sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

NATAL! A festa ressuscita uma pergunta: o que foi, mesmo, que aconteceu em Belém?

I.
         Existirá festa mais alegre do que Natal?
Existirá festa mais triste do que Natal?
        
Já ouvi as duas definições, porém, como cristão, não me é permitido (pela Fé) aceitar que o Natal seja uma festa triste.
         A questão é muito mais complicada do que parece.
         O Natal obriga o ser humano a posicionar-se diante de um dos mistérios humanos, o maior mistério humano, sem a menor dúvida: o do nascimento de uma criatura humana.
         Nascer não constitui decisão de ser humano, seja o recém-nascido um Profeta como Isaías, um Poeta como Dante, um cientista como Einstein, ou um músico como Beethoven.
         Nasce-se!
         O homem aparece.  
Nenhum pai, ou mãe, foi capaz até hoje de antecipar o rosto de seu filho, seu temperamento, seu porvir, sua morte.
Os pais asseguram as condições biológicas para o nascimento do ser humano. Às vezes, asseguram-lhe, também, as condições psicológicas, entre as quais a principal: um autêntico relacionamento amoroso.
É sabido, porém, que um homem, ou uma mulher podem nascer de uma violação sexual,
Bastará a relação sexual para garantir o nascimento de um homem?
É aqui que o Cristianismo – a Revelação de Cristo - intervém, adicionando à luz da razão humana outra luz, infinitamente superior: a Luz da Fé, que nos informa que o nascimento de cada homem exige uma intervenção sigilosa e de natureza superior à Natureza, uma intervenção especial do Criador, que de certo modo torna a soprar nas narinas da carne o hálito de vida, infundindo no embrião, desde o seu primeiro instante, uma alma, um princípio vital imaterial, que se une – indissoluvelmente – ao princípio vital corporal, de contextura material.
Essa Revelação, ou seja, essa Iluminação, não está ao alcance dos neurônios humanos, deixados aos seus recursos.
Graça significa, justamente: dom, dádiva imerecida., regalo de Deus.
Provavelmente, nesta altura, uma pessoa, que não aderiu à Pessoa de Cristo, sorrirá de todos os cristãos, como se lhe estivéssemos contando uma estória da Carochinha, semelhante à de Branca de Neve e seus Anões.
Sim, um cristão deve admitir que sua Fé possui uma dimensão maravilhosa! Diria quase: uma dimensão feérica!
É lógico que ambas as expressões não são corretas, do ponto de vista do Cristianismo.
O nascimento de um homem é, na verdade, um fato fenomênico, uma realidade biológica que, por um desígnio singular do Criador, se transforma numa criação única, entre todas as produções de seres do Universo.
A inclusão de um princípio espiritual na matéria, a criação de uma alma humana, de um princípio de vida imaterial, por ocasião da geração de qualquer ser humano, é revelação divina, que o maior biologista do mundo não poderá verificar.
Foge-lhe aos instrumentos de experimentação.
É algo super-biológico, que se realiza, porém, silenciosamente, dentro do biológico. Dentro do ventre da mais humilde mulher do Planeta, dentro da mais analfabeta mulher do Afeganistão, ou de uma favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.
Chegados a esse ponto, pode (e deve) haver uma explosão de ira, quem sabe até de...cólera nos assim ditos cientistas, embora elas nasçam  todos da mesma maneira como nascem os outros seres com rosto humano.
Nós, cristãos, não queremos encolerizar ninguém.
Se começamos uma reflexão sobre o Natal de Cristo abordando o Natal, isto é, o Mistério do nascimento de qualquer ser humano, é porque afirmamos que a Revelação é incompreensível à luz da razão.
Não há tergiversação possível: ou se crê, ou não se crê na Palavra de Jesus.
Ele pode, ainda hoje, pois está vivo, voltar-se para cada um de nós, e dizer-nos, como disse em Cafarnaum aos discípulos que se recusaram a admitir que Ele pudesse tornar-se alimento espiritual dos homens mediante seu Corpo e seu sangue:

- Quereis também retirar-vos?

II.

         O Natal é uma festa alegre, essencialmente alegre, mas não é uma festa tépida.
 O Natal começa por suscitar a cada homem a imensa pergunta incontornável:

- Por que nasci? Porque estou neste mundo? Qual é o meu destino definitivo?
        
