quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Reflexão para o Dia Primeiro de Janeiro de 2012.


I.
       O dia primeiro de janeiro é quase... um-dia- barranco para os brasileiros!
O calendário europeu desfavorece-nos.
Ao passo que na Europa, o dia primeiro de janeiro é o dia primeiro de um mês, para nós ele é o dia primeiro de um ano. É o dia em que despertamos para o assim dito real, e nos apercebemos de que a roda do tempo girou, infelizmente a nosso desfavor.
Não que os europeus sejam, e estejam, melhores do que nós, ao menos não muito melhores. Eles estão, sem dúvida, melhores, porém, sob certos aspectos, percebem que têm uma Espada-de-Dâmocles sobre a cabeça.
Refiro-me ao critério proposto por Dante Alighieri, no século XIV, expresso em versos famosos na sua Divina Comédia:

-(...) nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miséria; e ciò sa il tuo dottore.

(Inferno, canto V, versículos 121-123).

Uma tradução compreensível dos versos,contudo distante da expressão melancólica que os impregna, seria esta:

- Não existe (falou-me) maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, o teu mentor.
(Tradução de Cristiano Martins. A Divina Comédia.São Paulo, Edição da Universidade de São Paulo,1976.p. 114).

Suponhamos que a Europa realmente estivesse vivendo feliz, nas últimas décadas, e não o soubesse, na hora em que seu nível de vida chegou à estratosfera. Ou seja, nos momentos funebremente áureos, em que as “falsas necessidades”, denunciadas por Karl Max, e antes dele, pelo filósofo grego Epicuro, “seu mentor” ( visto que Marx fez sua tese de doutoramento sobre esse filósofo) passassem a ser “necessárias”, aos europeus e a nós! Poderiam ter sido, mas o foram a expensas de milhões de homens submetidos (Islã significa “submissão”) a condições de vida e de trabalho contrários aos Direitos Humanos fundamentais.
Não nos interessa fazer aqui uma acusação aos europeus!
Em termos de exploração, quem estiver de mãos limpas no Ocidente, atire a primeira pedra. Nem falemos do Oriente! Ali as coisas estiveram até agora piores, e parece que continuarão piores durante algum tempo.
O que está em jogo - tanto no Ocidente como no Oriente - é um sistema de vida e de pensamento.
A maioria dos cristãos, e sem dúvida dos católicos, estão na Europa, e nos Continentes que os europeus descobriram e colonizaram!
Deveríamos, pois, ter a coragem de depor as máscaras, especialmente as que o Cristianismo fingiu não ter.
Deveríamos ter a coragem de uma auto-confissão, em termos de responsabilidade sócio-econômica, capaz de nos impelir a assumir os corolários sociais do Evangelho.
Num passado recente, os bem intencionados partidários da Teologia da Libertação fracassaram (ao menos parcialmente) no seu projeto de chamar a atenção da Comunidade Eclesial Católica européia para isso.
Parece que continuamos a ignorá-los, como se esses teólogos fossem “terroristas do Evangelho”. Só quando estamos insones, lembramo-nos de que existem Continentes, onde se vive com três dólares ao dia.
Paul Krugman, num de seus blogs no jornal O Estado de São Paulo, repeliu as estatísticas econômicas contemporâneas, que para ele são ficções científicas. Ou seja: parece que a situação verdadeira é ainda pior.
Em Quê, pois,e em Quem acreditaremos?
Os cristãos professam seguir seu Mestre, o qual disse: “A ninguém chameis Mestre. Um só é o Vosso Mestre!”.
É lógico, portanto, que nos sintamos aliviados, neste momento, visto que a Teologia da Libertação ficou afônica. Nossa consciência pode relaxar-se, embora alguns teóricos leigos (e agnósticos) como Joseph Stieglitz e Paul Krugman, continuem a alfinetar-nos a consciência com suas denúncias.
Até as ideologias da Esquerda parecem estar definitivamente orgulhosas com os resultados do Agronegócio brasileiro! Esses, e outros sucessos mereceram para o Brasil a honrosa sexta posição mundial no Rankings das nações bem-aventuradas do ponto de vista do Progresso.
Não criticamos os êxitos do Agronegócio, e das exportações brasileiras em especial, e sim a politica nacional que nos impede de dar passos concretos em direção à distribuição da renda.
Quando entro nas igrejas católicas, as igrejas que freqüento como qualquer católico praticante, assalta-me uma onda de tristeza.
O Cristo, sem dúvida, está aí, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.
Como não crer firmemente no pasmoso Sacramento Eucarístico? Eu e meus irmãos cremos,  como São Policarpo cria, como os cristãos da Didaqué criam, como Tomás de Aquino e Martinho Lutero criam, como cientistas como Louis Pasteur (1822-1895) criam.
Se nas igrejas está presente o verdadeiro Corpo de Cristo, onde estará seu Corpo Místico, sobre o qual Santo Agostinho de Hipona se preocupava, pois dizia ele, uma Cabeça (Cristo) sem Corpo (a Igreja) não pode viver!
Nós, cristãos anônimos, somos esse Corpo. O fato é que a visibilidade do Corpo Cristão, em termos sócio-econômicos, é quase nula.
Fica-nos a dúvida:
      
