações sexuais com os animais, deve ser considerada a coisa mais injusta e ignominiosa, depois da exploração sexual das crianças.
Existe uma sorte de “afinidade” entre ambas as perversões.
O homossexualismo e outras opções sexuais humanas, são opções pessoais, que é preciso acatar, mesmo se divergimos, por razões religiosas, de tal práxis homoerótica.
 Deixemos em paz, na sua inocência violenta, na sua (por assim dizer) castidade genital nossos bichos. Deixem que eles se entendam com os corpos de outros bichos, teleguiados apenas pelo instinto.
É direito deles.
O instinto nunca é mau.
Mau é o instinto dos homens, quando emprega a inteligência para trapacear.
Trair uma mulher, genéricamente uma pessoa que se ama, é pior de tudo o que os animais poderiam fazer entre si, induzidos pelo instinto.
Nunca atentemos contra sua condição de animais.
Quando os tivermos de sacrificar por causa de um bife acebolado, ou de um churrasco, comamos o bife, saboreemos o churrasco, atentos às condições que Brigitte Bardot (sim, a Brigitte dos velhos tempos, do filme: “Et Dieu crea la femme”) formulou na França:
- Sejam mortos os animais de tal modo que não sofram. Que  sejam anestesiados antes de serem mortos.
Dado que os cachorros, e outros bichos se humanizam na nossa companhia, animalizemo-nos um pouco, para podermos retribuir-lhes um pouco do que nos dão.

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