São essas as perguntas que se intrometem entre nossos ovos de chocolate e nossas garrafas de champanhe e de vinho, em nossos porcos e perus assados com frutas  e guloseimas na boca.
         Na boca, sim, porque é para a nossa boca que eles apontam!
Confessaremos, ou não, com nossos lábios, nossa adesão ao Cristo?
        
Jesus foi o primeiro a exigir tal confissão:
        
         - Qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.
         (Mateus 10,32).
        
         O Apóstolo Paulo dirá:

         - Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.
        
(Carta aos Romanos 10, 9).
        
Nos primeiros tempos do Cristianismo o CREDO CRISTÃO resumia-se nisso.


III.

O Natal cristão não existe para nos atemorizar.
Os próprios Anjos, que anunciaram o nascimento de Cristo aos pastores nos arredores de Belém,  disseram-lhes:
        
- Não temais! Eu vos trago boas novas (isto é, eu vos evangelizo: “evangelizar”, em grego, significa anunciar boas notícias:) uma grande alegria, que será para todo o povo. Na cidade de David, nasceu-vos hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá por sinal: achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura.
         (Lucas 2, 10-11).
        
Na semana passado, quando vi duas senhoras, numa dessas lojas onde se vendem presépios populares, escolhendo uma manjedoura com o Menino Jesus, lembrei-me disso.
 Fiquei intimamente emocionado:
         - Como intensificar nossa reflexão cristâ até elevá-la  à altura do Mistério, que se oculta nos ritos tão simples e, atualmente tão mercantilizados como os dos festejos natalícios?
         Na saída da loja, encontrei um Papai-Noel, a quem saudei respeitosa e gentilmente, não por causa de suas vestes de um vermelho estridente, mas por causa da realidade concreta desses pobre homem suado, no interior do qual habita um mistério maior do que todas as descobertas que a Biologia fez até agora, inclusive a do DNA.
         Lembrei-me de uma frase de Lutero, pronunciada por ocasião do Colóquio de Marburg, na Alemanha, quinhentos anos atrás, isto é, no ano de 1529:
        
- Não conheço outro Deus além daquele que se fez carne, nem quero ter outro. E não há outro Deus que nos possa salvar, além do Deus Encarnado. Portanto, não permitiremos que sua humanidade seja subestimada ou omitida.

(Cit. por Hermann Sasse. Isto é o Meu Corpo.(A luta de Lutero em defesa da presença real de Cristo no Sacramento do Altar). 2 ed. Porto Alegre, Concórdia Editora, 2003. p.191).

IV.

         Retomemos o fio da meada, o verdadeiro fio que nos faz sair do Labirinto.
É esse fio – o da Revelação de Cristo – que nos conduz para fora de todos os túneis do Enigma Humano, principalmente do Labirinto, não só dos labirintos de Borges, maravilhosos e ficcionais, mas de todos os labirintos, sobretudo os de nossos respeitáveis e frequentemente altivos Cientistas.
         A Festa do Natal é um momento propício para reencontrar a infância, e esse reencontro lúcido da infância é a única forma de comemorar o Natal fora do consumismo demencial, e da pretensão orgulhosa do  Agnosticismo, e do Ateísmo.
         Só existe um caminho para se entrar na Salvação, o mesmo que Jesus percorreu para vir até nós, porém inversamente:
        
- Ao fazer-se criança, Cristo nos ensinou – e o disse, mais tarde, quando adulto – que só podemos entrar no Reino dos Céus fazendo-nos crianças, não à maneira do que pensava Nicodemos, entrando outra vez no ventre da mãe de cada um de nós, mas crendo e sendo batizados pelo Espírito.

A única lição de Natal possível é a que o próprio Cristo nos deu, duas vezes: a primeira em Belém, na “Casa do Pão”, quando apareceu como uma Criancinha nos braços de Maria; a segunda, quando, tomando uma criancinha nos braços, proclamou:

         - Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.
         (Mateus 18,3).
        
Portanto, alegremo-nos – e muito! – no Natal, celebrêmo-lo com muito chocolate (inclusive o diet!), champanhe, figos secos, damascos, nozes, avelãs, amêndoas, e o que mais houver, mas recordemos que  Natal é algo muitíssimo maior.
Algo para acordar o coração, e fazê-lo esperar o que ninguém lhe prometeu, salvo o indefeso Menino nascido em Belém!

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