- Até onde podemos ser testemunhas de Cristo sem que as pessoas se apercebam disso? Seremos testemunhas invisíveis, inaudíveis, intangíveis?
      
O dia primeiro do ano de 2012 não é apenas um dia de angústia, no tocante aos nossos orçamentos familiares, e às nossas perspectivas de qualidade de vida. É um dia, paradoxalmente, de otimismo. Mais uma chance nos é dada de retificar a direção de nosso barco.
Isaac Bashevis Singer tinha razão ao escrever:

- Somos otimistas porque esperamos o pior”.
       A Europa, neste instante, dá-nos o exemplo. Ela, também, está esperando o pior. Foi ela quem nos descobriu, colonizou, e cristianizou.
Sejamos-lhe, então, agradecidos.
Mas...temos, também, de cobrar-lhe novo ânimo!Que nos dê o exemplo de um novo caminho. Que nos ofereça o espetáculo de líderes honestos e responsáveis. Que seus líderes bufonescos sejam substituídas por líderes inteligentes.
       É verdade que ainda confiamos na prata da casa. A Presidente Dilma não é nem taumatúrgica,  nem pode ser apelidada de Brastemp! Merece, porém, nosso máximo respeito, e nosso apoio.
       Se tivéssemos lido o historiador Lucien Febvre, em particular seu livro póstumo:Gênese de uma Civilização, a Europa (Trad. de Ilka Stern Cohen. Bauru, EDUSC, 2004), ter-nos- íamos dado conta de que a Europa precisava ser salva há algum tempo:
      
- (...) que não se venha a falar de Europa porque,menos do que nunca, um historiador pode saber o que é a Europa; porque menos do que nunca a noção de Europa é uma noção clara, uma noção simples, uma noção inteligível, porque a Europa não é mais a Europa. Ela é tudo, para parodiar o verso de Corneille, ela é tudo em que se encontra a civilização industrial a que nos levou o desenvolvimento prodigioso, o desenvolvimento ao mesmo tempo desregrado, desmedido, e mesmo assim magnífico, e mesmo assim embriagante por sua própria potência e seu gênio, o desenvolvimento monstruoso de uma indústria, cujos progressos seria estúpido pensar que vão parar, que ela vai interromper, enquanto que a ciência não para, que ela vai limitar suas ambições a nos fabricar panelas, ônibus e couro para nossos sapatos, inocentemente, como uma brava pequena indústria familiar, que soletra gentilmente em seu alfabeto as três palavras PAZ. Não, isso é impossível. É preciso sabê-lo. Não será assim”. (Ob. cit. p. 279).
      
Tais palavras foram ditas no Collège de France em 1944-1945.
Confesso que senti um arrepio ao ler tal texto. Não nos chegou às portas, porém, porém, o Apocalipse! Teremos muitos anos pela frente!
O que é urgente não é nossa mísera cronologia,e nossa arrogância.
O que é urgente, mesmo, é a fé cristã, a fé católica, dos europeus, que deve dar as mãos à ruidosa fé latino-americana, para tentar conferir um rosto à Incivilização, que dá a impressão de estar vindo ao nosso encontro.



O Astrônomo, 1668, óleo sobre tela, 51,5x45,5 cm, Louvre, Paris.

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